Me faça um favor e assista o vídeo antes :
Desculpa, eu nunca gostei muito das análises do Normose. Não é que eu ache ele ruim, ou que eu ache que de alguma forma ele não contribua com o debate público, não sei se exatamente é o tom, a estética dele, a forma que ele gosta de abordar os assuntos.
Para isso eu quero comentar usando um pouco essa ideia de que cada assunto, existem camadas e camadas que você pode destrinchar. Por exemplo, no que tange o petismo, o senso comum é dizer que é um partido de esquerda social-democrata. Sair desse senso comum seria dizer que o petismo na verdade é, de uma maneira geral social-democrata, mas liberal e que mesmo dentro do partido, por conta da sua organização por correntes, existem disputas internas, inclusive com correntes marxistas-leninistas, outras trotskistas, etc. Aqui a gente já estaria saindo do senso comum e fazendo um debate mais qualificado.
Porque estaríamos discutindo a política na prática, suas posições, contradições materiais, etc. Você tem mais material para trabalhar, a discussão se torna mais complexa e possível de traçar práticas de ação. Tipo assim, eu quero levar o debate para a prática : importa saber qual corrente do PT é o governador da Bahia e o ministro da Casa Civil. Já que isso vai ditar basicamente, como se vai lidar com eles politicamente, se vamos nos antagonizar ou não, como vamos pressionar eles, etc. Nesse ponto Normose nunca chega e isso me incomoda bastante.
Nós aqui no blog já discutimos o quanto que essa política neoliberal vai ser um puta tiro no pé, todo o discurso de Jones já mostra que existe essa percepção (ele inclusive fez um vídeo falando isso), eu já falei mil vezes disso comentando o ministério de Silvio Almeida e já está se formando um certo consenso, que isso vai ser um ponto fraco a ser explorado pelos adversários políticos.
Nesse sentido, eu gosto mais de quando Jones discute isso, porque deixa bem mais claro a sua própria posição, ele mesmo como um adversário do petismo na esquerda, ao mesmo tempo que aponta que todo mundo vai fazer isso. E de certa forma é uma coisa que mais prejudica do que ajuda a esquerda, já que no imaginário popular ser de esquerda é ser petista - muito por isso, ao mesmo tempo que Jones se aproveita disso para pressionar o governo e suas bases, ele mesmo quer ganhar um espaço político fazendo esse tipo de crítica, ao mesmo tempo que também aponta que a direita pode usar isso e prejudicar toda a esquerda de uma forma geral. A preocupação do Jones em fazer críticas mais qualificadas, pegando bibliografia, usando mesmo de sua formação em história, resgatando críticas velhas ao petismo, etc, mostra exatamente esse dado da realidade que esse governar neoliberal abre uma brecha enorme para a direita ganhar espaço - Ainda que o projeto dela seja praticamente a mesma coisa.
Por isso é problemático, por exemplo, até agora o governo não ter lidado com os militares que ainda sabotam a ajuda aos ianomâmis - Isso é jogado no colo da esquerda de uma maneira geral, sendo que a crise começou no governo Bolsonaro e acontece justamente porque existem quadros do bolsonarismo na região. Entende que ir mais fundo, sem subestimar a inteligência das pessoas, mostrar as relações que existem, nesse caso, o jogo político que está posto, nos faz entender melhor o que está acontecendo.
O Normose repete muito o vício de alguns jornais liberais que é soltar grandes frases, fazer grandes afirmações, como se elas fossem uma verdade absoluta no momento e não explica muito o processo, não consegue capturar o movimento do real na sua análise. Até porque, enquanto liberal ama ser autor de tudo, de estar sempre certo e ficar na punhetação eterna, o marxista quer discutir, quer errar, quer reavaliar - nós somos cientistas.
Acho que um começo para eu gostar do Normose seria ele parar de ser tão irônico até a metade do caminho. Não sei se eu estou conseguindo explicar bem isso : mas todo vídeo do Normose tem essa vibe de “quem assiste isso é muito inteligente” e é muito bom em convencer o público que sabe o que ele fala. Então muitas vezes algumas piadinhas, alguns jargões, o tom do vídeo, fica muito esteticamente “sabichão” por assim dizer. (A título de nota : Paulo Ghiraldelli sofre muito disso também, mesmo que de verdade tenham coisas que ele de fato saiba).
É um pouco meu problema com outro canal, o Quadro Branco. A forma que a gente escreve e comenta alguns temas, muitas vezes nos coloca numa posição autoritária em relação ao leitor. Por exemplo, tanto o Normose como o Quadro Branco, no meu ponto de vista não abrem muito espaço para quem assiste absorver as informações e tentar pensar sobre.
O autor impõe uma leitura para o leitor, antes mesmo daquela leitura ser absorvida. Eu acho que querer ser sério com algumas pitadas de humor, sem ser na prática muito aprofundado no assunto, faz mais mal do que bem. Tem um vídeo do Quadro Branco que eu não esqueço porque ele me incomodou profundamente, ao ponto de ter feito vários textos sobre na época e ter ficado até constrangida em mandar para ele, ou em publicar no meu velho blog pessoal no medium (sob outro nome)
Então, as pessoas, da bolha da esquerda na internet, já sabem de tudo o que o Normose tá falando, nem é uma questão dele ter demonstrado isso, mas um senso comum, um megafone, mais um texto para gente ficar referenciando sobre um assunto, que na prática só reproduz um senso comum que todo mundo que acompanha minimamente política já está sabendo : teto de gastos e ficar cedendo tudo pro inimigo vai dar ruim, porque já deu ruim, nós vimos isso acontecer literalmente.
No final do dia, são boas thumbnails, são headlines muito interessantes, é muito claro que o Normose um dia quer ser uma produtora de documentários como o Brasil Paralelo, só que de esquerda. Mas veja, o que a direita apela é o senso comum, é exatamente apostando na ignorância das pessoas que fica fácil fazer coisas como “a verdade sobre a ditadura militar”. É fato que na escola, mesmo antes deste ensino médio ruim, nós não estudamos nem o básico da ditadura militar.
As pessoas querem saber das coisas, elas querem estudar, a escola pública não consegue suprir essa necessidade por uma série de razões, o Brasil Paralelo se aproveita exatamente dessa brecha : boom, as pessoas querem saber da ditadura, então eles apelam muito para essa noção de ideia oculta, de conspiração disso, daquilo, de uma metafísica esquecida, de frases bombásticas, etc.
O meu problema com esse vídeo do Normose é que ele reproduz muito essa lógica de forçar uma leitura no leitor sem de fato fazer o leitor chegar lá e até mesmo, pôr as questões em perspectiva para debate. Tanto que ele faz a coisa que eu mais odeio do mundo que é ficar fazendo disclaimer, ficar avisando que não quer conflito, que gosta do PT, etc, etc - Isso para mim é sinal que ele sente que vai ser mal entendido.
Gente do céu, sejamos adultos, se você tem um público que não consegue entender uma crítica sua à um partido que você defende, etc - será que você tá fazendo um bom trabalho de comunicação ?
E assim, isso de querer se comunicar com todo mundo sem exigir minimamente que a gente esteja no mesmo lugar, não rola. Existe uma coisa chamada público-alvo : adianta eu fazer um vídeo sobre o assunto político para internet querendo atingir absolutamente todos os públicos ? Não, porque a minha linguagem vai cair em desentendimento, ela vai ficar rasa, etc. Até por uma questão pedagógica, você não exige menos ou mais, você exige que o aluno consiga fazer uma transição da chamada cultura popular para a cultura erudita - isso é Freire.
Não existe conhecimento inferior ou superior, existe só falta de conhecimento. Nós estudamos para sermos ignorantes melhores, para saber melhor o que a gente não sabe, não para se convencer que sabemos tudo sobre o mundo. O Normose, para mim, reforça muito esse estilo de formação pronta, ao passo que ele não dá muito espaço pro seu leitor, ter uma perspectiva geral mais complexa.
O nosso problema como esquerda radical é que a gente consegue apontar bem as contradições do PT e do chamado “campo democrático”, mas a gente ainda depende deles para fazer tudo. Aquela coisa, foi um escarcéu a UP e o PCB lançarem candidatos à presidência, para no segundo turno ter que votar no PT igual todo mundo. A gente reclama o ano todo da falta de radicalismo do “campo democrático”, mas para fazer uma política pública nossa, a gente depende das máquinas partidárias deles que ocupam o Estado para executar essas políticas públicas….
O problema é que o petismo é um realismo capitalista, é um limite para o que a esquerda faz na democracia burguesa, é o “real”, o fim da história. Se torna impossível construir qualquer coisa além disso, ESSE É O PROBLEMA.