É um jogo de cartas marcadas, impossível de se vencer através dos meios comuns. Quando você olha, um jogo de cartas qualquer, o que faz ele ser um jogo e ter a característica de um jogo, é o seu conjunto de regras.
É precisamente isso que faz o jogo ser um jogo, do contrário, são apenas cartas numa mesa sem significado. Quando alguém trapaceia, enquanto alguém ainda joga normalmente, é como se o trapaceiro tivesse poderes de mudar a própria realidade do jogo.
Isso que a gente precisa entender quando estamos falando de trapaça. O jogo, fazendo uma analogia, é a casinha de bonecas. Ele tem seu limite, seu universo, sua história, justamente porque é parte de um mundo da imaginação.
Trapacear é ferir as regras desse mundo. Não vamos nos estender muito nisso, mas o que é preciso entender, é que o trapaceiro, ao passo que fere as regras do jogo, precisa de alguma forma que o jogo continue.
Então, ele precisa da figura honesta ou pelo menos, que exista um teatro mínimo de honestidade, senão a vitória dele não vai ter valor nenhum. De um lado, existe esse universo que para conseguir jogar, a trapaça se torna necessária para todo mundo, do outro, é preciso ter pelo menos alguém jogando honestamente ou parecendo que joga de forma honesta.
De certa forma, isso se torna um jogo dentro do próprio jogo, com o mesmo nível de regras, limites, proibições, etc. Ou seja, quando vamos falar de política, não basta falar só das leis e das determinações jurídicas, é preciso compreender a natureza econômica, sociológica, histórica, as questões de poder, etc. Isso para mim é discutir de fato política. Por exemplo, o que não falta é deputado federal que muitas vezes não é nem tão conhecido, mas que tem mais poder político de influenciar uma decisão, porque tem terras, empresas, etc. Note que, por exemplo, a demarcação de terras indígenas, faz bem mais do que demarcar as terras indígenas, é também uma forma de solapar o poder político dessas pessoas.
Os portugueses não vieram pro Brasil à passeio, existe o fato de que a terra pode produzir riquezas e através das riquezas, você tem um ganho político, ainda mais num mundo capitalista. Então, não é à toa que existe tanta resistência contra os povos originários, os quilombos, etc.
Veja, existe uma função, principalmente de quem não se beneficia do estado das coisas, em dizer que fulano só rouba, que ciclano tem acordo com X. Qual é essa função ? Deslegitimar o jogo.
Colocar as pessoas numa posição de se recusar em jogar, o que torna a vitória menos legítima. Mas veja, quem estabelece o jogo, continua com o poder, isso não muda esse fato.
O patrão continua com o capital, questão é, você só vai pressionar ele, dentro da empresa dele e mais, ocupando os aparatos de Estado que regulam o capital. O que permite uma empresa quebrar regras trabalhistas é o fato de que muitas vezes, eles também ocupam os espaços de fiscalização do trabalho. Quando não é o caso de solapar os aparelhos do Estado para dificultar a fiscalização e a regulamentação.
Esse é um exemplo de como funciona a dinâmica da luta política. Não basta eu dizer que as coisas estão armadas (porque estão e vão ser), é preciso compreender que para vencer é preciso ter poder e considerando o estado das coisas, não temos muitas opções senão jogar o jogo e dentro dele, tentar vencer.
A questão é muito complexa mesmo, eu tenho dificuldade de escrever sobre. As estratégias e táticas, vão depender muito das circunstâncias conjunturais, tudo depende. Pode chorar à vontade.
O que me cansa e cansa vocês também que eu sei, é que sempre existe uma aposta na burrice das pessoas. Se defende sempre o mais burro possível, veja, isso só acontece porque a situação é tão desigual que não existe nem um esforço deles, eles estão imunes à derrota.
Ao mesmo tempo, mostra que existe uma possibilidade das pessoas verem que não basta “fazer o certo”, é preciso literalmente criar toda uma política coletiva para chegar “nesse certo”.
A vitória só vai ser uma possibilidade para gente, no dia que a gente compreender isso coletivamente.