Aceleracionistas conscientes, isto é, os que são por saberem o que se trata aceleracionismo, são o grupo político-ideológico mais feliz do século XXI - pelo menos até o momento.
Digo isso porque hoje o mundo vive numa situação de instabilidade perfeita para qualquer um que só quer ver destruição e caos.
Mas assim, exige um certo grau de loucura e egoísmo (no sentido de Stirner) mesmo, para ser aceleracionista de fato. Não é uma questão de não acreditar que o desenvolvimento continuo não traga grandes avanços para a humanidade, o problema é acreditar que isso vai vir de forma desordenada e que isso em si, não teria suas consequências negativas.
O que acontece de fato, e é sobre isso o foco desse texto, é que grande parte das pessoas que podemos chamar de aceleracionistas nunca pensaram muito a fundo sobre o que acreditam (até porque, como vamos ver mais tarde, muita gente apenas reproduz ideias e não tem muita autonomia intelectual).
Ou como quero defender nesse texto, sequer possuem uma noção de que são aceleracionistas - que os seus slogans, barulhos, pautas “importantes” do dia, notas de repúdio e as grandes “novidades” do dia poderiam ser resumidos simplesmente por ressentimento com o mundo presente.
Eu não acho nem que sejam de fato rebeldes - até porque na prática, eles falam muito e realizam muito pouco na prática material.
Por isso, já seria muito diferente de um leitor médio de Deleuze&Guattari, Fisher e Land, por mais que nunca tenha existido um movimento aceleracionista formal (no sentido de termos partidos, instituições e etc), foram autores que influenciaram, tanto pro bem como para o mal, as grandes mobilizaçoes do século XXI.
Land é cunhado como o pai do pensamento da alt-right, Fisher podemos dizer que foi o pensador mais influente pós-crise de 2008, inspirando muitas revoltas como o Occupy, as jornadas de 2013 no Brasil e tal. Que foram manifestações importantes, ainda que a reação à elas tenham na verdade nos vencido (vide golpe 2016 e claro, projeto de austeridade fiscal que se sustenta até hoje).
Quando se trata do aceleracionismo como um movimento político, apesar de ser algo completamente descentralizado e organizado muitas vezes em grupos muito pequenos, ele possui uma agenda política. Quando Trump venceu pela primeira vez, no meio de um monte de excentricidades e idiossincrasias, lá já existia um projeto político.
O caos sempre foi parte do projeto. Tanto no aceleracionismo de esquerda como no de direita, existe uma noção muito simples de história, que existem graus desenvolvimento e que mais importante, é possível acelerar esse desenvolvimento.
Sim, é uma versão de marxismo/positivismo muito mais insana e bem, se pudermos sumarizar, é dizer que o desenvolvimento dos últimos 200 anos não foi rápido o suficiente (“nunca é rápido o suficiente”).
Esse tipo de aceleracionismo é muito mais restrito à academia, à intelectuais, a ratos de internet, etc. O fenômeno que vemos hoje se remete mais à uma espécie de vontade de destruição do presente sem necessariamente ter qualquer noção de futuro.
Isso acontece, podemos começar nossas hipóteses, porque é impossível pensar numa história coerente do mundo.
Eu descrevi aqui, um aceleracionismo muito mais inconsciente e irracional, fruto da aceleração dos nossos processos de produção.
Uma coisa é contar 1984 à 1994, outra radicalmente diferente é tentar explicar que raios aconteceu entre 2014 à 2024. O ritmo dos acontecimentos aumentou além do esperado mesmo para os aceleracionistas mais otimistas dos anos 80.
As coisas que demoraram décadas para acontecer, agora acontecem em semanas, dias, horas... O tempo perdeu completamente qualquer tipo de referencial. Com a revolução industrial, aprendemos a seguir o tempo do relógio - com a era da internet, nem mesmo o relógio é capaz de mensurar nosso tempo.
Se a gente fala de trabalho, por exemplo, não existe mais “horário de trabalho”, todo horário é um horário para trabalhar, para ter lazer e para descansar - e tudo ao mesmo tempo.
Nenhuma tarefa é uma tarefa, sempre estamos fazendo duas, três, quatro, cinco coisas ao mesmo tempo, sem dar atenção máxima para absolutamente nada !!
(A título de parênteses, eu sou contra quem usa desse argumento para dizer que o chamado TDah é uma condição EXCLUSIVAMENTE resultado da sociedade que vivemos - é muito mais correto, até numa perspectiva sociológica, admitir que parte do fenômeno também é biológico, portanto, psicológico, psiquiátrico, etc. Mesmo que a abordagem seja “mudar toda a estrutura da sociedade” isso é algo que precisa ser construído, e não é feito quando as pessoas não estão no seu melhor. É pedir muito para pedir que vocês se cuidem ?)
Se você, por exemplo, não está lendo esse texto enquanto come ou enquanto joga algo, ou enquanto ouve alguma outra coisa, pode se considerar “ultrapassado”.
O ponto é, que a vida em si, toda ficou mais acelerada, mais efêmera.
Para você ter uma noção, algumas décadas atrás, jogos eram exclusivamente histórias fechadas, com mapas construídos cuidadosamente, com cenas estilo cinema; em comparação, muitos jogos hoje, conhecidos como roguelite/roguelike e de certa forma os chamados gacha, dependem muito mais de conteúdos gerados proceduralmente de forma aleatória e caixas com itens aleatórios (loot boxes), do que de fato, possuírem uma estrutura fixa planejada.
Se você comparar um jogo como da série Castlevania e Vampire Survivors : o primeiro tem um mapa predefinido, uma história estruturada, cenas scriptadas, etc; o segundo você é um personagem num mapa genérico que pega itens e melhorias aleatórias.
O mesmo vale para música - raramente alguém busca por ouvir discos ou álbuns, mesmo por artistas específicos - se ouve faixas e quem fornece a playlist aleatória curada por uma inteligência artificial são as plataformas como YouTube e Spotify. E a tendência da indústria da música, por mais que exista uma certa resistência, é que se tenha músicas geradas aleatoriamente por inteligência artificial.
Plataformas como a Netflix, por exemplo, mudaram completamente como as pessoas assistem filmes. Ir ao cinema ou mesmo alugar um filme numa locadora, já não é mais o evento que era nas décadas passadas, é muito mais uma questão de ter aquele 5 minutos para ver enquanto navega nas redes sociais uma série qualquer do momento. Novamente, com listas curadas por inteligência artificial.
E como eu poderia terminar sem falar das redes sociais ? Veja, não estamos nem mais discutindo sobre comunidades específicas, amizades digitais, identidades falsas, etc - nós já chegamos num ponto que nem isso é mais consciente.
O uso é muito mais sobre receber o que o feed, e no futuro o conteúdo, gerado pela inteligência artificial lhe oferece, do que gastar tempo de verdade procurando uma comunidade online que tenha a ver com seus interesses.
Nisso tudo, existe um certo padrão de comportamento importante : se aposta muito mais, isto é, basicamente tudo se transformou em girar uma roleta, o “aleatório” rege muito mais a nossa vida; automação agora não necessariamente só de atividades fabris, mas automação também de pensamento - qual é na prática o grande segredo do sucesso da IA generativa ? Ela é capaz de gerar um discurso genérico e realizar todo processo de busca de informação, que muitas vezes, na maior parte das vezes, as pessoas encontrariam facilmente num dicionário ou numa busca simples na internet.
Trata-se também de uma automação das relações sociais, não mais nos reunimos em clubes, espaços, assembléias, sindicatos, etc, para socializarmos - quem faz isso, são as redes sociais corporativas. Quem te joga num grupo do MBL ou da Soberana, “conforme seus interesses”, são as plataformas - e nisso nós vemos inclusive seu viés político.
Um grupo se reúne com executivos das plataformas, o outro vez ou outra toma uma punição das plataformas (e mais importante, performa radicalidade para fingir que está fora do jogo).
Mas note, por que as pessoas não têm mais essa capacidade de busca ? Justamente, chegamos num ponto de que mesmo o pensamento humano se tornou lento para o tempo da produção do capital.
Qual foi a grande questão da greve dos roteiristas de Hollywood em relação à IA ? Um roteiro bom pode demorar meses, anos, para ser formulado por uma dúzia de roteiristas - com a inteligência artificial é possível gerar um número absurdo de roteiros em menos de alguns minutos - e do jeito que a indústria cultural gosta : clichê, genérico, facilmente reproduzível.
Então, voltando ao aceleracionismo, existe uma certa impaciência generalizada. Não necessariamente, porque as pessoas são ou querem ser impacientes, justamente porque o mundo pede velocidade.
O mundo vive em crises constantes, a vida se tornou mais instável e se tornou mais automatizada.
Quando você observa, por instância, PCBR, Jones Manoel, Gaiofato e o ecossistema de esquerda que eles compõem, “o webcomunismo” são pessoas que vivem nesse mundo acelerado que eu descrevi.
É gente que trabalha de forma precarizada, dificilmente teve emprego formal, precisou encarar a falta de concurso público e teve que se virar, porque estudar não garante absolutamente mais nada no mundo (principalmente no Brasil).
O que já é um perfil muito diferente do petismo. Tanto que eu acho que vale a comparação - o petismo surge no início da formação do neoliberalismo, no início da desindustrialização no Brasil, ou seja, ainda era uma sociedade, comparada com hoje, muito mais estável e com um tempo muito mais lento de acontecimentos.
O PT já nasce como um partido mais moderado, menos radical, que não defendia revolução; em comparação, quando você olha pro PCBR, ele já defende a revolução desde o seu nascimento.
Ou seja, lá na formação do PT não havia essa urgência (ou ansiedade) tão grande em ter as mudanças na sociedade. E veja, até hoje o petismo tem essa forma de enxergar o mundo.
O tempo do PT ainda é o tempo das lentas discussões do parlamento. É o tempo da eleição, de ir lá, lentamente formando quadros, etc. A ponto, do PT desacelerar o próprio reformismo.
O que é completamente diferente, continuando a comparação com o PCBR. Então, quando a esquerda radical olha pro PT e diz que ele tá completamente rendido, que já é um partido de direita, que abandonou as bases, que o PT perdeu a comunicação, etc - e os petistas olham pro mesmo PT e acham que ele tá sendo revolucionário fazendo aliança com o União Brasil (a título de contexto, um partido conservador para dizer no mínimo), isso ocorre exatamente porque de um lado, respectivamente se quer fazer política de forma quase que instantânea, com revolta, live, edit do Lula fodão, Tiktok de trend citando Marx, etc e do outro, já se acredita que no longo prazo, essa aliança com a direita vai ter algum fruto no futuro.
Pro petista médio tem um futuro e tal (ainda que o niilismo esteja se generalizando em nossa sociedade); já pro PCBRista médio não se sabe se vai ter semana que vem.
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O que de fato acontece na prática é que o PT não é aquele partido conservador que o webcomunismo faz entender; nem é o reformismo revolucionário que o webpetismo defende - na prática, considerando tudo, nossos avanços na via institucional e não-institucional vem aos poucos se enfraquecendo.
Em ambos os casos, de certa maneira, há uma certa euforia excessiva, e aqui nós com certeza poderíamos discutir por uma via psicanalista: No final das contas, está se defendendo/atacando muito mais um PT que se deseja, do que um PT que de fato existe.
Eu acho essa via pouco proveitosa, a solução seria qual ? Levar todo mundo pro divã ? Isso não vai ser útil para ninguém (o que não isenta vocês de irem buscar uma terapia).
E eu nem acho que a questão seja de fato “parar os aceleracionistas”. Até porque eu acho que isso é muito mais um fenômeno da internet, ou melhor, das nossas relações mediadas pela rede.
No momento que eu escrevo esse texto, apesar de toda tecnologia que tomou nossa vida, existe uma certa desigualdade nesse desenvolvimento. Nem todo lugar tem internet de alta velocidade, TV digital até alguns anos atrás era restrita apenas à algumas regiões do Brasil, muita gente ainda acessa informações numa internet de velocidade 3g (da antiga geração).
Eu acho que esse descompasso, no sentido rítmico, entre essa noção da esquerda brasileira entre reforma e revolução, entre entrar ou não nas eleições, entre gostar ou não da China, etc, não são meras discordâncias, são na prática uma dificuldade de decidir um caminho, de tomar uma posição.
Então, a questão mesmo, é muito mais um resultado de uma certa precariedade do nosso movimento. É dessa dificuldade de ter um caminho na prática que surgem essas especulações infinitas.
É justamente porque existem poucas possibilidades de mudanças que se especula.
E sinceramente, eu não sei mais o que escrever então o texto fica incompleto, eventualmente vou voltar nesse assunto.