Não pretendo fazer um texto muito grande sobre o assunto, já até falei sobre como me sinto aqui, então não vou me estender.
É muito engraçado ver essa dicotomia de Lula international e Lula nacional. Lá fora defende políticas contra a austeridade enquanto internamente faz um teto de gastos. Diz que é anti-imperialista ou algo assim, mas não pisca o olho para vender parte da infraestrutura para monopólios estrangeiros.
Era questão de tempo o Lula international começar a afetar o Lula nacional, já que só imbecil dissocia política nacional de internacional. A geopolítica afeta (e muito) a capacidade de fazer certas políticas nacionais. Literalmente, estamos falando de sofrer sabotagem se escolhermos um parceiro X ao invés de Y, disso para assassinatos de militantes. Cuba não faz certas políticas, porque não pode comprar determinados materiais, muito da política de guerra da República Popular da Coréia existe pelo fato de estar cercada de grandes potências militares, os Estados Unidos tem essa política de guerra constante para sustentar sua indústria gigantesca de guerra e por isso é importante manter focos de conflitos pelo mundo, vide a periferia do Oriente Médio, parte da África no norte e agora parece querer avançar pro sul da Ásia.
Essa fala de Lula acabou unificando os dois Lula e mostrando as suas contradições. Eu acho às vezes que Jones está muito viciado em Habermas por apostar tanto no debate público, mas uma coisa ele consegue demonstrar quando destaca que boa parte dos ministros de Lula ficaram em silêncio, deputados, senadores, etc, não haviam comentado sobre a Palestina. Enquanto a chamada “oposição” (lembrando que alguns são da base do governo, por exemplo o União Brasil e cia) durante todo conflito foi bem vocal e não mediu esforços para se expressar à favor de Israel - tem aquele embaixador de Israel que inclusive esteve com Bolsonaro que agora virou praticamente um criador de conteúdo.
Os monopólios de mídia fazem uma cobertura completamente reacionária da guerra, tratam Israel como o último bastião de democracia do Oriente Médio, enquanto tentam passar uma maquiagem em cima do massacre. E assim, eu nem comentei sobre as políticas públicas que Lula defende lá fora e que não faz aqui dentro, o mais visível é lá fora falar contra austeridade e ter uma política de austeridade guiada por Haddad.
Essa situação toda diz uma coisa importante e muitos analistas vêm dizendo a mesma coisa : Lá fora o Lula não tem Arthur Lira, não tem centrão, não tem os monopólios de mídia para ficar brigando, por isso um foco tão grande em fazer política internacional. Mas existe um limite muito claro nisso - o Brasil não consegue entrar muito forte na aliança dos Brics porque isso significaria mudar a política nacional de desenvolvimento e isso afetaria diretamente a relação de forças internas. Isso explica porque o Brasil não foi mais firme contra Israel, já que internamente tinha que lidar com uma série de quadros políticos favoráveis à Israel. Imagina ter que lidar com essa claque histérica agora quando tinha que resgatar pessoas lá do meio do conflito.
O que Lula international quer fazer é prejudicado pelo Lula nacional, porque não tem como fazer uma política internacional dissociada da nacional e vice versa. Realmente, o melhor que Lula faz ao tentar evitar o embate político interno e focar tanto na política externa, são bons discursos, já que para fazer um pouquinho que seja das políticas que propõe nos discursos internacionais, é preciso fazer o embate interno. Inclusive para o Brasil se tornar mais relevante internacionalmente, seria importante uma política nacional mais firme e que tornasse o Brasil um país mais importante para a América Latina e todo sul global.
Mas vai explicar isso para o liberal, ele vai ter chamar de stalinismos.