Toda vez que se ouve o nome Bolsonaro, bate uma canseira tremenda. Há certo tempo atrás, nós até tínhamos uma certa paciência para gastar umas horas explicando o fenômeno, hoje bate apenas uma preguiça tremenda.
Isso porque parece que o que impera é um cansaço geral. Nada mobiliza mais as pessoas que o bolsonarismo, seja positivamente ou negativamente.
Existe uma certa recusa em destruir o bicho de uma vez. Quero chamar atenção pro fato de que o “campo democrático”, isto é, a esquerda institucional, tem uma aversão à organização popular. Toda vez que se fala em organização, os fantasmas de Hannah Arendt e de Leon Trotsky, surgem para combater o “totalitarismo”.
De repente, não pode ter hierarquias, tarefas, estudos, leituras, é esperado que se faça militância por boa vontade, por “amor à humanidade e aos valores democráticos”. A questão é que o coletivo anarquista mais fraco TEM UMA ORGANIZAÇÃO. Se você não vai adotar a organização leninista, você precisa adotar alguma outra forma de se organizar, se você vai ter eficácia ou não, isso é uma outra discussão.
Então, esse “campo democrático” acaba por depender muito de uma reação autônoma, precarizada, individual, de pessoas e instituições que são afetadas de alguma forma pelo bolsonarismo.
Isso por si só não destrói o bolsonarismo, mas mobiliza quadros do “campo democrático” preparados para colher os frutos eleitorais. É uma questão puramente eleitoreira, o que fica claro com esse ano de governo é que o “campo democrático” tem muita preocupação em conciliar com quadros do bolsonarismo.
Basta a gente ver que o grande esforço do governo em agradar quadros do União Brasil, ou a puta dificuldade de lidar com Arthur Lira - mesmo com toda crise de Maceió.
Esse é o motivo político do bolsonarismo ainda não ter sumido, não só suas bases sociais continuam existindo, como o “campo democrático” depende deles para mobilizar suas bases desorganizadas.
Outra razão é a necessidade da mídia burguesa em ganhar cliques. Claro, isso tem a questão da dinâmica da internet, mas é muito visível que existe um certo vício por um espetáculo jornalístico como a Lava jato e os 4 anos de Bolsonaro, foram um espetáculo em si.
Toda semana ou melhor todo dia, tinha alguma bizarrice para publicar do Bolsonaro. Com a vitória do Lula, se perdeu um pouco disso, mas é muito visível o esforço da mídia em sugar cada segundo possível da sua atenção falando de novo do Bolsonaro.
É muito por isso que ele nunca some do debate público. O fantasma dele é invocado em toda discussão, tanto por ele ainda ter uma base mobilizada, tanto por ele ainda ter gente que se mobiliza contra ele de forma espontânea, tanto porque a mídia sem assunto depende de um espetáculo para apresentar. Não é uma disputa fácil, ainda que não seja a coisa mais difícil do mundo para a mídia burguesa, competir por atenção na internet.
Aí você cria uma situação que um cara, que vai, tem uns filhos com cargo público, aliados por todo canto, mas já não é lá tão importante, se torna centro do debate público novamente porque as pessoas precisam dele, seja na direita para mobilizar bases de sempre, na esquerda com o anti-bolsonaro, a mídia lutando por atenção e pela briga para poder transmitir.
É um tipo de disputa falsa. Já que ela não pode ter um vitorioso, nós ficamos nesse eterno impasse. É até engraçado porque o bolsonarismo não consegue ter embate com a esquerda radical, já que a mesma não tem o tamanho que o “campo democrático” possui. Então, o petismo é a única coisa que eles podem apontar e fazer pânico moral.
Para se dizer, no mínimo estamos diante de um cenário político broxante. Sabe quando nenhum estimulante funciona em você de tão depressivo que você é ? E aí você começa a tentar um monte de coisas diferentes e nenhuma delas funciona ? Depois você acaba voltando à velha rotina de sempre, por que é a única coisa que você consegue fazer ? Eu sei que é um exemplo muito específico, mas ele expressa bem a sensação, é um quadro de depressão social de um povo cansado.