Depois de assistir a análise do Pitilo , e observando a direção que toma o governo Lula, acho que é possível, dentro das informações que foram publicadas, traçar alguns motivos do possível golpe de Estado não ter funcionado.
Eu quero explorar uma hipótese que é a seguinte : as elites, apesar de terem ficado muito ricas com Bolsonaro, e não se engane, é certo que o apoio em Bolsonaro veio dessa promessa, a grande questão é num médio-longo prazo, não é bom para essa elite, aumentar a desigualdade, fazer as contradições de classe crescerem, porque isso mobiliza as pessoas, o marasmo do neoliberalismo é superado por uma questão de necessidade.
Ninguém consegue um emprego fixo, ou um trabalho que não seja precarizado, o funcionalismo público é sucateado, as aposentadorias são comidas pela inflação e cada vez mais pessoas ficam pobres por conta da falta de políticas públicas. Chega no ponto que realmente, não há o que perder senão as correntes.
Viver a vida medíocre do dia a dia se torna impossível e isso leva muita gente a se politizar. Isso não é necessariamente uma relação de causa e efeito, mas uma tendência geral. É fato que durante o governo Bolsonaro, mesmo os centristas mais ferrenhos, fizeram uma mobilização mínima, contra ou a favor, porque dentro da política era a única forma de atingir seus objetivos.
Acaba que o status quo começa perder toda aquela solidez e isso abre espaço para uma radicalização. O fascismo que surge como um mecanismo de defesa do status quo, aumenta a crise e os comunistas voltam a ser uma ameaça considerável.
Pode até ser que se consiga fazer muito dinheiro num prazo muito curto, como muita gente conseguiu fazer, mas num médio-longo prazo, isso pode significar uma sociedade mais politizada, seja na direita ou na esquerda, já que ninguém ganha mais nada tentando jogar o jogo do momento, por assim dizer.
Esse é o ponto que vejo poucos analistas comentarem : O neoliberalismo é uma quebra daquela velha ordem capitalista. Existe uma ordem social, uma ordenação, um conjunto de costumes, que justificam determinadas tradições na sociedade.
Estudar, trabalhar e no final se aposentar - esse velho roteiro do fordismo se quebrou. Estudar perdeu todo poder social de antes, não te garante nem um emprego básico muitas vezes. Trabalhar, seja CLT ou autônomo, nunca foi algo tão incerto e confuso. Por fim, aposentadoria nem é um horizonte para muitos jovens.
O que fica muito claro com os projetos do governo que incentivam empreendedorismo, que dão setores chave para a iniciativa privada, que mantém uma austeridade até maior do que antes, etc, é que é muito melhor você ter uma sociedade dócil, despolitizada, que continua trabalhando e tem algum direito social, do que uma que pode o mobilizar milhões de pessoas nas ruas.
A função das políticas públicas no neoliberalismo é evitar um caos social maior causado pelo laissez faire. Estar dentro da linha acaba por valer a pena. Essa falta de tato de Bolsonaro, ou seja, essa falta de sensibilidade política mínima, foi o que fez ele se tornar tão impopular e perder em 2022.
Há uma naturalização da agenda neoliberal. Fora do círculo social normal, você ouve bem menos sobre política do que na época de Bolsonaro. Isso é muito sintomático do projeto petista, em grande parte e isso também vale para as elites, as pessoas votaram em Lula para ter o mínimo de paz.
Você pobre com certeza toda semana já estava cansado do presidente zerando os códigos penais, das maluquices, das medidas reacionárias, etc. Enquanto gente rica, que vive de exportação, apesar do lucro aumentar e da possibilidade de grilagem etc, facilitada, toda semana era uma instabilidade que Bolsonaro fazia que o mercado ficasse instável.
Veja o que tanto Temer e Alckmin dizem dia sim e dia também : é preciso confiança, preciso tranquilidade, preciso diminuir a radicalidade. Isso o governo Lula sempre ofereceu, eu acho que a raiz do fracasso de Bolsonaro mora no fato de que ele causou tantos problemas ao Brasil, que mesmo seus aliados começaram a sair prejudicados.
Chegou num ponto que o lucro no curto prazo em algumas décadas poderia virar um grande movimento popular e é isso que, na perspectiva das elites, não pode acontecer e é interessante observar o quanto que o petismo oferece uma normalidade, estabelece um tipo de marasmo permanente, naturaliza certos problemas e mantém de certa forma, essa despolitização geral que gestou Bolsonaro firme.
Nesse sentido, 8 de janeiro foi um fracasso porque as elites viram em Lula, da mesma forma que muita gente pobre lembra do passado glorioso dos governos Lula, muita gente da burguesia queria toda aquela lucratividade sem o medo da revolta popular.
E acredite, se em 4 anos o Brasil se politizou, quase uma década de Bolsonaro com certeza iria aumentar a atividade política, seja na extrema-direita, seja na esquerda radical.
Claro, podemos analisar outros aspectos da economia, da geopolítica, etc, mas é muito claro, inclusive olhando a blindagem do exército, o tipo de retórica de “eram só os perto do Bolsonaro”, indica que a questão do golpe e do governo atual, é que o projeto do PT é o mesmo projeto das elites e que apesar da “derrota”, era muito melhor “ceder” e manter o poder numa perspectiva de longa duração.
É interessante porque o que fica muito claro nesse 1 ano de Lula III é que o projeto político é uma versão bem acabada e possível de ser feita, do que de Bolsonaro.
O que me preocupa é muito isso. Lula pode até ter ganhado as eleições, mas o programa político que ele executa não é o que ele prometeu.
É importante nós termos isso em mente quando vamos analisar o governo Lula. O fascismo continua na espreita porque a base sociopolítica que o fez aparecer continua existindo. A vida não melhorou magicamente com o governo Lula, nem poderia, especialmente quando o projeto político é o mesmo.
8 de janeiro foi uma tentativa de Bolsonaro manter o seu poder político, mesmo com a falta de apoio das grandes elites. A grande questão é que com Bolsonaro o Brasil ficaria um caos, e isso não dá lucro. Aquela coisa, a Inglaterra pressionou o Brasil a abolir a escravatura não porque ela é anti-racista, mas porque ela perdia um grande mercado de consumidores - ninguém transformou o brasileiro em mais consumidor que Lula.