19 março 2024

DOC 008 : Jones Manoel, ou o intelectual público.

Mandem esse gif para suas mães.

É muito claro que Jones nos últimos tempos vem tentando se estabelecer entre Sartre, Abdias Nascimento e Darcy Ribeiro.

Ele mesmo admite que vem fazendo vídeos mais conjunturais com um propósito claro de tentar ganhar um espaço político. A sua produção intelectual escrita também segue uma tendência de tentar estabelecer um tipo de autoridade. De mostrar que ele tem capacidade de fazer política e “sabe o que fazer”.

Tanto que nos últimos anos, especialmente no governo Lula, ele anda fazendo muitas proposições do que fazer.

O que fez ele mudar de direção, não sei exatamente, mas é claro que ele quer estabelecer uma oposição de esquerda ao petismo, espaço que antes era ocupado pelo PDT e pelo PSOL (que hoje basicamente compõe o governo junto do PT).

É uma tática que tende a funcionar ? Sei lá, a única coisa que me incomoda é a capacidade de Jones executar o que propõe. Veja, gostemos ou não do PT, a questão que hoje, por serem um partido tão grande e que ocupa várias esferas de poder diferentes, apesar dos tiques liberais, o PT é o único partido de esquerda com capacidade de executar o que propõe, por mais rebaixado que seja.

O problema do PT não é tanto Lula, a questão é que a esquerda de uma forma geral, tem uma dificuldade gigantesca de organizar as pessoas, colocar elas para militar de forma mais dedicada, de ocupar outros espaços também fora da institucionalidade e isso dificulta muito fazer mesmo políticas de esquerda recuadas.

Existe um medo do povo, justamente porque hegemonicamente não existe um
“progressismo mínimo” geral na população. É no mínimo uma ingenuidade acreditar que fazer política pública é sempre algo de caráter de esquerda, a direita faz e faz muito mesmo que não admita.

Por isso, quando o PT quer conquistar novos eleitores, ele recua. Porque ele não se propõe a combater o conservadorismo, ele quer justamente compor com os conservadores. Basta a gente ver a postura de Boulos (que quer ser prefeito com apoio do PT) ele evita “parecer radical” e quer se tornar alguém mais palatável para eleitores conservadores - digo, empresários que vão financiar a campanha.

E assim, é muito claro que o PT, olhando assim para a maioria dos partidos de esquerda, não tem necessariamente aquele velho marxismo estudado, sistematizado, o PT não tem mais os intelectuais de antigamente (e o que não falta é ex-petista frustrado com o caminho do PT, seja na academia e mesmo na política, o que são partidos como PCO, PSTU, PSOL, dos que racharam em 2003...) e tem uma dificuldade enorme de fazer novas lideranças.

É possível acreditar que o PT faz o que faz, acreditando que é muito radical na esquerda.Que desses programas liberais vai sair alguma revolução. A questão é que o PT não supera o liberalismo ensinado desde o berço, mas tem, digamos, intenções de fazer um programa de esquerda. O liberalismo tem uma certa tradição popular também.

O Brasil tem uma situação muito interessante : o maior partido que é considerado de esquerda é no máximo social-democrata, esse é o “campo democrático” - Enquanto a esquerda radical muitas vezes está mais preocupada em brigar para ver quem é mais radical e tem muita dificuldade de se coordenar politicamente.

E veja, como a esquerda radical tem dificuldade de fazer política, muitas vezes, ela depende que o “campo democrático” faça algumas políticas para que eles tenham minimamente um espaço para militar. Só que o “campo democrático” não quer que essa esquerda mais radical cresça, justamente porque ela disputa a mesma base.

Isso é uma razão para o PT não avançar tanto, ao mesmo tempo que existe sim uma limitação ideológica de se fazer política. No final das contas, “o campo democrático” acaba servindo muito mais como uma limitação para uma esquerda radical que tem dificuldade de sequer se estruturar.

Será que a gente tem esse tempo para recolher as nossas partes ? Veja, eu entendo Jones tentando puxar a janela de Overton para a esquerda e tentando reviver os fantasmas do trabalhismo e do nosso movimento comunista.

Hoje a coisa que mais me incomoda, tanto de forma pessoal, como política, é que não existe a ideia mínima de que se você se organizar em grupo, você consegue fazer muito mais coisas do que sozinho. A gente precisa dizer o óbvio : vivemos em sociedade.

Todo mundo age como se fosse um John Wayne, o problema é que alguns cowboys atiram com metralhadoras enquanto outros têm estilingues.

Num mundo que todo mundo quer chegar no topo da pirâmide, vence quem já começa no topo. É literalmente uma questão de quem tem mais força e o jogo não começa bem para o nosso lado.

Eles já começam na frente, porque eles têm capacidade de coordenar politicamente a sociedade através do dinheiro. Até a gente convencer o militante para panfletar, eles conseguem pagar um monte de pessoas para fazer a mesma coisa e sem precisar convencer ninguém.

O dinheiro tem esse caráter fetichizado, essa propriedade quase mágica de tornar material o que era só uma ideia. Hoje, se você tem dinheiro, você tem capacidade de fazer praticamente qualquer coisa, não precisa tanto convencimento quanto um debate público.

A única língua universal da burguesia é o dinheiro, se você não se parece com dinheiro, você não vai conseguir fazer nada. Lula com certeza entendeu isso muito bem.

Veja eu não estou querendo condenar o PT, nunca foi compromisso do PT ser socialista, a questão que eu quero apontar, é que não basta fazer uma boa crítica.

A questão central, minimamente, como que a gente pode fazer política, ou seja, como que nas condições atuais nós podemos construir um movimento capaz de direcionar um embate político para a revolução ?

A revolução, e nisso concordo com Jones, não é algo para o futuro, da mesma forma que quando contamos história não estamos falando do passado, quando desenhamos um futuro estamos expressando nossos desejos do presente.

Veja, nós precisamos superar aparatos organizativos do tamanho do mundo. Por acaso, você já trabalhou numa empresa grande ? Ou já observou alguma repartição pública ? Um hospital ? Uma prisão ?

Não é um bom discurso, uma análise perfeita da realidade que faz uma empresa funcionar, é justamente essa organização social - essa engenharia social. Você cria processos na sociedade que não precisam de convencimento ideológico, pode até ser que existam pessoas que fazem as coisas por convicção, mas a questão é que a sociedade é organizada de tal forma, que pouco importa o que alguém individualmente acredita. Por isso todo lugar existe essa sensação generalizada de castração, de apatia, nós nos sentimos pequenos num mundo desse.

A nossa grande vantagem é a capacidade de racionalizar isso, de tomar nas nossas mãos a capacidade de direcionar o nosso caminho como classe.

Enquanto o que a gente chama de “sistema”, funciona quase que de modo irracional, como uma máquina, nós temos uma capacidade de compreender esses processos “irracionais” e através da ciência construir algo completamente novo.

É sobre entender como funciona, por exemplo, a matéria física do metal, para forjar a ferramenta que precisamos para sobreviver. O trabalhador consegue fazer isso, que burguês consegue fazer algo desse nível ? A questão é que eles têm o poder político, eles têm recursos, eles privatizaram tudo e tornaram a propriedade privada sagrada para ter controle sobre tudo. Nós somos obrigados a servir eles porque não temos mais nada.

Nós temos plena capacidade de transformar o mundo, não por uma questão metafísica qualquer, é material, nós que trabalhamos, nós que fazemos as coisas.

Quem sabe cozinhar, caçar, plantar, por exemplo, tem mais capacidade de sobreviver na natureza, nós só temos essa dificuldade porque nós somos espoliados. Pergunte para o vendedor de seguros telemarketing se ele tem um seguro, pergunte para a cozinheira de um restaurante se ela come tanto quanto ela cozinha, pergunte a si mesmo se o que você faz fica com você ?

O pulo do coelho está aí. Repito o que já disse num outro texto, e vejo que existe um certo consenso, Jones anda muito trotskista, isto é, ele sabe agitar, é popular, tem discursos muito bons, até tem uma consistência teórica, mas na hora de fazer as coisas, age de forma extremamente idealista.

A organização popular e a revolução sozinhas não vão nos salvar, no dia 2 da revolução tudo vai precisar ser construído para ter capacidade de servir ao povo e olhe lá, pode ser que a gente fracasse, pode ser que demore para gente chegar lá, a questão é que a realidade não se faz sozinha, nós precisamos tomar nas nossas mãos o nosso destino, só assim temos alguma chance mínima de sobrevivência.

Se o que dizem sobre a "conspiração trotskista contra URSS" é verdade, mesmo essa conspiração precisou se organizar, ganhar informação, trabalhar com hierarquias, burocracias, códigos, etc. Veja, eu não condeno Sr. Trotsky por supostamente ter feito isso, na verdade, devemos admirar a capacidade do trotskismo ter se tornado sozinho uma nova linha política, essa capacidade criativa no mínimo deve ser reconhecida e a gente precisa criar a nossa - Uma linha brasileira do marxismo, e Sr. Jones contribui para isso e espero que ele consiga criar o marxismo-nordestino...

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26 fevereiro 2024

DOC 007 : comentário sobre Normose e o Lulismo

 

Me faça um favor e assista o vídeo antes :

 


 

Desculpa, eu nunca gostei muito das análises do Normose. Não é que eu ache ele ruim, ou que eu ache que de alguma forma ele não contribua com o debate público, não sei se exatamente é o tom, a estética dele, a forma que ele gosta de abordar os assuntos.


Para isso eu quero comentar usando um pouco essa ideia de que cada assunto, existem camadas e camadas que você pode destrinchar. Por exemplo, no que tange o petismo, o senso comum é dizer que é um partido de esquerda social-democrata. Sair desse senso comum seria dizer que o petismo na verdade é, de uma maneira geral social-democrata, mas liberal e que mesmo dentro do partido, por conta da sua organização por correntes, existem disputas internas, inclusive com correntes marxistas-leninistas, outras trotskistas, etc. Aqui a gente já estaria saindo do senso comum e fazendo um debate mais qualificado.


Porque estaríamos discutindo a política na prática, suas posições, contradições materiais, etc. Você tem mais material para trabalhar, a discussão se torna mais complexa e possível de traçar práticas de ação. Tipo assim, eu quero levar o debate para a prática : importa saber qual corrente do PT é o governador da Bahia e o ministro da Casa Civil. Já que isso vai ditar basicamente, como se vai lidar com eles politicamente, se vamos nos antagonizar ou não, como vamos pressionar eles, etc. Nesse ponto Normose nunca chega e isso me incomoda bastante. 


Normose (meio que sempre fez isso) no meu ponto de vista, não sai muito do senso comum. Nesse sentido, para mim, ele só parece sair do senso comum, quando na prática, todo o discurso dele continua sendo o senso comum com uma simulação de ter descoberto a saída da caverna de Platão, quando na verdade não saiu nem de perto da fogueira.


Nós aqui no blog já discutimos o quanto que essa política neoliberal vai ser um puta tiro no pé, todo o discurso de Jones já mostra que existe essa percepção (ele inclusive fez um vídeo falando isso), eu já falei mil vezes disso comentando o ministério de Silvio Almeida e já está se formando um certo consenso, que isso vai ser um ponto fraco a ser explorado pelos adversários políticos. 


Nesse sentido, eu gosto mais de quando Jones discute isso, porque deixa bem mais claro a sua própria posição, ele mesmo como um adversário do petismo na esquerda, ao mesmo tempo que aponta que todo mundo vai fazer isso. E de certa forma é uma coisa que mais prejudica do que ajuda a esquerda, já que no imaginário popular ser de esquerda é ser petista - muito por isso, ao mesmo tempo que Jones se aproveita disso para pressionar o governo e suas bases, ele mesmo quer ganhar um espaço político fazendo esse tipo de crítica, ao mesmo tempo que também aponta que a direita pode usar isso e prejudicar toda a esquerda de uma forma geral. A preocupação do Jones em fazer críticas mais qualificadas, pegando bibliografia, usando mesmo de sua formação em história, resgatando críticas velhas ao petismo, etc, mostra exatamente esse dado da realidade que esse governar neoliberal abre uma brecha enorme para a direita ganhar espaço - Ainda que o projeto dela seja praticamente a mesma coisa.


Se você colocar um maoísta, um petista e trotskista, ou sei lá, a maioria da população nem sabe do que você está falando - tá de vermelho é petista, no máximo sabem quem é o PSOL, que já tem aquela imagem negativa de “partido de DCE”. Então se o governo vai mal, é ruim mesmo para quem não tem nada a ver com o PT ou até se posiciona como uma oposição de esquerda. A posição hegemônica do PT na sociedade brasileira o coloca numa posição que é de interesse, mesmo de quem não é o PT mas é de esquerda, que ele seja bem visto, para poder no mínimo conseguir fazer sua militância política.


Por isso é problemático, por exemplo, até agora o governo não ter lidado com os militares que ainda sabotam a ajuda aos ianomâmis - Isso é jogado no colo da esquerda de uma maneira geral, sendo que a crise começou no governo Bolsonaro e acontece justamente porque existem quadros do bolsonarismo na região. Entende que ir mais fundo, sem subestimar a inteligência das pessoas, mostrar as relações que existem, nesse caso, o jogo político que está posto, nos faz entender melhor o que está acontecendo.


O Normose repete muito o vício de alguns jornais liberais que é soltar grandes frases, fazer grandes afirmações, como se elas fossem uma verdade absoluta no momento e não explica muito o processo, não consegue capturar o movimento do real na sua análise. Até porque, enquanto liberal ama ser autor de tudo, de estar sempre certo e ficar na punhetação eterna, o marxista quer discutir, quer errar, quer reavaliar - nós somos cientistas.


Acho que um começo para eu gostar do Normose seria ele parar de ser tão irônico até a metade do caminho. Não sei se eu estou conseguindo explicar bem isso : mas todo vídeo do Normose tem essa vibe de “quem assiste isso é muito inteligente” e é muito bom em convencer o público que sabe o que ele fala. Então muitas vezes algumas piadinhas, alguns jargões, o tom do vídeo, fica muito esteticamente “sabichão” por assim dizer. (A título de nota : Paulo Ghiraldelli sofre muito disso também, mesmo que de verdade tenham coisas que ele de fato saiba).


Eu sei a função disso, é a mesma coisa que toda religião faz ao chamar seus seguidores de “pintos dourados da sabedoria divina” - tem a função de capturar a audiência, já que quem não quer ser um “pinto dourado” ? Quem não quer ser especial ? Fazer isso é muito o reflexo dessa economia de merda que a gente vive, tudo é assinatura, tudo é precarizado, então você precisa ser praticamente uma seita para se sustentar na internet.


É um pouco meu problema com outro canal, o Quadro Branco. A forma que a gente escreve e comenta alguns temas, muitas vezes nos coloca numa posição autoritária em relação ao leitor. Por exemplo, tanto o Normose como o Quadro Branco, no meu ponto de vista não abrem muito espaço para quem assiste absorver as informações e tentar pensar sobre.


O autor impõe uma leitura para o leitor, antes mesmo daquela leitura ser absorvida. Eu acho que querer ser sério com algumas pitadas de humor, sem ser na prática muito aprofundado no assunto, faz mais mal do que bem. Tem um vídeo do Quadro Branco que eu não esqueço porque ele me incomodou profundamente, ao ponto de ter feito vários textos sobre na época e ter ficado até constrangida em mandar para ele, ou em publicar no meu velho blog pessoal no medium (sob outro nome)


É um vídeo relativamente antigo sobre masturbação ou algo assim, onde a tese dele é que a gente é moralmente ruim por gostar de pornografia e sei lá, sujo. Sinceramente, me incomoda a ponto de não querer nem resgatar isso na minha memória, mas me incomodava muito ele dar uma opinião senso comum com um tom de saber tanto sobre o tema, que o vídeo só funcionava para a gente reafirmar uns preconceitos que a sociedade já tem no geral. (Só a título de nota : É SAUDÁVEL SE TOCAR, PAREM COM ESSA MERDA PURITANA).


Então, as pessoas, da bolha da esquerda na internet, já sabem de tudo o que o Normose tá falando, nem é uma questão dele ter demonstrado isso, mas um senso comum, um megafone, mais um texto para gente ficar referenciando sobre um assunto, que na prática só reproduz um senso comum que todo mundo que acompanha minimamente política já está sabendo : teto de gastos e ficar cedendo tudo pro inimigo vai dar ruim, porque já deu ruim, nós vimos isso acontecer literalmente.


No final do dia, são boas thumbnails, são headlines muito interessantes, é muito claro que o Normose um dia quer ser uma produtora de documentários como o Brasil Paralelo, só que de esquerda. Mas veja, o que a direita apela é o senso comum, é exatamente apostando na ignorância das pessoas que fica fácil fazer coisas como “a verdade sobre a ditadura militar”. É fato que na escola, mesmo antes deste ensino médio ruim, nós não estudamos nem o básico da ditadura militar.


As pessoas querem saber das coisas, elas querem estudar, a escola pública não consegue suprir essa necessidade por uma série de razões, o Brasil Paralelo se aproveita exatamente dessa brecha : boom, as pessoas querem saber da ditadura, então eles apelam muito para essa noção de ideia oculta, de conspiração disso, daquilo, de uma metafísica esquecida, de frases bombásticas, etc. 


O meu problema com esse vídeo do Normose é que ele reproduz muito essa lógica de forçar uma leitura no leitor sem de fato fazer o leitor chegar lá e até mesmo, pôr as questões em perspectiva para debate. Tanto que ele faz a coisa que eu mais odeio do mundo que é ficar fazendo disclaimer, ficar avisando que não quer conflito, que gosta do PT, etc, etc - Isso para mim é sinal que ele sente que vai ser mal entendido.


Gente do céu, sejamos adultos, se você tem um público que não consegue entender uma crítica sua à um partido que você defende, etc - será que você tá fazendo um bom trabalho de comunicação ?


E assim, isso de querer se comunicar com todo mundo sem exigir minimamente que a gente esteja no mesmo lugar, não rola. Existe uma coisa chamada público-alvo : adianta eu fazer um vídeo sobre o assunto político para internet querendo atingir absolutamente todos os públicos ? Não, porque a minha linguagem vai cair em desentendimento, ela vai ficar rasa, etc. Até por uma questão pedagógica, você não exige menos ou mais, você exige que o aluno consiga fazer uma transição da chamada cultura popular para a cultura erudita - isso é Freire.


Não existe conhecimento inferior ou superior, existe só falta de conhecimento. Nós estudamos para sermos ignorantes melhores, para saber melhor o que a gente não sabe, não para se convencer que sabemos tudo sobre o mundo. O Normose, para mim, reforça muito esse estilo de formação pronta, ao passo que ele não dá muito espaço pro seu leitor, ter uma perspectiva geral mais complexa.

 


Enfim, Normose, se você leu isso, não fique triste, não é nada pessoal, a nossa relação é meramente parassocial, eu sou um rosto na internet assim como você, não temos sentimentos um pelo outro.


O nosso problema como esquerda radical é que a gente consegue apontar bem as contradições do PT e do chamado “campo democrático”, mas a gente ainda depende deles para fazer tudo. Aquela coisa, foi um escarcéu a UP e o PCB lançarem candidatos à presidência, para no segundo turno ter que votar no PT igual todo mundo. A gente reclama o ano todo da falta de radicalismo do “campo democrático”, mas para fazer uma política pública nossa, a gente depende das máquinas partidárias deles que ocupam o Estado para executar essas políticas públicas….


O problema é que o petismo é um realismo capitalista, é um limite para o que a esquerda faz na democracia burguesa, é o “real”, o fim da história. Se torna impossível construir qualquer coisa além disso, ESSE É O PROBLEMA.

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21 dezembro 2023

DOC 006 : Notas sobre o Instagram

Isso serve apenas como uma pequena nota sobre o meu uso do Instagram. Eu acho que eu nunca usei muito Instagram, mesmo na minha fase mais jovem, que eu era cronicamente online, sempre achei uma rede meio sei lá.

Esses últimos meses, eu resolvi usar porque todo mundo usa. Mesmo motivo de eu ter Whatsapp, é porque as pessoas se comunicam por lá e tal, não é melhor lugar para isso e nem tem o melhor serviço, mas todo mundo usa.

A única grande diferença, mesma coisa vale para o Tiktok e para o Kwai, é a regionalidade do conteúdo. Enquanto no YouTube e Facebook, você fica meio aberto, recebe o que é mais destacado de uma maneira geral dentro de um nicho - Insta, Tiktok e Kwai, mostram muitos criadores locais e tal.

Eu tendo a crer, e isso fica muito claro como usuária e como “criadora”, que não existe uma receita de bolo, muito menos uma estratégia específica que funcione para todo mundo.

Sei lá, tem gente que tem muitos seguidores aqui onde eu moro, mas não tem no sudeste. Então, eu acho que isso precisa ser considerado dentro de uma estratégia de comunicação. A gente, por estar online, acha que não ter um lugar é a melhor fórmula. Mas se o Tiktok, Kwai e o Instagram, se focam tanto em regionalizar o algoritmo, será que realmente, ter uma persona tão aberta, tão eterea e sem lugar, é tão bom assim ?

Por exemplo, tem gente que te fala para fazer umas postagens em determinado horário e tal, com X estética, etc, etc - só que não tem uma abordagem científica, com informações e etc. Então, sei lá, vira achismo.

Eu não julgo sabe, as plataformas mantém o algoritmo em segredo, então né. Uma outra hipótese para geolocalização contar tanto é o uso do celular, as pessoas usam muito mais o celular do que o PC para acessar essas plataformas.

Não quero me estender muito, mas é interessante observar essa regionalização. Há essa noção geral que o conteúdo direcionado, ou seja, quanto mais específico você for, mais chance de você dar certo.

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03 novembro 2023

DOC 005 : CONCLUSÕES PRELIMINARES SOBRE O CONTEÚDO DIGITAL

No primeiro DOC eu discuto a capacidade videos curtos de criar uma comunidade, no segundo eu discuto a importância da relação entre qualidade e quantidade, como também saúde mental, no terceiro debato um pouco sobre esses números das redes sociais e por fim, eu fiz um fichamento do manifesto da Soberana tentando ver as suas vantagens e limitações.

O que a gente pode começar a traçar de conclusões sobre a internet ? 

1) É um espaço alugado, nós não controlamos a internet, então dependemos das dinâmicas, valores, ideais, impostos pelas plataformas em relação ao que nós produzimos.

2) Se trata de um espaço essencial da economia precarizada neoliberal. Tanto por conta dos apps, como por conta dos aplicativos de vídeos. Todo mundo pode criar conteúdo, todo mundo aspira criar conteúdo, assim como todo mundo pode ser um entregador, ou CEO de si mesmo, etc. Sem a internet esse tipo de economia não seria (vista como) tão viável. É uma coisa que vocês tem que pensar : as pessoas sonham em ser influencer, tem ideia do quão difícil é moldar uma imaginação desse modo ?

3) A privatização dos espaços públicos e a ascensão da internet, coincidem muito com essa subjetividade individualista neoliberal.

4) A nossa saúde mental importa, olha só. Quando você liga a câmera existe uma persona que você apresenta, se você busca ser autêntico, você tende a não aguentar mais ser você mesmo.

5) Posso estar sendo precipitada nesse ponto : os números das plataformas não são tão relevantes assim. A questão é que entre 100 e 1000 pessoas, em ambos os casos, são pessoas que você atingiu, desses 100 ou desses 1000 será mesmo que o seu conteúdo foi importante ? Pode reparar que tem muita gente famosa na internet, muitas mesmo, e boa parte não é conhecida.

Essas são algumas das conclusões preliminares que podemos tirar de nossos pequenos estudos sobre o tema.

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28 outubro 2023

DOC 004 : A ORGANIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL NAS REDES SOCIAIS

Quero introduzir vocês num problema central de qualquer pessoa que tente fazer qualquer coisa numa rede social : organização. Acho que a grande diferença de ter uma rádio pirata ou um jornal no século XX para ter uma conta numa rede social no XXI, é que enquanto na primeira situação o equipamento e a infraestrutura são suas, no segundo caso é como se você estivesse alugando um espaço.

Eu quero comentar isso usando o manifesto do coletivo Soberana usando o estilo de fichamento. Acho que vai ajudar vocês a identificarem a importância de coletivos desse tipo, mas também suas limitações. O texto original vai estar em itálico e eu vou marcar as coisas em vermelho quando achar necessário comentar um ponto em específico.

O manifesto deles vocês encontram aqui : https://soberana.tv/


A Soberana é um coletivo marxista-leninista que atua na disputa pela consciência política dos trabalhadores na internet. Dado o crescimento do acesso à internet via celulares no cotidiano da classe trabalhadora, julgamos necessário ocupar os espaços virtuais mais utilizados.

Eu acho que eu não preciso muito comentar o ponto anterior de disputa de espaço. Política 101, não tem muito o que comentar. Já o segundo ponto não é tão senso comum e pode parecer meio aleatório da forma que foi posto. Segundo o PNAD, o aparelho é utilizado em 99,5% dos domicílios com acesso à Internet. A pesquisa vocês podem encontrar aqui (https://www.gov.br/mcom/pt-br/noticias/2022/setembro/celular-segue-como-aparelho-mais-utilizado-para-acesso-a-internet-no-brasil).

Então é natural que um grupo político interessado em disputar espaço, o faça considerando que grande parte dos usuários vai ser alcançado em conteúdos focados no mobile. Isto é, nesse caso, plataformas como o Tik tok, que usam de vídeos curtos e o próprio formato do vídeo é adaptado para ser visto no celular. (Inclusive perdão quem usa esse blog no mobile)

Sem contar que hoje é impossível trabalhar sem ter um celular, mesmo que o seu emprego não tenha nenhum foco nas redes sociais. Quando você é CLT, muitas empresas se organizam por apps de organização, ou mesmo por grupos de Whatsapp, toda comunicação muitas vezes é feita por grupos de chamadas, reuniões, eventos, etc. Se você é MEI, o celular é a sua ferramenta de vendas e de divulgação do seu produto, se você é trabalhador de app, você literalmente precisa do celular para trabalhar.

E assim, é mais barato ter um celular que um computador inteiro, acaba sendo onde muita gente faz basicamente tudo, desde estudar, trabalhar, até entretenimento. A título de exemplo, como a gente trabalha bem mais, aqueles 2 minutos vendo um tik tok no trabalho muitas vezes é o que ajuda aguentar as longas jornadas de trabalho e já pensou se no meio disso tem uns maluco falando de marxismo no seu feed ?

Nossa fundação parte do entendimento que a esmagadora maioria do conteúdo disponível na internet, seja abertamente político ou não, é tomado por linhas reacionárias. 

Calma, eu sei que você já leu o parágrafo seguinte. Ele dá algumas hipóteses. Concordo com todos, porém não podemos esquecer que isso é um processo relativamente de mais longa duração. É impossível falar de internet, sem falar do projeto neoliberal, do individualismo exacerbado que é promovido ideologicamente, mas tem como principal causa também a mudança na forma de trabalhar, como o próprio trabalho se tornou algo mais solitário, como cada trabalhador foi posto para ser um CEO e disputar o próprio emprego com outros trabalhadores.

Esse reacionarismo nasce da mudança das nossas condições econômicas, cada vez mais nós somos postos numa situação de um contra o outro, ao invés de iniciativas mais cooperativas. Os monopólios dos provedores de internet e de telecomunicações surgiram das privatizações neoliberais, no Brasil no governo do senhor FHC. O Brasil também não tem nenhum projeto de desenvolvimento nacional de informática, o que explica a dependência exclusiva de tecnologia do exterior.

Os motivos que culminaram nessa realidade são diversos e complexos, derivando tanto dos monopólios das “Big Techs”, quanto das agências de telecomunicações. Essas empresas determinam a qualidade e acessibilidade da internet em território nacional, ao mesmo tempo que controlam os algoritmos dos sites que acessamos.

As alas à direita, aproveitando-se da colaboração dessas companhias, frequentemente difundem seu discurso com métodos escusos e generosamente financiados. 

Aqui é uma denúncia importante e pode ser considerada controversa para alguns. Ah, mas por quê ? Não é uma coisa tão visível assim, muitos criadores grandes da direita recebem financiamentos de seus partidos conservadores, da igreja, de empresas que defendem pautas reacionárias, etc. Nem sempre é fácil mostrar isso também, o que dificuldade apontar o dedo para isso com mais ênfase.

Retomo o que eu disse na nota anterior, tem vários elementos sociais que contribuem para a reprodução dessas ideias, mas eu acho que o texto toma como uma coisa unicamente de cima para baixo. De certa forma, até por conta da cultura e da história do nosso país, não é como se esses criadores reacionários não tivessem um público que os visse. É também algo reproduzido nos trabalhadores e eles muitas vezes até pensam dessa forma.

É muito financiamento, é culpa dos monopólios e seus algoritmos, mas é também a subjetividade criada a partir da nossa condição econômica, na mudança na nossa forma de trabalhar, no incentivo constante em nosso isolamento e na luta contra o espaço público, um dos fatores que fazem isso acontecer.

Dessa forma, os algoritmos são apreendidos pelo conservadorismo do senso comum, o liberalismo que luta com unhas e dentes contra a dignidade da classe trabalhadora e o negacionismo calcado nos interesses da burguesia, frequentemente sob a vista grossa da legislação.

Temos casos e mais casos para comentar, mas não tem exemplo melhor que Monark que demorou anos para ser punido por literalmente defender partido nazista no Brasil (no final, ele nem foi pego por isso, mas por uma outra coisa lá). Essa vista grossa apontada, é a falta de uma legislação para crimes de ódio digitais, para espalhar fake news, etc. Mas é também vista grossa no sentido de que alguns crimes que já existem, que já tem tipificação, muitas vezes são feitos na internet e não recebem punição. Ai eu volto a falar do neoliberalismo - mesmo que tivesse a legislação, será que teríamos uma delegacia digital especializada para lidar com uma quantidade tão grande de crimes digitais dos mais diversos ? Não com essa constante austeridade.

Nessa ordem social, por que a legislação puniria quem reproduz as ideias dominantes ?

Boa parte da esquerda que produz conteúdo para a internet age somente pela perspectiva de agitação e propaganda. Apesar de entendermos a importância da agitprop, nós propomos ir além. 

Eu posso caracterizar essa sentença apenas como generosa. Vamos traduzir ela : quando ele fala que a esquerda foca na agitação e propaganda, na verdade o que a prática diz é que você mal tem um instagram bem organizado dos partidos. Muitos coletivos sequer conseguem organizar para postar um story direito, outros tem dificuldade de comunicação com a sua base e se você for olhar para iniciativas de criadores do youtube, você tem também casos isolados aqui e ali, mas não tem uma organização da comunicação deles.

A sentença é generosa nesse ponto, se houvesse pelo menos a agitação e propaganda, não teriamos tanta dificuldade de lidar com o fascismo na internet.

O além deles é propor que as pessoas comecem a se sentir compelidas a se organizarem, a participarem, a criar os seus coletivos, de entrar nos sindicatos, partidos, etc. Isso é mais do que fazer só divulgação, é tentar fazer com que as pessoas queiram participar da política. No parágrafo seguinte explica como.

Nosso projeto consiste em utilizar a internet para fomentar a organização dos trabalhadores, o avanço da consciência política, a divulgação e a capilarização do marxismo-leninismo no cotidiano de toda a classe.

Novamente, não te diz tudo. Não é só sobre divulgação, é principalmente com o propósito de também tentar organizar o discurso da esquerda radical para que ela seja uma parte importante do debate público. Organizar o discurso, necessariamente profissionaliza a sua mídia, melhora a sua qualidade e facilita que esse propósito seja atingido.

Dado o modelo de funcionamento das redes, sabemos que a qualquer momento podemos ser banidos e/ou bloqueados das plataformas que utilizamos. Por isso, julgamos necessária a construção de uma rede sólida de camaradas, a fim de garantir a continuidade das nossas atividades, para além de qualquer única rede social.

É imprescindível para qualquer criador (ou qualquer pessoa que queira participar do debate público hoje) ter um público que ele leve consigo que transcenda qualquer rede social. É como eu disse, uma conta no twitter, no insta, etc, não é sua, é quase que uma concessão, um aluguel, um espaço que você pode perder.

Muitas vezes a gente olha esses monopólios apenas ali, nos grandes sites que acessamos. Hoje, 2023, se você for tentar hospedar um site, é necessário toda uma infraestrutura que não é nada barata para se sustentar e quando falamos de alugar um lugar de hospedagem, os valores são caros e advinha quem é dono dos principais servidores ? Amazon e Google.

Se você é banido de uma plataforma, você precisa tentar construir seu público em outra, não há muito o que se fazer nesse aspecto.

Para concretizar esse projeto criamos espaços de discussão, diálogo e formação política.

Essa é a minha última nota. Soberana tem seu problemas e eu aposto que muitos de vocês conseguem apontar. Esse ponto que eu destaquei é o maior mérito dela. Sabe o que as pessoas mais sentem falta ? De outras pessoas, de relações de amizade, camaradagem e tem forma mais poderosa de combater o neoliberalismo do que fazendo literalmente o que ele é contra ?

E não adianta querer reinventar a teoria marxista, trazer Freud nu, Lacan de calcinha e sei lá mais o que, existe um vício muito grande em ficar trazendo umas teorias complexas e sem atividade prática, sem tentar propor algo.

Lenin incomoda muito porque ele foi cara que teorizou, estudou e ainda participou e ainda teve a audácia de governar o Estado proletário. Ainda que a gente tenha que adaptar muito para a realidade brasileira atual, é uma leitura essencial para gente conseguir entender esse país e melhor, nos armar de teoria revolucionária para construir a revolução brasileira.

Entretanto, o objetivo é não nos restringirmos ao conteúdo acadêmico, explorando formas de entretenimento político mais adequadas aos potenciais da internet. Produzimos de maneira cotidiana transmissões ao vivo, vídeos, textos e ilustrações, priorizando nossa proximidade com a comunidade.

Somos criadores de conteúdo com trabalhos variados sob a perspectiva de disseminar o discurso comunista nas plataformas virtuais. Alinhando-se a isso, promovemos o contato direto com a base de trabalhadores que consomem cotidianamente conteúdo na internet.

Aqui encerro o post. Onde é o maior ponto fraco da Soberana ? O fato de precisar usar as plataformas dos grandes monopólios digitais. Em grande parte, e isso assim, é uma coisa que eu debato muito em um outro post, eles ainda jogam muito no que eu chamo de fofoca política.

Para se manter relevante, e aqui nada contra, é sempre preciso ficar participando, se pautando, no que a mídia liberal pegou para falar da vez. E assim, isso chega no público liberal que está sendo respondido ou só é um conteúdo para o seu público interno ? Isso é um problema sério para quem quer crescer e quer começar a se posicionar na política.

Enfim, Soberana é importante. Senhores marxistas-leninistas, trotskistas, anarquistas e radicais dos mais diversos, vão precisar também organizar a sua comunicação. A ideia de um coletivo digital é uma nova forma de organização política, assim como lá atrás, a organização de jornais, editoras e rádios foi importante para a divulgação de ideias. Até uma coisa que é foda nesse ponto : eles fizeram, o método todo mundo vê, por que não fazer o mesmo também ? Eu garanto que muitos partidos, coletivos, movimentos dos mais diversos, tem plena capacidade de ter uma mídia mais organizada, nem que seja postar as coisas usando o Canva ou sei lá, editando as coisas no Capcut.

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22 outubro 2023

DOC 003: TRÊS PONTOS SOBRE OS NÚMEROS DAS REDES

Como sempre segue o vídeo no final.
Qualquer pessoa que já postou qualquer coisa na internet sabe muito bem a sensação de postar uma coisa e sentir que aquilo não teve impacto nenhum. Uma postagem ou outra de vez em quando ganha alguma notoriedade maior - o que só cria um efeito maior de frustração porque as outras que você fez depois não tiveram a mesma visualização. Isso você usuário comum de internet até os criadores com seus milhões de espectadores. Há uma certa hipervalorização dos números. Todo mundo vira um estatístico. Não me entenda errado, estudar estatística é relevante e ter uma audiência numerosa também é importante. Não é difícil chegar num consenso em relação a isso, é de interesse de todos que o que você diga, independente do tipo de mensagem, seja muito espalhado e se torne algo relevante. Isso dá para quem transmite a mensagem um determinado status social e etc tal. O menino Byung Chul Han tem um texto sobre essa nossa tara por números, é um dos capítulos de um de seus livros (é o Psicopolítica, fala sobre dataísmo). O meu foco não é tão amplo dessa vez, essa seção do blog é uma espécie de documentação minha sobre fazer um blog, sobre criar conteúdo, sobre os problemas, as inseguranças disso, etc. Eu quero deixar alguma pista para quem depois tentar se debruçar a fundo sobre o tema. Meu foco aqui é mais na audiência e nas pessoas que fazem conteúdo (ainda que uma leitura mais ampla também os abrangesse). O meu problema com essas leituras é que ainda que elas consigam explicar o problema, como ele acontece, os seus mecanismos ideológicos, eles oferecem pouco conteúdo prático. Eu li umas 3,4 literaturas de Han, fora os vídeos sobre os assuntos que ele trata e mais uma série de autores, posso dizer que eu domino relativamente bem o tema. É muito assim, ok, sociedade do espetáculo, neoliberalismo individualista, o liso (ninguém quer atrito), sociedade da positividade, etc. O que eu faço com isso ? Acho que a primeira prática que a gente precisa mudar é o nosso foco constante em números, estatísticas de visualizações, de hashtags, etc e passar a tratar o nosso papel, como comunicadores, seja em postagens casuais à criação profissional de forma mais humanizada. Volto a repetir, não estou defendendo uma abolição da ciência de dados nessa questão. O que eu estou querendo dizer é que tem outras coisas que são mais importantes. Estar na internet é muito solitário, mesmo para a pessoa que tem seus milhões de seguidores como audiência. É fácil cair num certo niilismo, de entrar num ciclo de produção e reprodução infinita, onde você se perde e se torna apenas mais uma máquina de imprimir dinheiro. (Você usuário também não escapa de ser uma vaca leiteira de dinheiro, já que o seu scroll também vale dinheiro para as plataformas) A primeira coisa que eu acredito que seja mais importante, por exemplo, é ter uma comunidade, ter um grupo de pessoas que por mais que a única coisa em comum seja te seguir, elas entre si consigam formar laços de solidariedade e que você também possa firmar esses laços. E aqui, não importa tanto se você tem muitos seguidores. A maioria dos criadores que não é hiper famoso vive com uma comunidade pequena e bem unida. Isso dá uma certa liberdade editorial de produzir o que te deixa mais à vontade e sua audiência te acolher, possibilita que você possa produzir mais vagarosamente e com mais calma, porque você sabe que vai ter apoio. Claro, estou falando num cenário de uma comunidade bem unida, coesa, e tal. Eu já ajudei a criar, participei de uma série de comunidades, seja live, seja youtube, etc. A melhor parte é poder ter quem compartilhar as coisas, poder discutir coisas que vocês gostam, se divertir junto fazendo alguma coisa. A segunda coisa que eu acho mais importante de considerar é que o que você faz é importante para alguém, seja para uma pessoa (você mesmo), duas, três, sei lá. Falar para uma meia dúzia de gente é tão importante do que falar para três mil, quatro mil. Os seus professores num ano letivo falam com uns trezentos alunos, o cara que faz show de rua deve ver umas mil pessoas ouvindo sua música, o palestrante médio deve ter cinquenta pessoas numa sala. Vou falar por mim, eu tenho um vídeo de uma música com trezentas visualizações, quando que eu imaginaria que trezentas pessoas ouviriam a minha música e ainda por cima gostariam dela ? Aqui ainda estou falando em números, mas eu preciso que você ponha em perspectiva que cada um desses números é uma pessoa, é uma vida que mudou um pouquinho porque você passou por ela. Me deixa feliz saber que eu pude inspirar alguém, que algo que eu fiz ajudou de alguma forma e me incentiva a fazer mais. Novamente vou falar da minha experiência, quando eu fiz o mini-álbum [real socialism] o meu estado de espírito estava muito ruim. Desempregada, desanimada com a faculdade, sem meus remédios - eu não tava muito bem não, aí eu sentava e ia fazer essas músicas no LMMS, ficava umas horas, aí editava uma capa legal e porque eu gostei do processo de fazer, me ajudou a melhorar e aí quis compartilhar com as pessoas. Pela minha grande surpresa, muita gente gostou das músicas. Isso foi importante para mim como uma pequena criadora e vi que tem pessoas que gostaram também, que aquilo foi importante para elas de alguma forma. É aquela coisa, por conta de uma questão de números, nós deixamos de dar valor para a cultura como algo localizado, algo efêmero, pequeno, íntimo. Claro que tem uma parte da internet que entende isso muito bem - a indústria do conteúdo adulto. Ela investe fortemente no específico, no mais profundo e secreto desejo - uma das regras da internet, por assim dizer, é se algo existe, logo tem pornografia sobre. Saindo da internet, se a gente fosse levar tudo na quantidade de número de pessoas, sei lá o que, a gente não fazia muita coisa. O terceiro ponto é que nem sempre aquela quantidade de números das redes sociais existem ou sequer importam. É fato que muita gente que possui milhões de seguidores, não tem lá muito engajamento dentro do seu conteúdo. É também fato que o que não falta são pessoas que compram esses números de seguidores e mais um fato, é que tem pessoas que começam tendo uma literal equipe de TV online, para ajudar a gerenciar tudo, enquanto tem gente que mal tem um celular decente. Você aí ferrado, que gosta de fazer vídeo, que faz música, que faz sua arte - você muitas vezes tem mais engajamento, tem uma comunidade mais ativa e mais interessada, que muita gente famosa da internet. É mais ou menos isso que eu gostaria de falar aqui. O vídeo do Guilherme (desculpe se errei o nome dele) mostra muito isso. Ele de longe não é alguém famoso, alguém com números assustadoramente bizarramente grandes, mas o Gui consegue fazer algo importante, algo relevante, principalmente se tratando de música que é trazer uma perspectiva mais marxista para uma tema dominado por um bando reacionários cornos. No vídeo dele me fez pensar nisso que eu escrevi. Às vezes, a gente acha que sei lá, ninguém liga para o que gente faz, mas tem gente que sente falta quando a gente não produz, tem gente que fica ansiosa pelo nosso próximo trabalho, tem gente que legitimamente fica preocupada quando alguém que elas seguem não posta ou não aparece. É importante, tem impacto e expandir uma comunidade, no sentido mais socialista possível, não é ter um número esmagadoramente grande e pronto, é também conseguir acolher o máximo de pessoas possíveis da forma mais amigável e fraterna que a gente conseguir.



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