26 fevereiro 2024

DOC 007 : comentário sobre Normose e o Lulismo

 

Me faça um favor e assista o vídeo antes :

 


 

Desculpa, eu nunca gostei muito das análises do Normose. Não é que eu ache ele ruim, ou que eu ache que de alguma forma ele não contribua com o debate público, não sei se exatamente é o tom, a estética dele, a forma que ele gosta de abordar os assuntos.


Para isso eu quero comentar usando um pouco essa ideia de que cada assunto, existem camadas e camadas que você pode destrinchar. Por exemplo, no que tange o petismo, o senso comum é dizer que é um partido de esquerda social-democrata. Sair desse senso comum seria dizer que o petismo na verdade é, de uma maneira geral social-democrata, mas liberal e que mesmo dentro do partido, por conta da sua organização por correntes, existem disputas internas, inclusive com correntes marxistas-leninistas, outras trotskistas, etc. Aqui a gente já estaria saindo do senso comum e fazendo um debate mais qualificado.


Porque estaríamos discutindo a política na prática, suas posições, contradições materiais, etc. Você tem mais material para trabalhar, a discussão se torna mais complexa e possível de traçar práticas de ação. Tipo assim, eu quero levar o debate para a prática : importa saber qual corrente do PT é o governador da Bahia e o ministro da Casa Civil. Já que isso vai ditar basicamente, como se vai lidar com eles politicamente, se vamos nos antagonizar ou não, como vamos pressionar eles, etc. Nesse ponto Normose nunca chega e isso me incomoda bastante. 


Normose (meio que sempre fez isso) no meu ponto de vista, não sai muito do senso comum. Nesse sentido, para mim, ele só parece sair do senso comum, quando na prática, todo o discurso dele continua sendo o senso comum com uma simulação de ter descoberto a saída da caverna de Platão, quando na verdade não saiu nem de perto da fogueira.


Nós aqui no blog já discutimos o quanto que essa política neoliberal vai ser um puta tiro no pé, todo o discurso de Jones já mostra que existe essa percepção (ele inclusive fez um vídeo falando isso), eu já falei mil vezes disso comentando o ministério de Silvio Almeida e já está se formando um certo consenso, que isso vai ser um ponto fraco a ser explorado pelos adversários políticos. 


Nesse sentido, eu gosto mais de quando Jones discute isso, porque deixa bem mais claro a sua própria posição, ele mesmo como um adversário do petismo na esquerda, ao mesmo tempo que aponta que todo mundo vai fazer isso. E de certa forma é uma coisa que mais prejudica do que ajuda a esquerda, já que no imaginário popular ser de esquerda é ser petista - muito por isso, ao mesmo tempo que Jones se aproveita disso para pressionar o governo e suas bases, ele mesmo quer ganhar um espaço político fazendo esse tipo de crítica, ao mesmo tempo que também aponta que a direita pode usar isso e prejudicar toda a esquerda de uma forma geral. A preocupação do Jones em fazer críticas mais qualificadas, pegando bibliografia, usando mesmo de sua formação em história, resgatando críticas velhas ao petismo, etc, mostra exatamente esse dado da realidade que esse governar neoliberal abre uma brecha enorme para a direita ganhar espaço - Ainda que o projeto dela seja praticamente a mesma coisa.


Se você colocar um maoísta, um petista e trotskista, ou sei lá, a maioria da população nem sabe do que você está falando - tá de vermelho é petista, no máximo sabem quem é o PSOL, que já tem aquela imagem negativa de “partido de DCE”. Então se o governo vai mal, é ruim mesmo para quem não tem nada a ver com o PT ou até se posiciona como uma oposição de esquerda. A posição hegemônica do PT na sociedade brasileira o coloca numa posição que é de interesse, mesmo de quem não é o PT mas é de esquerda, que ele seja bem visto, para poder no mínimo conseguir fazer sua militância política.


Por isso é problemático, por exemplo, até agora o governo não ter lidado com os militares que ainda sabotam a ajuda aos ianomâmis - Isso é jogado no colo da esquerda de uma maneira geral, sendo que a crise começou no governo Bolsonaro e acontece justamente porque existem quadros do bolsonarismo na região. Entende que ir mais fundo, sem subestimar a inteligência das pessoas, mostrar as relações que existem, nesse caso, o jogo político que está posto, nos faz entender melhor o que está acontecendo.


O Normose repete muito o vício de alguns jornais liberais que é soltar grandes frases, fazer grandes afirmações, como se elas fossem uma verdade absoluta no momento e não explica muito o processo, não consegue capturar o movimento do real na sua análise. Até porque, enquanto liberal ama ser autor de tudo, de estar sempre certo e ficar na punhetação eterna, o marxista quer discutir, quer errar, quer reavaliar - nós somos cientistas.


Acho que um começo para eu gostar do Normose seria ele parar de ser tão irônico até a metade do caminho. Não sei se eu estou conseguindo explicar bem isso : mas todo vídeo do Normose tem essa vibe de “quem assiste isso é muito inteligente” e é muito bom em convencer o público que sabe o que ele fala. Então muitas vezes algumas piadinhas, alguns jargões, o tom do vídeo, fica muito esteticamente “sabichão” por assim dizer. (A título de nota : Paulo Ghiraldelli sofre muito disso também, mesmo que de verdade tenham coisas que ele de fato saiba).


Eu sei a função disso, é a mesma coisa que toda religião faz ao chamar seus seguidores de “pintos dourados da sabedoria divina” - tem a função de capturar a audiência, já que quem não quer ser um “pinto dourado” ? Quem não quer ser especial ? Fazer isso é muito o reflexo dessa economia de merda que a gente vive, tudo é assinatura, tudo é precarizado, então você precisa ser praticamente uma seita para se sustentar na internet.


É um pouco meu problema com outro canal, o Quadro Branco. A forma que a gente escreve e comenta alguns temas, muitas vezes nos coloca numa posição autoritária em relação ao leitor. Por exemplo, tanto o Normose como o Quadro Branco, no meu ponto de vista não abrem muito espaço para quem assiste absorver as informações e tentar pensar sobre.


O autor impõe uma leitura para o leitor, antes mesmo daquela leitura ser absorvida. Eu acho que querer ser sério com algumas pitadas de humor, sem ser na prática muito aprofundado no assunto, faz mais mal do que bem. Tem um vídeo do Quadro Branco que eu não esqueço porque ele me incomodou profundamente, ao ponto de ter feito vários textos sobre na época e ter ficado até constrangida em mandar para ele, ou em publicar no meu velho blog pessoal no medium (sob outro nome)


É um vídeo relativamente antigo sobre masturbação ou algo assim, onde a tese dele é que a gente é moralmente ruim por gostar de pornografia e sei lá, sujo. Sinceramente, me incomoda a ponto de não querer nem resgatar isso na minha memória, mas me incomodava muito ele dar uma opinião senso comum com um tom de saber tanto sobre o tema, que o vídeo só funcionava para a gente reafirmar uns preconceitos que a sociedade já tem no geral. (Só a título de nota : É SAUDÁVEL SE TOCAR, PAREM COM ESSA MERDA PURITANA).


Então, as pessoas, da bolha da esquerda na internet, já sabem de tudo o que o Normose tá falando, nem é uma questão dele ter demonstrado isso, mas um senso comum, um megafone, mais um texto para gente ficar referenciando sobre um assunto, que na prática só reproduz um senso comum que todo mundo que acompanha minimamente política já está sabendo : teto de gastos e ficar cedendo tudo pro inimigo vai dar ruim, porque já deu ruim, nós vimos isso acontecer literalmente.


No final do dia, são boas thumbnails, são headlines muito interessantes, é muito claro que o Normose um dia quer ser uma produtora de documentários como o Brasil Paralelo, só que de esquerda. Mas veja, o que a direita apela é o senso comum, é exatamente apostando na ignorância das pessoas que fica fácil fazer coisas como “a verdade sobre a ditadura militar”. É fato que na escola, mesmo antes deste ensino médio ruim, nós não estudamos nem o básico da ditadura militar.


As pessoas querem saber das coisas, elas querem estudar, a escola pública não consegue suprir essa necessidade por uma série de razões, o Brasil Paralelo se aproveita exatamente dessa brecha : boom, as pessoas querem saber da ditadura, então eles apelam muito para essa noção de ideia oculta, de conspiração disso, daquilo, de uma metafísica esquecida, de frases bombásticas, etc. 


O meu problema com esse vídeo do Normose é que ele reproduz muito essa lógica de forçar uma leitura no leitor sem de fato fazer o leitor chegar lá e até mesmo, pôr as questões em perspectiva para debate. Tanto que ele faz a coisa que eu mais odeio do mundo que é ficar fazendo disclaimer, ficar avisando que não quer conflito, que gosta do PT, etc, etc - Isso para mim é sinal que ele sente que vai ser mal entendido.


Gente do céu, sejamos adultos, se você tem um público que não consegue entender uma crítica sua à um partido que você defende, etc - será que você tá fazendo um bom trabalho de comunicação ?


E assim, isso de querer se comunicar com todo mundo sem exigir minimamente que a gente esteja no mesmo lugar, não rola. Existe uma coisa chamada público-alvo : adianta eu fazer um vídeo sobre o assunto político para internet querendo atingir absolutamente todos os públicos ? Não, porque a minha linguagem vai cair em desentendimento, ela vai ficar rasa, etc. Até por uma questão pedagógica, você não exige menos ou mais, você exige que o aluno consiga fazer uma transição da chamada cultura popular para a cultura erudita - isso é Freire.


Não existe conhecimento inferior ou superior, existe só falta de conhecimento. Nós estudamos para sermos ignorantes melhores, para saber melhor o que a gente não sabe, não para se convencer que sabemos tudo sobre o mundo. O Normose, para mim, reforça muito esse estilo de formação pronta, ao passo que ele não dá muito espaço pro seu leitor, ter uma perspectiva geral mais complexa.

 


Enfim, Normose, se você leu isso, não fique triste, não é nada pessoal, a nossa relação é meramente parassocial, eu sou um rosto na internet assim como você, não temos sentimentos um pelo outro.


O nosso problema como esquerda radical é que a gente consegue apontar bem as contradições do PT e do chamado “campo democrático”, mas a gente ainda depende deles para fazer tudo. Aquela coisa, foi um escarcéu a UP e o PCB lançarem candidatos à presidência, para no segundo turno ter que votar no PT igual todo mundo. A gente reclama o ano todo da falta de radicalismo do “campo democrático”, mas para fazer uma política pública nossa, a gente depende das máquinas partidárias deles que ocupam o Estado para executar essas políticas públicas….


O problema é que o petismo é um realismo capitalista, é um limite para o que a esquerda faz na democracia burguesa, é o “real”, o fim da história. Se torna impossível construir qualquer coisa além disso, ESSE É O PROBLEMA.

Marcadores:

24 fevereiro 2024

Vamos parar de ouvir o pessoal do Twitter ?

Mais um texto curto.

Por que a gente não leva a sério o 4chan e leva o Twitter ? Isso é uma pergunta legítima. É sempre assim : um ponto péssimo sobre determinada coisa, quase sempre vem ou do Twitter ou do 4chan.


A plataforma já era ruim e só incentivava briga, Musk conseguiu aumentar o fator “nazi” lá para as alturas. Chegou no ponto que tem tanta gente reclamando do Twitter e que continua usando, que já nem faz sentido levar a sério.


É igual querer ouvir a opinião de um channer sobre mulheres, você vai ouvir algo diferente de misoginia ? E assim, é muito clara a função ideológica do Twitter em ser um espaço que transforma o debate público no pior que ele pode ser.


A direita de verdade, ou cavaleiros do capitalismo, tem a grande mídia, tem as universidades, tem juízes, delegados, legisladores, médicos. O que você vê na internet é peixe pequeno, o alvo é muito mais em cima.


Aquela coisa, é importante colocar o lixo no seu lugar ? É, mas mais importante é achar de onde ele tá vindo. Isso é um pouco de uma falta de compreensão do que é militância política de uma maneira geral. Esses Nikolas Ferreira da vida não chegam lá por magia, tem dinheiro, tem uma estrutura político-partidária, as pessoas contratam profissionais para fazer as coisas por ele, existe toda uma equipe por trás.


Se a política vira mais um reality show, mais um programa para assistir na TV, tanto faz as coisas que são ditas desde que seja entretenimento e capture uma audiência. A questão é quem faz a realidade no reality show ? Quem constrói o teatro ? Quem financia ?


Bolsonaro é Reagan na República das bananas. A direita quer fazer o showzinho dela, enquanto tem uma direita que ainda não chegou na pós-modernidade. Foi esse choque que fez parte da direita virar anti-Bolsonaro.


Por isso eu odeio muito Debord e Baudrillard como pensadores, eles sabem apontar que existe um circo e conseguem até fazer uma descrição muito acurada de cada um dos espetáculos, e aí ?


Responde francês, o que a gente faz com isso ? Até o Derrida tem uma resposta e ele é francês também. Enfim…


A questão do capitalismo, na amplitude do que ele é e significa, é que ele é a forma mais “eficaz” em reproduzir a vida. O que não significa que é a única, nós estamos vivos, existem povos e culturas originárias vivas no presente, o que não falta é projeto político disputando com o capitalismo, inclusive velhas práticas muitas vezes são retomadas nele e mantidas. O que é o Brasil senão o mesmo Brasil colônia de sempre ?


O ponto é que temos que encontrar uma forma de reproduzir a vida que supere o capitalismo. É uma coisa no nível antropológico mesmo, no sentido de evolução das espécies como descrito por Darwin, a ideia de adaptação. A nossa forma de vida precisa ganhar na luta pela sobrevivência. Por isso Darwin e Marx são tão próximos como cientistas.


E gente do céu, CIÊNCIA SOCIAL É CIÊNCIA, PUTA MERDA. Parem de ser negacionistas e obscurantistas. Deus não existe, o rock está morto.




Marcadores:

22 fevereiro 2024

A fala de Lula


Não pretendo fazer um texto muito grande sobre o assunto, já até falei sobre como me sinto aqui, então não vou me estender.


É muito engraçado ver essa dicotomia de Lula international e Lula nacional. Lá fora defende políticas contra a austeridade enquanto internamente faz um teto de gastos. Diz que é anti-imperialista ou algo assim, mas não pisca o olho para vender parte da infraestrutura para monopólios estrangeiros.


Era questão de tempo o Lula international começar a afetar o Lula nacional, já que só imbecil dissocia política nacional de internacional. A geopolítica afeta (e muito) a capacidade de fazer certas políticas nacionais. Literalmente, estamos falando de sofrer sabotagem se escolhermos um parceiro X ao invés de Y, disso para assassinatos de militantes. Cuba não faz certas políticas, porque não pode comprar determinados materiais, muito da política de guerra da República Popular da Coréia existe pelo fato de estar cercada de grandes potências militares, os Estados Unidos tem essa política de guerra constante para sustentar sua indústria gigantesca de guerra e por isso é importante manter focos de conflitos pelo mundo, vide a periferia do Oriente Médio, parte da África no norte e agora parece querer avançar pro sul da Ásia.


Essa fala de Lula acabou unificando os dois Lula e mostrando as suas contradições. Eu acho às vezes que Jones está muito viciado em Habermas por apostar tanto no debate público, mas uma coisa ele consegue demonstrar quando destaca que boa parte dos ministros de Lula ficaram em silêncio, deputados, senadores, etc, não haviam comentado sobre a Palestina. Enquanto a chamada “oposição” (lembrando que alguns são da base do governo, por exemplo o União Brasil e cia) durante todo conflito foi bem vocal e não mediu esforços para se expressar à favor de Israel - tem aquele embaixador de Israel que inclusive esteve com Bolsonaro que agora virou praticamente um criador de conteúdo.


Os monopólios de mídia fazem uma cobertura completamente reacionária da guerra, tratam Israel como o último bastião de democracia do Oriente Médio, enquanto tentam passar uma maquiagem em cima do massacre. E assim, eu nem comentei sobre as políticas públicas que Lula defende lá fora e que não faz aqui dentro, o mais visível é lá fora falar contra austeridade e ter uma política de austeridade guiada por Haddad.


Essa situação toda diz uma coisa importante e muitos analistas vêm dizendo a mesma coisa : Lá fora o Lula não tem Arthur Lira, não tem centrão, não tem os monopólios de mídia para ficar brigando, por isso um foco tão grande em fazer política internacional. Mas existe um limite muito claro nisso - o Brasil não consegue entrar muito forte na aliança dos Brics porque isso significaria mudar a política nacional de desenvolvimento e isso afetaria diretamente a relação de forças internas. Isso explica porque o Brasil não foi mais firme contra Israel, já que internamente tinha que lidar com uma série de quadros políticos favoráveis à Israel. Imagina ter que lidar com essa claque histérica agora quando tinha que resgatar pessoas lá do meio do conflito.


O que Lula international quer fazer é prejudicado pelo Lula nacional, porque não tem como fazer uma política internacional dissociada da nacional e vice versa. Realmente, o melhor que Lula faz ao tentar evitar o embate político interno e focar tanto na política externa, são bons discursos, já que para fazer um pouquinho que seja das políticas que propõe nos discursos internacionais, é preciso fazer o embate interno. Inclusive para o Brasil se tornar mais relevante internacionalmente, seria importante uma política nacional mais firme e que tornasse o Brasil um país mais importante para a América Latina e todo sul global.


Mas vai explicar isso para o liberal, ele vai ter chamar de stalinismos.

Marcadores:

20 fevereiro 2024

Bolsonaro, ainda relevante ?


 

Toda vez que se ouve o nome Bolsonaro, bate uma canseira tremenda. Há certo tempo atrás, nós até tínhamos uma certa paciência para gastar umas horas explicando o fenômeno, hoje bate apenas uma preguiça tremenda.

Isso porque parece que o que impera é um cansaço geral. Nada mobiliza mais as pessoas que o bolsonarismo, seja positivamente ou negativamente.


Existe uma certa recusa em destruir o bicho de uma vez. Quero chamar atenção pro fato de que o “campo democrático”, isto é, a esquerda institucional, tem uma aversão à organização popular. Toda vez que se fala em organização, os fantasmas de Hannah Arendt e de Leon Trotsky, surgem para combater o “totalitarismo”.


De repente, não pode ter hierarquias, tarefas, estudos, leituras, é esperado que se faça militância por boa vontade, por “amor à humanidade e aos valores democráticos”. A questão é que o coletivo anarquista mais fraco TEM UMA ORGANIZAÇÃO. Se você não vai adotar a organização leninista, você precisa adotar alguma outra forma de se organizar, se você vai ter eficácia ou não, isso é uma outra discussão.


Então, esse “campo democrático” acaba por depender muito de uma reação autônoma, precarizada, individual, de pessoas e instituições que são afetadas de alguma forma pelo bolsonarismo.


Isso por si só não destrói o bolsonarismo, mas mobiliza quadros do “campo democrático” preparados para colher os frutos eleitorais. É uma questão puramente eleitoreira, o que fica claro com esse ano de governo é que o “campo democrático” tem muita preocupação em conciliar com quadros do bolsonarismo.


Basta a gente ver que o grande esforço do governo em agradar quadros do União Brasil, ou a puta dificuldade de lidar com Arthur Lira - mesmo com toda crise de Maceió.


Esse é o motivo político do bolsonarismo ainda não ter sumido, não só suas bases sociais continuam existindo, como o “campo democrático” depende deles para mobilizar suas bases desorganizadas.


Outra razão é a necessidade da mídia burguesa em ganhar cliques. Claro, isso tem a questão da dinâmica da internet, mas é muito visível que existe um certo vício por um espetáculo jornalístico como a Lava jato e os 4 anos de Bolsonaro, foram um espetáculo em si.


Toda semana ou melhor todo dia, tinha alguma bizarrice para publicar do Bolsonaro. Com a vitória do Lula, se perdeu um pouco disso, mas é muito visível o esforço da mídia em sugar cada segundo possível da sua atenção falando de novo do Bolsonaro.


É muito por isso que ele nunca some do debate público. O fantasma dele é invocado em toda discussão, tanto por ele ainda ter uma base mobilizada, tanto por ele ainda ter gente que se mobiliza contra ele de forma espontânea, tanto porque a mídia sem assunto depende de um espetáculo para apresentar. Não é uma disputa fácil, ainda que não seja a coisa mais difícil do mundo para a mídia burguesa, competir por atenção na internet.


Aí você cria uma situação que um cara, que vai, tem uns filhos com cargo público, aliados por todo canto, mas já não é lá tão importante, se torna centro do debate público novamente porque as pessoas precisam dele, seja na direita para mobilizar bases de sempre, na esquerda com o anti-bolsonaro, a mídia lutando por atenção e pela briga para poder transmitir.


É um tipo de disputa falsa. Já que ela não pode ter um vitorioso, nós ficamos nesse eterno impasse. É até engraçado porque o bolsonarismo não consegue ter embate com a esquerda radical, já que a mesma não tem o tamanho que o “campo democrático” possui. Então, o petismo é a única coisa que eles podem apontar e fazer pânico moral.


Para se dizer, no mínimo estamos diante de um cenário político broxante. Sabe quando nenhum estimulante funciona em você de tão depressivo que você é ? E aí você começa a tentar um monte de coisas diferentes e nenhuma delas funciona ? Depois você acaba voltando à velha rotina de sempre, por que é a única coisa que você consegue fazer ? Eu sei que é um exemplo muito específico, mas ele expressa bem a sensação, é um quadro de depressão social de um povo cansado.

Marcadores:

17 fevereiro 2024

Por que o golpe de 8 de janeiro deu errado ?


 

Depois de assistir a análise do Pitilo , e observando a direção que toma o governo Lula, acho que é possível, dentro das informações que foram publicadas, traçar alguns motivos do possível golpe de Estado não ter funcionado.

Eu quero explorar uma hipótese que é a seguinte : as elites, apesar de terem ficado muito ricas com Bolsonaro, e não se engane, é certo que o apoio em Bolsonaro veio dessa promessa, a grande questão é num médio-longo prazo, não é bom para essa elite, aumentar a desigualdade, fazer as contradições de classe crescerem, porque isso mobiliza as pessoas, o marasmo do neoliberalismo é superado por uma questão de necessidade.

Ninguém consegue um emprego fixo, ou um trabalho que não seja precarizado, o funcionalismo público é sucateado, as aposentadorias são comidas pela inflação e cada vez mais pessoas ficam pobres por conta da falta de políticas públicas. Chega no ponto que realmente, não há o que perder senão as correntes.

Viver a vida medíocre do dia a dia se torna impossível e isso leva muita gente a se politizar. Isso não é necessariamente uma relação de causa e efeito, mas uma tendência geral. É fato que durante o governo Bolsonaro, mesmo os centristas mais ferrenhos, fizeram uma mobilização mínima, contra ou a favor, porque dentro da política era a única forma de atingir seus objetivos.

Acaba que o status quo começa perder toda aquela solidez e isso abre espaço para uma radicalização. O fascismo que surge como um mecanismo de defesa do status quo, aumenta a crise e os comunistas voltam a ser uma ameaça considerável.

Pode até ser que se consiga fazer muito dinheiro num prazo muito curto, como muita gente conseguiu fazer, mas num médio-longo prazo, isso pode significar uma sociedade mais politizada, seja na direita ou na esquerda, já que ninguém ganha mais nada tentando jogar o jogo do momento, por assim dizer.

Esse é o ponto que vejo poucos analistas comentarem : O neoliberalismo é uma quebra daquela velha ordem capitalista. Existe uma ordem social, uma ordenação, um conjunto de costumes, que justificam determinadas tradições na sociedade.

Estudar, trabalhar e no final se aposentar - esse velho roteiro do fordismo se quebrou. Estudar perdeu todo poder social de antes, não te garante nem um emprego básico muitas vezes. Trabalhar, seja CLT ou autônomo, nunca foi algo tão incerto e confuso. Por fim, aposentadoria nem é um horizonte para muitos jovens.

O que fica muito claro com os projetos do governo que incentivam empreendedorismo, que dão setores chave para a iniciativa privada, que mantém uma austeridade até maior do que antes, etc, é que é muito melhor você ter uma sociedade dócil, despolitizada, que continua trabalhando e tem algum direito social, do que uma que pode o mobilizar milhões de pessoas nas ruas.

A função das políticas públicas no neoliberalismo é evitar um caos social maior causado pelo laissez faire. Estar dentro da linha acaba por valer a pena. Essa falta de tato de Bolsonaro, ou seja, essa falta de sensibilidade política mínima, foi o que fez ele se tornar tão impopular e perder em 2022.

Há uma naturalização da agenda neoliberal. Fora do círculo social normal, você ouve bem menos sobre política do que na época de Bolsonaro. Isso é muito sintomático do projeto petista, em grande parte e isso também vale para as elites, as pessoas votaram em Lula para ter o mínimo de paz.

Você pobre com certeza toda semana já estava cansado do presidente zerando os códigos penais, das maluquices, das medidas reacionárias, etc. Enquanto gente rica, que vive de exportação, apesar do lucro aumentar e da possibilidade de grilagem etc, facilitada, toda semana era uma instabilidade que Bolsonaro fazia que o mercado ficasse instável.

Veja o que tanto Temer e Alckmin dizem dia sim e dia também : é preciso confiança, preciso tranquilidade, preciso diminuir a radicalidade. Isso o governo Lula sempre ofereceu, eu acho que a raiz do fracasso de Bolsonaro mora no fato de que ele causou tantos problemas ao Brasil, que mesmo seus aliados começaram a sair prejudicados.

Chegou num ponto que o lucro no curto prazo em algumas décadas poderia virar um grande movimento popular e é isso que, na perspectiva das elites, não pode acontecer e é interessante observar o quanto que o petismo oferece uma normalidade, estabelece um tipo de marasmo permanente, naturaliza certos problemas e mantém de certa forma, essa despolitização geral que gestou Bolsonaro firme.

Nesse sentido, 8 de janeiro foi um fracasso porque as elites viram em Lula, da mesma forma que muita gente pobre lembra do passado glorioso dos governos Lula, muita gente da burguesia queria toda aquela lucratividade sem o medo da revolta popular.

E acredite, se em 4 anos o Brasil se politizou, quase uma década de Bolsonaro com certeza iria aumentar a atividade política, seja na extrema-direita, seja na esquerda radical.

Claro, podemos analisar outros aspectos da economia, da geopolítica, etc, mas é muito claro, inclusive olhando a blindagem do exército, o tipo de retórica de “eram só os perto do Bolsonaro”, indica que a questão do golpe e do governo atual, é que o projeto do PT é o mesmo projeto das elites e que apesar da “derrota”, era muito melhor “ceder” e manter o poder numa perspectiva de longa duração.

É interessante porque o que fica muito claro nesse 1 ano de Lula III é que o projeto político é uma versão bem acabada e possível de ser feita, do que de Bolsonaro.

O que me preocupa é muito isso. Lula pode até ter ganhado as eleições, mas o programa político que ele executa não é o que ele prometeu.

É importante nós termos isso em mente quando vamos analisar o governo Lula. O fascismo continua na espreita porque a base sociopolítica que o fez aparecer continua existindo. A vida não melhorou magicamente com o governo Lula, nem poderia, especialmente quando o projeto político é o mesmo.

8 de janeiro foi uma tentativa de Bolsonaro manter o seu poder político, mesmo com a falta de apoio das grandes elites. A grande questão é que com Bolsonaro o Brasil ficaria um caos, e isso não dá lucro. Aquela coisa, a Inglaterra pressionou o Brasil a abolir a escravatura não porque ela é anti-racista, mas porque ela perdia um grande mercado de consumidores - ninguém transformou o brasileiro em mais consumidor que Lula.


Marcadores:

15 fevereiro 2024

report 021

O bom de se medicar é que eu não fico sentindo "o que deveria sentir". Nesse caso, seria uma sensação quase que infinita de cansaço e solidão. Não é a toa que boa parte do que eu andei escrevendo tem essa pegada de fundo.

É de certa forma bom que eu sei bem a causa e que pouco eu tenho o que fazer em relação à isso.

Marcadores:

14 fevereiro 2024

O que faz seu artista favorito ser cooptado ?

Jpegmafia é um rapper conhecido por fazer músicas com um viés mais de esquerda radical. Kanye West por outro lado…


E recentemente, Kanye West lançou um álbum Vultures e nesse álbum, Jpegmafia produziu uma série de músicas. Muitos fãs viram isso como problemático, já que seria algo completamente conflituoso com o que Jpegmafia dizia em suas músicas, sobre bater em fascistas e matar policiais.

Eu acho e aqui até uma questão das pessoas não compreenderem muito essa relação de artista e um fã, como também uma certa incompreensão da estrutura econômica que sustenta o status quo.

Jpegmafia nunca escondeu ser fã de Kanye West, e diferente do que muita gente toma como opinião dele, sempre vinha de forma muito ambígua, performativa nas músicas, suas opiniões no Twitter e Instagram sempre foram conhecidamente shitpost. Existe uma certa performatividade excessiva por conta da nossa era digital.

O que muita gente não presta atenção num artista como Jpegmafia (e mesmo o contexto cultural, momento histórico e sua vida de preto na América) é que ele nunca fixou muito bem suas ideias. No sentido de que o que ele falava por aí e tal, nunca passou muito de palavras ao vento.

Existe aqui um pequeno teatro. Pode ser até que alguma coisa do que ele diz, ele realmente acredite e até mesmo seja um bravo defensor, mas muita coisa é parte do show. Muito do que eu vou dizer vale para muitos artistas de punk, vaporwave, para a música gótica, para o grunge, por exemplo.

Podemos dizer que até o hair metal, existia uma separação entre palco e “vida real” por assim dizer. A banda que mais radicalmente, só para servir de exemplo, é muito claramente isso é o Kiss.

No palco eles são rockstars e na ”vida real”, pessoas comuns e tal. Isso começou a mudar gradualmente quando a vida do artista começava a sair dos palcos e ganhou esse status de vigilância perpétua atual. Mesmo o Kiss passou por isso.

Não bastava mais fazer uma performance teatral no palco, a vida fora dele passou a ser tão importante quanto. Não bastava fazer um grande show num palco, era necessário ser tudo aquilo que se diz que é no palco. O punk rock é um bom exemplo dessa prática, não bastava falar um monte de coisa no palco, era preciso “ser punk de verdade”.

Claro que aqui, estamos resumindo por brevidade, mas é muito claro que essa condição do trabalho é generalizada.

Tudo começa com o seu patrão podendo te ligar no telefone fixo, passando pelo pager, pelo telefone tijolão até chegar na comunicação instantânea do smartphone. A sua disponibilidade, assim como sua “máscara de trabalhar” precisa ficar o tempo todo em alerta. Você não pode mais bater o ponto e largar o corpo de drone corporativo, é preciso ser um drone corporativo o tempo todo.

Para os grandes artistas, que foram o laboratório desse tipo de trabalho performático que todos fazem hoje em dia, isso obviamente veio mais cedo.

A grande questão que eu quero apontar é que, e isso é muito óbvio quando a gente fala de Kanye West, de um lado, existe uma “falsidade” generalizada que faz com que “parecer mais verdadeiro”, vire um valor moral positivo. Não precisa ser um grande gênio para ver que a “falsidade” é generalizada e isso tem causa, na organização político social da sociedade neoliberal.

“Dizer o que pensa”, “passar a real”, são coisas que recebem um olhar muito positivo das pessoas. Mas a grande contradição aqui é que mesmo essa “autenticidade” (e dentro dessa teoria do jogo moral capitalista, não tem coisa que faça mais sentido) pode ser simplesmente emulada.

Da mesma forma que se finge acreditar em Deus para não sofrer uma exclusão social, muita gente faz determinados “tipos ideais” com o propósito de ganhar algum benefício social em certos campos. Na mesma medida que uma empresa diz que tem o melhor produto do mundo, você como uma mercadoria, faz a mesma coisa quando coloca o rosto de funcionário do mês honesto.

Muito por isso que Nietzsche defende ser imoralista, porque conforme o valor moral corrente, por mais que até exista esse ser ideal ascético da cabeça de Platão, Kant e cia, não tem nada que impeça que no “jogo social” nós, que temos todo tipo de defeito, de simularmos o que é bom para se beneficiar do prestígio social, isto é, do poder político que parecer o bonzinho moral te traz ou de inventar uma moral que nos coloque num palanque de fodões.

(E claro, a gente pode dizer que Nietzsche quer dar uma de diferentão falando não ter uma moral, mas a questão e a lição mais importante que ele acaba nos ensinando é a arbitrariedade que a moral tem. Basta você ter alguma credibilidade e saber escrever “num tom sábio”, que você consegue criar discípulos até cansar. Você cria uma certa autoridade, é muito ingênuo, por exemplo, acreditar que todo profeta não tem objetivos políticos. Então, a questão é criar uma sociedade que a gente, grosso modo, possa amar, criar, ser, como a gente quer ser, sem todas as amarras da moralidade, justamente porque a gente não vai precisar ficar lutando entre si para conseguir o básico e que a gente brigue, pelo menos de rosto limpo)

Numa sociedade de competição e de uma guerra de todos contra todos no globo da morte do capital, toda vantagem possível é necessária para sobreviver.

Eu vejo tanto em Kanye e Jpegmafia, duas figuras que esbanjam ser autênticas, de dizerem o que pensam, ao mesmo tempo que personagens que souberam jogar muito bem as cartas do momento para parecerem relevantes.

A situação política, mesmo na pequena bolha da esquerda, é de criar muita gente que faz coisas dentro de uma determinada formação, de uma determinada postura, etc - para agradar uma determinada parte do status quo, justamente porque não há uma outra força política que desafie esse status quo.

O exemplo máximo disso é o petismo ao escrever a carta ao povo brasileiro onde garante que nunca vai enfrentar o agronegócio e o mercado financeiro. Isso é uma jogada justamente para conseguir a benção do status quo, e a gente pode até julgar Lula, mas o que ele poderia fazer de diferente num Brasil tão anticomunista, com movimento de massa destroçado e desacreditado, em especial desestruturado, num pós-queda da URSS ?

O clima era de fim de futuro, de realismo capitalista bem no sentido de que Fisher descreve. Muito dessa incapacidade da gente oferecer um futuro vem da nossa incapacidade de dar alguma coisa no presente. Tanto no caso de Kanye, Jpeg, da menina que foi se drogar, do seu amigo que virou ANCAP, do seu tio nazi, é simplesmente porque esses espaços da direita (e saiba bem que isso tem uma função contra-revolucionária precisamente), oferecem algum benefício social ou coisa do tipo.

Pouco a gente fala, por exemplo, da solidão que é a vida do idoso. Muitos amigos morreram, muitos deles se aposentaram, não tem um lugar de trabalho para ir, a saúde está deteriorada, por mais que o espaço conservador seja hostil, lá eles recebem atenção, as pessoas vem conversar com eles, escutam suas histórias.

Quando a gente fala de status quo, é toda uma grande estrutura política e organização material que mexe com a sociedade inteira. É o tal do “sistema”. É aquela coisa, todo mundo odeia os grandes monopólios, mas a grande questão é que eles são inescapáveis, justamente porque eles controlam as estruturas que permitem a organização da vida.

Se você for mexer com qualquer coisa que envolva riqueza, é impossível de fazer isso sem algum banco poderoso estar envolvido no meio. O fluxo do capital, seja para você pegar um empréstimo para comprar um carro novo, seja para fazer obras no seu Estado, só é possível de ser feito e só pode ser feito, com a estrutura bancária mundial burguesa e que é protegida pelo centro do capitalismo.

É como se eles controlassem uma ponte e você se quiser passar, inevitavelmente vai ter que usar a ponte deles.

Por isso existe erroneamente a ideia de que se a gente destruísse todos os monopólios burgueses, seria impossível da sociedade funcionar, essa ideologia tem como base a verdade de que os monopólios controlam tudo e mandam e desmandam nas coisas. Só que isso mudaria de caráter, e aqui a gente lê a teoria marxista de Estado, se a gente tomasse as rédeas desse monopólio e usasse desse poder para o proletariado. Essa é a função do estado socialista.

Tem uma função inclusive geopolítica, não tem como você combater outros estados nacionais bem organizados sem uma organização tão ampla ou mais, quanto. Se você for pensar em uma guerra, existe uma diferença radical entre um exército treinado organizado e uma força militar desorganizada. Pode até ser que o exército organizado seja menor, mas ele tem uma capacidade infinitamente maior de causar estrago pelo simples fato de estar organizado. Com o tipo de guerra que nós temos hoje, não é necessário usar tantos homens, é uma questão mais de saber jogar o jogo da inteligência e saber exatamente onde acertar.

O problema da cooptação ideológica tem uma base material muito clara. Você só vai longe na sociedade, ou seja, se você quer fazer coisas, você vai ter que lidar com o poder político que controla tudo. Se um produtor como Jpegmafia ou mesmo Kanye, querem realmente serem grandes e ir longe, é preciso beijar algum anel com um sol negro.

O que faria isso ser diferente ? Nós termos uma estrutura e organização nossas que possam bater de frente com as estruturas do capital. A questão é que o seu artista preferido virar um facho, ou liberal (mesma coisa btw), é uma questão de monopólio da mídia. Não importa muito se ele já acreditava no que dizia ou não, mas falando principalmente de um espaço, que tem uma função doutrinadora, ideológica, faz sentido que ele comece defendendo determinadas posições, de emular uma personagem, para simplesmente ganhar algum espaço no sol.

Não se surpreenda com o dia que Don L virar reaça.


Marcadores:

O inimigo Putin

Aqui no ocidente se tornou comum termos adversários conservadores sem a mínima qualificação intelectual. No Brasil temos Bolsonaro e uma lista infinita de bolsonaristas, todos sem a mínima capacidade de pensar o mundo à sua volta. É um tipo diferente de burrice, é um tipo de ideologia que consegue fazer precisamente a inversão da realidade que Marx descreve na Ideologia Alemã.


Na Rússia a história é outra. Nós estamos falando de um tipo de conservadorismo que estuda, que escreve, que tem capacidade analítica e que domina muito bem a ciência. Enquanto no Brasil, a ciência é uma ferramenta que os conservadores têm aversão, na Rússia figuras como Putin, de fato estudam e sabem muito bem o que fazem, no que se trata sobre estratégia política, história, sociologia.


Os desafios para os novos comunistas russos (se é que eles ainda existem por lá) é o dobro de dificuldade que os bolcheviques tiveram que enfrentar com os Romanov. Esse tipo de conservador inteligente aparece na figura de Alexandre de Moraes no Brasil. Ele é o mais próximo de ser um “liberal esclarecido”, só que ele está sozinho. Nem mesmo Haddad, Dino e Rui Costa, que são quadros que vieram da esquerda, têm essa mesma habilidade.


É incrível ver Alexandre de Moraes, que foi indicado pelo presidente mais impopular do Brasil Michel Temer (que é ruim também, não se engane no portugues rebuscado), ter aproveitado a deixa, e claro dentro das suas atribuições de juiz, em comprar a briga contra o bolsonarismo, ainda que isso seja no curto prazo dê uma certa hegemonia para a esquerda. Isso ajuda o STF de uma forma geral, no médio longo prazo, a ganhar mais credibilidade com  a população, mostra a seriedade e o compromisso do órgão com a justiça (mesmo com todas as decisões contra a classe trabalhadora em questões trabalhistas, por exemplo).


Eles avançam o projeto, mas a gente aplaude porque vai pegar o ratinho do Bolsonaro.


A grande questão da direita brasileira é que ela não precisa do caos do Bolsonaro para continuar seu projeto político. Isso Moraes entende bem, a burguesia já domina o Estado, os meios de comunicação, as redes de distribuição, o exército (capenga e tal, mas tem armas), a polícia, a esquerda mal consegue dominar o que em tese seria seu espaço, a universidade. As ruas dormem com desemprego, fome, desmobilização, epidemia de depressão e ansiedade.


O clima político do Brasil é de realismo capitalista. Isso cria uma situação de depressão generalizada que é difícil fazer as pessoas sequer saírem de casa para votar. Qualquer pessoa comum, que não é muito ligada com política, se sente o tempo todo enganada, mal representada e se sente impotente em relação à política. Não é só os noticiários que ajudam a perpetuar essa sensação, mas também a própria vida nesse capitalismo neoliberal, de todos contra todos, de esquemas dentro de esquemas, nas boas e velhas panelinhas, etc, que ajudam todo mundo sentir uma sensação de estar jogando um jogo de cartas marcadas.


É você mandar curriculos para tentar arranjar um emprego sabendo que tem provavelmente alguém que é amigo do RH, do chefe e a porra toda, que provavelmente vai conseguir a vaga antes de você. Por isso todo mundo engole seus antidepressivos e cigarros até não aguentar mais. Eu não sei como é a política russa atual, mas o que eu sei é que nós precisamos apostar na inteligência do povo, pensar de forma mais estratégica, inteligente, comprometida, porque se a nossa direita aposta na burrice, isso nos dá espaço para ser essa amálgama desorganizada que chamamos de esquerda.


O fato da gente ainda ter um movimento de esquerda no Brasil hoje em grande parte é sorte de ter uma direita tão tosca e anti-iluminista. Por outro lado, a gente precisa pensar no papel que essa esquerda libertária, liberal, tem em manter o movimento de massas desorganizado. Será que o Brasil precisa de um Putin ou a esquerda libertária já faz esse papel de minar a organização popular ?

Marcadores:

11 fevereiro 2024

Um breve comentário sobre Jones Manoel

Vou contar um segredo para vocês : quando a gente critica alguém ou algo, é porque nos toca de alguma forma. Isso acontece comigo no Jones, como acontece com o Lula e quando ele critica o Lula. Trazer o fantasma do Brizola e do Darcy Ribeiro, tem uma certa função política e retórica no que Jones faz.

É fato que a esquerda brasileira tem dificuldade imensa em ter penetração de massa. Por uma série de razões que não vamos discutir aqui, no momento atual o que mais complica qualquer organização é a ordenação política neoliberal, que dificulta até mesmo coisas mais elementares, como uma coesão mínima dos movimentos, como cooptação de espaços de militância e pautas políticas, etc.

Então o Brasil acaba por reproduzir bastante da lógica liberal de ficar procurando grandes líderes, grandes homens, de dar muita fama para uma pessoa ao ponto da adoração religiosa. Não tem exemplo melhor disso que grupos de KPOP, por instância. É um nível de adoração que imita a adoração cristã em Deus.

Na política, você acaba por personificar muito as coisas. “Ah mas na URSS e na China” - sim, mas note que isso acontece mesmo lá por conta do passado liberal/feudal desses países. Não se constrói o socialismo sob o nada, muitos reflexos da sociedade capitalista permanecem e precisam ser feitas políticas para mudar esse tipo de coisa.

É preciso uma educação, etc. Nós não estamos numa sociedade socialista, não sei se você percebeu, então não vamos resolver esse tipo de traço cultural magicamente com críticas vazias ao personalismo. Assumir que existe isso e assumir que isso tem uma função política é importante para gente entender os problemas dessa tática.

O grande problema do personalismo é a individualização da política. Lula, por exemplo, não é um Deus, para que o que ele pensa e deseja fazer se faça real, ele precisa de uma organização social política para que isso aconteça. Às vezes, o próprio Lula esquece que as palavras não são mágicas e não criam as coisas do nada, para fazer uma palavra valer, é preciso fazer as coisas e ter quem faça as coisas. Adianta falar mal da austeridade com Haddad como ministro ?

E quando a gente olha para a figura de Brizola, Darcy, Lula e na mesma baila Jones, o grande problema de cada uma dessas figuras é exatamente o elemento de acreditar que falar coisas, por si só, é capaz de realizar uma mudança no mundo.

Nesse sentido, você vê claramente a influência, direta ou indireta de Leon Trotsky. Esqueçam essa conversa mole que Trotsky era um democrata americano, que ele queria fazer um socialismo com liberdade, etc, etc. Isso tem muito cara de propaganda ocidental para cooptar um movimento contra as experiências socialistas. Quer saber como ele pensava ? Leia os textos, simples assim.

Lênin (tem dois textos sobre isso, aqui e aqui), crítica senhor Trotsky muito por fazer grandes falas e tal, mas não ter muito o que contribuir no como fazer as coisas.

“O erro de Trótski é a unilateralidade, a impulsividade, o exagero e a obstinação. A plataforma de Trótski consiste em que o copo é um instrumento para beber, enquanto o copo em questão não tem fundo.”

Ou seja, ele defende plataformas que não se sustentam politicamente e não só, não tem um sentido prático de executar essas coisas. Nesse sentido, é um copo sem fundo. O movimento comunista brasileiro tem muito esse vício de propor umas quinhentas coisas sem poder fazer nem metade do que diz.

Aqui no Brasil, um país com raiz religiosa forte, chama atenção, faz as pessoas se mobilizarem, ter a figura de um messias prometendo o paraíso. O que Lula, Brizola e Darcy faziam vai muito nesse sentido, defender justiça social, prato na mesa, vacina no braço, boa educação, é uma coisa - fazer tem uma série de coisas a se considerar.

Eu vejo que Jones está indo para um caminho muito parecido nesse sentido, de querer de certa maneira, concentrar em si um totem, um fetiche de adoração que assim como Nossa Senhora, mobiliza e justifica toda guerra santa. Só que falta para Jones, assim como falta para partidos como PSOL (que tem umas perspectivas muito parecidas), a parte da organização social política com uma coordenação capaz de executar essas políticas.

Se Brizola e Lula conseguiram fazer certas coisas, é exatamente porque eles tiveram em algum momento esses quadros organizativos. É o militante anônimo (que morre e vocês nem ficam sabendo) que faz as coisas e faz a palavra do senhor no palanque se fazer como verdade. É aquela coisa, Bolsonaro nunca entrou numa escola para matar ninguém, mas ele tinha quem fizesse por ele. Na mesma medida, Lula nunca te deu pessoalmente um centavo do Bolsa família, foi necessário uma organização política estatal para que você recebesse esse dinheiro.

De um lado, é preciso entender que, apesar de uma série de contradições, você ter uma figura famosa que as pessoas gostam é importante para mobilizar as pessoas a fazerem as coisas, mas é preciso acima de tudo que exista uma organização para que as coisas sejam feitas. Os milagres da Igreja não aconteciam pela reza, mas pela prática dos seus padres, dos seus fiéis. É preciso entender isso de uma vez.

O que eu estou dizendo em outras palavras, em diferentes circunstancias nós deveriamos abolir completamente cristo, deus, etc. Mas a situação pede que a gente invente um novo Cristo e o use para os nossos fins políticos, que a gente tenha um Jesus, mas a gente precisa não cometer o erro de que isso sozinho é capaz de fazer as coisas acontecerem, é preciso de uma organização política, é necessário ter pessoas, ter quadros por aí.
 
PS : É no mínimo irônico ver o PSOL cobrar de Jones uma posição de fazer uma "Frente única", quando nem o próprio partido é uma frente única. O PSOL sofre do mesmo problema e não consegue perceber, e sinceramente, o mesmo vale pro "campo democrático" de uma forma geral - adianta estar no governo e repetir a política da burguesia ? (O texto do qual me refiro)

Marcadores:

09 fevereiro 2024

report 020

Eu venho publicando bastante coisa lá no instagram. E sabe, vem sendo divertido e tal, principalmente fazer uns poster. Eu posto mais porque gosto e tal, e isso ajudou aumentar meu alcance também.

OUTRA COISA, é que é foda, eu ando tendo uns pesadelos. Eu quero ver se consigo aproveitar isso para escrever uns contos e tal. Enfim.

Questão de novidade, eu adcionei a opção de mandar um pix. Quem quiser apoiar o meu trabalho tá aí. Eu sinceramente ando me sentindo bem frustada em sei lá, ser a "inteligente" e isso nunca melhorar nada na minha vida.

Se quiser ajudar, eu já sou grata.

Marcadores: