21 dezembro 2024

The Fixer

Esse jogo é +18 e toca em temas pesados.

https://sam-tail.itch.io/the-fixer


INÍCIO.

A origem desse texto vem de uma angústia pessoal. Sabe, desde muito cedo eu sempre pensei a filosofia como uma, em última instância, atividade prática de entender o mundo para viver melhor nele.

Aí eu faço isso com mídias que eu interajo na vida, e sinceramente, esse é o tipo de coisa que eu gostaria de ver mais.

As pessoas discutem sobre banalidades, sobre bunda, sobre jogos, sobre filmes, sobre música, sobre algum terceiro (fofoca), etc, etc - Só que existe uma certa cultura de não se engajar de forma mais profunda no que se tem contato.

Esse é o tipo de coisa que venho notando há um certo tempo : é possível tirar uma boa reflexão mesmo de uma obra muito ruim.

Superbad, por exemplo, pode ser um filme lido como uma boa fotografia daquilo do “se tornar homem” ou se “tornar mulher” - quando você vê personagens tentando se encaixar em determinados padrões de gênero para se tornarem parte da sociedade.

Pode ser só um filme de comédia bobo dos anos 2000 ? Pode e é, isso não tira o fato de que no filme existe esse comentário social.

Como sociedade seria muito saudável se a gente tivesse essa capacidade crítica, isso não tira o prazer artístico da obra - muito pelo contrário, reassistir passa ser uma necessidade.

No caso do jogo, pretendo usar alguns aspectos do jogo para discutir algumas questões sociais. Então vai ter spoilers parciais ou completos.

Blank Generation

Juventude é uma coisa recente na nossa história. Assim como a infância antigamente, os jovens eram vistos como pequenos adultos, não como seres em desenvolvimento.

O “problema” jovem, como uma questão, aparece com o surgimento da escola pública (ou você acha que os filhos dos ricos trabalham ?), com o surgimento da família nuclear (pai, mãe, filho, filha).

Por brevidade, prefiro não me alongar tanto nessa conceituação, eu só quero que você tenha noção que historicamente, o jovem, esse ser que não é adulto e nem criança, é recente.

Como estamos falando de economia é importante que a gente observe o papel do jovem nesse sistema econômico. Isso é essencial para que a gente compreenda um pouco do nosso mundo atual.

A partir dos anos 70, a economia abandonou o modelo de desenvolvimento do New Deal - ela se financeirizou e o grande foco passou a ser uma economia fictícia, baseada na especulação financeira, junto disso, uma nova política se estabeleceu. O neoliberalismo vem como uma economia política pensada para maximizar os lucros da classe burguesa, isto é , cortando gastos públicos, privatizando as empresas públicas, etc - o inferno que se estabelece hoje foi construído nessa época.

O mais afetado por isso tudo foi a figura do jovem. Os empregos formais diminuíram, a educação pública foi destruída, a opressão policial aumentou, etc. Então você tem uma situação, por exemplo, que a previdência social não existe ou é privada, um jovem com uma renda instável e vinda do trabalho informal, isto é, você retira toda capacidade de construção de uma vida e diz “é cada um por si”.

O jogo

É nesse contexto social mais ou menos que The Fixer começa. Não é muito claro se houve ou está havendo uma guerra mundial, mas aconteceu uma outra pandemia além da Covid, e “coincidentemente”, matou todos os adultos acima de 40 anos (o que é bem suspeito).

Com o governo completamente enfraquecido (quase tudo foi privatizado), recaiu nas mãos das grandes empresas resolverem esse problema de saúde pública.

E como um passe de mágica, não é que elas tinham a vacina ? Por que eu tô fazendo essa acusação ? Porque o jogo consegue te dizer isso de forma implícita.

Imagine só o lucro de você ter o monopólio da saúde, literalmente ter o controle político, social, ideológico, de um país ? Nós não estamos nem falando de empresas que competem entre si - mas de um mega monopólio com mais poderes que o Estado.

Assim, do jeito que tô escrevendo aqui o jogo é uma tese de doutorado. Mas ele, no limite, é um jogo adulto - só que ele põe nas situações de se expor, de ter que fazer coisas impróprias para conseguir dinheiro, através desse cenário econômico. Não é uma questão de você de fato querer ter que se esfregar em bêbados no bar porque quer, mas exatamente, porque não há escolha - o seu poder de decisão é completamente limitado por conta das condições econômicas.

No jogo, você era um rapaz ou menina (dá para escolher o gênero inicial), que sofreu um acidente muito grave a ponto de ficar em coma. Em uma tentativa desesperada, sua irmã vende seu corpo para uma pesquisa secreta de um monopólio de saúde. Eu acho que na escolha inicial do gênero, toda interação sua como alguém inicialmente homem, agora num corpo feminino, é muito interessante.

Tem coisas que você simplesmente não entende porque você cresceu como “homem”, interações com outros homens são diferentes, as interações que se tem com meninas é diferente

O propósito da pesquisa é criar corpos modificados sintéticos de jovens para as elites mais ricas se tornarem basicamente imortais. No final das contas, você é só um experimento.

Começa com o jogo te colocando para morar de aluguel e sem dinheiro. Você é uma menina jovem (eles te obrigam a ser) e precisa arranjar um trabalho para conseguir dinheiro - já sabe para onde isso vai te levar né .

O que me chamou atenção, é que aos poucos você vai sendo puxada, economicamente, para empregos e funções sociais, que envolvem a prostituição. Inclusive por ter um corpo feminino.

Eu digo isso porque os homens do jogo, os mais velhos têm renda ou por fazerem parte do governo privado, ou por literalmente serem burgueses. Os meninos jovens, pelo menos a maioria deles, parece que em grande parte são pequenos delinquentes.

Você pode virar modelo (sem ser erótica, num momento inicial), dá para você catar lixo para reciclagem e até virar uma garçonete. Mas nada disso é suficiente para você conseguir pagar o aluguel que você precisa pagar a cada 2 semanas.

E veja, você tem necessidades de alimentação, tem status de stress e etc, tudo isso, essa situação de desespero mesmo, leva você, por exemplo, no seu trabalho de garçonete andar com menos roupa, aceitar proposições sexuais dos clientes, tudo para ter uma renda extra.

O que me chamou atenção é de certa forma esse peso na narrativa. A título de contexto, muitos desses jogos, meio que te deixam ser mais “pervertida” porque sim, não tem uma justificativa necessariamente. Nesse jogo, existe uma necessidade econômica, você precisa ir pro ponto lá na parte “suja” da cidade, porque lá é onde te pagam mais.

Você precisa formatar seu corpo, sua forma de vestir e agir, para conquistar o maior número de clientes possível.

O que se faz numa situação dessa ? A gameplay do jogo em si não te oferece uma opção explicitamente para formar grupos, etc - mas é claro, que as relações sociais, as amizades, os clubes de dança, os esportes, é exatamente, essa ressocialização que dá uma alternativa para esse sistema - isto é, uma sociabilidade baseada nas comunidades…um comunismo ?

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11 fevereiro 2024

Um breve comentário sobre Jones Manoel

Vou contar um segredo para vocês : quando a gente critica alguém ou algo, é porque nos toca de alguma forma. Isso acontece comigo no Jones, como acontece com o Lula e quando ele critica o Lula. Trazer o fantasma do Brizola e do Darcy Ribeiro, tem uma certa função política e retórica no que Jones faz.

É fato que a esquerda brasileira tem dificuldade imensa em ter penetração de massa. Por uma série de razões que não vamos discutir aqui, no momento atual o que mais complica qualquer organização é a ordenação política neoliberal, que dificulta até mesmo coisas mais elementares, como uma coesão mínima dos movimentos, como cooptação de espaços de militância e pautas políticas, etc.

Então o Brasil acaba por reproduzir bastante da lógica liberal de ficar procurando grandes líderes, grandes homens, de dar muita fama para uma pessoa ao ponto da adoração religiosa. Não tem exemplo melhor disso que grupos de KPOP, por instância. É um nível de adoração que imita a adoração cristã em Deus.

Na política, você acaba por personificar muito as coisas. “Ah mas na URSS e na China” - sim, mas note que isso acontece mesmo lá por conta do passado liberal/feudal desses países. Não se constrói o socialismo sob o nada, muitos reflexos da sociedade capitalista permanecem e precisam ser feitas políticas para mudar esse tipo de coisa.

É preciso uma educação, etc. Nós não estamos numa sociedade socialista, não sei se você percebeu, então não vamos resolver esse tipo de traço cultural magicamente com críticas vazias ao personalismo. Assumir que existe isso e assumir que isso tem uma função política é importante para gente entender os problemas dessa tática.

O grande problema do personalismo é a individualização da política. Lula, por exemplo, não é um Deus, para que o que ele pensa e deseja fazer se faça real, ele precisa de uma organização social política para que isso aconteça. Às vezes, o próprio Lula esquece que as palavras não são mágicas e não criam as coisas do nada, para fazer uma palavra valer, é preciso fazer as coisas e ter quem faça as coisas. Adianta falar mal da austeridade com Haddad como ministro ?

E quando a gente olha para a figura de Brizola, Darcy, Lula e na mesma baila Jones, o grande problema de cada uma dessas figuras é exatamente o elemento de acreditar que falar coisas, por si só, é capaz de realizar uma mudança no mundo.

Nesse sentido, você vê claramente a influência, direta ou indireta de Leon Trotsky. Esqueçam essa conversa mole que Trotsky era um democrata americano, que ele queria fazer um socialismo com liberdade, etc, etc. Isso tem muito cara de propaganda ocidental para cooptar um movimento contra as experiências socialistas. Quer saber como ele pensava ? Leia os textos, simples assim.

Lênin (tem dois textos sobre isso, aqui e aqui), crítica senhor Trotsky muito por fazer grandes falas e tal, mas não ter muito o que contribuir no como fazer as coisas.

“O erro de Trótski é a unilateralidade, a impulsividade, o exagero e a obstinação. A plataforma de Trótski consiste em que o copo é um instrumento para beber, enquanto o copo em questão não tem fundo.”

Ou seja, ele defende plataformas que não se sustentam politicamente e não só, não tem um sentido prático de executar essas coisas. Nesse sentido, é um copo sem fundo. O movimento comunista brasileiro tem muito esse vício de propor umas quinhentas coisas sem poder fazer nem metade do que diz.

Aqui no Brasil, um país com raiz religiosa forte, chama atenção, faz as pessoas se mobilizarem, ter a figura de um messias prometendo o paraíso. O que Lula, Brizola e Darcy faziam vai muito nesse sentido, defender justiça social, prato na mesa, vacina no braço, boa educação, é uma coisa - fazer tem uma série de coisas a se considerar.

Eu vejo que Jones está indo para um caminho muito parecido nesse sentido, de querer de certa maneira, concentrar em si um totem, um fetiche de adoração que assim como Nossa Senhora, mobiliza e justifica toda guerra santa. Só que falta para Jones, assim como falta para partidos como PSOL (que tem umas perspectivas muito parecidas), a parte da organização social política com uma coordenação capaz de executar essas políticas.

Se Brizola e Lula conseguiram fazer certas coisas, é exatamente porque eles tiveram em algum momento esses quadros organizativos. É o militante anônimo (que morre e vocês nem ficam sabendo) que faz as coisas e faz a palavra do senhor no palanque se fazer como verdade. É aquela coisa, Bolsonaro nunca entrou numa escola para matar ninguém, mas ele tinha quem fizesse por ele. Na mesma medida, Lula nunca te deu pessoalmente um centavo do Bolsa família, foi necessário uma organização política estatal para que você recebesse esse dinheiro.

De um lado, é preciso entender que, apesar de uma série de contradições, você ter uma figura famosa que as pessoas gostam é importante para mobilizar as pessoas a fazerem as coisas, mas é preciso acima de tudo que exista uma organização para que as coisas sejam feitas. Os milagres da Igreja não aconteciam pela reza, mas pela prática dos seus padres, dos seus fiéis. É preciso entender isso de uma vez.

O que eu estou dizendo em outras palavras, em diferentes circunstancias nós deveriamos abolir completamente cristo, deus, etc. Mas a situação pede que a gente invente um novo Cristo e o use para os nossos fins políticos, que a gente tenha um Jesus, mas a gente precisa não cometer o erro de que isso sozinho é capaz de fazer as coisas acontecerem, é preciso de uma organização política, é necessário ter pessoas, ter quadros por aí.
 
PS : É no mínimo irônico ver o PSOL cobrar de Jones uma posição de fazer uma "Frente única", quando nem o próprio partido é uma frente única. O PSOL sofre do mesmo problema e não consegue perceber, e sinceramente, o mesmo vale pro "campo democrático" de uma forma geral - adianta estar no governo e repetir a política da burguesia ? (O texto do qual me refiro)

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24 janeiro 2024

O jogo

A melhor forma de descrever a sociabilidade de forma geral é um baile de máscaras. Nós não aparecemos nos espaços mostrando o nosso rosto, nós mostramos uma persona.

Isso todo mundo faz.

É um jogo, uma peça de teatro onde a gente muitas vezes é posto em papéis que a gente não escolheu e de alguma forma, a gente precisa saber exatamente o que fazer para conseguir ir longe na nossa história.

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06 dezembro 2023

ᴬ ʰⁱˢᵗóʳⁱᵃ ᵈᵉ ᴬˡⁱᶜᵉ ⁻ ᵒᵘ ˢᵒᵇʳᵉ ᵃ ᶠᵘⁿçãᵒ ᵈᵃ ᵃᵖᵒˡᵒᵍⁱᵃ à ᵖʳᵒˢᵗⁱᵗᵘⁱçãᵒ

O que eu vou escrever aqui é canon para uma história que eu estou escrevendo e serve para ilustrar um ponto. Não tem necessariamente um spoiler, mas pode mudar também.

Tem essa garota chamada Alice. É claro, esse não é o nome real dela, ela é uma prostituta trans. Sim, é uma história meio pesada em várias camadas, tanto que esse post nem vai ser tão compartilhado.

Ela tem uma péssima reputação, ela mente, ela rouba, ela engana. Como é uma menininha loira bonitinha, muitos homens competem para pegar ela logo, ela já fez dois caras brigarem no meio da rua para ficar com ela e no final, ela nem fez sexo com o vencedor.

Além de, claro, viver à noite, ela faz muitos filmes porno, vende packs de fotos num site aí. Nisso ela ganha muito dinheiro, tem peitão por isso, silicone veio dessas coisas.

E aí comparada com outras meninas, ela é meio que uma exceção. Isso faz ela se achar demais. Quando a gente encontra uma pessoa dessas, a pergunta que você deve fazer é exatamente essa : Quais foram as condições históricas que permitiram essa pessoa “chegar lá” ?

Quando você vai ver a história de Alice, ela não vem de uma família rica, veio de uma família de classe média, quem narra a história (Érica), não sabe muito dos pais de Alice, mas sabe que ela fazia sexo por dinheiro com uns moleque de classe média do colégio dela. Ouviu falar claro.

O que fez ela chegar numa clientela que paga bem e sempre, a polícia e os traficantes. Desde cedo, ela sempre usou maconha, ecstasy em específico, por conta das baladas que ela ia. Diferente da grande maioria das meninas trans que são obrigadas a se prostituir por falta de renda, ela meio que ia atrás disso por prazer, por sei lá, achar legal ?

Essa é a parte da história que aparece, que você escuta nas fofocas, etc. E tem a parte do que eu vou cunhar como “jogo”.

Eu quero que você pense num jogo literal. Com pontos, recordes, estratégias, pontos, truques, trapaças, etc. Essa história que você ouviu sobre Alice não tem uma forma confiável de descobrir a verdade.

Isso é porque ninguém sabe se o que Alice fala é verdade, ninguém tem alguma ferramenta para descobrir quem é Alice de verdade, muito do que se sabe dela, vem de reputação de terceiros, é uma fantasia coletiva sobre a vida de uma pessoa.

Não só existe uma dificuldade muito grande de ir atrás da verdade, talvez a pergunta mais importante, será que é tão relevante assim saber a verdade sobre Alice ? Mesmo que de alguma forma, nós sejamos capazes de descobrir a verdade, será que a gente está compreendendo o discurso e a função dessa fantasia na sociedade ?

Uma pessoa como Alice, especificamente, para uma pessoa trans, que não raro ou quase sempre, está desempregada, vive em constante situação de rejeição social, a família não gosta, os amigos antigos se afastam, tem uma dificuldade muito grande de conseguir um emprego (mesmo com qualificação profissional), serve para glamourificar uma situação precária : a prostituição.

Ela é o tipo de pessoa que posta stories de balada, que vive saindo para uns hotéis caros, que sempre vive trocando de celular, viajando, que tem um corpo lindo maravilhoso que todo mundo quer e fantasia possuir.

Essa parte brilhante da prostituição serve, na mesma medida, que o sonho americano, só que para pessoas trans, legitimar e criar um horizonte. É o que faz muita gente aceitar abuso, violência, pouco ou quase nenhum pagamento, etc, em nome de algum dia “chegar lá”.

Existe um interesse para que essa história, por mais fabricada que seja, se torne real. Tudo o que Alice diz pode ser mentira, a história dos homens brigando, os traficantes, os policiais, os homens de negócios, o silicone, o corpo lindo, as festas, o cabelo loiro belíssimo, os celulares novos, tudo precisa ser verdade, por um lado, para criar um horizonte, por outro, para esconder uma realidade mais pesada, para justificar o nosso sofrimento coletivo e por fim, e mais importante, também é importante para Alice - isso a torna famosa.

É muito claro isso. A comunidade trans mesmo, não é nenhum pouco unida, a esquerda não sabe nem o que fazer com a gente, a direita nos mata, é cheio de gente liberal para todo canto falando merda e uma ferramenta de resistência, fora religião, fora o abuso de drogas, é adotar um tipo de individualidade radical. É você se auto afirmar como puta, como vagabunda, como travesti, como gostosa, como uma figura desejável.

Ou seja, por mais mentira que a história de Alice seja, toda travesti quer ser uma Alice, essa história fantástica ser verdadeira é uma forma de dizer que podemos fazer sucesso. Podemos ser mulheres de sucesso, não à toa, há esse espelhamento em divas pop.

Isso é visto por muita gente como a única saída para uma vida melhor. Não é militância, não é estudando, não é tentando construir uma carreira, é você se prostituir. Esse é o único horizonte que uma pessoa trans possui na sociedade que a gente vive.

De um lado, nós temos toda a transfobia, todos os piores estereótipos possíveis e do outro, glamourização do trabalho sexual. São moedas do mesmo lado, que servem para manter a gente nessa realidade.

Por isso a história de Alice, no esquema do jogo, é o recorde a ser batido, é o conjunto de valores a ser seguido, é um meta, isto é, a estratégia mais viável possível.

Uma estratégia de jogo, para ser viável, em primeiro lugar, precisa ser consistente. Pensa o seguinte, dado básico na sua cara : conseguir uma vaga de emprego para qualquer pessoa é difícil, se você começa a falar de pessoas trans, de gente preta, imigrante, indígena, etc - Aí os RH jogam você na lixeira primeiro, mesmo que existam leis contra-discriminação.

Vamos supor que você é trans e aí você passou dessa fase, aí você vai ter que lidar com RH, entrevistadores, etc, que não sabem lidar com pessoas trans. E olha que eu não falei do emprego em si, da relação com colegas, etc.

Veja, tudo isso que eu descrevi, podem ter sido meses, até mesmo anos de vida, não é todo mundo que pode ou que tem essa sorte. Se você for falar de trabalho autônomo é até pior, que tal lidar com uma sociedade transfóbica ? Parece legal né ?

O único lugar que as pessoas esperam uma pessoa trans é na prostituição, no crime, na cadeia ou em alguma cova com o nome morto escrito. (A título de demonstração, eu de legging, camisa de metal, sem maquiagem, já fui abordada na rua, por um maluco achando que eu era puta - quantas ofertas de emprego formal eu já recebi ? Zero…. E não, eu não aceitei a proposta do maluco)

(Isso porque eu nem falei do suicídio, as questões da nossa saúde mental)

Nessa história toda, a verdade definitiva da história de Alice é a coisa mais irrelevante que poderíamos discutir. Mas, o interesse, a função do discurso, a necessidade das pessoas assumirem esse discurso e de reproduzir ele.

Essa personagem eu criei. Mas não é difícil ver alguém assumindo essa persona, adotando essa personagem e nesse caso, você não ter uma Alice, mas várias pessoas que imitam Alice.

Eu tô escrevendo isso, porque eu tô numa posição muito única. Tô na universidade, eu sei escrever, falo inglês, sou branquinha, até o momento tenho onde morar e recebo uma ajuda da família. Sem isso, eu teria que estar numa esquina qualquer, fato. Foda-se a minha graduação, foda-se os textos que eu escrevo, a única coisa que a sociedade quer de mim é o meu **.

E eu sei que existem outras pessoas nessa posição meio que num limbo. Você não está vivendo tão mal, mas também não tem nada e não tem nenhuma perspectiva para fazer nada no futuro.

Aí eu resolvi fazer esse texto, tentando resolver isso. A gente não precisa de Alice, eu acho que não precisamos também da suposta militante que na verdade é bem liberal também. Como não precisamos de mim, a “acadêmica” ou da menina trans gamer que vive em casa.

Muito menos precisamos de gente conservadora, muito menos ainda quem defende o empreendedorismo.

Eu literalmente numa busca eu achei uma menina numa comunidade que faz desenho, posta onlyfans, programa (de pc) e se brincar, música, foto, etc, etc. Então, não, isso não funciona também.

O que a gente precisa é fazer uma coisa diferente. Que tal apostar nas pessoas ? A chance de você morrer é a mesma, isso eu garanto. Mas e se a gente, por exemplo, construir comunidades, firmar mais laços com as pessoas, e se a gente militar, mas de outra forma, e se a gente fazer arte, mas não sempre do mesmo jeito ?

E a lista segue.

É triste ver as pessoas tentando sempre a mesma coisa, sem ter capacidade alguma de tentar outras coisas. E gente, nós literalmente não temos nada a perder. Para essa sociedade, nem as correntes, a gente tá abaixo disso….

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30 novembro 2023

♥♥♥ ᴾᵒᵈᵉ ᵗʳᵃᵛᵉˢᵗⁱ ⁿᵃ ˢᴾᶠᵂ ? ♥♥♥

(PS : Érika brilha mesmo, mas brilha mais vermelho ? Posso te pedir para ser o nosso sol vermelho no céu ?)
 
Eu tenho muita clareza que ninguém vai sentar para fazer isso que eu vou fazer. As pessoas fora do mundo trans sinceramente não vão nem saber o que fazer com Érika. Isso porque, sinceramente, ninguém sabe o que fazer com as pessoas trans. Dão espaço ou excluem ? Às vezes dão espaço para não terem que ceder num outro lugar.

Aparentemente tem gente que não quer que ela vá para a São Paulo Fashion Week e ela respondeu isso, que tem que disputar espaços, etc. Aí tem o conservadorzão reclama dela, que ela faz isso, faz aquilo; tem esses esquerdista liberal, que no Brasil sinceramente, você confunde fácil com reaça, chorando que ela deveria fazer outra coisa e vai ter o pessoal que vai aplaudir ela, por sei lá, quebrar barreiras indo num evento que serve só para vender roupas caras ? A gente sabe muito bem que o acesso para esse tipo de moda, ou até vou mais longe, que o acesso das pessoas à escolherem o que vão vestir é muito limitado. É caro se vestir.

E aí eu fico pensando, deveria eu ser aplaudida por quebrar barreiras também ? Já que eu tô na universidade ? Sabe qual é a minha resposta ? Não, eu não quero ser aplaudida, eu queria que outras pessoas trans chegassem onde eu cheguei e ainda sim, seria pouco - queria mesmo uma universidade popular. O meu crescimento individual pode ser inspirador, bonito, inovador - com certeza, podemos dizer isso sobre Érika - porém, ele não resolve o problema, ou é um caminho para lidar com os problemas da comunidade trans.

Ótimo, uma travesti preta chegou na SPFW, mas me perdoe, e daí ? Isso vai mudar a vida da fulaninha que apanha dos pais ? Que não consegue emprego ? Que precisa se prostituir para pagar comida ? Vai dar acesso aos homens trans à hormonização ? Vai aumentar o acesso da população trans à educação ? Vai diminuir o assassinato/suicídio da população trans ? Mano, e a nossa documentação que ainda é um processo traumatizante de fazer, quando a gente vai mudar isso ? Pode ser que ela chegar lá traga uma esperança, especialmente para as meninas trans negras que se sentem feias, mas esperança não enche barriga.

E assim, existem tantas coisas, eu mesmo preciso tentar ver no ambiente que eu vou fazer minha hormonização, se eu vou precisar fazer ela do zero pela milésima vez, porque o SUS ainda me trata como doida e porque o sistema não é tão unificado, apesar do nome. Isso porque eu nem falei de quem nem tem acesso à esse tratamento que eu consegui pelo SUS.

Aí srta. Érica me fala que isso é disputar corações e mentes fora do espaço da política. Mas é na SPFW…Sabe qual é a crítica burra que a gente vai ver ? Que ela não deveria ir, que ela sei lá, [insira uma demanda que as pessoas cis acham que é boa para as pessoas trans]. Mas isso não ataca o problema, vão dizer que é identitário, vão inventar umas 400 mentiras, vão lembrar daquela coisa da maioria das pessoas trans serem putas (como se fosse um problema moral). E nada disso, vai criticar o que precisa ser criticado.

Aí você vai ver muita gente aplaudindo Érika por conseguir chegar lá. Isso é importante e tal, para ela, mas o que me pega é o que isso realmente tem de impacto na política nacional.

É um tipo de política muito liberal para meu gosto. PSOL mesmo, é um partido de muito show, de muito ato explosão, mas não tem uma consistência, uma permanência. Vendo pelas pessoas que aplaudem ela nos comentários, eu fico perguntando, para quem ela fazendo política e por que ela tá fazendo tanta questão de ir lá na SPFW ?

Dá impressão que o PSOL, isso eu falo do partido todo sem exceção (tô de olho em vocês da Câmara também, hein !), muitas vezes se preocupa mais em provocar uma sensibilidade liberal, do que ter uma política que de fato, desafie o status quo. Isto é, uma política de permanência, que de fato, crie poder popular.

Só para deixar claro, eu não sou contra ela ir lá, ela que vá, temos que parar com essa política da miséria. Deixa lá gozar, deixa ela realizar um sonho. Aí vem meu problema com essa política : ela desafia em alguma coisa a austeridade estabelecida ?

O grande problema no Brasil é que ninguém pode ser feliz. Pra fazer política para pessoas trans é preciso deixar de fazer política para um outro grupo minoritário, é muito claro que a principal função disso é criar divisão entre as lutas da classe trabalhadora.

Não, caro trotskista que não assume que lê Trotsky como  um liberal, falar de pautas negras, lgbtqia+, feministas, etc, não é tirar foco da classe trabalhadora. Muito pelo contrário, é lembrar que a gente também é tudo isso e que não basta fazer uma política que dê pão, sem nos dar o queijo, a mortadela, a casa e o nosso café. E tem mais, a gente quer trabalhar menos mesmo, não é só para descansar para voltar ao trabalho, a gente quer trabalhar menos é para fazer farra mesmo e para ser feliz.

O que Érika ir na SPFW e Érika gastar a voz dela respondendo reacionário corno vai fazer para a gente fazer algo nessa direção ? Isso é assunto agora e depois ? O que isso vai garantir que o teto de gastos não feche meu ambulatório trans ou impeça que a gente expanda a saúde trans em todo Brasil ?

Me incomoda a grande disputa ser ela poder ir na SPFW. É a mesma coisa que reclamar que travesti não tem espaço na bolsa de valores. É uma coisa que eu falo com algumas pessoas com uma certa frequência, o quão conservadora é a política brasileira. Eu tenho muita certeza que tem corno, dentro do próprio PSOL mesmo, que é considerado um partido de esquerda libertário, que defende um socialismo democrático, vai ter gente dizendo que isso é ruim, que ela não deveria ir, que isso, que aquilo. E não ache que a esquerda radical tá longe disso, o que não falta é gente dizendo que a gente não deve ser “identitário” e não consegue apontar o desvio liberal que é esse tipo de militância.

O problema não é ela ir na SPFW, problema que eu vejo é isso ser a grande disputa política. Para você ver como é difícil discutir política trans no Brasil. Você tem uns desvios liberais, e até reacionários no seio da população trans, a esquerda brasileira é muito desorganizada e muito liberal para saber fazer uma boa crítica à essa postura.

Fora que acompanhando ela melhor, observando o que ela fala e tal, soa radical, porque a sociedade brasileira é tão reacionária, que mesmo Érika claramente sendo liberal conservadora (não é porque você defende política pública que você é de esquerda, me perdoe), fazendo propaganda com marca, indo em evento de filantropia de conglomerado financeiro, isso ainda é mais radical que qualquer coisa que a política brasileira defenda.
 
É aquela coisa, Henry Kissinger, John Dewey e até o Rossevelt, que são figuras de direita, no Brasil podem ser chamados de esquerda, porque no Brasil ser de direita é imitar nazista.

O que é mais assim, cansativo, para dizer no mínimo, como uma pessoa trans, é ter que ficar lidando com conversinha mole de empreender, empoderar, e essas merda que liberal inventa, quando você precisa do mínimo. Comida, roupa, emprego, moradia, etc. Gente, e pessoas próximas que talvez leiam esse texto, eu só tenho onde morar e comer porque eu tenho uma família. Eu posso ficar em casa estudando porque eu tenho uma família, senão eu tava na rua, tendo que me prostituir como todo mundo. Se eu perco isso, eu vou precisar fazer isso para sobreviver, se para quem é cis, tá uma merda arranjar um emprego clt comum, para uma pessoa trans é horrível, quase impossível.

O que os movimentos trans e poderes públicos tem a oferecer ? Um bando de movimento liberal, corno, que não tem força de fazer um combate para melhorar nossa vida e um poder público que mal consegue fazer o mínimo e esperando para entortar para a direita.

Quando eu vejo uma travesti na rua e tal, eu entendo perfeitamente a merda que é. A esquerda (especialmente esses liberais) tem muito discurso bonito para a população trans, não ajuda a gente resolver nada, cria um bando de moleque de classe média pautando o debate da forma mais burra possível; enquanto a direita compra o nosso corpo e assassina cada uma de nós.

O que fica mesmo é o show. Os conservadores falando merda, a esquerda liberal falando merda, a esquerda radical sem saber o que falar, a população trans continua se fodendo e Érika Hilton brilha nas passarelas. Esse é um exemplo, de como essa “era Lula III”, não rompe em nada com a política semiotica que o governo Bolsonaro inaugurou no Brasil como um paradigma.

Basta ver o papel do ministério dos direitos humanos, da igualdade racial e das mulheres, etc, o governo escolheu claramente gente famosa para “mostrar” que se preocupa com essas pautas, enquanto o orçamento desses ministérios é o menor de todo o governo e quem realmente pauta o governo, continua sendo o agro e o rentismo da Faria Lima.

É uma coisa tão na cara, tão marketing barato de relações públicas, que eu não vejo ninguém comentar nesses termos, mostrando o enfeite que é a atuação desses ministérios. O medo de perder logo toda a esperança supera o que acontece na realidade, não é mesmo ?

Eu duvido muito que alguém vá criticar Érika Hilton como eu fiz nesse texto. Aí eu te pergunto, é culpa minha a política brasileira ainda apostar tanto na burrice e na falta de povo ?

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25 novembro 2023

ᴼ ᵗᵉˢᵗᵉ ᵈᵉ ᵖˢⁱᶜᵒᵖᵃᵗᵃ ᵉ ᵃ ᵃᵐⁱᶻᵃᵈᵉ

escrito em 17 de setembro de 2021


Em Goiânia, aconteceu um homicídio estranho. Jovens com mais ou menos a minha idade, convidaram uma amiga para sair e para testar se eram psicopatas, mataram a amiga. Uma das cúmplices, uma mulher trans chamada Freya, mandou uma mensagem dizendo que amava a vítima para a mãe dela, de 35 anos, solteira.

Já vi algumas pessoas comentando que houve uma romantização da psicopatia. Talvez não seja isso, por um motivo bem simples: esses jovens não sabiam nem quem eram e muito menos o que era psicopatia.

Se havia necessidade de testar para descobrir, eles de fato sabiam quem eram?

Estou para dizer que também nem se trata de um caso isolado, essa dificuldade de se saber quem é e de compreender que existem outras pessoas no mundo já é algo comum.

Primeiro vamos começar pela própria amizade. Pelo que se sabe, os amigos eram otakus, provavelmente gostavam de alguma série em comum ou estilo musical. A mãe da menina morta revela uma coisa muito interessante, a filha estava muito feliz pelo convite dos amigos. Mas esses mesmos amigos não hesitaram em nenhum momento em matá-la.

Isso mostra que essa amizade talvez não fosse recíproca. Os gostos poderiam até ser os mesmos, mas a relação se resumiria a isso.

Ou seja, estamos falando de uma relação que não era uma relação, porém era uma associação. Poderiam ser amigos, por assim dizer, apenas por terem gostos parecidos e nada além disso. Não havia afeto.

Talvez jogassem os mesmos jogos online, escutassem a mesma música, assistissem à mesma série, mas não havia nenhuma conexão emocional.

A questão aqui é notar que cada vez mais as nossas relações se resumem a esses tipos de associações. As redes sociais, quando nos sugerem amigos, não raro, trabalham usando essa lógica da associação e nós transportamos essa lógica para o seio da nossa sociedade.

A foto de uma das cúmplices é significativa: 'no pain, no gain' na camisa. Esse é o lema da sociedade da performance que busca nos transformar em máquinas de produção. Trabalhamos, trabalhamos e trabalhamos, e as nossas relações são meras associações.

Não é difícil entender a hipótese dos assassinos sobre eles mesmos: Nada do que eles fazem importa e não sentem nada por quem se associam. Antes que alguém me acuse de defendê-los, o que estou dizendo é que essa dúvida sobre ser psicopata e não ter ideia de quem de fato é, trata-se de uma condição da nossa época.

A questão é que existem várias pessoas por aí que são da mesma forma que os três assassinos. Eles não são necessariamente psicopatas, mas sim pessoas imersas em um mundo menos humano e mais maquinal. As nossas relações não têm mais nenhum sentido, porque não há mais o texto, a semântica. A semiótica venceu.

Qualquer dia desses um vizinho seu, um amigo, um namorado e etc, vai querer tentar sufocar você para saber se ele está vivo e se você aí existe. Já que nós perdemos nossa capacidade de viver no mundo e sentirmos alguma coisa.

A mãe da vítima parecia ter uma boa relação com a filha. O que explica a confiança da vítima com os amigos. Ela nasceu diante de um mundo de solidariedade e imunização materna. Um mundo onde há amizades com afeto.

Por isso que a vítima foi tão feliz sair com os amigos comer alguma coisa. Ela jamais imaginaria que do outro lado, estavam pessoas que não sentiam absolutamente nada.

O alerta não é para que nós deixemos de fazer amigos - mas que a gente fique atento em relação às pessoas que não são nada, não sentem nada, não sabem quem são. Estas são muito mais perigosas que qualquer psicopata.

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17 outubro 2023

Cₒₘₒ ₛₑᵣ ᵤₘₐ ⱼₒᵥₑₘ ₚᵣₒₘᵢₛₛₒᵣₐ ?

Desculpa, meu caro leitor, por já começar o meu texto falando como eu me sinto. É difícil, eu sei, é complicado acreditar que as pessoas se sentem mal às vezes. Nesse caso é importante, eu prometo - vai que você se sente igual, não é mesmo ?

Sem spoilers :)


Althusser, um dos poucos franceses que merecem perdão, no seu texto sobre os aparatos ideológicos do Estado afirma que uma das coisas mais importantes para o capitalismo é a sua reprodução - aqui a ideologia tem um papel crucial. Podemos argumentar que a cultura, como um resultado dessas relações com a natureza (eu tô simplificando, vão ler qualquer definição básica de antropologia, é isso que eu tô na cabeça) não é muito diferente.


Se você chegar em qualquer pessoa, digo qualquer pessoa mesmo, e perguntar : você é machista ? Mesmo ela sendo mulher, sendo lgbtqia +, às vezes ela até tem um diploma universitário, ela vai responder que não e que até defende o feminismo (o que eu estou dizendo é que muitas vezes nós mesmos reproduzimos os valores da ideologia dominante). Os homens literalmente vão dizer que são feministas ! A resposta em média vai ser algo que foi escrito por um time de publicitários viciados em cocaína da Faria Lima - “somos a favor da defesa dos direitos da mulher”, “é claro que mulher pode ser CEO”, “o salário da mulher precisa ser igual aos dos homens”.


Na superfície, isso até parece feminismo, dá impressão que todo mundo é socialista. Eu to falando de feminismo, porque mesmo se você olhar a superfície do título do filme e sua sinopse, é essa temática que o filme tende a comentar. Só que isso, se tratando como fenômeno, é regra quando vamos falar de minorias. Quantas vezes não ouvimos que racismo não é uma coisa que tem no Brasil ? O velho mito da democracia racial. Para vocês não deve ser tão comum, tanto porque vocês na prática não devem conhecer tantas pessoas trans, mas é muito comum as pessoas olharem a questão do pronome e do banheiro (que seria resolvido se a gente olhasse que banheiro serve para cagar e ponto final) - o que é só a ponta do iceberg, quantas vezes eu não tive que lidar com burocracias desnecessárias, com as pessoas me excluindo de alguns espaços (é algo bem discreto, não lembrar que você existe, por exemplo), evitando falar comigo e coisas do tipo. Lá na ponta, isso é não contratar pessoas trans mesmo elas tendo qualificação, isso são as mortes que passam despercebidas porque as delegacias não registram o nome das pessoas trans corretamente.


Já pensou ? Você morre e ninguém reconhece o seu nome ? Isso parece algo muito bom, não é mesmo ? Nem falo sobre relacionamentos, como é difícil para uma pessoa trans namorar e às vezes ficar naquela incerteza se a família do seu namorado(a/e) vai ter aceitar - já basta as dificuldades que a gente tem com a nossa própria família.


O filme explora muito essa questão : todo mundo é “super feminista”, mas continua reproduzindo os valores machistas da sociedade patriarcal. Leitor, você vai precisar me perdoar, eu preciso dizer que para alguém que é o lado que termina como um cadáver sem nome na história, é muito desgastante você ter tanto discurso em defesa das minorias e tão pouca defesa dos direitos das minorias.


Esse filme não é só sobre isso, inclusive ele consegue servir para discutir tantas coisas que, acho que é o que faz uma história ser tão boa. A possibilidade de poder retornar para ela, aproveitar e pensar coisas. Eu vi depois de escrever um texto para a universidade “porquê devemos ter África no nosso currículo”. Lá eu escrevi a continuidade da história, a importância de se compreender os processos históricos.


África e Brasil tem uma relação para dizer no mínimo complicada. A gente perdoa o Brasil pela escravidão, nós olhamos as nossas instituições (que se você perguntar vão dizer que defendem o povo negro) e a gente sabe muito bem o que elas fizeram no verão passado. A gente sabe que a polícia não quer proteger ninguém, que ela existe para fazer limpeza racial e claro, proteger a sagrada propriedade privada. Falem à vontade o quanto na letra fria da lei ela não é racista e elitista, a gente sabe muito bem a função da lei na ditadura da burguesia.


O filme me fez ficar pensando exatamente nisso. Qualquer pessoa consegue falar que é pró-minorias e justiça social - lutar por isso é outra história. Aqui vou precisar trazer um ponto que grupos fascistas geralmente apontam ao criticar o discurso de justiça social, ou o woke, ou esquerdista : há uma certa hipocrisia das pessoas defenderem uma coisa e não defenderem outra. Eu sei, me perdoe, fascistas são péssimos teóricos, mas isso é uma pista que a gente pode seguir.


E se não for hipocrisia, e se for só cinismo liberal ? Hipocrisia é normal. Se você ainda não é adulto, acho que vai ser difícil de você entender isso : as pessoas são contraditórias, elas têm problemas, são complexas (é o que mais amo nas pessoas). Por isso não é hipocrisia, nesse caso, considerando tudo, é cinismo. O discurso de que as minorias merecem direitos já é algo comum, essas pessoas sabem que isso existe e que é uma questão.


Por isso os fascistas chamam os liberais de hipócritas, porque no final do dia eles não são tão diferentes. O fascista não esconde o que pensa, porque ele quer guerra, ele existe com o propósito de matar esses impuros. O liberal prefere dizer que é a favor, que gosta das minorias, etc - desde que mantenha o limite de não tomar o poder dele e não resistir contra a opressão.


Basta você notar o seguinte : todo mundo ama o pacifismo, manifestações pacíficas e tranquilas. “É só conversar eles dizem” segurando um livro do Habermas no colo. E assim, esse influxo constante de mídias consideradas progressistas, filmes com mensagens revolucionárias, e tal, é em parte para satisfazer esse tesão liberal por debate.


Para eles as ideias mudam o mundo. São elas que são capazes de criar versões melhores de nós mesmos. A inclusão desses discursos na mídia não importam em nada, servem para satisfazer necessidades de mercado. O Che na camisa é excelente, o medo deles é quando as pessoas começam a seguir o exemplo do Che.


O que realmente incomoda é quando esses grupos, de fato, se organizam e reagem contra a opressão. É aí que o liberal chama o fascista. É muito confortável deixar as coisas como estão, discutir as coisas no ar e achar exótico o pensamento oriental. Quando o pensamento oriental se chama maoísmo, aí que a coisa pega. O liberal rapidinho parte para o orientalismo.


Novamente, sem spoiler. O filme explora essa dinâmica. É extremamente didático ver como isso acontece. Você tão boa filha, tão gostosa, tão casada, se você seguir exatamente o script que a sociedade liberal patriarcal te oferece. Se você pular um pouquinho fora, ah, você já vira o fracasso.


O liberalismo quer evitar conflito, especialmente no país dele, pelo menos o liberal inteligente pensa assim. A última coisa que você quer, como um liberal, é que as pessoas comecem a se organizar e a de fato, ter poder político para lutar contra ele. No nível micro, é perder “um espaço de direito”. Para o menino da Barra, quando alguém pobre entra na universidade dele, ele tá tirando o espaço destinado a ele, homem branco. O feminismo liberal odeia as mulheres trans porque isso é tirar o espaço delas como mulheres brancas.


Esse é um ponto importante, tudo na sociedade é escasso, é transformado em escasso por conta do preço que as coisas ganham e a questão sempre é quem deve ocupar esse espaço. Por muita coincidência, o liberal e o fascista concordam que não deve ser uma minoria. Muita gente cai na armadilha de acreditar que basta conquistar esse espaço e a desigualdade some.


A questão não é essa, quem pôe ela esses termos são os liberais. O que a gente deveria mesmo defender é que todo mundo tenha espaço e que todo mundo possa viver em paz. Eu não quero ser doutora trans, sei lá, pouco importa o que eu vou ser, deixar de ser, em relação ao projeto político (como se algum professor quisesse pegar algum projeto meu, só em sonho mesmo…). O mais importante no final do dia é que todo mundo tenha a oportunidade de contribuir para academia, que a universidade não sirva só de think tank e de fábrica patente. O meu destino não é importante, “chegar lá” não importa se todo mundo não pode vir comigo.


Essa solidão, esse isolamento constante, principalmente em relação a essas coisas que  é sufocante. A arte serve para ajudar a gente compreender essas coisas e em grande parte, acho que o filme fez isso para mim hoje…

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