29 outubro 2024

Pós-eleição 2024 : Algumas notas preliminares.




1. Não se aprende com uma história abstrata e com cinismo.

Já peço desculpas se ficou confuso.

Tem dois conceitos que eu quero que as pessoas entendam antes da gente entrar na discussão.

1.1 A história não ensina sozinha : O primeiro deles é que não existe essa de “aprender com a história”. Para se aprender com a história é necessário primeiro, estudar a história, e isso passa por uma compreensão da realidade, da memória, até de algumas ciências como a geografia e a biologia.

É no mínimo necessário, ter uma capacidade geral de entendimento do mundo - coisa que nós brasileiros falhamos absurdamente. Pode ser que alguém venha dizer que estou chamando as pessoas de burras de forma glorificada.

Mas veja, nós vivemos numa sociedade desindustrializada, com grande maioria dos trabalhadores precarizados, isto é, um serviços autônomos ou terceirizados. Isso significa também que a educação geral da população vai ser menor, já que estamos falando de empregos que não exigem curso superior, técnico, etc.

Você até pode estudar, mas dificilmente vai conseguir um emprego dentro da sua área. Por isso tantos engenheiros são motoristas de aplicativo.

Poucos conseguem uma boa qualificação e os que conseguem muitas vezes nem exercem uma função dentro do que são qualificados.

De uma forma geral, é difícil para a população, por exemplo de São Paulo ou de Porto Alegre, ter uma compreensão mínima da responsabilidade que uma gestão ruim tem nas condições da cidade.

Chove e tudo fica inundado, não há uma compreensão das mudanças climáticas, da política de subfinanciar estruturas públicas - esse raciocínio simplesmente não é feito. Existe hegemonicamente um tipo de pensamento mágico, que é herança do nosso passado (presente) religioso e da forma que a gente se afundou no capitalismo.

O dinheiro oculta as relações de produção - o modo mais explícito disso é o modelo de entregadores de aplicativo : Você aperta um botão e recebe sua comida, mal você sabe que existe toda uma infraestrutura de tecnologia, pessoal para entregar o produto, pessoas cozinhando aquela comida, pessoas que venderam a comida para o restaurante, etc - isso simplesmente desaparece quando você consome seu produto.

É uma relação mágica, “você usa um símbolo e invoca comida”. Então não deveria ser surpresa que o pensamento mágico, tanto por conta dessa relação, tanto por conta da religião em nossa sociedade, seja o pensamento hegemônico. A causa e o efeito não existem, é o mundo se movendo por forças misteriosas - a razão aqui não tem espaço.

Veja, as pessoas não olham para Bolsonaro mais e acham que má gestão dele na Covid foi responsável pelo aumento das mortes. Esse raciocínio, essa compreensão da responsabilidade de um governante em relação à gestão política do Estado, simplesmente, não é o tipo de pensamento que passa na cabeça das pessoas - no melhor dos casos, as pessoas acreditam que Bolsonaro foi uma vítima do “acaso”, do azar, em receber uma força da natureza daquela magnitude - “a vontade de Deus”.

1.2 Cinismo na política : O segundo conceito, é que é preciso parar de ter uma postura cínica em relação à política de uma maneira geral. Como assim ? Olha, você vai ver duas posturas principais nesse pós-eleição : aquele que acha que as eleições são uma farsa, que o jogo já está dado, etc, etc; e quem acha que faltou eleitoralismo, que faltou presença nas bases, a comunicação foi ruim, etc, etc. Essas são posições cínicas e extremamente conservadoras porque elas são imobilizadoras, veja, quando você diz que as eleições são uma farsa, você está dizendo que não importa o que seja feito, nós iremos sempre perder e que é impossível ter hegemonia popular numa democracia burguesa.

E veja, isso não é necessariamente verdade, apesar de tudo, a classe trabalhadora conseguiu encampar e conquistar direitos, apesar da ditadura da burguesia. Então mesmo que a eleição seja em grande parte influenciada pela burguesia, aqui e ali, conseguimos conquistar algum direito para não sermos destruídos de uma vez - vide carteira de trabalho, direitos trabalhistas, SUS, etc, etc. Essa postura da “farsa eleitoral” não afeta exclusivamente as eleições municipais e federais, afeta também a nossa consciência pública, de que não devemos fazer concursos, assumir cargos na máquina do Estado, não devemos tentar competir em associações de bairros e prefeituras-bairro, etc, etc.

Numa perspectiva política, sendo o mais seco e materialista possível, é tolice minha querer pessoas que seguem o mesmo projeto político que o meu, em todas as esferas da sociedade ? Eu to pouco me fudendo se isso é feio, bonito, etc, a questão é que na hora de atuar politicamente, é muito melhor tendo pessoas em cargos chave do Estado e em instituições da sociedade civil - isso nem é algo tão fora do senso comum, isso é o meu Gramsci mal lido, um Lênin de ouvido e uma leitura do Príncipe de Maquiavel.

A segunda postura é cínica porque ela dá valor extremo às ideias, como se elas tivessem propriedades mágicas e que basta as pessoas ouvirem nossas boas propostas para elas entrarem para o nosso lado. Essa conversa de voltar para as bases aparece desde 2018 e desde então todo mundo repete isso, sem ter uma metodologia de como “voltar para as bases”, sem nenhuma proposição real do que fazer.

Outro exemplo disso é essa questão do “problema de comunicação”. O problema não é de comunicação, é de não ter como por materialidade no que se diz. Veja, o PT no governo é bem comunicativo com quem interessa : os empresários e banqueiros, que é quem na prática vai comprar o projeto político nem que seja de forma temporária e oportunista. Se realmente houvesse interesse em se comunicar com a população, a esquerda liberal não aparecia só em tempo de eleição.

Existe, portanto, um foco excessivo no jogo eleitoral, a ponto de que se ignora todo o resto da atividade política. Por isso é uma posição cínica, é como se você dissesse : “para que eu vou ficar fazendo militância e tentando ganhar apoio do povo, se quem manda mesmo são os empresários desse país ?”.

Meu ponto principal em relação a esse conceito é que não adianta atuar politicamente pensando de forma cínica, o cinismo é justamente quem abaixa as calças da formalidade social. Se você quer atuar politicamente, primeiro lugar, isso precisa ter alguns valores, é preciso no mínimo ter um projeto de sociedade, se você só nega isso e assimila ou deixa de participar, você está basicamente minando sua própria atuação política (se é isso que você quer).

Se você se assimila, você reproduz a lógica hegemônica; Se você só nega tudo, você deixa de atuar.

2. É preciso mais do que falar bonito : Dito isso, o que eu realmente quero trazer é esse ponto : política precisa parar de ser discutida sem um propósito material. É óbvio que a urbanização desorganizada, a destruição da natureza para fazer plantações improdutivas e desertos verdes, que a desorganização do mercado de trabalho, etc, que tudo isso, vai tendencialmente tornar a vida mais insalubre.

E o que se discute na política são muito “soluções mágicas” e muito pouco projetos que se podem entrar hoje, agora, e começar a alterar a realidade. De um lado, você tem gente que acha que basta “privatizar” que mágicamente os serviços públicos vão melhorar, do outro você tem gente que acha que basta fazer política pública meia boca (para não desagradar o centro né) para resolver problemas estruturais.

Me desculpe assim, para mim isso é pensamento mágico. Nós precisamos pagar nossas contas, lidar com falta de renda, emprego, fome, problemas climáticos, etc - essas conversas mole, não vão levar ninguém para lugar nenhum e a gente sabe, nós estamos cansados de saber disso. Por isso as pessoas não se interessam tanto em discussão política, ela é abstrata, além de claro, que a discussão de verdade acontece sob portas fechadas nos famosos jantares longe de todo mundo - isso torna a discussão pública praticamente inútil, já que quem decide muitas vezes, o que fazer, como fazer, etc, são “os técnicos” da ditadura burguesa.

Sabe, o que me pega é que as pessoas esperam que todo mundo vá se organizar politicamente “por boa vontade”, como se bastasse se sentir revoltado ou algo do tipo. Não adianta a gente construir militância política se essa militância, muitas vezes, não consegue sustentar, proteger, cuidar, dos próprios militantes. As emoções são importantes na prática política, mas é mais importante ainda, ter capacidade organizativa para usar dessas emoções.

É tão óbvio que entrar num sindicato, num partido político, é algo que pode, por exemplo, dificultar sua busca por emprego, ou desencadear assédio em espaços de trabalho, espaços públicos, etc. Será mesmo, que ainda que revoltados, as pessoas estão dispostas a terem que correr esses riscos ? Será que isso precisa ser um risco ? 

Tem a questão também do tempo. A maioria das pessoas trabalha excessivamente nesse país e ainda, nós precisamos acumular função em toda nossa militância que fazemos. Precisamos mesmo tanto nos sacrificar tanto ? Não é muito cristianismo ? Não é querer ser santo demais ?

Esse acúmulo de função não causa problema só para o indivíduo que faz isso, é um problema coletivo, não se socializa o conhecimento das tarefas e basta essa pessoa ter um dia ruim, ou adoecer, para toda uma organização parar de funcionar. E nem venha apontar dedos para organização do amiguinho, isso é um problema generalizado. Veja, esse comportamento, muito possivelmente, tem raiz na precarização do trabalho : Em nossos empregos acumulamos funções justamente para o empregador não ter que contratar mais pessoas.

O começo da mudança só vai vir quando a gente conseguir construir redes de apoio mútuo e parar de achar que se faz política só com ideias bonitas e boa vontade. É preciso ter um mínimo de “imediatismo” para traçar um caminho para uma solução permanente.

Até por um certo azar, eu acabei vendo um pouco a campanha de São Paulo de Boulos. Veja, o que a deu a diferença dos votos, foi justamente essa parcela do eleitorado que não enxerga na política como um caminho para mudança real e por quem vê em Nunes, “uma governabilidade mais viável”.

Me pega como que não houve (até onde eu tenha ouvido), um grupo de pessoas e tal, que se dispôs em se organizar para dividir eletricidade, guardar alimentos, mesmo uma organização jurídica para processar juridicamente a ENEL e a inabilidade da prefeitura (nem que seja só para ganhar dinheiro em cima desses processos mesmo), etc, etc, etc. Veja, isso é atuar politicamente, você se organiza com grupos de pessoas para determinados fins em comum - a eleição é uma parte muito pequena disso·

O que eu fico vendo é que Sr. Boulos tem cargo de deputado, etc, mas esse ele ter o cargo, realmente trouxe algum saldo positivo para o movimento do qual ele fazia parte ? A vontade do movimento foi expressa através dele, e assim, é foda que falam dessa eleição de Boulos em São Paulo, praticamente desde 2022 e aí Boulos só aparece para fazer campanha. Como isso soa ? Como isso parece para as pessoas ? Não parece só oportunismo de repente ele só aparecer nas eleições ? As pessoas enxergam esse tipo de coisa, é um dos motivos das pessoas não separarem políticos mesmo do PT/PSOL como meros “ladrões corruptos”. É uma falsidade que acaba “se tornando verdade” porque exatamente, o modus operandi deles acaba sendo literalmente o mesmo de políticos invisíveis da estirpe do centrão.

O que eu pus no começo desse texto é importante e é parte dessa dinâmica social. O pensamento mágico e a falta de compreensão da realidade com certeza beneficiaram Nunes, mas essa ideia do “gestor”, nem que seja apenas como título vazio, foi o que fez ele ser o favorito desde o início.

É o realismo capitalismo, essa ideia de que o capitalismo é o único modo de produção, e que basta gerir, “otimizar” o sistema, melhorar sua performance que inevitavelmente nossa vida vai melhorar. Fisher demonstra exatamente, que é essa é a ideologia que guia nossa cultura atual, o nosso limite do que pode ser feito e imaginado.

Só realmente se quebra isso, com uma prática material que supere essa (des)organização capitalista. Isto é, com organização revolucionária. Caiu o muro de Berlim, falaram que o comunismo morreu, por que Cuba e a Coreia Popular continuam em pé ? Por que existe MST no Brasil ainda ? Como que um partido de esquerda radical como a UP surgiu mesmo no governo Bolsonaro ?

Aqui você pode achar feio, fazer cara de nojo, etc, etc, mas é fato que essas organizações se mantiveram ou surgiram em clima de derrota geral para a esquerda. É preciso de uma vez compreender que de um lado, será que tudo o que o PT faz é tão descartável assim ? Será que a gente não pode aprender uma coisa ou outra ? E tipo, será que adianta também chegar ao poder da forma que o PT chegou ?

Isso é uma pergunta que precisamos fazer antes de sair por aí saqueando os espólios políticos do PT e mesmo do trabalhismo. Veja, tanto o trabalhismo como o “petismo” foram hegemônicos por décadas nesse país, fazendo um balanço, será que eles foram mais eficazes em trazer mudanças que outras formas de organização e política popular ? A gente realmente precisa mais Lulas ?

É muito interessante que Jones Manoel quer ser um novo Brizola, enquanto Boulos claramente quer ser um novo Lula. O que isso vai mudar na ponta, na militância de bairro, de rua, da polis ? Que tipo de organização vamos ter ? Quais medidas podemos tomar hoje para proteger a população e nossos militantes ? É uma crítica a eles, para gente pensar justamente, se a gente precisa repetir de novo Brizola/Lula - será que a gente não precisa de algo novo ? Então, tem outra questão, será que a gente não precisa na verdade do Boulos sendo o Boulos, o Jones sendo Jones, ao invés de uma imitação barata de políticos do passado ?

São questões importantes de responder, porque não tem mais essa coisa de “a crise climática vai chegar”, ou “as crises do capitalismo vão surgir”, etc, etc - nós já estamos vivendo nesse futuro distópico. É preciso atuar o quanto antes.

3. Ideias preliminares para o futuro : O cenário principal, certeza, vai ser de água batendo na bunda. Literalmente, claro, mas também no sentido metafórico, no sentido de que cada vez mais esses discursos vazios vão tender a serem abandonados por movimentos que conseguem minimamente “fazer coisas”.

Não adianta você prometer uma casa, comida, uma proteção daqui 20 anos - com as crises do capitalismo cada vez mais constantes é fato de que viver vai se tornar mais difícil e é difícil se organizar politicamente se estiver constantemente em estado de vida ou morte. Fato é que vai vencer quem conseguir oferecer uma rede de apoio e segurança, a ponto de substituir a ausência das políticas públicas do Estado.

O que se desenha, como sempre, é um 2025 frio, todo mundo esquecendo de fazer política e um 2026 quente, chato para kct como 2024. Só que alguma coisa diferente vai precisar ser feita, por questão de literal sobrevivência, essa é a nossa tarefa para os próximos meses. Sabe, passou aquela época que você prometia e prometia, fazia um monte de discurso vazio, e conseguia agregar as pessoas.

Vou recomendar o Jones falando do mesmo tema esses dias.





Por enquanto é isso.

Eu vou escrever mais sobre isso ainda, preciso terminar o texto que eu prometi sobre o The Fixer e o fim da trilogia tentando propor coisas.





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20 outubro 2024

Construir as bases materiais para o futuro socialismo


Vou começar uma sequência de textos mais práticos, discutindo algumas questões políticas, ainda mais agora que a eleição acabou e como eu já havia dito lá atrás, deu ruim - é literalmente física, bastava olhar a trajetória que veria no que iria dar.

Os textos vão seguir mais ou menos a mesma temática de discutir as questões materiais e a minha tentativa de achar uma alternativa real.

Só que diferente da maioria das pessoas que vão escrever nesse pós-eleição, vou ser ousada e tentar ser mais propositiva.

Por que ? Eu não acredito nas eleições ? Quem sou eu para crer ou descrer nas eleições ? Elas cumprem sua função. Claro que a gente sabe que existe toda questão de fraudes, etc, etc, que mesmo o TSE tem dificuldade de lidar, mas talvez o ponto que a gente precisa compreender é que aquele cara que acha massa um político velho de um desses partidos conservadores, existe e se reproduz.


Da mesma medida, tem gente que acha Alckmin uma figura muito simpática, Haddad um galã, e sei lá, que o Paulo Guedes é genial. Talvez para você que é literalmente o próprio comunismo ambulante, seja tosco imaginar que essa gente existe, mas eles existem e mais importante, podem nos machucar.

Ideologia é uma coisa interessante, porque quando você se debruça inicialmente, parece algo até mágico. São pessoas sendo levadas por determinadas ideias, muitas vezes, sem nenhuma racionalidade ou que são contraditórias contra a própria pessoa, e assim como um feitiço, ela faz sem consciência do que faz, para ela aquilo é o normal, ela nem enxerga como uma ideologia.

Um aspecto que passa muitas vezes despercebido é justamente o fato de que a origem da ideologia não surge dela mesma. Ou seja, crenças não são formadas na cabeça, elas são formadas na relação do humano com o mundo material. Matéria precede a ideia, nós vemos o mundo e depois raciocinamos.


Quando alguém acorda num dia de manhã e acha que é uma boa ideia investir todo o dinheiro que tem em uma criptomoeda estranha, num curso de coach de energia quântica, em um esquema de “recomendação e recrutamento” (PIRÂMIDE), enfim, jogo do tigre lá e etc, é porque ela de alguma forma enxerga nisso alguma alternativa.

Claro que muita gente é pega em falsas promessas, isso não tira o fato de que muitas dessas decisões são feitas de forma racional. A pessoa que sentou, pegou uma calculadora e achou uma boa ideia apostar num cassino online é real !! Pode parecer a coisa mais burra do mundo, só que o ponto que eu quero apontar é que a pessoa olhou pro mundo e viu aquilo como uma decisão racional para lidar com os problemas da vida.

Antes da gente beber para esquecer os problemas, nós temos clareza que não podemos fazer nada em relação aos problemas; Bebemos para distorcer nossa percepção e nos distrair enquanto não podemos fazer nada. Dou esse exemplo, porque esse mecanismo não é tão diferente assim do que a religião , as drogas, o coach, os jogos, o copo de água com açúcar, podem oferecer.

Nós somos seres que pensamos em uma abstração chamada futuro. Ele pode até existir, mas não aconteceu e nós temos alguma capacidade de antecipação, baseados em experiências anteriores, tendências, probabilidades e tal. Olhando pro jovem de hoje, terceirizado, precarizado na economia de aplicativo, sem previdência social, sem programas de desenvolvimento social, numa sociedade muito menos solidária e mais hostil, sem muitas perspectivas de comprar uma casa ou sei lá, comprar uma air fryer. É assim, compreensível porque o jovem médio acha uma boa ideia investir numa carreira de criador de conteúdo.

É a única coisa ““viável”” e que parece ter algum resultado. Você vê outras pessoas fazendo e “dando certo”, deve funcionar mesmo né ?

Mas essa possibilidade, mesmo que ínfima, é aquele empurrãozinho final para você dar o próximo passo. E veja, a questão central aqui é que a gente só começa considerar REALMENTE essas coisas, quando literalmente não tem nenhuma saída.

É uma tentativa de literalmente apostar numa saída. E por apostar, leve como literal, porque na prática não vivemos numa época de tanta fartura econômica, com cenários geopolíticos que não terminam em guerra nuclear, sem crise climática.

Muito pelo contrário, crise vem sendo nosso padrão há pelo menos uns 20 anos.

No mínimo, é compreensível que alguém olhe para isso e olhe para a situação difícil que vive, e pense “e se eu começar a vender pack de pezinho no Twitter ?” como uma alternativa para o desemprego, a terceirização, a uberização, etc..

Perceba que isso pode se estender para muita coisa, desde a religião, como trabalhos cada vez piores, como para filiação política, etc.

Eu acho que eu já falei sobre isso em algum texto ou em algum lugar, mas não adianta ter um programa político bonito se ele não traz nenhum benefício real para as pessoas.

Os conservadores têm medo do MST, do MLB, mesmo dos enfraquecidos sindicatos, por quê ? É só anticomunismo reacionário ? Pode até ser, mas vamos olhar mais de perto.


Qual é a pauta central do MST ? Reforma agrária, significa que o MST vai esperar a boa vontade do governo negociar com os latifundiários ? Não, o MST promove ocupação de terras improdutivas que não cumprem seu papel social. Terra que fica parada para especulação financeira.

Isto é, numa longa duração o MST quer construir a reforma agrária - mas ele já constroi as bases políticas materiais para que isso de alguma forma já aconteça hoje.

Ou seja, prosseguindo, eu não preciso ficar apostando numa ideia de futuro abstrata que eu nem sei se vai acontecer - Existe o esforço ATIVO E REAL para que a gente tenha uma reforma agrária por conta de movimentos como o MST.

Existe uma construção no presente, organizada, coordenada, com capacidade de construção real e objetiva de futuro.

É isso que falta na esquerda brasileira, de forma geral, por mais que existam necessidades de mudanças numa longa duração, é também necessário construir as coisas de forma imediata hoje.

Não é que, por exemplo, o MLB deseja que as pessoas tenham moradia, ele de fato, organiza as ocupações para as pessoas terem moradia e elas estão lá.

Pode ser que não seja o programa de moradia soviético, mas o ponto é, nós precisamos construir hoje para ter o que queremos ter amanhã.

Hoje, fora algumas exceções, quantos movimentos populares e partidos que quando você precisar, você pode ir atrás que eles te ajudam ? Claro que existem várias limitações em relação a isso, mas o ponto é, que alternativa real nós estamos oferecendo ?

Que rezar não resolva nada, que aposta em cassino algum vá tirar alguém da pobreza, uber não deixe ninguém rico além de seus Ceos e acionistas - esse “novo” capitalismo oferece uma solução ao “velho” capitalismo.

Se trata de uma disputa interna no campo político da direita - que a gente inclusive só assiste acontecer. Não é só uma questão de “URSS caiu nos anos 90”, ou sei lá, qual grande evento ruim podemos apontar, a questão pode até ser uma questão brasileira.

É elitismo da minha parte explicar o que eu estou explicando ?

De uma vez, é necessário compreender o princípio mínimo do materialismo : se muda a realidade, atuando sobre a realidade, só compreendemos a realidade depois de termos consciência dela, só expandimos nossa consciência com conhecimento.

Écrasez l'infâme

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17 fevereiro 2024

Por que o golpe de 8 de janeiro deu errado ?


 

Depois de assistir a análise do Pitilo , e observando a direção que toma o governo Lula, acho que é possível, dentro das informações que foram publicadas, traçar alguns motivos do possível golpe de Estado não ter funcionado.

Eu quero explorar uma hipótese que é a seguinte : as elites, apesar de terem ficado muito ricas com Bolsonaro, e não se engane, é certo que o apoio em Bolsonaro veio dessa promessa, a grande questão é num médio-longo prazo, não é bom para essa elite, aumentar a desigualdade, fazer as contradições de classe crescerem, porque isso mobiliza as pessoas, o marasmo do neoliberalismo é superado por uma questão de necessidade.

Ninguém consegue um emprego fixo, ou um trabalho que não seja precarizado, o funcionalismo público é sucateado, as aposentadorias são comidas pela inflação e cada vez mais pessoas ficam pobres por conta da falta de políticas públicas. Chega no ponto que realmente, não há o que perder senão as correntes.

Viver a vida medíocre do dia a dia se torna impossível e isso leva muita gente a se politizar. Isso não é necessariamente uma relação de causa e efeito, mas uma tendência geral. É fato que durante o governo Bolsonaro, mesmo os centristas mais ferrenhos, fizeram uma mobilização mínima, contra ou a favor, porque dentro da política era a única forma de atingir seus objetivos.

Acaba que o status quo começa perder toda aquela solidez e isso abre espaço para uma radicalização. O fascismo que surge como um mecanismo de defesa do status quo, aumenta a crise e os comunistas voltam a ser uma ameaça considerável.

Pode até ser que se consiga fazer muito dinheiro num prazo muito curto, como muita gente conseguiu fazer, mas num médio-longo prazo, isso pode significar uma sociedade mais politizada, seja na direita ou na esquerda, já que ninguém ganha mais nada tentando jogar o jogo do momento, por assim dizer.

Esse é o ponto que vejo poucos analistas comentarem : O neoliberalismo é uma quebra daquela velha ordem capitalista. Existe uma ordem social, uma ordenação, um conjunto de costumes, que justificam determinadas tradições na sociedade.

Estudar, trabalhar e no final se aposentar - esse velho roteiro do fordismo se quebrou. Estudar perdeu todo poder social de antes, não te garante nem um emprego básico muitas vezes. Trabalhar, seja CLT ou autônomo, nunca foi algo tão incerto e confuso. Por fim, aposentadoria nem é um horizonte para muitos jovens.

O que fica muito claro com os projetos do governo que incentivam empreendedorismo, que dão setores chave para a iniciativa privada, que mantém uma austeridade até maior do que antes, etc, é que é muito melhor você ter uma sociedade dócil, despolitizada, que continua trabalhando e tem algum direito social, do que uma que pode o mobilizar milhões de pessoas nas ruas.

A função das políticas públicas no neoliberalismo é evitar um caos social maior causado pelo laissez faire. Estar dentro da linha acaba por valer a pena. Essa falta de tato de Bolsonaro, ou seja, essa falta de sensibilidade política mínima, foi o que fez ele se tornar tão impopular e perder em 2022.

Há uma naturalização da agenda neoliberal. Fora do círculo social normal, você ouve bem menos sobre política do que na época de Bolsonaro. Isso é muito sintomático do projeto petista, em grande parte e isso também vale para as elites, as pessoas votaram em Lula para ter o mínimo de paz.

Você pobre com certeza toda semana já estava cansado do presidente zerando os códigos penais, das maluquices, das medidas reacionárias, etc. Enquanto gente rica, que vive de exportação, apesar do lucro aumentar e da possibilidade de grilagem etc, facilitada, toda semana era uma instabilidade que Bolsonaro fazia que o mercado ficasse instável.

Veja o que tanto Temer e Alckmin dizem dia sim e dia também : é preciso confiança, preciso tranquilidade, preciso diminuir a radicalidade. Isso o governo Lula sempre ofereceu, eu acho que a raiz do fracasso de Bolsonaro mora no fato de que ele causou tantos problemas ao Brasil, que mesmo seus aliados começaram a sair prejudicados.

Chegou num ponto que o lucro no curto prazo em algumas décadas poderia virar um grande movimento popular e é isso que, na perspectiva das elites, não pode acontecer e é interessante observar o quanto que o petismo oferece uma normalidade, estabelece um tipo de marasmo permanente, naturaliza certos problemas e mantém de certa forma, essa despolitização geral que gestou Bolsonaro firme.

Nesse sentido, 8 de janeiro foi um fracasso porque as elites viram em Lula, da mesma forma que muita gente pobre lembra do passado glorioso dos governos Lula, muita gente da burguesia queria toda aquela lucratividade sem o medo da revolta popular.

E acredite, se em 4 anos o Brasil se politizou, quase uma década de Bolsonaro com certeza iria aumentar a atividade política, seja na extrema-direita, seja na esquerda radical.

Claro, podemos analisar outros aspectos da economia, da geopolítica, etc, mas é muito claro, inclusive olhando a blindagem do exército, o tipo de retórica de “eram só os perto do Bolsonaro”, indica que a questão do golpe e do governo atual, é que o projeto do PT é o mesmo projeto das elites e que apesar da “derrota”, era muito melhor “ceder” e manter o poder numa perspectiva de longa duração.

É interessante porque o que fica muito claro nesse 1 ano de Lula III é que o projeto político é uma versão bem acabada e possível de ser feita, do que de Bolsonaro.

O que me preocupa é muito isso. Lula pode até ter ganhado as eleições, mas o programa político que ele executa não é o que ele prometeu.

É importante nós termos isso em mente quando vamos analisar o governo Lula. O fascismo continua na espreita porque a base sociopolítica que o fez aparecer continua existindo. A vida não melhorou magicamente com o governo Lula, nem poderia, especialmente quando o projeto político é o mesmo.

8 de janeiro foi uma tentativa de Bolsonaro manter o seu poder político, mesmo com a falta de apoio das grandes elites. A grande questão é que com Bolsonaro o Brasil ficaria um caos, e isso não dá lucro. Aquela coisa, a Inglaterra pressionou o Brasil a abolir a escravatura não porque ela é anti-racista, mas porque ela perdia um grande mercado de consumidores - ninguém transformou o brasileiro em mais consumidor que Lula.


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21 outubro 2023

ᴱᵐ ᵈᵉᶠᵉˢᵃ ᵈᵃ ⁿᵒˢᵗᵃˡᵍⁱᵃ

Acabei de assistir Last Night in Soho. Não vai ser necessariamente uma resenha (assim como quando eu escrevo de outros filmes). Eu sou uma dessas pessoas radicalmente pessimistas com o futuro - não é que acredito que as coisas vão piorar, eu não acredito que vá ter um futuro. E assim, concordemos que futuro não existe, independente de eu acreditar nele, é uma projeção, uma mistura de passado com presente.

Pensar no futuro é algo que tem funções diferentes. Pode ser uma ferramenta para te prender, como pode servir para te libertar. Quando se discute nostalgia, de Fredric Jameson, Mark Fisher, Derrida, etc, você tem quase que uma unanimidade contra ela. E de certa forma, é fácil ver porquê.

Nostalgia te coloca num estado de sonho. Não é o passado que você enxerga, mas a sua projeção. Você não tem uma ideia de como realmente foi, como a experiência se deu, como era sentir e viver em determinada época. Mesmo você no auge dos seus 20 anos, você sabe que 10 anos atrás, 2010s e anos 2000s, não eram lá tudo aquilo.

Muita gente gosta de lembrar dos desenhos icônicos da TV na época, o quanto era bom acordar cedo, tomar café, ver desenho e ir para a escola. Lembro que eu acordava às 9, tomava café vendo desenho, tomava banho e ia para a escola. Só de falar sobre isso, acredito que muitos de vocês devem estar lembrando das suas infâncias. Aí vem a parte que a nostalgia começa a incomodar - eu lembro de pensar sobre me matar a infância inteira, sentia um peso no peito constante, vivia sozinha, ninguém queria brincar comigo e ninguém fazia bullying comigo por medo de morrer, já que eu sempre passei(o) essa vibe de assassina em massa. Até hoje tem gente que me acha doida.

E não sou só eu que se olhar mais fixamente pro passado vai ver que não era tudo aquilo, ou até que não era tão ruim assim. Que tinham problemas, que as coisas não eram fáceis, que nem tudo eram flores - ou até que boa parte era dor e sofrimento e que mesmo no meio dessa escuridão se encontrava alguma luz.

(Mesmo só por texto, eu acho que eu já passo muito essa vibe, só que eu sou legal, eu acho. Um dia vocês vão me ver e vão confirmar isso.)

Só que o maior problema com quem é contra a nostalgia ou com quem delimita radicalmente os movimentos culturais em determinadas épocas, é que a história continua. Ninguém acordou no dia primeiro de janeiro de 1960 vestido de hippie, em grande parte a cultura ainda era cinquentista e vou mais longe, ninguém dos anos 50 abandonou aquela cultura urbana da década de 30 - e assim segue. Nós deixamos de imitar os antigos sumérios ?

De certa forma, a crítica da nostalgia geralmente se dá pelo fato de ser sempre uma imitação do passado, não é uma historiografia que tenta no máximo compreender e interpretar o que aconteceu dentro do contexto da época. Um elemento importante da nostalgia é a arbitrariedade - “as boas memórias”.

Um estado feliz com o passado, uma certa melancolia de não poder aproveitar aqueles momentos como eles foram. A grande questão é que a gente quando vive o momento, não aproveitamos o tal momento. Nós não sabemos envelhecer, não sabemos tratar a velhice como parte da vida. Há uma certa ideologia da novidade e da juventude que impedem a gente reavaliar melhor o papel do passado em nosso presente.

As pessoas quando ficam velhas acham que já estão mortas e que não fazem mais nada pelo mundo. Quando na verdade, os velhos são a base da sociedade, são eles que reproduzem os principais valores do que a gente chama de civilização, do que a gente chama de certo e de errado.

Quando a gente cresce, nós olhamos os mais velhos como pessoas que devem saber alguma coisa sobre a vida. O cara pode ser um imbecil, mas ele já estava no mundo quando a gente se deu por conta que é gente. Você jovem, pode ter a cabeça cheia de vento e literalmente ter caído aqui de paraquedas, até você sabe que quando precisa fazer alguma coisa, ou aprender algo novo, você vai em quem é mais velho pelo simples fato deles estarem literalmente mil anos aqui e é impossível não terem aprendido alguma coisa.

Se tem uma coisa que discordo radicalmente é que os idosos sejam todos conservadores. São os mais velhos que muitas vezes têm tendências mais radicais, justamente por já não ter aquele compromisso dos jovens em tentar ter um espaço na sociedade. Se você é velho e conservador, eu te garanto que é na verdade porque você não superou o fato de ter envelhecido, de agora ter responsabilidades, de ter ainda não ter superado o seu passado.

Interessante porque o velho conservador é o que mais “cometeu erros” no passado. Uma tendência muito comum são pais conservadores terem aprontado muito na juventude e essa repressão passada para os filhos, muitas vezes é o que incentiva os jovens a serem mais “rebeldes”.

Quantas vezes eu já não vi jovens que tem uns pais repressivos virando rebeldes e jovens que têm pais mais tranquilos serem mais conservadores ? (Em defesa do método científico, isso é uma hipótese, que pode ou não se confirmar, que pode estar dizendo muito sobre o meio social que eu vivi, desculpa não consigo fugir de mim mesma)

Qual é o mecanismo psicológico que leva esses jovens rebeldes a virarem conservadores ? Culpa. De ter violado alguma regra, de ter feito algo “errado” e não conseguir se perdoar pelo o que fez. Ou até pior, de nunca ter sido punido. É o de que seus filhos não repitam os mesmos erros que eles. Mas não existe uma avaliação frontal do porquê o que fizeram foi um “erro”, ou que levou as coisas a darem “errado”.

Aqui os psicólogos de plantão fazem festa. Ainda que eu quisesse ir para esse lado, a questão não é meramente psicológica. Não acho que isso vá nos levar para lugar nenhum em nosso debate. Até porque eu proponho o seguinte : ser velho e ser jovem, na prática, não muda o fato de você ser aquela mesma pessoa jogada num mundo que não entende e que precisa sempre aprender uma coisa ou outra. A única diferença é que o velho pode aprender algo, pode construir um conhecimento por mais tempo. O cão velho sabe alguns truques, mas também não significa que não possa aprender novos, nem que o cão novo não possa ensinar.

Esse filme é muito isso. Uma coisa é você cair na nostalgia, olhar o passado como um lugar glamouroso, como o melhor momento de todos os tempos. Esse é um momento que a gente vive em um primeiro instante, é incrível viver em festas, ter amigos, usar drogas e fazer muito sexo - esse aspecto da juventude é posto de uma forma, como parte essencial de aproveitar a vida e ter aproveitado a vida. Deveria ter sido muito bom viver nos anos 60 !

Aquele momento da juventude que você é cheio de sonhos, quer ser famoso, vai entrar na universidade e vai conseguir fazer muitas coisas importantes. Esse é um estado de sonho, que tanto os jovens muitas vezes experimentam, mas principalmente são os mais velhos que os reproduzem.

São eles que querem que a gente siga certos caminhos. Os mais velhos são os que dizem que a gente deve aproveitar a juventude, que devemos ter responsabilidade e a gente sabe bem, os velhos ideais de vida tranquila, muito dinheiro, uma família, etc. O que é fazer o “certo” na vida é em grande parte reproduzido pelas gerações mais velhas sobre os jovens.

O segundo momento é quando o sonho vira pesadelo. Sabe aquele cigarro que você começou a fumar cedo ? Agora você tosse sangue e não tem muito fôlego. Todas aquelas vezes que você fez sexo, teve uma que você teve/fez uma criança e vai ter que lidar com isso. Aqui o pior aparece, desmantela aquele estado de sonho em relação ao passado.

Não é difícil olhar isso, por um lado, o jovem se tornando um pessimista sobre o passado, também a repetir o mesmo pessimismo sobre o presente - aqui surgem os recriadores da roda. Só que a figura mais importante aqui não é o jovem - é o velho. É ele que alerta que o sonho de ir morar na cidade grande pode ser uma grande roubada, porque ele é a pessoa que foi para a cidade grande e teve seus sonhos roubados.

É aqui que todo mundo para e deixa a nostalgia para lá. Essa nossa incapacidade de encarar a história “do jeito que ela é” é o que mais nos impede de compreender o nosso presente e de reavaliar as nossas posições. Faltam fazer mais perguntas, não vamos a fundo para entender o nosso passado, nós ou ficamos num eterno brilho de uma mente sem lembranças ou nos tornamos velhos rabugentos reclamando que idealiza o passado negativamente ou positivamente, reclama de no presente todo mundo estar fazendo merda.

Aí que vem a conversa de que o futuro está perdido.

O problema, na minha opinião baseada em algumas leituras e reflexões, não é a nostalgia em si, assim como eu não acho que o problema de muitos movimentos é o culto à personalidade, ou à algum momento da história, o problema é a gente não ter a capacidade de capturar esse sentimento positivo do passado, a crítica pesada historiográfica e transformar isso numa potência para transformar o presente, e inventar um futuro.

Eu acho que 1917 teve uma série de problemas, mas eu não quero perder o sentimento revolucionário de 1917. É um movimento dialético, por um lado eu quero olhar o passado com o mesmo entusiasmo que quem olha para ele com nostalgia. Como quem quer que o passado possa voltar - mas que volte o que o passado teve de bom. Eu quero a excitação da eleição de Prestes e Jorge Amado, quero acreditar que aquela época poderíamos ter feito muitas mudanças mais radicais.

Só que eu quero compreender de forma contextualizada, crítica, de forma a desmistificar o passado para conseguir capturar alguma lição para aplicarmos ao presente. Não adianta abandonar tudo e querer reinventar a roda, é preciso também aprender para inventar o futuro. É preciso ter coragem para enfrentar de frente o passado para superá-lo.

O passado é uma espécie de trauma. Volto ao início do texto, por que acordar às 9, ver desenho, tomar banho, almoçar e ir para aula eram coisas tão boas ? Será que é por que hoje como trabalhadores nós não temos nem a metade desse tempo ? Será que a nostalgia da infância não é por que a nossa vida adulta materialmente piorou drasticamente ? Veja como você começa a fazer perguntas mais relevantes. Confrontar o passado, é ter a possibilidade de inventar o futuro…

Viva a nostalgia.

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02 outubro 2023

ᴺᵒᵛᵃ ᵒⁿᵈᵃ ᶠᵃˢᶜⁱˢᵗᵃ

Tempos atrás, logo quando o sr. Lula ganhou, fiz um texto explicando que as políticas neoliberais, somada à quebra de promessas de campanha, pode ser um novo germe ao fascismo brasileiro.

Os bolsonaristas não só continuam existindo, como ficou bem claro que não existe um grande compromisso do governo em combater essas figuras de forma mais efetiva. Há muito um pequeno show, punições com a ideia de criar exemplos.


O cerne do movimento fascista no Brasil não foi tocado, continuamos com os evangélicos do pior tipo, com exército e polícia contra a população e a mesma mentalidade de CEO de si mesmo continua existindo (mesmo entre as minorias, o que não faltam são iniciativas de "lgbtqia+ empreendedores", por exemplo).


Nós não deixamos de ser o mesmo povo reacionário. O movimento petista, ou o tal do progressismo, ele não tem nenhuma perspectiva de esquerda. Ele acha legal negros, povos originários, mulheres, lgbtqia+, terem direitos, apoia alguma política pública aos pobres. Mas ali não há uma proposta política radical para destruição do capitalismo, há uma defesa muito grande por políticas que amenizem o capitalismo. E se formos olhar para a subjetividade de uma maneira geral, há uma reprodução de valores liberais.


Por mais que essa gente defenda as minorias no papel, na prática eles não querem fazer o enfrentamento político contra as forças reacionárias, sob pretexto de uma suposta necessidade de conversar com todo mundo.


Essas políticas de austeridade somadas com políticas sociais limitadas (que só servem para não ter um caos generalizado, ruim para os negócios), mantém vivos os grupos fascistas que surgiram e dá um novo ar para que grupos novos possam aparecer.


A esquerda mesmo, não esse bando de liberal moralista, não é grande, não está bem organizada e tem pouca capacidade de mobilização. Ter Lula lá ameniza alguma coisa da mobilização da direita, mas não muda o fato de que a esquerda radical não tem uma presença na política brasileira.


E política meus caros, não é só eleição e não é só manifestação. É a ocupação dos espaços, disputa por hegemonia, construção de comunidades, é autodefesa.


Hoje eu tenho mais elementos para confirmar a minha hipótese do que antes, me surpreende as organizações, os maluco cheio dos diploma, etc, etc, já não ter no mínimo algum plano de contingência para essa tendência.


Incomoda muito, principalmente agora no governo Lula, a quantidade de iniciativas de empreendedorismo voltadas para as minorias. Ou seja, aos poucos podemos perder mesmo esses movimentos para a direita.


Sendo aqui bem realista, o que eu vou dizer vai até soar muito cínico : se tudo estivesse tão bem, eu nem perderia meu tempo escrevendo sobre isso. Digo numa esfera geral e numa esfera pessoal. Até o momento, tem muita gente pobre que tá tudo bem, que não precisa se preocupar com nada disso que eu estou falando.


A tendência é que mesmo para quem tem o mínimo para não se preocupar, as coisas comecem a piorar. E quando a coisa pega, quem aparece como solução ? No Brasil de hoje, a direita.


A esquerda precisa deixar para lá um pouco essa história de atuar e aparecer só com a perspectiva eleitoral. Poder, dentre várias coisas, é você ter a capacidade de solucionar problemas. É você chegar numa comunidade e quem faz as coisas acontecerem ser você.


Assim era na Rússia no pós primeira-guerra durante a revolução. Você quer levar algo do ponto A ao B ? O Estado do Czar era incapaz de organizar qualquer coisa, quem era responsável por fazer as coisas acontecerem eram os sovietes.


Hoje, nós temos a capacidade de fazer algo da mesma natureza ? Ainda não. É algo muito distante no horizonte. Por isso assim, nessa nova onda fascista a melhor maneira para se cuidar é se organizando, nem que seja só entre amigos seus.


ℑ 𝔰𝔢𝔢 𝔱𝔥𝔞𝔱 𝔦𝔰 𝔰𝔬. "𝔗𝔥𝔦𝔰 𝔴𝔬𝔯𝔩𝔡’𝔰 𝔰𝔬 𝔰𝔦𝔪𝔭𝔩𝔢. ℑ’𝔳𝔢 𝔫𝔢𝔳𝔢𝔯 𝔨𝔫𝔬𝔴𝔫 𝔱𝔥𝔞𝔱. ℑ 𝔥𝔞𝔡 𝔣𝔢𝔩𝔱 𝔱𝔥𝔞𝔱 𝔱𝔥𝔦𝔰 𝔴𝔬𝔯𝔩𝔡 𝔴𝔞𝔰 𝔬𝔫𝔩𝔶 𝔰𝔠𝔞𝔯𝔶 𝔞𝔫𝔡 𝔳𝔞𝔰𝔱… 𝔅𝔲𝔱 𝔫𝔬𝔴 ℑ 𝔲𝔫𝔡𝔢𝔯𝔰𝔱𝔞𝔫𝔡. ℑ 𝔣𝔢𝔢𝔩 𝔳𝔢𝔯𝔶 𝔯𝔢𝔩𝔦𝔢𝔳𝔢𝔡.” 
- 𝔏𝔞𝔦𝔫 “ℑ 𝔰𝔞𝔦𝔡 𝔰𝔬 𝔡𝔦𝔡𝔫’𝔱 ℑ?" 
- 𝔉𝔢𝔪𝔞𝔩𝔢 𝔳𝔬𝔦𝔠𝔢

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11 setembro 2023

ᴺᵃᵈᵃ ˢᵉ ʳᵉˢᵒˡᵛᵉ ⁿᵒ ᶜᵃᵖⁱᵗᵃˡⁱˢᵐᵒ

Se eu só falar diretamente para vocês que nada se resolve da melhor forma para nós no capitalismo ou que só é possível construir soluções melhores para os nossos problemas no socialismo (e no socialismo os problemas ainda vão existir), não vai ficar clara a minha crítica à Lula.

Capitalismo, dentre muitas coisas, é uma forma de organizar a vida em torno da reprodução do lucro. Consegue ver o problema, certo ? O liberal de cartola pode chegar em você e te falar que no capitalismo você tem liberdade de empreender, criar novos negócios, enriquecer, não precisar trabalhar mais e só focar em criar coisas novas.

Isso é uma meia verdade, portanto ideologia. Isso tá até em Marx, o capitalismo possibilitou desenvolvimento tecnológico, mudou radicalmente o mundo do trabalho, de fato tivemos um progresso tecnológico como nunca quando surgiu o capitalismo, isso é verdade.

Na prática, e por isso o que o liberal te fala é ideologia, para você empreender e ser bem sucedido, você precisa de sorte, nascer em berço de ouro para conseguir contatos, eliminar a concorrência. A ética serve apenas para marketing, toda prática por mais nefasta que nós consideremos é praticada, já que o valor máximo é o lucro.

O valor que a ética pretende reproduzir sequer importa. Se falarmos de comida, todo grande latifundiário está pouco se importando se invade terra indígena, quilombola e de pequeno produtor. Na TV, a imagem de um empresário sério que lutou muito para construir seu império, na prática um herdeiro que contrata jagunço para eliminar a concorrência.

O grande latifúndio quando é produtor de comida vende quase tudo para o exterior, pois oferece uma margem muito grande de lucro já que a nossa moeda é desvalorizada. Quando não produz comida, ele especula no mercado imobiliário a valorização de sua terra, deixando milhares e milhares de produtos sem terra para trabalhar.

A terra é um bom negócio para especular e para vender comida para fora. Se falamos de logística, houve uma pressão gigantesca para privatização, precedida de um sucateamento, das estradas e do pouco de ferrovias do Brasil. Isso cria uma série de problemas de logística, não importa porque é extremamente lucrativo trabalhar com pedágio e ainda receber verba do governo para manutenção das estradas. Para aumentar ainda mais a margem de lucro, geralmente fazem uma manutenção meia-boca e desembolsam o resto pro caixa da empresa.

Consegue ver que se você quiser levar algo do ponto A para o B no capitalismo é difícil fazer isso sem passar por uma série de questões que tem a ver com a reprodução do lucro. Se você mora num lugar periférico e precisa pegar um Uber, tem motoristas que não pegam porque não dá muito dinheiro fazer corrida para essas pessoas.

Não se resolve nada no capitalismo para nós. Nesse caso do transporte, podemos ter um transporte público, mas não sem antes construir uma infraestrutura para uma empresa privada lucrar recebendo o nosso dinheiro quando pagamos a passagem e uma segunda vez, quando o governo repassa verbas para sua manutenção (e uma terceira para recuperação judicial quando a empresa falir por dívidas).

Nada escapa da gaiola do lucro. Lula representa um capitalismo que oferece o mínimo para os trabalhadores para que eles consigam no mínimo vender a sua força de trabalho e ter o mínimo para sobrevivência. É preciso que exista esse mínimo para que as coisas funcionem, por exemplo, é preciso ter SUS, senão a força de trabalho vai diminuir radicalmente, é preciso ter estradas senão não conseguimos transportar comida e bens de forma geral. O Correios é uma necessidade principalmente para o pequeno comerciante que usa de seus serviços para vender produtos online.

Todo avanço no capitalismo, por mais importante que seja e eu aqui não estou dizendo que não devemos defender essas coisas, é só uma medida paliativa. Se não existe sistema previdenciário, você não mata só os idosos, você também mata as famílias que dependem da renda desse idoso. Quantas vezes você já não ouviu de avó que cuida de menino para mãe conseguir ir trabalhar ?

Não digo que os problemas vão desaparecer no socialismo, mas que nele há uma possibilidade da gente tentar resolvê-los.

ℑ 𝔰𝔢𝔢 𝔱𝔥𝔞𝔱 𝔦𝔰 𝔰𝔬. "𝔗𝔥𝔦𝔰 𝔴𝔬𝔯𝔩𝔡’𝔰 𝔰𝔬 𝔰𝔦𝔪𝔭𝔩𝔢. ℑ’𝔳𝔢 𝔫𝔢𝔳𝔢𝔯 𝔨𝔫𝔬𝔴𝔫 𝔱𝔥𝔞𝔱. ℑ 𝔥𝔞𝔡 𝔣𝔢𝔩𝔱 𝔱𝔥𝔞𝔱 𝔱𝔥𝔦𝔰 𝔴𝔬𝔯𝔩𝔡 𝔴𝔞𝔰 𝔬𝔫𝔩𝔶 𝔰𝔠𝔞𝔯𝔶 𝔞𝔫𝔡 𝔳𝔞𝔰𝔱… 𝔅𝔲𝔱 𝔫𝔬𝔴 ℑ 𝔲𝔫𝔡𝔢𝔯𝔰𝔱𝔞𝔫𝔡. ℑ 𝔣𝔢𝔢𝔩 𝔳𝔢𝔯𝔶 𝔯𝔢𝔩𝔦𝔢𝔳𝔢𝔡.” 
- 𝔏𝔞𝔦𝔫 “ℑ 𝔰𝔞𝔦𝔡 𝔰𝔬 𝔡𝔦𝔡𝔫’𝔱 ℑ?" 
- 𝔉𝔢𝔪𝔞𝔩𝔢 𝔳𝔬𝔦𝔠𝔢









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