04 novembro 2024

jones manoel x cesar calejon : bet com política



Eu vou partir do pressuposto que você deve saber do possível debate entre Cesar Calejon e Jones Manoel que vai acontecer no ICL e da situação patética, para dizer no mínimo, que houve no dia 4/11. Resumindo para quem não sabe, Jones havia sido CONVIDADO para comentar sobre o manifesto https://www.manifestopacoteantipovo.com.br/ no ICL e durante a conversa, Cesar Calejon pediu para entrar e discutir com o Jones Manoel para fazer uma aposta : se Jones alcançasse 2 dígitos na sua candidatura para presidência, Calejon doaria 10 mil reais para cada dígito, e se Jones perdesse a APOSTA, ele teria q doar 2 anos da monetização do canal no youtube para as cozinhas populares. Eles entraram num consenso e vão fazer essa APOSTA.


O que real, me pega, pensa comigo por um instante : O Cesar Calejon então TEM CONDIÇÕES FINANCEIRAS PARA SE COMPROMETER POLITICAMENTE com dinheiro para investir numa candidatura política. Ele que defende tanto as eleições, quer dizer, NÃO FAZ ESSE TIPO DE FINANCIAMENTO ? Ele que tá falando em renovação das esquerdas, com o recurso monetário, QUE ELE ESCOLHEU APOSTAR, poderia investir numa vereança, numa candidatura para deputado e não fez ? É isso mesmo ?



Caralho, gente do céu. Me incomoda isso, porque o que não falta é militante que não tem uma passagem de ônibus pra ir nos lugares, que tem uma dificuldade tremenda para trabalhar, etc, etc, aí duas pessoas, com capital político, simbólico e literal dinheiro, não se comprometem com uma causa que eles supostamente defendem.


CALEJON, um fogão industrial de 6 bocas custa em média 2000 reais (jogando a média para cima), mais frete, se você tem tanto dinheiro assim, HOJE, você poderia sair montando cozinha solidária por aí. “Ah mas e o gás e tal”, - vocês não se conversam não ? Poxa, conversa com governo, sindicato dos petroleiros, etc, organiza para eles fornecerem o gás ? E a comida ? Poxa, o MST existe para quê ? Sabe, e é assim, muito óbvio, que vocês com todo esse capital político tem contato com esse povo. Quer dizer, para fazer live, consegue chamar 500 pessoas diferentes, que diferença tem a sua militância (e aqui me desculpe por criticar assim) se você não consegue fazer esse tipo de coordenação ?
E assim, Jones, mesma coisa, se você tem condição financeira para esse tipo de compromisso, faça hoje (o rapaz faz hein), não fique esperando uma APOSTA dar certo para fazer. Aqui vou dar uma de “se é que você acredita no que você defende”. Pessoal fala tanto em sucesso de Marçal, Nikolas, Bolsonaro, nas redes sociais, sabe qual é a sacada deles, é algo muito simples : você usa o capital político que você ganha com toda exposição pública, PARA FAZER CONTATOS, CONSTRUIR PONTES, GANHAR CREDIBILIDADE E GANHAR CARISMA NA SOCIEDADE.


O mais errado na história é o Calejon por ter proposto uma LITERAL BET em cima de política, uma coisa lamentável.

tem vídeo do Jones falando o lado dele.



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02 agosto 2024

Derrotando Kafka




Recentemente retifiquei o meu nome, então agora estou naquela fase de entrar em prédios gelados em filas ridiculamente enormes, carregando uma quantidade absurda de documentos passando por processos burocráticos czaristas.

Eu acho que a gente já passou da fase de ficar chorando porque temos que enfrentar mais uma fila e preencher exigências bizarras. Todos já passamos por isso.


A fila é, tentando pensar em uma definição, um problema de falta de organização burocrática. Com a tecnologia que temos, já deveríamos ter a capacidade de criar mecanismos mais eficientes de gestão. É algo tão enraizado em nossa cultura que é difícil até imaginar como esses processos vão se parecer.


Até lá, sentimos o peso do mundo nas costas ao ter que lidar com instâncias burocráticas que servem muito mais para nos oprimir do que ajudar. Você realmente acha que Luciano Huck teria dificuldade de conseguir um almoço com o presidente ? Mesmo figuras pequenas como Luciano Hang não precisam de muita cerimônia para conseguir uma licitação para construir mais uma daquelas lojas horríveis.


A burocracia é feita para uma determinada classe.


E veja, vamos derrotar isso com uma revolução ? Eu não sei. Eu sei que agora nós podemos criar estratégias para vencer o monstro que dorme em nosso peito enquanto dormimos.


Nós não temos tempo para absolutamente nada hoje em dia - podemos roubar esse tempo de fila para fazer algo “que não deveríamos fazer”. Como por exemplo, se possível, conversar, socializar.


Toda fila deveria ser um espaço de solidariedade. Onde nós (até por todos sermos veteranos) munidos de cada armadilha burocrática, discutimos estratégias, táticas para superar os donos do poder.


Nosso saber coletivo pode derrotar qualquer burocracia kafkiana. Ajude seu amiguinho a não precisar ter que esperar e precisar voltar sem um documento. Mostre como se consegue, lembre quais são necessários, para ele não precisar saborear a fila duas vezes ou mais.


Em uma fila deveríamos ser consumidos pelo tédio. Então não tem nada mais criminoso que gastar esse tempo lendo, escrevendo, assistindo alguma coisa. Esse marasmo da fila serve, mesmo que de forma não-intencional, para demonstrar o poder do que faz a gente esperar na fila sobre o nosso corpo.


O Estado, o banco, a loja, o médico, tem poder sobre o nosso corpo. Não podemos simplesmente deixar de ir na fila, vamos nela porque precisamos de alguma coisa que ela oferece. Existe, portanto, um jogo de poder aqui sendo posto.


O tempo que você está na fila é um tempo que você não está trabalhando.


Existe aqui uma oportunidade de usar desse espaço para o lazer. A tecnologia hoje facilita muito isso. Sabe aquele tempo que você não tem para ler aquele livro que você comprou ? Essa é a hora. Seja a doida do manifesto comunista no meio da fila do banco. Leia Mao Zedong na fila do supermercado, Lenin na fila do micro-ondas do seu trabalho, mini-manual de guerrilha de Mariguela naquela repartição pública, Foucault na recepção do seu médico…


Kpunk, claro, sempre.


Acaba que estar bem numa situação de sofrimento, é a pior coisa para quem quer te torturar.


E seja gentil com quem te atende, eles são a bucha de canhão, a recepcionista, além de recepcionista, deve acumular umas outras três tarefas no mínimo, sem contar que elas nunca são suficientes para a quantidade de gente que atendem.


O supermercado raramente tem uma quantidade razoável de caixas para justificar deixar as pessoas trabalhando por horas em pé, sem poder ir ao banheiro. A culpa não é do caixa, é do burguês safado dono da rede de supermercados. É ele que não contrata mais gente para aumentar suas margens de lucro.


Essa relação de solidariedade com outros trabalhadores, enquanto miramos corretamente na burguesia, que é necessária de ser estabelecida.


É uma merda atender público porque as pessoas personificam aquela ineficácia em você. O problema é o vampiro que rouba nosso sangue.


Mate Kafka, abrace a liberdade de ser uma barata.

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24 abril 2024

anticomunismo de esquerda brasileiro.


(ps: eu nem sei que caralhos de título colocar)

Eu vou soar muito aquelas comunistas linha-dura que sai chamando todo mundo de revisionista, mas a questão aqui, principalmente quando falamos em Brasil, é que de fato, é difícil você não encontrar mesmo à nossa esquerda posições conservadoras.


Por exemplo, quando a gente fala das questões chamadas identitárias, envolvendo raça, gênero, nacionalidade, etc, para gente que leu sobre a balcanização e que gente, tem a informação, não é como se não soubesse, comunista brasileiro é tarado pelo leste europeu (eu também, só para não dizer que eu sou tão diferente nisso), como que as pessoas não conseguem enxergar que a função de fomentar os mais diferentes tipos de preconceitos serve para dividir a classe trabalhadora ?


Veja, não é preciso ser um grande gênio ou ler tanto sobre teoria queer, anti-racismo, etc, para ter o mínimo de compreensão nisso para pelo menos fazer um esforço para lutar contra essas formas de discriminações. É até esperado que o militante médio reproduza alguns preconceitos da sociedade em geral, nós não somos idealistas. Mas aí eu fico pensando, existe internamente uma postura de mostrar, mesmo para esse militante “anti-identitário”, que não existe uma separação, por exemplo, das questões de raça da luta de classes.


Desde que o Brasil é Brasil, colocar o negro numa posição de inferioridade racial, seja por justificativa religiosa ou supremacista branca, sempre serviu como uma forma de legitimar o genocídio negro, colocar todo negro em posição de escravizado, em profissões de menor prestígio e de excluir ele de espaços de decisão política.


Existe controvérsia nisso que eu falei ? Discordar dessa posição é literalmente racismo, mas principalmente, é negacionismo histórico. Houve escravidão no Brasil, existem trabalhos e mais trabalhos que mostram isso.


É negacionismo, principalmente no Brasil, negar a questão da raça como sendo uma coisa essencial para a luta política no Brasil. Esse é um exemplo, eu poderia discorrer nas mais diferentes minorias e explicar exaustivamente como cada aspecto delas pode representar uma libertação para todos, mas eu não vou fazer isso, porque não é exatamente isso que eu quero fazer com esse texto.


Existe também, um outro motivo pro militante “anti-identitário” querer ficar falando que racismo não importa, que gênero é auê, etc, etc. Claro, é preconceito internalizado, é - só que é também ele achar que o que ele faz é a coisa mais importante do mundo e que os outros não “militam direito”. Sempre tem essa postura de que o outro, não está fazendo a militância “do jeito certo”, e isso de alguma forma, tornaria a militância desse outro menos válida.


Veja, aqui a gente nem está falando de uma postura exclusiva do “anti-identitário”, mas de uma postura generalizada da esquerda brasileira, incluindo o “campo democrático”. Um exemplo claríssimo disso é a questão de “estar ou não na institucionalidade”. Geralmente a postura de quem está fora é de ficar denunciando reformismo, de dizer que fulano se vendeu, que tá tudo dominado e tal - e quem está na institucionalidade não dá muito valor para movimentação popular, para organização política da classe trabalhadora, não raro é quem fica contra manifestações populares, etc, etc.


Tanto uma estratégia como a outra tem seus méritos e defeitos, o erro na minha opinião é não combinar ambas para ter um movimento mais forte. Mas note que a militância do outro é sempre a errada, é sempre quem atrapalha, “o errado é quem não me segue”. O problema é que isso cria umas disputas internas na esquerda, até mais virulentas do que a contra a direita, que faz com que boa parte do tempo de algumas pessoas seja criticando a esquerda e sendo chato pra kct.


O que acontece muitas vezes é que tem grupos muito mais abertos a conciliar com grupos religiosos reacionários, com partidos burgueses fisiológicos sem nenhum compromisso nacionalista, conversar com setores reacionários, etc, etc, do que sentar para conversar com outro grupo de esquerda.


Eu nem estou dizendo que é inválido você tentar cooptar setores da direita, mas que é menos trabalhoso você sentar para discutir uma ação com a própria esquerda que defende as mesmas coisas.


Como boa nietzscheana eu tenho minhas máximas, uma delas é que eu acho mais fácil qualquer outro país do mundo conseguir fazer uma revolução socialista do que o Brasil. É capaz do Brasil ser o último país capitalista do mundo enquanto o resto do planeta já tenha adotado o comunismo. Por que eu digo isso ? É um exercício de observar que para você ter o mínimo de acesso e exposição de qualquer ideologia de esquerda no Brasil, dentro dessa mesma discussão, você ouve pelo menos uns 10 argumentos dentro da própria esquerda contra a esquerda.


É impossível conversar com anarquistas sem ouvir mil coisas contra os comunistas, impossível ouvir uma linha comunista sem que essa linha queira deslegitimar a outra e por aí vai. Por isso, nós somos tão infrutíferos e temos tanta dificuldade de tomar ações mais complexas, mais bem coordenadas, etc, etc.


É interessante observar que, mesmo com o fascismo vivinho da silva e pronto para tomar o mundo novamente, ninguém consegue largar um pouco o lado liberal de querer liderar tudo e querer sair brigando por aí. Tudo o que eu disse aqui é bem senso comum, inclusive peço desculpa por descer tanto o nível do texto, então assim, é difícil para mim não acreditar que é má vontade.


Eu venho diminuindo bastante meu contato presencial/uso de rede social, justamente porque eu sinto que tem alguns espaços sugando minha energia toda. Me desanima muito o estado das coisas, justamente, porque você não consegue gastar 2 minutos aqui na internet para ver que todo mundo ficou bem niilista de merda.

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05 abril 2024

Normalização do apocalipse


Esse é um desses posts que eu não vou compartilhar tanto por aí, mas é importante se você se importa com o que eu escrevo.

Eu tenho uma mania que eu pessoalmente não gosto muito, que é ficar refletindo sempre sobre a minha vida e basicamente viver em constante crise.


Você que uma vez ou outra, vai ter ou teve, um daqueles períodos obscuros de incerteza e de reflexão profunda, bem vindo ao meu mundo, eu sou a criatura que vive nesse lugar.


Então, eu me peguei para pensar um pouco sobre a Covid, sobre o que foi março de 2020 até final de 2021. Não pretendo ir muito fundo na parte pessoal, mas digamos que até agora, foi o pior momento da minha vida e eu basicamente cresci com depressão, então foi horrível mesmo.


Então, eu sempre fui muito fã de distopias em geral. Como crítica, gênero literário, estética, tudo. Talvez você tenha notado pelo o que eu posto/escrevo por aí.


E a melhor parte para mim, é que eu não sou uma velha e hegeliana filofascista como o Zizek, então eu consigo ver o fim do capitalismo no fim do mundo. Sinceramente, a questão que mais me pega nas distopias versus o que a gente vive, é que na distopia o fim do mundo é iminente.


Existe na distopia, na grande maioria delas, uma resistência, um grupo rebelde, alguma coisa, contra essa realidade merda. Não só isso, na distopia existe uma instabilidade das estruturas a ponto de que a qualquer momento, tudo pode se tornar algo completamente diferente.


Enquanto na nossa realidade é difícil enxergar esse grupo rebelde, não raro ele é impotente diante a estrutura vigente, quando não é uma oposição controlada do inimigo.


As coisas não vão bem, mas não ruins o suficiente para serem insustentáveis. O mundo tá uma merda e tá tudo certo, é para ser uma merda e muito bem organizado para tal.


Isso cria uma situação de “tédio apocalíptico”. Os bueiros começam a explodir, as pessoas são executadas na rua, a fome cresce, o desemprego só aumenta, as ruas são invadidas pelo mar, etc, só que isso não destroi o planeta.


Não causa nenhuma grande ruptura, muito menos desestabiliza o que a gente pode chamar de sistema. O movimento é senão o contrário, os meteoros, as mortes, os suicídios, as pragas, etc, vão se tornando parte da paisagem e quando a gente vê, a gente se acostuma.


Passa a ser normal viver no inferno. A Covid em grande parte foi um exercício de não cair no completo niilismo. Todo dia muita gente morria, no caso do Brasil, havia um projeto muito explícito para isso e no final de tudo, ninguém foi preso, ninguém foi punido e em grande padre, tudo aquilo se tornou uma memória distante.


A Covid desestabilizou tudo, mas ela se tornou parte do cenário. Você acaba entrando em um certo nível de crise existencial sem volta : nada realmente importa, e para mim nunca foi problema em ser um grão de areia no espaço, o pior para mim foi olhar para a minha volta e enxergar uma vastidão de vazios.


Eu tive sorte para um caralho, falando no bom francês, mas eu nunca tive contato com tanta falta de humanidade (e eu cresci em Santa Catarina, então foi muito ruim mesmo). Foi muito difícil por isso também. Patrões escrotos, gente ignorante querendo basicamente matar você e toda sua família com essa doença, você tendo que lidar internamente com a irresponsabilidade de pessoas próximas não ligando para a doença, aí você em uma tensão constante de ninguém saber o que vai acontecer.


Ao mesmo tempo, aos poucos, essa situação atípica se normaliza e é isso que mais me incomoda da Covid como um apocalipse. Se normalizou viver na merda, todo mundo ser escroto, você não poder confiar em literalmente ninguém e ainda ter que lidar com uma doença contagiosa maluca que uns biruleibes querem te passar.


Me causa, para dizer no mínimo, nos meus melhores dias, raiva de tudo isso. Mas em grande parte, o sentimento que domina é o cansaço.


Pensa, ainda em 2020 tivemos eleições municipais, 2021 Lula atacando o impeachment do Bozo. Pensa no desgaste que foi, você tentando sobreviver e os cara, no meio disso tudo, os cara ainda fazendo cara de cu para você, para conseguir ficar conciliando com literalmente Deus e o Diabo.


A troco de que ? Vários nada, esse é o termo técnico. Chega no poder para continuar normalizando a desgraça.


Enfim, que eu seja a lenda talvez…

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15 março 2024

Partido dos Trabalhadores à direita ?

Eu vou assumir aqui uma postura de que você, meu caro leitor, saiba a importância da memória histórica. Se não souber, eu recomendo o João que ele explica nesse vídeo e leu uns textos da AND e do A Verdade sobre o tema.

O que eu quero abordar é mais a questão do que a gente está vendo, qual é o movimento político que o PT está apresentando ? Para isso, eu vou me usar de uma citação de uma matéria do jornal Bahia notícias, ela segue assim : 


"Durante uma reunião da federação em Salvador, na última quarta-feira (13), um questionamento causou embaraço aos membros partidários. Segundo presentes no encontro revelaram ao Bahia Notícias, um quadro da federação questionou sobre a permanência de André Fraga no PV. Uma das fontes relatou ao BN que a saia justa fica por conta da postura de outros vereadores da Federação Brasil da Esperança com matérias apresentadas pelo Executivo Municipal. "E Suíca (que é do PT), que vota com [o prefeito que foi vice de ACM Neto, vice presidente nacional do União Brasil] Bruno Reis às vezes? E Tiago Ferreira? O próprio Hélio Ferreira, do PCdoB", disse um integrante em condição de anonimato.
 
Os exemplos de "adesão velada" à gestão, que não passam necessariamente por votação em Plenário, foram citados à reportagem, incluindo durante reuniões conjuntas da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara de Vereadores. Um dos casos relatados ao Bahia Notícias por vereadores é sobre a apresentação de um relatório no colegiado, presidido por Paulo Magalhães, do União Brasil. Durante a leitura de um parecer, Suíca pareceu "muito empenhado" em acompanhar o relator, mesmo com questionamentos de colegas de oposição sobre a matéria em questão. O movimento causou estranheza inclusive em seus correligionários petistas." LEIRO, G. L. /. Adesão de vereadores do PT a projetos de Bruno Reis “dá fôlego” para André Fraga continuar no PV. Disponível em: <https://www.bahianoticias.com.br/noticia/290200-adesao-de-vereadores-do-pt-a-projetos-de-bruno-reis-da-folego-para-andre-fraga-continuar-no-pv>. Acesso em: 15 mar. 2024.



Com esse elemento, somada alguns outros movimentos que o PT vem fazendo, me fica me parecendo claro que o que está acontecendo, é que existe internamente, pelo menos uma boa fração do partido, que acredita que a melhor forma de combater o bolsonarismo/conservadorismo, não é nem puxando as temáticas para a esquerda, mas ocupando o que seria espaço do conservadorismo e no processo, o próprio PT acaba dando umas guinadas para a direita. Note que existe para a direita um desconforto com o fato do PT estar compondo até bem demais com a própria direita, enquanto existe um certo descompasso com parte da militância que ainda é "progressista".

Só o fato do próprio governo decidir se auto impor um teto de gastos e ainda por cima com meta zero, e caso não cumprir isso, um crime de responsabilidade na cabeça do presidente, de à todo custo evitar um conflito contra o bolsonarismo/conservadorismo e em muitos casos, aderindo à essas políticas públicas da direita com um véu mais arrumado - tudo o que me parece é que a ideia geral é agradar tanto a burguesia que o bolsonarismo perca espaço e esse campo da direita, o PT passe a ocupar. A idéia parece ser recuar a ponto da extrema-direita perder esse contato com a direita conservadora mais "moderada", que é a que tem grana.

Esses cancelamentos dos atos apontam para uma guinada para direita na disputa ideológica, se Hamilton Mourão, que foi vice de Bolsonaro aprovou, isso só indica que o PT quer estar no meio de conservadores “arrumadinhos” - vide Joice Hasselmann e Simone Tebet. Arthur Lira mesmo não enxerga como alguém dentro do campo da extrema-direita, "ele é alguém que dialoga" segundo o que ele fala na sua entrevista no Roda-viva.

Ou seja, me parece que o PT não quer nem disputar tanto a hegemonia na esquerda, tanto que isso permite que muitas vezes o PSOL, que por enquanto não capitulou (é o que vamos ver nos próximos anos), ganhe destaque na esquerda, mesmo que ele tenha infinitamente menos deputados, senadores, vereadores e seja um partido infinitamente menor que o PT.

“Ah mas o PT faz política pública” - meu caro, isso é o mínimo, até Reagan, Thatcher, o imperador Dom Pedro II, Pinochet, Mussolini e cia, faziam alguma política pública. Fazer ou não política pública não é uma coisa que determina a sua posição política, a questão é o que você faz com essa política, isso que a gente precisa observar.

Por exemplo, no governo atual o BNDES está sendo usado para financiar o processo de PPP para privatizar grande parte dos serviços públicos, oras bolas, isso é assistencialismo para rico que ainda não tem uma renda garantida e sem perdas, de administrar um serviço público.Vai dizer que isso não é uma política conservadora ? E note, que existe um tamanho tremendo, é onde basicamente o orçamento todo é direcionado.

Enquanto as universidades públicas sofrem risco de não conseguir terminar o ano por falta de orçamento, não falta dinheiro para as polícias militares e sem fazer nenhuma mudança na lógica militar ideológica da corporação (que o governo inclusive fez um decreto para incluir no exército nacional). Então assim, ao que tudo indica, o PT não quer mais ser aquele partido de esquerda liberal, a gente não pode esquecer por exemplo, que o PCdoB abandonou aquela estética socialista para adotar uma verde-amarela, tentando pegar aquele eleitor do Bolsonaro nas eleições municipais de 2020 (posso estar confundindo, mas eu tenho certeza que isso rolou, me mande mensagem se estiver errado).

Me parece que o sucesso eleitoral da direita (que não se resume só a eleição de Bolsonaro, mas sim, tanto em 2020, 2022, ocupando vários cargos diferentes) faz com que esses partidos de esquerda do “campo democrático”, que abandonaram muito aquela velha militância de rua, de instituições, de fazer combate ideológico, etc, vêem isso como uma ameaça para sua própria capacidade de mobilizar numa sociedade que não é mais tão “progressista” como antes, nós estamos falando de ethos reacionário geral e que não tem por parte dessas máquinas partidárias, nenhum grande esforço de disputar consciência.

Então eles tentam ganhar de partidos como União Brasil, PMDB e cia, o eleitorado conservador. O PT hoje tenta ganhar muito mais o eleitor descompromissado com política (e pensa a política unicamente de forma eleitoral), do que disputar consciência, ocupar espaços, etc, etc.

Será que o crescimento da esquerda radical não foi um crescimento, mas na verdade um encolhimento do “campo democrático” ? Será que na verdade estamos falando de partidos que podem até ter nomes populares no nome, mas que já não tem mais nenhuma consciência minimamente de esquerda ?


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20 fevereiro 2024

Bolsonaro, ainda relevante ?


 

Toda vez que se ouve o nome Bolsonaro, bate uma canseira tremenda. Há certo tempo atrás, nós até tínhamos uma certa paciência para gastar umas horas explicando o fenômeno, hoje bate apenas uma preguiça tremenda.

Isso porque parece que o que impera é um cansaço geral. Nada mobiliza mais as pessoas que o bolsonarismo, seja positivamente ou negativamente.


Existe uma certa recusa em destruir o bicho de uma vez. Quero chamar atenção pro fato de que o “campo democrático”, isto é, a esquerda institucional, tem uma aversão à organização popular. Toda vez que se fala em organização, os fantasmas de Hannah Arendt e de Leon Trotsky, surgem para combater o “totalitarismo”.


De repente, não pode ter hierarquias, tarefas, estudos, leituras, é esperado que se faça militância por boa vontade, por “amor à humanidade e aos valores democráticos”. A questão é que o coletivo anarquista mais fraco TEM UMA ORGANIZAÇÃO. Se você não vai adotar a organização leninista, você precisa adotar alguma outra forma de se organizar, se você vai ter eficácia ou não, isso é uma outra discussão.


Então, esse “campo democrático” acaba por depender muito de uma reação autônoma, precarizada, individual, de pessoas e instituições que são afetadas de alguma forma pelo bolsonarismo.


Isso por si só não destrói o bolsonarismo, mas mobiliza quadros do “campo democrático” preparados para colher os frutos eleitorais. É uma questão puramente eleitoreira, o que fica claro com esse ano de governo é que o “campo democrático” tem muita preocupação em conciliar com quadros do bolsonarismo.


Basta a gente ver que o grande esforço do governo em agradar quadros do União Brasil, ou a puta dificuldade de lidar com Arthur Lira - mesmo com toda crise de Maceió.


Esse é o motivo político do bolsonarismo ainda não ter sumido, não só suas bases sociais continuam existindo, como o “campo democrático” depende deles para mobilizar suas bases desorganizadas.


Outra razão é a necessidade da mídia burguesa em ganhar cliques. Claro, isso tem a questão da dinâmica da internet, mas é muito visível que existe um certo vício por um espetáculo jornalístico como a Lava jato e os 4 anos de Bolsonaro, foram um espetáculo em si.


Toda semana ou melhor todo dia, tinha alguma bizarrice para publicar do Bolsonaro. Com a vitória do Lula, se perdeu um pouco disso, mas é muito visível o esforço da mídia em sugar cada segundo possível da sua atenção falando de novo do Bolsonaro.


É muito por isso que ele nunca some do debate público. O fantasma dele é invocado em toda discussão, tanto por ele ainda ter uma base mobilizada, tanto por ele ainda ter gente que se mobiliza contra ele de forma espontânea, tanto porque a mídia sem assunto depende de um espetáculo para apresentar. Não é uma disputa fácil, ainda que não seja a coisa mais difícil do mundo para a mídia burguesa, competir por atenção na internet.


Aí você cria uma situação que um cara, que vai, tem uns filhos com cargo público, aliados por todo canto, mas já não é lá tão importante, se torna centro do debate público novamente porque as pessoas precisam dele, seja na direita para mobilizar bases de sempre, na esquerda com o anti-bolsonaro, a mídia lutando por atenção e pela briga para poder transmitir.


É um tipo de disputa falsa. Já que ela não pode ter um vitorioso, nós ficamos nesse eterno impasse. É até engraçado porque o bolsonarismo não consegue ter embate com a esquerda radical, já que a mesma não tem o tamanho que o “campo democrático” possui. Então, o petismo é a única coisa que eles podem apontar e fazer pânico moral.


Para se dizer, no mínimo estamos diante de um cenário político broxante. Sabe quando nenhum estimulante funciona em você de tão depressivo que você é ? E aí você começa a tentar um monte de coisas diferentes e nenhuma delas funciona ? Depois você acaba voltando à velha rotina de sempre, por que é a única coisa que você consegue fazer ? Eu sei que é um exemplo muito específico, mas ele expressa bem a sensação, é um quadro de depressão social de um povo cansado.

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14 fevereiro 2024

O inimigo Putin

Aqui no ocidente se tornou comum termos adversários conservadores sem a mínima qualificação intelectual. No Brasil temos Bolsonaro e uma lista infinita de bolsonaristas, todos sem a mínima capacidade de pensar o mundo à sua volta. É um tipo diferente de burrice, é um tipo de ideologia que consegue fazer precisamente a inversão da realidade que Marx descreve na Ideologia Alemã.


Na Rússia a história é outra. Nós estamos falando de um tipo de conservadorismo que estuda, que escreve, que tem capacidade analítica e que domina muito bem a ciência. Enquanto no Brasil, a ciência é uma ferramenta que os conservadores têm aversão, na Rússia figuras como Putin, de fato estudam e sabem muito bem o que fazem, no que se trata sobre estratégia política, história, sociologia.


Os desafios para os novos comunistas russos (se é que eles ainda existem por lá) é o dobro de dificuldade que os bolcheviques tiveram que enfrentar com os Romanov. Esse tipo de conservador inteligente aparece na figura de Alexandre de Moraes no Brasil. Ele é o mais próximo de ser um “liberal esclarecido”, só que ele está sozinho. Nem mesmo Haddad, Dino e Rui Costa, que são quadros que vieram da esquerda, têm essa mesma habilidade.


É incrível ver Alexandre de Moraes, que foi indicado pelo presidente mais impopular do Brasil Michel Temer (que é ruim também, não se engane no portugues rebuscado), ter aproveitado a deixa, e claro dentro das suas atribuições de juiz, em comprar a briga contra o bolsonarismo, ainda que isso seja no curto prazo dê uma certa hegemonia para a esquerda. Isso ajuda o STF de uma forma geral, no médio longo prazo, a ganhar mais credibilidade com  a população, mostra a seriedade e o compromisso do órgão com a justiça (mesmo com todas as decisões contra a classe trabalhadora em questões trabalhistas, por exemplo).


Eles avançam o projeto, mas a gente aplaude porque vai pegar o ratinho do Bolsonaro.


A grande questão da direita brasileira é que ela não precisa do caos do Bolsonaro para continuar seu projeto político. Isso Moraes entende bem, a burguesia já domina o Estado, os meios de comunicação, as redes de distribuição, o exército (capenga e tal, mas tem armas), a polícia, a esquerda mal consegue dominar o que em tese seria seu espaço, a universidade. As ruas dormem com desemprego, fome, desmobilização, epidemia de depressão e ansiedade.


O clima político do Brasil é de realismo capitalista. Isso cria uma situação de depressão generalizada que é difícil fazer as pessoas sequer saírem de casa para votar. Qualquer pessoa comum, que não é muito ligada com política, se sente o tempo todo enganada, mal representada e se sente impotente em relação à política. Não é só os noticiários que ajudam a perpetuar essa sensação, mas também a própria vida nesse capitalismo neoliberal, de todos contra todos, de esquemas dentro de esquemas, nas boas e velhas panelinhas, etc, que ajudam todo mundo sentir uma sensação de estar jogando um jogo de cartas marcadas.


É você mandar curriculos para tentar arranjar um emprego sabendo que tem provavelmente alguém que é amigo do RH, do chefe e a porra toda, que provavelmente vai conseguir a vaga antes de você. Por isso todo mundo engole seus antidepressivos e cigarros até não aguentar mais. Eu não sei como é a política russa atual, mas o que eu sei é que nós precisamos apostar na inteligência do povo, pensar de forma mais estratégica, inteligente, comprometida, porque se a nossa direita aposta na burrice, isso nos dá espaço para ser essa amálgama desorganizada que chamamos de esquerda.


O fato da gente ainda ter um movimento de esquerda no Brasil hoje em grande parte é sorte de ter uma direita tão tosca e anti-iluminista. Por outro lado, a gente precisa pensar no papel que essa esquerda libertária, liberal, tem em manter o movimento de massas desorganizado. Será que o Brasil precisa de um Putin ou a esquerda libertária já faz esse papel de minar a organização popular ?

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07 novembro 2023

ᴾóˢ⁻ᵐᵒᵈᵉʳⁿⁱᵈᵃᵈᵉ ᵉ ᵒ ᵛᵃᶻⁱᵒ ᵖᵒˡíᵗⁱᶜᵒ.

Existem teses filosóficas das mais diversas sobre esse nosso período histórico que alguns chamam de pós-modernidade, ou hipermodernidade, pós-fordismo, capitalismo semiótico, etc. Essas diferentes abordagens trazem problemas diferentes sobre essa nossa época, mas diferente do que vimos na filosofia medieval, na filosofia iluminista, por fim a moderna (se assim podemos dividir), não há um projeto político.

O grande papel da filosofia na idade medieval foi racionalizar, encontrar argumentos lógicos para a existência de Deus e sua perfeição. Isso veio na forma de abordagem mais materialista, mesmo da fé religiosa, existiam por exemplo, comitês para avaliar milagres para considerar novos santos. De longe, acredito eu, o maior papel da razão para a igreja mora na sua organização política, na maneira que se formam novos padres, novos fiéis.

As nossas universidades, por mais que elas tenham esse ar iluminista, sua estrutura é a mesma medieval. O iluminismo, já que falei nele, também, tinha uma avaliação sobre o mundo e com isso um projeto político. Os famosos contratualistas, por instância, tinham uma avaliação sobre o mundo e essa avaliação, ditava qual projeto político eles defendiam. Exemplo mais evidente que Hobbes e seu medo, na defesa da monarquia. A filosofia moderna, na mesma medida, partia suas ações políticas de sua filosofia.


Eu sei que eu estou jogando uma série de autores diferentes juntos e eu sei que o recorte pode ser problemático. Mas consegue notar um certo padrão ? Eu tenho muito mais uma proposta política dentro de um autor como Rousseau do que em Deleuze, Lyotard, Fisher, Zizek, etc. Claro, eu não sou uma defensora cega da novidade, para fazer certas coisas não precisamos reinventar a roda, ao mesmo tempo, que precisamos adaptar a roda para o terreno que vamos pisar. Esse é o pulo do gato que não estamos fazendo. Também não dessas que diz "a filosofia antes era melhor", não, o problema é a gente adaptar a filosofia pro nosso tempo/espaço.


Como uma estudante, eu leio essas coisas, basta ler o que eu escrevo você vai ver toques pós-modernos. Sempre me incomoda a completa incapacidade de traçar uma ação política nos filósofos atuais. “Mas a filosofia não tem uma obrigação de ser útil, ou de apertar a sua mão e te mandar o que fazer” - Então, eu te pergunto por que a gente ainda perde tempo estudando filosofia ? Se a filosofia não se interessa em lidar com a vida, por que estudar ela ?


Muito da bagagem teórica da antropologia, da história, da sociologia, da ciência política, da psicologia, da pedagogia, etc, já cobrem muito do que a filosofia cobre. Se você pensa de forma mais pragmática, materialista, sequer faz sentido você se dedicar tanto tempo atrás de filosofia. Aqui a gente pode acusar de academicismo, de oportunismo, etc, e é válido para a vida acadêmica de uma certa forma como um todo. (É uma crítica boa ? Depende, eu vejo muita gente fazendo, acho limitada, mas é feita por aí)


E aí, eu quero fazer um exercício com vocês que é tentar pensar o seguinte : o que a gente faz com essa conclusão ? O que me incomoda com essa posição é que ela nos deixa sem o que fazer, ela não nos leva a nenhuma direção - eu vejo a filosofia muito como uma ferramenta para lidar com esse tipo de situação.


Os pós-modernos, por assim dizer, não possuem em grande parte, um compromisso social com o que escrevem, com o que ensinam, com quem falam, porque eles mesmos são elementos isolados na sociedade. Aquela velha conclusão do narciso moderno, que aparece em uma dezena desses autores, também é válida para eles mesmos. Isso explica um outro fenômeno : a quantidade de gênios autodidatas que apareceram. Coaches, cursos, influencers, gurus, figuras que acreditam saber sobre tudo - e a gente sabe bem que eles não sabem.


Como esses pensadores não têm compromisso social, de que importa a didática ? No mais, o público busca um igual, busca discursos, ideias, conceitos, mais próximos do que ele mesmo já acredita. O filósofo como uma figura contraditória, ele fica para trás, perde para o ideólogo do discurso fácil.


É fácil de engolir porque é familiar - porque é comum, isto é, porque é a ideologia dominante. O filósofo, este, também isolado no seu canto, não tem o que fazer senão trabalhar narrativas que mostram sua fragilidade.


Aqui podemos avançar, o nosso foco na filosofia precisa mudar. O bom filósofo, que tem algum compromisso com um projeto revolucionário, ou de mudança social, precisa mudar sua forma de atuação. Ou seja, a filosofia revolucionária precisa voltar para o povo. Mas é interessante, mesmo figuras como Zizek, optaram por uma outra opção : que é adotar a imagem, a postura, de um demagogo - ai realmente fica difícil diferenciar o filósofo do coach.


E fica difícil também considerar o socialismo, imaginar o fim do capitalismo,  acreditar no trabalho de massas, propor alguma alternativa política e por ser da filosofia, ninguém realmente espera algum compromisso político.

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28 outubro 2023

Como estudar : um pequeno guia.

Antes de tudo, não vou te ensinar alguma técnica bizarra de estudar 500 textos, de fazer leitura em 5 segundos e de ler 5000 livros por mês. Não recomendo, não acho saudável e no final, você dificilmente vai absorver tanta coisa assim.

Estudar é muito sobre saber suas limitações. O "Só sei que nada sei" de Sócrates parece algo arrogante de tão humilde, na prática é sobre reconhecer as suas limitações em relação ao conhecimento.

As pessoas de uma forma geral acham que quando você sabe muito sobre uma coisa específica que você tem um saber geral infinito. É claro que quando você aprende a estudar, fica muito mais fácil ter algum conhecimento geral, mas não significa que você sabe tudo de forma aprofundada.

O que eu recomendo para você que quer estudar ? Descubra seu ritmo. Eu tenho uma facilidade desgraçada com ciências humanas de uma forma geral, sou péssima em matemática - se eu for sentar para estudar, eu consigo ler, estudar, criticar e escrever sobre assuntos da ciências humanas com muita facilidade. Agora, me ponha para estudar matemática, eu vou ter muita dificuldade para chegar nesse mesmo patamar.

Isso é normal. Outra coisa que é normal é ler poucos livros. Na academia, você até pode fazer a leitura de obras inteiras, porém, por conta do tempo e uma série de outras questões, muitos professores preferem delimitar textos, artigos, etc, e trabalhar em sala de aula as questões.

No dia-a-dia, na correria do trabalho, da faculdade, etc, não existe tempo para ficar lendo tanta coisa com tanta profundidade. É um estudo que demanda trabalho, é uma atividade complexa. Não caiam nessa conversa de que para estudar para prova de concurso, de ENEM, etc, você precisa ler tudo e saber tudo profundamente.

O mais importante é você ter um estudo sistematizado consistente, não significa saber tudo. Por fim, quero falar sobre o ritmo de estudo.

Esqueçam essa história de ficar sem dormir, de se encher de remédio, de estudar à força e cheio de problemas na cabeça. Cada pessoa tem seu ritmo e você só vai conseguir se acostumar com um ritmo maior de estudo com prática. Sim, o cérebro funciona da mesma forma que o resto do corpo. Precisa de exercício, precisa de aquecimento, de descanso e precisa cuidar para não ter uma lesão.

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01 outubro 2023

ᴺᵒᵗᵃ ˢᵒᵇʳᵉ ᵖᵉˢˢⁱᵐⁱˢᵐᵒ

Eu gosto de histórias mais dark. Acho que a complexidade, as reflexões, os insights sobre o mundo real, são as coisas que mais me atraem.

Mas esse tipo de história sofre de alguns vícios. O padrão é sempre o mesmo : o mundo é cruel, escuro, sem sentido e não há nada o que fazer. Os poderosos são muito poderosos, não há o que fazer. As pessoas são muito egoístas. Há coisas acontecendo por trás que não sabemos !

Qual é o problema desse vício ? O real como um conceito, assim como a verdade, para ser real precisa corresponder a uma série de requisitos para ser tratado como verdadeiro.


Eu posso muito bem afirmar que uma história realista precisa ter sempre um elefante voador, se esse for meu critério de real. Ou seja, o real ou o que chamamos de realidade, têm critérios completamente arbitrários.


E sim, estou te dizendo que a sua mente te engana, que os valores sociais construídos definem o seu entendimento de mundo.


Na prática nós passamos muito mais por situações que jamais saberemos se são verdadeiras ou não. Há uma hipervalorização da discussão sobre a verdade. O que mais me incomoda nessas histórias é uma posição meio "meu mundo não é real ?", "será que as pessoas estão mentindo ?".


(O correto seria eu sair falando um monte de conto e autor para apontar o que eu estou falando. Mas sinceramente, cansada de escrever cheia de amarra. Você acha esses padrões do que eu critico muito em autores como Rorty, Nietzsche)


Muitas dessas histórias são movidas por perguntas como essas. Histórias de espionagem são cheias de idas e vindas, conflitos de interesse, sedução, disputas de poder, traições e o grande problema é sempre esse estatuto da verdade.


Como espião, o que fazer ? Note que a própria discussão moral passa pelo mesmo marcador de verdade, o que é certo ou errado ?


Questão é que se formos mais a fundo nesse buraco, começamos a perguntar se tudo não é uma alucinação, se não estamos dentro de algum tipo de simulação high-tech, etc. Acabamos por trazer perguntas impossíveis de verificar.


Vamos partir da pergunta : o mundo não é real. Se a gente sentar e listar as coisas que podem distorcer a nossa percepção, coisas que nós fazemos com nós mesmos e o mundo faz conosco, nós chegaríamos à conclusão de que nós nunca saberemos o que é real.


A filosofia clássica veria isso como um problema a resolver. Temos que descobrir como descobrir a verdade. A grande questão é que isso não importa tanto assim. O que é real, não importa quando estamos escovando os nossos dentes.


O grande debate sobre o real não é uma questão cotidiana. O que acontece é que nós aprendemos a viver nessa confusão entre realidade e ficção, nós chegamos a um ponto de sofisticação tal, que a gente cria ficções para puro entretenimento (até pelo tipo de sociedade que construímos, note-se).


Se a verdade fosse uma questão tão importante quanto os filósofos gostam de fazer parecer, nós não teríamos uma sociedade tão fixada em suas ficções e elas tem uma grande importância em decidir questões importantes em nossa vida.


Volto lá atrás nas perguntas, todo mundo mente, nada é verdadeiro, tudo é uma simulação, tudo é uma alucinação, etc, etc. Em certa medida, tudo isso é verdadeiro e não importa, se a gente levasse a sério esse tipo de verdade, derrotaria o propósito de socializar, por exemplo.


Se você já entra numa relação com medo da mentira, sinto-lhe informar que você nunca vai se relacionar. Claro, podemos aqui gastar horas falando de traição, mas essa nem é uma mentira tão grande, estou falando das fantasias, os sonhos, as frases, os nossos conceitos de amor, família, etc, que inventamos.


Namorar, dentre várias coisas, é também viver uma fantasia do amor, as pessoas tentando viver um filme, um conto, só que na vida delas. A ideia do romance, é o que acaba com muito relacionamento, por uma razão muito simples : as pessoas querem viver uma ilusão.


A própria ideia de desvelar "verdades ocultas" é uma ficção. É isso que precisamos entender. "A mídia mente" - isso não é nenhuma novidade, a grande questão é como, onde, porque.


Por isso, eu acho que Maquiavel uma leitura essencial na ciência política (pouco lido, por sinal). Você sabe que os seus aliados provavelmente te envenenariam enquanto dorme e você cria uma série de contingências de tal forma, que eles ou não vêem vantagem nisso, ou não tem a possibilidade para tal.


Geralmente essa reflexão sobre o real aparece como uma tentativa de refutar o materialismo-histórico dialético (e assim, não falta autor que faz isso). Eles denunciam que Marx também tinha viés, Marx não considerou X, Y ou Z, a psicologia das massas, etc, etc. E assim, nós estamos falando que o mundo é bem mais complexo, cheio de especificidades, de microcosmos, citando questões bem pontuais e queremos que o outro, de um tempo completamente diferente do nosso, considere esses mínimos detalhes ?


Se Marx sabia ou não sobre essas questões, eu sei lá e não importa, é completamente contraprodutivo, no sentido de construir uma filosofia que tem como pressuposto, a transformação do material, perder tempo com uma série de mini-problemas do mundo, ao invés de tentar considerar um escopo mais amplo que de fato seja relevante para tal.


Esses mundos sombrios são sombrios para seus autores e leitores geralmente porque não existe uma salvação moral, ou porque todo mundo é sem valores, ou porque as coisas são assim mesmo, etc. E aqui a gente precisa fazer perguntas melhores. Nós sabemos que a moral é uma construção, sabemos que as coisas não são simples e não são como aparecem, etc, etc. A questão é descobrir como, onde, porque.


(っ◔◡◔)っ ♥ What's it like when you die? It really hurts :) ♥ 


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