31 outubro 2023

ᴬˡⁱᵉⁿᵃçãᵒ ᵉ ˢᵉᵘˢ ᵇᵉⁿᵉᶠíᶜⁱᵒˢ

Hoje é o meu dia de pausa. Ando muito cansada, muita coisa para fazer e sei lá, a gente se sente sobrecarregada, sozinha. Não pretendo fazer aqui um grande texto teórico, nem nada. É mais uma observação.

Eu não bebo, não fumo, não saio, não faço nada assim, que todo mundo faz. Não é nem a idade, nem quando jovem eu fazia. Sei lá, não é a minha praia. Mas eu entendo e defendo quem faz. Por que eu digo isso ? É muito comum a gente olhar a alienação meramente como um escapismo, uma distorção da realidade para servir o capital, etc. Ela é isso, mas ela também é um alívio.

Imagine a seguinte situação. Sua vida está uma merda e não tem uma solução fácil para isso, seu emprego te dá vontade de se jogar do prédio, aí você soma com problemas familiares e financeiros, sem contar o racismo, a transfobia, etc. Mesmo que você levante e vá direto para um sindicato, organize um movimento, um protesto, a mudança não vai acontecer de uma hora para a outra.


Aí que vem a alienação. Por mais que se desligar das coisas não resolve absolutamente nada, é um alívio temporário que pode te ajudar a continuar em frente. Eu sinto que eu estou  muito nessa fase de me alienar e de desassociar do mundo a minha volta. Quando você vive sua vida em constante depressão, você meio que aprende a fazer isso muito bem sem nem usar nada.


O complicado é sair disso. É você um dia saber fazer um drink diferente, um molotov, quem sabe ? Eu sei que não estou 100% bem, não me sinto preparada para tentar nada, por isso eu uso esse momento para estudar. Eu já não tenho o mesmo entusiasmo para estudar, isso é verdade, mas ao mesmo tempo, eu gosto de tentar resolver esses problemas, tentar pensar soluções.


Nisso eu venho assistindo filmes, músicas, jogando jogos diferentes. Eu ainda não tô numa fase de sair tanto, mas quando eu saia adorava perambular por aí. Quero tentar explorar com maquiagem, sei lá. Mudar o visual ? Isso vem me ajudando a me sentir melhor. Resolve minha vida ? Não, mas as coisas que eu aprendi podem ajudar…


E sabe, tem algumas coisas que me ajudaram a pensar algumas coisas na minha vida e a conseguir imaginar novas alternativas.

Marcadores:

report 012

Eu tenho uma certa clareza que o o que eu faço aqui não vai ter o alcance enorme, muito porque eu sei que nem todo mundo tem tempo para ler, ler exige uma certa concentração, prática e a gente vive numa época que ler não é muito popular.

O que eu quero dizer com isso ? Que as pessoas são burras ? Não, mas que a forma que a gente trata o escrever e onde a gente escreve, muitas vezes são espaços muito elitizados. Sei lá, eu acho importante que a gente volte a ler, até para conseguir pensar melhor, escrever melhor e falar melhor. No meu caso, ajuda a não entrar em parafuso, vocês não tem ideia quantas vezes eu pensei em começar a fumar ou algo assim.

Eu fico feliz com a quantidade de pessoas que acessam blog em pleno 2023.

Eu comecei em setembro, então ignorem agosto.

Eu acho que tem várias coisas que eu poderia melhorar, a abordagem, a escrita e principalmente a divulgação. Para o objetivo do blog, da função que ele desempenha em criar uma documentação, de discutir coisas sob um outra ótica, etc - acredito que ele faz bem a função dele. Uma coisa é fato, o blog por si mesmo nunca vai ser extremamente popular - o formato blog hoje sofre uma série de problemas.

Por que ter um blog ou ir ter um blog, se tudo está centralizado nas redes sociais ? Para esmagadora maioria das pessoas, um perfil na rede social basta. Antigamente, o blog pessoal era um instagram, um twitter, um facebook, um youtube, etc. Mas eles eram redes muito descentralizadas, ainda que sobre o nome Blogger da Google.

Você ter um site onde você tem um perfil e interage com as outras pessoas, e ainda produz seus textos, fotos e vídeos, é muito mais prático. Eu falo isso, porque eu usava essas redes como meu blog. Sabe o que é postar uma literal tese no facebook ? No twitlonger ? Essa era eu.(falando assim eu pareço uma chata)

Uma coisa assim é verdade, texto é uma linguagem que hoje não é tão engajadora, pelo simples fato de que as pessoas fazem coisas o tempo todo. Vídeos longos, vídeos curtos, não importa, você pode por para ouvir e vai sei lá, lavando a louça - por isso podcast é tão popular, mesmo que quem faça se esforce tanto para destruir esse tipo de conteúdo.

Enfim, eu poderia fazer uma dezena de coisas diferentes para divulgar, mas eu sei lá. Isso aqui não pode ser nosso pequeno Oásis ? Mesmo que um dia se torne algo grande por acidente, eu quero tanto que se torne uma coisa especial, que as pessoas lembrem e gostem de falar sobre. Se eu for mergulhar nessa coisa de criação de conteúdo mesmo, real, vai ser muito por necessidade - por enquanto, eu consigo sobreviver, recebo ajuda.

Enquanto isso, vamos estudar esse mundo para tentar mudá-lo.



Marcadores:

30 outubro 2023

Sobre a tal da quebrada e a tal da favela - um problema de comunicação social

Pude ver o vídeo da discussão do pessoal da Soberana, do Galo e Chavoso da USP  e a minha crítica da idealização do que é o favelado, da quebrada,  etc, segue. Ainda sim, acredito que ali aconteceu uma coisa muito especial que é fazer as pessoas discutirem o que é ser de esquerda, como fazer uma revolução, como alcançar as pessoas - aquilo não foi um podcast, foi uma conversa, não foi um conteúdo de internet, foi um dialógo que merercia inclusive uma transcrição.

Essa discussão se perdeu no meio de gente chorando com a crítica do Galo ao Humberto, e às vezes do Chavoso e tal, e mesmo da forma que a própria Soberana se posicionou. Preciso dizer para vocês o óbvio, aquelas pessoas ali são pessoas, tem sentimentos, tem opniões, tem equívocos. E tá tudo bem, não tem nada de errado nisso. O meu objetivo é tentar fazer a discussão que não foi feita na internet. Fazer o exercício de tentar entender aquelas pessoas, ter empatia, ter companheirismo.

É muito difícil nós não passarmos a aceitar a teoria da internet vazia, porque não é possível que ninguém consiga aproveitar nada, ninguém consiga aprender, ninguém consiga se comunicar e é foda, pois isso sempre acontece. É incrível como a conversa em si não recebeu nenhuma atenção.

Hoje a educação superior generalizada proporciona um fenômeno muito interessante : que é você pobre pegar a universidade, a academia, os intelectuais, etc, discutindo sobre você - o pobre - e você, porque não bobo nem nada, sabe muito bem que é uma discussão completamente alienígena. O Chavoso apontou isso, é muito comum essa coisa de discutir as coisas sem nenhum escopo material, sem ter contato com o "objeto" de estudo.

Isso acontece quando se fala de favela, ou da quebrada, por exemplo. Existe uma ideia difusa de que o pobre é sempre sujo, mal arrumado, sempre escuta funk, ou pagode e ponto final, todo mundo é igual, vítima do Estado e do crime organizado (que por vezes estão envolvidos um com outro). É um tipo ideal, mas já há bastante tempo, nós podemos dizer que isso mudou.

Não que esse pobre do estereótipo não exista, você com certeza vai encontrar em qualquer favela que você for, mas existe uma certa diversidade oculta, que apaga que na favela tem movimento punk, tem roqueiro, tem religioso, tem gente chique (literalmente terno e gravata, vestidos de seda e outras coisas chiques), góticos, que as pessoas muitas vezes tem coisas como TV, celular, computador, etc. Dependendo do lugar, a condição de vida não é aquela miserável que sempre é mostrada na TV.

Há essa ideia que se você entrar na favela você vai encontrar vários moleques armados e muita droga, prostitutas por todo canto, aquelas casinhas improvisadas, esgoto ao céu aberto e tal. E nem toda periferia é assim, existem muitas periferias que tem camadas que podemos muito facilmente chamar de classe média. São aqueles que subiram durante os governos anteriores de Dom Lula, mas também são pessoas que vieram viver na favela porque sua renda diminuiu. Isso é tão verdade que existe uma onda de várias pessoas “empreendedoras da favela”, e empreendedor não faz as coisas sem alguma renda (não existe meritocracia, meu bem), que representam essa camada de classe média que vive na quebrada.

Esse é um elemento sociológico que muda completamente o paradigma de comunicação com o favelado que se tem hoje.

Se o Brasil é múltiplo, a favela como um fenômeno também é e possui uma diversidade tremenda. Tanto a Soberana, como o próprio Galo e o Chavoso, como boa parte de nossos criadores de políticas públicas, militantes, intelectuais, acabam caindo nessa simplificação da imagem do pobre e da favela.

Não estou negando que não exista violência, muito menos que a miséria não existe - fato é que uma cidade é violenta e os lugares que são chamados de violentos, nem sempre são considerados como tal por conta de dados estatísticos objetivos. Às vezes meus caros, é só racismo mesmo. Vamos tentar pensar dialeticamente : se um lugar vive em guerra constante ele fica simplesmente impossível de se viver. Até mesmo nas favelas mais violentas, existe algum nível de paz que permite que as pessoas façam as coisas que tem que fazer da vida. A maior parte da mão de obra em grande parte vive na favela, se fosse todo esse caos que é pintado, o país não funcionava.

A gente não pode esquecer a função de localizar a violência e a rede do crime na favela. É uma mistura de desejo contra-revolucionário, com racismo e especulação financeira. Por outro lado, não podemos também dizer que a violência da favela é algo causado pelo lugar, como se fosse uma maldição ou algo assim - é uma violência que existe por conta da desigualdade social, por conta de ausências de políticas públicas e em perspectiva, culpa de medidas de austeridade.

(Um parenteses aqui - todo mundo sabe que tráfico de drogas, armas, pessoas, prostituição, são coisas que dão muito lucro. Você realmente acha que o dono dessas coisas vai morar num lugar sem esgoto, sem transporte, ruim de viver, sem internet, etc ? Ele vai é comprar casinha em condomínio fechado, prédio chique, vai viver em “bairro nobre”. Cansa muito ter que explicar isso. “Ah mas vão pegar ele” - você sabe o que é ter dinheiro na democracia burguesa ? Dinheiro é literalmente a única coisa importante para quem quer ser considerado cidadão nessa democracia. O cara vive em lugar chique, conversa com CEO, juiz, delegado, prefeito, e essa gente toda, todo dia e se brincar, é ele que fornece a droga para essa gente.)

É mais barato mandar a polícia matar todo mundo do que fazer um sistema de saneamento básico - e claro, dá mais voto por causa da claque reacionária. Por um lado, é bom as pessoas terem orgulho de onde elas vieram e de reivindicar o espaço que elas têm de origem.

Isso dá um certo gás para lutar e para disputar espaços na política. Por outro, nós não podemos deixar de reconhecer a favela, como um fenômeno urbano, como uma urbanização precária destinada para as camadas mais pobres da população. Enquanto nós somos jogados para nos empilharmos em casas precárias, distantes de tudo (mal tem transporte público em alguns lugares), espaços sem saneamento, sem escola, sem nada - lá nos lugares de cartão postal tem casa de praia vazia do tamanho de uma quadra inteira.

Tem um monte de casas vazias nos centros urbanos, nas praias, nos espaços “nobres”, que poderiam facilmente ser redirecionados para as pessoas que moram nas ruas e para quem vive numa favela. A favela é resultado de um planejamento urbano higienista, racista e com objetivo de precarizar ainda mais o pobre.

É preciso tomar cuidado com essa ideia de se reivindicar favelado, porque é exatamente o que a elite quer : que sejamos sempre miseráveis escravos que trabalham pelas migalhas que eles jogam. O mesmo que eu disse acontece com o nordestino sertanejo, com o sulista, com o carioca, com o amazonense, sertanejo, camponês, etc. Tem muita gente por aí que fica trabalhando com tipo ideal, sem nenhuma base empírica mínima, nenhum estudo básico sobre o tema, comentando sobre o “povo brasileiro” e tirando um monte de ideias de sei lá onde.

Isso dá no que ? No Bolsonaro comendo farofa. Aquilo é o pobre ? Meu amigo, pobre come de garfo e faca, se brincar a gente pega até hashi - Queridos, aquilo lá para mim é o chefe, o corno do burguês, que é incapaz de fazer qualquer coisa sem algum escravo para fazer por ele. Essa gente não escreve, não lê, não trabalha, não se veste, não faz nada. O teu patrão provavelmente é um sujo, um porco, uma pessoa ignorante, a grande diferença é que ele tem quem faça tudo isso para ele. Você não, você precisa fazer as coisas.

A mídia vende muito isso de “pobre sujo” justamente porque ela tem um velho histórico elitista e a gente compra porque é uma ideia que está em todo lugar. Você é o pobre que come farofa (nem vem dizer que não é), você pega a colher, mistura no feijão, no arroz e na carne que tiver e come, por acaso você come igual o porco do Bolsonaro ?

Nós fazemos tudo, nós construímos a porcaria desse país, não tem uma mercadoria, um parafuso, uma verdura, que não tenha sido a nossa classe que fez. Esqueçam essa ideia de que pobre não faz X por ser burro, ou alienado ou sei lá - existem embates políticos, é preciso olhar exatamente isso. Os conflitos não se estendem só entre os patrões e os trabalhadores, existem conflitos internos entre nós (isso tá na obra de Marx). Tratar como burrice e ponto final, mesmo que ela seja um elemento quando vamos falar de bolsonarismo, por exemplo, isso é simplificar demais o debate político.

A pior parte é achar que pobre não sabe das coisas. Como que a gente trabalharia sem saber de nada ? Pedagogia não é tratar os outros como ignorante, pedagogia, dentre muitas coisas é entender que cada pessoa tem algum saber e você precisa aprender o que essa pessoa sabe para você também ensinar algo. Objetivo da comunicação é se fazer entendido, se isso veio na piada, na gíria, no termo técnico, não importa - importa a mensagem ser transmitida.

Isso aqui é para criticar essa ideia de que a gente "precisa falar a linguagem do pobre". Muita gente quer fazer isso não por um esforço pedagógico, mas porque realmente acredita que sabe mais do que o pobre. Uma coisa é ser didático, outra é ser um elitista. Será que a internet é o espaço mais pedagógico para nós desenvolvermos a nossa luta ? Esse é um ponto que escapou um pouco a discussão deles.

Se a gente quer ser didático, se a gente quer deixar uma marca nas pessoas, chamar elas para lutar conosco, será que um espaço como a internet é a melhor ferramenta para isso ? E a gente precisa voltar a falar sobre diversidade - o que todo mundo tem em comum ? Já que responder isso pode ser um lugar comum que facilita a comunicação.

A condição de ser trabalhador e fazer tudo, construir esse mundo, fazer ele funcionar.

Como que a gente faz tudo e não controla nada ? Oras, eles são donos das armas, eles têm o dinheiro, dominam os meios de produção.

Dentro dessa condição, há uma infinitude de realidades, estilos de vida, modos de ser, sexualidades, raças, etcs, os embates políticos dessa diversidade esbarra nessa condição de explorado. Como que a gente se comunica com essas pessoas ? É esse o ponto de toda aquela conversa.

Isso é uma coisa essencial que faltou no debate, o motoboy, o favelado, o intelectual, o sulista - não são existências homogêneas, dentro desses grupos sociais existe uma diversidade gigantesca e o erro vem sendo não saber lidar com isso.

Galo trouxe um elemento importante e não é a ideia de estética, é a ideia de permanência, de ocupação. Ele fala da estética porque é o que fica, que deixa marcas. O grande problema da militância digital é a sua natureza efêmera.

Lenin, Mao, Stalin, Ho, Castro, Sankara, Fannon, Prestes, Marighella, Guevara, Hoxha, X, Hampton, Kim, etc - são homens que deixaram marcas e presenças profundas nas pessoas. É sobre isso que o Galo fala e os historiadores não conseguiram captar (muito por conta da formação em história), isso é uma coisa da filosofia. Para o Galo é esse tipo de marca, por isso ele tenta falar de estética, porque é um tipo de presença que mobiliza, que faz você querer lutar e que te faz continuar em frente.

Aí tem a questão do personalismo. Pedro Ivo já criticou muito essa postura de dizer que os outros tem gado e só você não tem, isso por si só é gerar também gado que acha que não é gado. Me permita ir mais longe : é impossível evitar o personalismo e a idolatria.

Isso é uma coisa da nossa cultura, reproduzido por conta da forma que a gente vive. Nós só vamos mudar isso quando a gente conseguir mudar a forma de produção da vida.

É importante nós termos ciência disso. Mais importante, é saber isso ao nosso favor. De forma intencional ou não, todo movimento popular de uma forma ou de outra teve idolatria. É muito o que o Galo queria falar, isso deixa uma marca, faz você sonhar com aquilo, você imaginar esse socialismo e isso precisa também vir de uma militância no seio do povo, junto das pessoas, ocupando espaços, construindo em conjunto.

Por isso ele sugeriu que o Ian fosse morar na periferia de São Paulo. As próprias pessoas vão trazer para o Ian as pautas, coisas que elas querem saber, mensagens que elas querem que ele espalhe no seu canal. Dentro da favela ele pode ser uma megafone da voz da comunidade. Como isso dá muita abertura para aquela comunicação se expandir, por que não fazer programas de rádio locais, transmitir as lives nas TVs dos bares(é tão barato você por um aparelho na TV que pegue uma Twitch), trazer gente do bairro para conversar na live ?

A argumentação do Ian de que é impossível emular a favela para falar com a favela, ele disse que o favelado teria que ele mesmo produzir o conteúdo. Isso é válido de se apontar. Ele continua dizendo que as pessoas mais pobres tem dificuldade de ficar fazendo conteúdo na internet por conta dos custos.

Isso foi uma coisa que passou, mas o Galo poderia argumentar que seria interessante criar um espaço de criação de conteúdo, para essas pessoas que querem trabalhar com isso conseguirem fazer isso. Por isso a ideia de ocupação é tão importante. É sobre estética, não no sentido burguês.

Não se trata de aparência meramente. É muito um tipo de imaginação, uma construção de futuro. Nós mesmos, eu me incluo nessa, não somos os socialistas do futuro, se a gente com toda nossa radicalidade fosse transportado para um país socialista do futuro, nós seríamos considerados ultrapassados. Mas a gente pode inspirar, através do que a gente fala, como a gente fala, do que a gente faz.

É a nossa relação dos filhos em relação aos pais. Eles são humanos, são cheios de defeitos e problemas, o que marca os filhos é o exemplo, o cuidado, o conselho. 

A esquerda brasileira vem desde os anos 60 vacilando exatamente nesse ponto. Isso a esquerda "anti-Stalin" e os marxistas-leninistas. Quem tem memória, quem vê, quem sente, no sentido mais prático possível que existe algum socialismo por aí ? Muitas vezes, a grande preocupação de estar certo, de ter uma causa justa, de tentar reinventar a roda - abandonou exatamente a parte do afeto, do exemplo, da camaradagem, da ocupação, da organização.

Marcadores:

29 outubro 2023

Devaneios sobre a morte.

Ultimamente, ando com uma sensação de que eu sou insana. Devo ser, ou devo estar ficando louca. 

Algum tempo atrás eu escrevi em algum canto perdido da internet sobre a vida, qual era o sentido da vida. Lá eu defendo algo na linha de que a gente constrói o sentido da vida.


Mais velha, eu diria que se foda.


Por que a gente esconde tanto que as coisas estão bem ? Qual o problema da gente querer negar esse mundo ?


Negar não é se alienar. É dizer não para uma vida insalubre, parte essa condição social sempre alienante, envolta num ar de verdade eterna.


Nada é verdade, tudo é permitido.


É estar radicalmente aqui e dizer não. É ser um fantasma do passado, um velho trauma na cabeça daqueles que venceram, o espectro da revolta popular.

Marcadores:

28 outubro 2023

Como estudar : um pequeno guia.

Antes de tudo, não vou te ensinar alguma técnica bizarra de estudar 500 textos, de fazer leitura em 5 segundos e de ler 5000 livros por mês. Não recomendo, não acho saudável e no final, você dificilmente vai absorver tanta coisa assim.

Estudar é muito sobre saber suas limitações. O "Só sei que nada sei" de Sócrates parece algo arrogante de tão humilde, na prática é sobre reconhecer as suas limitações em relação ao conhecimento.

As pessoas de uma forma geral acham que quando você sabe muito sobre uma coisa específica que você tem um saber geral infinito. É claro que quando você aprende a estudar, fica muito mais fácil ter algum conhecimento geral, mas não significa que você sabe tudo de forma aprofundada.

O que eu recomendo para você que quer estudar ? Descubra seu ritmo. Eu tenho uma facilidade desgraçada com ciências humanas de uma forma geral, sou péssima em matemática - se eu for sentar para estudar, eu consigo ler, estudar, criticar e escrever sobre assuntos da ciências humanas com muita facilidade. Agora, me ponha para estudar matemática, eu vou ter muita dificuldade para chegar nesse mesmo patamar.

Isso é normal. Outra coisa que é normal é ler poucos livros. Na academia, você até pode fazer a leitura de obras inteiras, porém, por conta do tempo e uma série de outras questões, muitos professores preferem delimitar textos, artigos, etc, e trabalhar em sala de aula as questões.

No dia-a-dia, na correria do trabalho, da faculdade, etc, não existe tempo para ficar lendo tanta coisa com tanta profundidade. É um estudo que demanda trabalho, é uma atividade complexa. Não caiam nessa conversa de que para estudar para prova de concurso, de ENEM, etc, você precisa ler tudo e saber tudo profundamente.

O mais importante é você ter um estudo sistematizado consistente, não significa saber tudo. Por fim, quero falar sobre o ritmo de estudo.

Esqueçam essa história de ficar sem dormir, de se encher de remédio, de estudar à força e cheio de problemas na cabeça. Cada pessoa tem seu ritmo e você só vai conseguir se acostumar com um ritmo maior de estudo com prática. Sim, o cérebro funciona da mesma forma que o resto do corpo. Precisa de exercício, precisa de aquecimento, de descanso e precisa cuidar para não ter uma lesão.

Marcadores:

DOC 004 : A ORGANIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL NAS REDES SOCIAIS

Quero introduzir vocês num problema central de qualquer pessoa que tente fazer qualquer coisa numa rede social : organização. Acho que a grande diferença de ter uma rádio pirata ou um jornal no século XX para ter uma conta numa rede social no XXI, é que enquanto na primeira situação o equipamento e a infraestrutura são suas, no segundo caso é como se você estivesse alugando um espaço.

Eu quero comentar isso usando o manifesto do coletivo Soberana usando o estilo de fichamento. Acho que vai ajudar vocês a identificarem a importância de coletivos desse tipo, mas também suas limitações. O texto original vai estar em itálico e eu vou marcar as coisas em vermelho quando achar necessário comentar um ponto em específico.

O manifesto deles vocês encontram aqui : https://soberana.tv/


A Soberana é um coletivo marxista-leninista que atua na disputa pela consciência política dos trabalhadores na internet. Dado o crescimento do acesso à internet via celulares no cotidiano da classe trabalhadora, julgamos necessário ocupar os espaços virtuais mais utilizados.

Eu acho que eu não preciso muito comentar o ponto anterior de disputa de espaço. Política 101, não tem muito o que comentar. Já o segundo ponto não é tão senso comum e pode parecer meio aleatório da forma que foi posto. Segundo o PNAD, o aparelho é utilizado em 99,5% dos domicílios com acesso à Internet. A pesquisa vocês podem encontrar aqui (https://www.gov.br/mcom/pt-br/noticias/2022/setembro/celular-segue-como-aparelho-mais-utilizado-para-acesso-a-internet-no-brasil).

Então é natural que um grupo político interessado em disputar espaço, o faça considerando que grande parte dos usuários vai ser alcançado em conteúdos focados no mobile. Isto é, nesse caso, plataformas como o Tik tok, que usam de vídeos curtos e o próprio formato do vídeo é adaptado para ser visto no celular. (Inclusive perdão quem usa esse blog no mobile)

Sem contar que hoje é impossível trabalhar sem ter um celular, mesmo que o seu emprego não tenha nenhum foco nas redes sociais. Quando você é CLT, muitas empresas se organizam por apps de organização, ou mesmo por grupos de Whatsapp, toda comunicação muitas vezes é feita por grupos de chamadas, reuniões, eventos, etc. Se você é MEI, o celular é a sua ferramenta de vendas e de divulgação do seu produto, se você é trabalhador de app, você literalmente precisa do celular para trabalhar.

E assim, é mais barato ter um celular que um computador inteiro, acaba sendo onde muita gente faz basicamente tudo, desde estudar, trabalhar, até entretenimento. A título de exemplo, como a gente trabalha bem mais, aqueles 2 minutos vendo um tik tok no trabalho muitas vezes é o que ajuda aguentar as longas jornadas de trabalho e já pensou se no meio disso tem uns maluco falando de marxismo no seu feed ?

Nossa fundação parte do entendimento que a esmagadora maioria do conteúdo disponível na internet, seja abertamente político ou não, é tomado por linhas reacionárias. 

Calma, eu sei que você já leu o parágrafo seguinte. Ele dá algumas hipóteses. Concordo com todos, porém não podemos esquecer que isso é um processo relativamente de mais longa duração. É impossível falar de internet, sem falar do projeto neoliberal, do individualismo exacerbado que é promovido ideologicamente, mas tem como principal causa também a mudança na forma de trabalhar, como o próprio trabalho se tornou algo mais solitário, como cada trabalhador foi posto para ser um CEO e disputar o próprio emprego com outros trabalhadores.

Esse reacionarismo nasce da mudança das nossas condições econômicas, cada vez mais nós somos postos numa situação de um contra o outro, ao invés de iniciativas mais cooperativas. Os monopólios dos provedores de internet e de telecomunicações surgiram das privatizações neoliberais, no Brasil no governo do senhor FHC. O Brasil também não tem nenhum projeto de desenvolvimento nacional de informática, o que explica a dependência exclusiva de tecnologia do exterior.

Os motivos que culminaram nessa realidade são diversos e complexos, derivando tanto dos monopólios das “Big Techs”, quanto das agências de telecomunicações. Essas empresas determinam a qualidade e acessibilidade da internet em território nacional, ao mesmo tempo que controlam os algoritmos dos sites que acessamos.

As alas à direita, aproveitando-se da colaboração dessas companhias, frequentemente difundem seu discurso com métodos escusos e generosamente financiados

Aqui é uma denúncia importante e pode ser considerada controversa para alguns. Ah, mas por quê ? Não é uma coisa tão visível assim, muitos criadores grandes da direita recebem financiamentos de seus partidos conservadores, da igreja, de empresas que defendem pautas reacionárias, etc. Nem sempre é fácil mostrar isso também, o que dificuldade apontar o dedo para isso com mais ênfase.

Retomo o que eu disse na nota anterior, tem vários elementos sociais que contribuem para a reprodução dessas ideias, mas eu acho que o texto toma como uma coisa unicamente de cima para baixo. De certa forma, até por conta da cultura e da história do nosso país, não é como se esses criadores reacionários não tivessem um público que os visse. É também algo reproduzido nos trabalhadores e eles muitas vezes até pensam dessa forma.

É muito financiamento, é culpa dos monopólios e seus algoritmos, mas é também a subjetividade criada a partir da nossa condição econômica, na mudança na nossa forma de trabalhar, no incentivo constante em nosso isolamento e na luta contra o espaço público, um dos fatores que fazem isso acontecer.

Dessa forma, os algoritmos são apreendidos pelo conservadorismo do senso comum, o liberalismo que luta com unhas e dentes contra a dignidade da classe trabalhadora e o negacionismo calcado nos interesses da burguesia, frequentemente sob a vista grossa da legislação.

Temos casos e mais casos para comentar, mas não tem exemplo melhor que Monark que demorou anos para ser punido por literalmente defender partido nazista no Brasil (no final, ele nem foi pego por isso, mas por uma outra coisa lá). Essa vista grossa apontada, é a falta de uma legislação para crimes de ódio digitais, para espalhar fake news, etc. Mas é também vista grossa no sentido de que alguns crimes que já existem, que já tem tipificação, muitas vezes são feitos na internet e não recebem punição. Ai eu volto a falar do neoliberalismo - mesmo que tivesse a legislação, será que teríamos uma delegacia digital especializada para lidar com uma quantidade tão grande de crimes digitais dos mais diversos ? Não com essa constante austeridade.

Nessa ordem social, por que a legislação puniria quem reproduz as ideias dominantes ?

Boa parte da esquerda que produz conteúdo para a internet age somente pela perspectiva de agitação e propaganda. Apesar de entendermos a importância da agitprop, nós propomos ir além. 

Eu posso caracterizar essa sentença apenas como generosa. Vamos traduzir ela : quando ele fala que a esquerda foca na agitação e propaganda, na verdade o que a prática diz é que você mal tem um instagram bem organizado dos partidos. Muitos coletivos sequer conseguem organizar para postar um story direito, outros tem dificuldade de comunicação com a sua base e se você for olhar para iniciativas de criadores do youtube, você tem também casos isolados aqui e ali, mas não tem uma organização da comunicação deles.

A sentença é generosa nesse ponto, se houvesse pelo menos a agitação e propaganda, não teriamos tanta dificuldade de lidar com o fascismo na internet.

O além deles é propor que as pessoas comecem a se sentir compelidas a se organizarem, a participarem, a criar os seus coletivos, de entrar nos sindicatos, partidos, etc. Isso é mais do que fazer só divulgação, é tentar fazer com que as pessoas queiram participar da política. No parágrafo seguinte explica como.

Nosso projeto consiste em utilizar a internet para fomentar a organização dos trabalhadores, o avanço da consciência política, a divulgação e a capilarização do marxismo-leninismo no cotidiano de toda a classe.

Novamente, não te diz tudo. Não é só sobre divulgação, é principalmente com o propósito de também tentar organizar o discurso da esquerda radical para que ela seja uma parte importante do debate público. Organizar o discurso, necessariamente profissionaliza a sua mídia, melhora a sua qualidade e facilita que esse propósito seja atingido.

Dado o modelo de funcionamento das redes, sabemos que a qualquer momento podemos ser banidos e/ou bloqueados das plataformas que utilizamos. Por isso, julgamos necessária a construção de uma rede sólida de camaradas, a fim de garantir a continuidade das nossas atividades, para além de qualquer única rede social.

É imprescindível para qualquer criador (ou qualquer pessoa que queira participar do debate público hoje) ter um público que ele leve consigo que transcenda qualquer rede social. É como eu disse, uma conta no twitter, no insta, etc, não é sua, é quase que uma concessão, um aluguel, um espaço que você pode perder.

Muitas vezes a gente olha esses monopólios apenas ali, nos grandes sites que acessamos. Hoje, 2023, se você for tentar hospedar um site, é necessário toda uma infraestrutura que não é nada barata para se sustentar e quando falamos de alugar um lugar de hospedagem, os valores são caros e advinha quem é dono dos principais servidores ? Amazon e Google.

Se você é banido de uma plataforma, você precisa tentar construir seu público em outra, não há muito o que se fazer nesse aspecto.

Para concretizar esse projeto criamos espaços de discussão, diálogo e formação política.

Essa é a minha última nota. Soberana tem seu problemas e eu aposto que muitos de vocês conseguem apontar. Esse ponto que eu destaquei é o maior mérito dela. Sabe o que as pessoas mais sentem falta ? De outras pessoas, de relações de amizade, camaradagem e tem forma mais poderosa de combater o neoliberalismo do que fazendo literalmente o que ele é contra ?

E não adianta querer reinventar a teoria marxista, trazer Freud nu, Lacan de calcinha e sei lá mais o que, existe um vício muito grande em ficar trazendo umas teorias complexas e sem atividade prática, sem tentar propor algo.

Lenin incomoda muito porque ele foi cara que teorizou, estudou e ainda participou e ainda teve a audácia de governar o Estado proletário. Ainda que a gente tenha que adaptar muito para a realidade brasileira atual, é uma leitura essencial para gente conseguir entender esse país e melhor, nos armar de teoria revolucionária para construir a revolução brasileira.

Entretanto, o objetivo é não nos restringirmos ao conteúdo acadêmico, explorando formas de entretenimento político mais adequadas aos potenciais da internet. Produzimos de maneira cotidiana transmissões ao vivo, vídeos, textos e ilustrações, priorizando nossa proximidade com a comunidade.

Somos criadores de conteúdo com trabalhos variados sob a perspectiva de disseminar o discurso comunista nas plataformas virtuais. Alinhando-se a isso, promovemos o contato direto com a base de trabalhadores que consomem cotidianamente conteúdo na internet.

Aqui encerro o post. Onde é o maior ponto fraco da Soberana ? O fato de precisar usar as plataformas dos grandes monopólios digitais. Em grande parte, e isso assim, é uma coisa que eu debato muito em um outro post, eles ainda jogam muito no que eu chamo de fofoca política.

Para se manter relevante, e aqui nada contra, é sempre preciso ficar participando, se pautando, no que a mídia liberal pegou para falar da vez. E assim, isso chega no público liberal que está sendo respondido ou só é um conteúdo para o seu público interno ? Isso é um problema sério para quem quer crescer e quer começar a se posicionar na política.

Enfim, Soberana é importante. Senhores marxistas-leninistas, trotskistas, anarquistas e radicais dos mais diversos, vão precisar também organizar a sua comunicação. A ideia de um coletivo digital é uma nova forma de organização política, assim como lá atrás, a organização de jornais, editoras e rádios foi importante para a divulgação de ideias. Até uma coisa que é foda nesse ponto : eles fizeram, o método todo mundo vê, por que não fazer o mesmo também ? Eu garanto que muitos partidos, coletivos, movimentos dos mais diversos, tem plena capacidade de ter uma mídia mais organizada, nem que seja postar as coisas usando o Canva ou sei lá, editando as coisas no Capcut.

Marcadores: