15 abril 2025

Por que é tão fácil ser burro ? Ou porque você acha que frase de efeito é pensamento complexo.




O grande assunto do momento hoje é a inteligência artificial. No meio de umas discussões neo-ludistas e o pânico moral sobre as perderem seus empregos (como se alguém de fato tivesse um emprego) - tem uma questão que passa batido para grande maioria das pessoas : essa coisa artificial é de fato, inteligente ?


Para entender a inteligência artificial não acredito que precisamos entrar nos pormenores técnicos, até porque eles tendem a mudar muito rapidamente, mas acredito que seja necessário tentar entender algumas noções básicas de como ela funciona.


Como essa merda e outras coisas funcionam


O primeiro passo que precisamos fazer é sair do ambiente da computação. Por que ? Os princípios de funcionamento das máquinas não está preso a elas, elas não são mais do que produto de criações humanas.


Por mais que a automação produza resultados “sozinha” (jajá vamos entender as aspas), ela não acontece sem uma intervenção humana inicial. E talvez o conceito mais complicado para as pessoas do nosso tempo entenderem é que o mundo funciona sem elas. “Funciona” num sentido de que o vento vai sobrar mesmo depois que a humanidade desaparecer, a terra continua girando e o sol continua brilhando.


Isso significa que a natureza também funciona seguindo determinadas leis, como a lei da gravidade, da termodinâmica, etc, etc. Logo, é possível de certa maneira, “prever” o comportamento de fenômenos na natureza, já que eles seguem essas leis gerais. Quando você pensa numa ferramenta como o martelo, ele é uma ferramenta que segue a fórmula mais básica da física : força = massa x aceleração. Ou seja, se você mover um objeto pesado numa alta aceleração, você consequentemente terá mais força como resultado.



Com essa compreensão, por exemplo, que se foi possível inventar o martelo e aprimorá-lo depois, com ferramentas mais pesadas, como a prensa, o trator com aquela bola de aço, etc. Mesmo a flecha, a bala, míssil, segue esse mesmo princípio básico. Através da compreensão do mundo a sua volta que o ser humano foi capaz de criar ferramentas para interagir com esse mundo.


Um objeto simples como óculos é uma tecnologia que vem do estudo da óptica e do olho humano, de como a visão humana funciona. Isso é importante de compreender, porque com o computador não é diferente, não se trata de magia o seu computador conseguir realizar determinadas tarefas “sozinho”.


(Gente do céu, a realidade é física, não mágica !! Não é um espírito que move o mundo !!)


De uma atualização simples do sistema a um navegador de internet, de um algoritmo de rede social para um algoritmo gerador de imagens, tudo isso vem em código - e a gente sabe, que o código não é nada mais que uma “linguagem do computador” criada pelos humanos para automatizar processos de cálculos. Computadores são calculadoras, se uma imagem do seu monitor aparece com determinadas cores e tons, é porque as cores são calculadas, da mesma forma, que uma câmera que identifica o seu rosto, busca determinados padrões para fazer essa identificação.



E a gente volta pra falar das aspas em “sozinha”. Veja, nenhuma ferramenta, especialmente ferramentas produzidas pela humanidade, funciona 100% sem nenhuma intervenção humana. No caso da IA, logo na parte do treino, ela não é capaz de obter os dados e categorizá-los sozinha - é preciso que humanos MANUALMENTE categorizem as informações para um padrão que aquela máquina consiga processar. Só nisso já tem uma mão de obra precarizada fazendo esse tipo de processo.


Segunda questão, é que para uma IA funcionar, ela precisa em primeiro lugar ser programada por alguém. Mesmo o código gerado pela IA, na verdade, são códigos que ela foi treinada por humanos. Passando por tudo isso, ainda sim ela não faz tudo sozinha - no caso do Chat GPT, a inteligência artificial ainda precisa do prompt do usuário para ela fazer qualquer coisa.


O que uma máquina é, numa definição bem marxista, trabalho morto objetificado. Do martelo ao computador, ali tem conhecimento humano, ali tem o trabalho da humanidade para que aquele objeto exista. O próprio “estilo ghibli” não é algo criado individualmente pelo Miyazaki, ele tem outros desenhistas, muitos inclusive que nem trabalham mais para ele, que nunca vão ser reconhecidos como ele. Sem contar os fãs, e esses fãs desenhistas produzem arte inspirada nesse estilo de graça !!


Do martelo à IA, tudo é produto coletivo, mas controlado por quem nunca contribuiu para criá-lo.


Fato é, que o conhecimento humano, a cultura, etc, são criações coletivas, quem de fato está roubando a humanidade de suas próprias criações é quem põe essa barreira em tudo que é produzido - a burguesia. Uma fábrica não deveria ser exclusivamente da classe burguesa, mas sim, deveria estar a serviço da humanidade. Deveríamos deixar de assistir filmes, por que de repente, existe uma pessoa com um papel, diz que é dono dos filmes e que precisamos pagar um pedágio para assistir ? Ou deixar de ler um artigo acadêmico por que alguém disse que aquele conhecimento é restrito para quem pode pagar ?


A discussão real é sobre quem domina os meios de produção, não se fulano pecou porque fez um filtrozinho para postar no Instagram. Mark Zuckerberg de repente pode baixar livros no Anna’s Archive e o estudante de medicina que não tem condição de pagar em livros de 500 reais não pode.


Você não pensa mais, nem escreve, nem desenha.


Mas veja, tudo isso que eu disse é muito complexo e tal, e eu acredito que muitos de vocês não faziam ideia do que era assim antes de eu fazer essa descrição. O meu ponto em explicar isso é demonstrar simplesmente que quando nós usamos as ferramentas, na grande parte do tempo, nem sequer estamos cientes de como elas funcionam.



Por um lado, num lado prático, para usar uma lâmpada, eu não preciso saber do funcionamento da eletricidade, de como a luz é produzida, etc - por outro lado, isso cria uma certa alienação, no sentido mais marxista possível, como não entendemos mais como aquela ferramenta funciona ou as questões mais elementares do funcionamento disso que chamamos de realidade, aquilo aparece como algo mágico, místico.


Então, você aí, quando usa uma rede social, um computador, um navegador de internet, um celular, e tal, você não enxerga isso como uma mera ferramenta, ou como a parte morta da relação, você acaba por ser submetido à lógica da máquina e se transforma, no que Berardi vai chama de sujeito autômato.


Você se torna um mero objeto que repete comandos - não há uma grande diferença entre um usuário que passa o dia rolando na rede social e repetindo frases, de um bot que se treina com aqueles dados e que repete frases geradas nos comentários. A questão da IA nesses últimos anos, não é tanto que ela se tornou esperta demais, é que nós emburrecemos demais (A IA do Musk - Grok AI, com certeza parece mais esperta que um usuário médio do Twitter).


A nossa capacidade de escrita se reduziu, o nosso gosto por arte se tornou cada vez mais clichê - por isso seu amiguinho soltando termos de filósofos famosos parece genial e seu gerador de imagens consegue gerar imagens genericamente bonitinhas. O que de fato acontece, é que nós humanos estamos ficando cada vez mais parecidos com máquinas.


Um meme é um excelente exemplo disso : não são nada mais que repetições regurgitadas de ideias presentes no imaginário das pessoas. Você consegue encaixar a imagem da menina na frente do incêndio em 5000000 situações diferentes, porque ali tem um padrão de pensamento específico que aquela imagem pode ilustrar.



O que você repete com o meme, é em comparação, um código, uma programação. Ou você está gastando 3 horas pensando se vai repassar um meme ? Por isso, por exemplo, é tão fácil encaixar o meme do wojak vs chad em trocentas situações diferentes - é uma forma de pensar que se repete.

Por que o clichê funciona ? Essa é uma questão pouco explorada em algumas discussões sobre IA e internet, o clichê funciona precisamente porque, em algum ponto na nossa história, nós deixamos de tratar do ser, para o ter e deslizamos para o parecer. A imagem ganhou mérito máximo de estatuto de verdade. Na política, por instância, quando os militantes liberais webcomunistas vem assediar pessoas por usarem filtros (porque é exatamente isso que é o treco que Open IA faz com o “estilo ghibli”), não importa tanto que aquilo é ineficaz, que cause um desconforto e discussões desnecessárias sobre a culpa de viver no capitalismo, a questão é parecer alguém que se importa, é mera sinalização de virtude de gente que não deve nunca ter doado nada na sua vida.


Um exemplo muito interessante é a "fala rádio" do Bumblebee dos filmes dos Transformers. Ele recorta frases de filmes, séries, etc, e faz um tipo de colagem para falar determinadas coisas - de fato, falar ele não fala, mas ele usa dessas frases para falar por ele - ele não tem uma voz própria.


Não tem diferença nenhuma de quem é contra as pessoas usarem o iphone, ou carros de gasolina, ou das pessoas tomarem banhos longos - não resolve o problema, e é mera performance e sinalização de virtude.


A questão não é sobre efetivamente organizar a classe dos trabalhadores intelectuais que vão perder empregos por conta da IA, não nem sobre responsabilizar as empresas de inteligência artificial - É sobre se parecer virtuoso.


Descrevendo dessa forma, parece algo simples e até bobo demais, mas funciona. Tem gente que se elege com esse discurso vazio, tem gente que é pago para produzir conteúdo justamente porque é esse tipo de santo, porque repete o que o público quer ouvir como um bom cãozinho - ainda que o público esteja errado ! Ou seja, se tá na “moda” atacar pessoas trans, é “Ok” ficar a cada 5 minutos falando mal de pessoas trans; se ser racista tá em alta, por que não criar leis racistas também ? Quando convém, de vez em quando se solta um discurso mais progressista porque naquela hora tá na moda !!


Por isso não adianta, é preciso estudar para quebrar as correntes da alienação, é preciso tomar os meios de produção - as formas de produzir a vida. Ferramentas como IA podem ser úteis — assim como um martelo pode construir uma casa ou esmagar um crânio. O problema não é a tecnologia, mas quem a controla e como nos tornamos meramente objetos diante dela.


Enquanto discutimos se IA rouba empregos ou não, esquecemos que já roubaram de nós a capacidade de criar. A saída não é proibir as máquinas, mas tomar o que nos foi tomado: os meios de produzir conhecimento, arte e vida — sem pedir permissão do CEO do momento.

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27 dezembro 2024

A esquerda morreu (?) e querem que você acredite nisso.






Como pergunta inicial, deveríamos nos questionar: por que tanta gente se dispõe a discutir sobre os rumos da esquerda? É uma questão de tradição crítica? É por conta da hegemonia da esquerda? É, porque as pessoas se importam com o projeto político popular? Talvez por simplesmente se identificar com um projeto popular, mas não gostar da trajetória atual? Enfim.


O motivo subjetivo de cada um não importa tanto para o que proponho nesse texto. A grande questão sobre esses debates políticos é que eles são feitos de forma muito abstrata, sem dados reais, sem uma discussão política objetiva. Esse subjetivismo, de opiniões aqui e ali sobre uma liderança abstrata cuja a origem é desconhecida, debates rasos sobre comunicação social, discursos performativos sobre economia e um apelo moralista, apocalíptico ao pânico moral, não levam a gente atuar, muito pelo contrário, são uma excelente desculpa para não se fazer nada.

Nós precisamos ser bem maquiavélicos, no sentido de compreender, que no fim, quando se trata de política, o próprio debate público também é um campo de batalha e portanto, faz sentido defender os próprios interesses. Se fulano ou ciclano têm um projeto de poder, isso é legítimo e esperado.

Inclusive é dessa simples conclusão que se pode explicar o subjetivismo generalizado no debate público.

Quando se fala de algo comum, no máximo temos explicações baseadas em moralismo, senso comum, etc. Exatamente porque são nessas esferas morais que o subjetivo reina.

Numa comparação bem por cima, quando um bolshevik entrava no partido, quando uma pessoa entrava no movimento negro unificado, ou quando se organizava em um movimento abolicionista, o que a gente precisa entender é que essas pessoas do passado, não tinham essa mesma noção exagerada do “Eu”.

Durante a escravidão no Brasil, ocorriam casos de exceção de abolições dentro do sistema escravista. O que marca o fim da escravidão nunca foram esses casos isolados, mas justamente o movimento abolicionista organizado para tornar a liberdade possível.

A modernidade é marcada pelo individualismo, é a época do nascimento da psicologia, do super–heroi solitário, das histórias de superação e da auto-ajuda. Com qual discurso a extrema-direita conquistou tanto espaço ? Liberdade individual irrestrita !!

Logo, se na política é verdade que as pessoas buscam seus interesses, isso vai se expressar de forma diferente em sociedades diferentes.

Se uma determinada sociedade tem uma cultura de cooperação, essa sociedade vai se organizar em grupos sociais e esses interesses, as articulações da política, as ideias, a forma de produzir ciência, vão ser coletivas.

Seguindo essa lógica, faz sentido que numa sociedade individualista se expresse, por exemplo, uma disputa entre egos, entre valores morais inatos e conhecimentos herméticos, que as articulações sejam muito mais baseadas em interesses pessoais.

Em inglês existe um termo “dog-eat-dog world” (cão come cão) que expressa justamente essa sociedade de todos contra todos que a gente vive. O grande mistério aqui, é como ainda assim, numa sociedade com esses valores individualistas ainda se formam grupos organizados na sociedade civil.

Essa explicação nos serve de base para tentar entender essa pandemia de análises sobre “o rumo da esquerda” que se espalhou no debate público brasileiro.


1- A tese do aceleracionismo-vazio


Se a gente fosse de fato tratar do aceleracionismo de forma séria, a gente estaria discutindo as teorias da história em Hegel, Marx, Deleuze e Guattari, Fisher e Nick Land, etc. O ponto central entre todas essas teorias é que a história se desenvolve de determinada forma a superar qualitativamente e quantitativamente determinado valor considerado como parâmetro de desenvolvimento. Em Hegel, estaríamos falando da liberdade, em Marx um desenvolvimento das forças produtivas, etc, etc.


Digo que existe uma tese aceleracionista-vazia, porque nela não existe essa concepção de história, não se tem parâmetro para dizer que mudou algo. É um tipo de nihilismo além do nihilismo, os anarco-nihilistas pelo menos tem lá seus parâmetros de destruição e caos, já os vazios (como vou chamar essa ideia daqui para frente), nem isso possuem.

A ideia é muito bem resumida pela postura de Bolsonaro : “contra tudo o que está aí”. A pergunta que fica é : “o que está por aí ?” Existe um critério ? É muito isso que eu quero destacar, não se trata de uma proposta de destruição completa, existe uma seleção, senão veríamos atacando mesmo valores que eles defendem. No caso do Bolsonaro, não haveria uma censura em relação a destruir o cristianismo, a família, a propriedade privada, etc.

Se quer destruir tudo que lhe interessa destruir. É uma espécie de explosão controlada, direcionada. Mas sem nenhuma proposta do que fazer depois do estrago, não que as estruturas sejam sagradas e devam ser mantidas eternamente, mas que é necessário entender o papel delas na sociedade, para saber exatamente o que se fazer com elas.

Pode ser que se reforme o sistema educacional, mas que se abolissem a polícia militar. A questão é que os vazios isso nem é uma questão, é uma destruição pela destruição, com objetivo baseado inteiramente num projeto de “se todo mundo morrer, eu viro rei”.

Toda crítica hoje se passa por um “tá tudo uma merda, ninguém presta” e claro “eu vou resolver”. Isso vai do PCBR, passando pelo falecido PDT (e do trabalhismo em geral), alguns grupos trotskistas, pelo PCB-CC, por algumas organizações maoistas e anarquistas. E veja, fora do que a gente chama de esquerda, esse mesmo tipo de crítica também existe, mas ela toma uma forma conspiratória : é a cultura woke por todo lado, é o kit gay, o judeu internacional, CEOs comunistas obscuros, etc.

E fica aí a pergunta : quem tem mais espaço? A direita ou a esquerda ? Note que o reformismo liberal muitas vezes faz eco com o conservadorismo, isso é verdade. Mas a gente realmente precisa que dentro das nossas organizações populares reproduzir teses, discursos, mesmo práticas, que são conservadoras com intuito de “ganhar adesão”.

No final das contas, o que você acha que acontece ? Nós começamos a ver discursos de “E O PT???”, “o identitarismo destruiu a esquerda”, “agenda woke tá em tudo”, etc, dentro mesmo da esquerda. É complicado, para dizer no mínimo, você ver organizações de esquerda soltando esse tipo de discurso conservador como uma pessoa de minoria. Se o lugar de fala é relevante, eu como uma pessoa trans não me sentiria nenhum pouco segura com um grupo social que diz que me defende no sigilo e lá na rua continua reproduzindo preconceitos do status quo “para ganhar adesão”.

É da mesma maneira que a gente sabe que político da direita finge que gosta de pobre em dia de eleição.

Não adianta a esquerda achar que reproduzindo o discurso da direita de forma socialmente aceita (em forma de “crítica”), ela vai ter o mesmo nível de adesão que os políticos conservadores quando fazem a mesma coisa.

É engraçado que se pode criticar quando a esquerda liberal vem com discurso de populismo penal para ganhar voto, quando a esquerda radical, vem com esse mesmo tipo de lógica de discurso conservador para ganhar voto (ou membros), aí pode. Aí não é errado, não tem nada demais, é isso mesmo ?

Ainda que isso dê certo, você acaba por criar uma adesão a você por causa da sua postura conservadora, isto é, você junta cada vez mais do seu lado, gente conservadora que vai te cobrar para que você de fato seja o que fala ser. Quando você for por um secretário de educação, por exemplo, não adianta querer “esquerdar” do nada, porque os seus eleitores já vão estar esperando que você seja um reacionário - você vai acabar saindo como traidor ainda por cima. Por exemplo, não é a toa que a organização neonazi como a Nova resistência tenha juntado ao PDT, a cada 5 segundos o Ciro solta um “E o PT ????”, “e o identitarismo ??” e espera que os nazistas não gostem desse discurso ?

Em política não se faz xadrez 500d, deixe isso para os espiões.


2- Autodestruição ou autocrítica ?



Autocrítica serve em uma definição bem simples para melhorar nossa prática. É uma crítica com propósito de aproveitar o que funciona e aprimorar nossa prática. Ou seja, por mais crítico que sejamos, algum elemento do velho continua existindo. Não se joga água fora com o bebê e a bacia.

Como o que reina são projetos individualistas, ou no máximo projetos de seita evangélica suicida, não existe uma noção de que outras pessoas defendem teses, pautas, militam por causas parecidas, são aliados possamos constituir trabalho em conjunto : se trata de uma lógica de competição.

Então a crítica nesse caso, não tem nenhuma intenção de melhorar ou de aprimorar a prática, a lógica é de fato, de destruição completa do outro. A ideia é vencer o outro, esmagar, destruir, dominar - para isso é usado de todos os meios necessários. O que é interessante tomar de atenção, é que esse outro muitas vezes é alguém literalmente no mesmo grupo que o seu, então é só questão de tempo de se rachar, se criar frações, grupos dissidentes, etc.

É de se perguntar por que nós como movimento temos tanta dificuldade de criar relações inter-partidárias entre nós ? A crítica é importante demais para ser apenas uma arma de autodestruição.

3-Imitar a direita não funciona e não dá certo.

Dentro desse clima de “sou mais brabo que todo mundo”, existe essa crítica aos moderados, isto é, aos liberais e reformistas. Principalmente se você for marxista, você sabe muito bem por que existe essa hegemonia liberal. Eu sei que vocês sabem, não adianta esconder. Vocês entendem toda a parte da perseguição do Estado, o trabalho ideológico, etc, etc.

É muito mais fácil uma pessoa ser liberal, por uma série de razões, do que ela acordar e ser uma marxista-leninista. E veja, é o esperado, você nasce numa sociedade liberal, a sua vida toda você só ouve ideias liberais, tudo o que você pensa, fala, consome e produz é liberal, é claro que você muito provavelmente vai ser liberal.

Dentro desse mesmo escopo, se uma pessoa provavelmente vai ser sempre liberal dentro da democracia burguesa, faz sentido que mesmo quando ela encontrar problemas nesse sistema, o máximo que ela consiga pensar seja em reformar esse sistema.

Ela vai buscar soluções dentro do próprio liberalismo, porque essa é a visão de mundo dela.

Uma pessoa é liberal, conservadora, fascista, reformista, etc, porque de alguma forma, ela enxerga dentro dessa visão de mundo, por mais distorcida que possa ser, algo que a atende politicamente, isto é, que atende alguma necessidade dela.

Essa é a questão aqui : nós conseguimos fazer isso? Por incrível que pareça sim! Ou você acha que sindicatos, partidos políticos, coletivos, organizações de bairro, etc, surgem por mágica ? Ainda que todo anticomunismo seja forte desde a época de Marx, ele não vence a realidade. As pessoas se organizam em movimentos populares porque precisam. O trabalhador se junta com os colegas num grupo, num sindicato, porque ele precisa lutar por melhores condições de vida no trabalho.

Se depois ele vai concluir que ele é anarquista ou socialista, aí já é outra conversa - a questão é que a gente precisa observar esse movimento do real primeiro para depois dar o foco na questão ideológica.

Qual é a razão da gente ter menos adesão? É porque, em primeiro lugar, a burguesia domina o Estado, eles tem muito mais recursos que a gente; segundo lugar, é porque eles têm uma organização política muito mais bem institucionalizada (no sentido de ter uma tradição de práticas de organização social) que a gente; Mas mais importante, nós não temos uma unidade organizativa, não há uma integração entre diferentes movimentos com práticas, táticas, recursos, etc - coisa que a direita por mais que briguem entre si, sempre consegue organizar.

Aqui eu quero que você perceba o seguinte : se na esquerda o discurso político é o mesmo da direita, por exemplo, se a esquerda quer combater o identitarismo tanto quanto a direita, com quem você vai se juntar ? Com os caras que são deputados, governadores, tem uma máquina partidária enorme, tem contato com igrejas, etc, ou com meia-dúzia de jovens que você nem sabe se existe por trás de perfis de redes sociais ?

Ou vocês já esqueceram do Freixo perdendo eleição no Rio de Janeiro ? O cara que até esses dias era do PSOL, amigo de Marielle Franco e tudo - Para ganhar eleição começou a soltar um monte de discurso reacionário para ver se colava. Resultado : não se elegeu.

Por isso assim, apelar por exemplo, para discurso anticiência, transfóbico, racista, etc, de forma socialmente aceita dentro da esquerda - Você deixa de ser uma força politicamente oposta à direita quando defende as mesmas coisas que eles, e entre direita e pseudo-direita com discurso “esquerdista”, vence sempre a direita.

O Uber engenheiro precarizado que tanto se fala por aí em lives “sobre o novo trabalho”, se você só reforça a crença dele que ele não consegue emprego “porque lacração”, ele vai para a direita que defende o extermínio das minorias, ou para uma esquerda que defende as pautas de minoria de forma envergonhada ?

Qual o outro problema de imitar a direita ? Eles têm discursos objetivamente falsos. Essa coisa de que o grande problema do mundo são [insira X minoria] é um discurso falso ou você acha que existe alguma verdade nesse tipo de discurso ? O problema do capitalismo não é o judeu internacional, a travesti mostrando a bunda na faculdade, ou sei lá, os sapos gays, é a lógica autodestrutiva e insustentável do próprio sistema.

Não só um eco com a direita que vai ser feito, mas como não vai ser resolvido nenhum problema. Proíbam o rebolado nas universidades, isso não vai melhorar nossa situação acadêmica brasileira - não faltam bundas na universidade, falta investimento público. A Rússia Czarista e a Alemanha nazista fizeram campos de extermínio o suficiente para matar todo tipo de minoria, nem por isso o capitalismo deixou de quebrar.

Nosso querido Brasil sequestrou, escravizou, prendeu e matou (e continua fazendo isso) os povos originários da América e de África, ainda com o sucesso do projeto supremacista e colonial, o país não deixou de ser ruim como é hoje. Retomar a verdade aqui é mostrar exatamente isso : que esse discurso falso serve apenas para manter o status quo como ele está. Uma travesti numa cota de universidade, um preto conseguindo comprar uma casa, uma mulher conseguindo uma creche para sua família, nada disso vai salvar o mundo - mas o vai tornar melhor - da mesma maneira que se todo espantalho reacionário fosse verdade, o mundo não deixaria de existir da forma que é.

É uma escolha sua : você quer tentar melhorar a vida das pessoas ou você quer caçar redemoinhos e piorar ainda mais o mundo ?

Dito tudo isso, você ainda perde base, vira puxado da reação, promove uma prática social que é ineficaz e fortalece o status quo. Parabéns, você é muito brabo.


4- Como se desmobilizar.


Essas semanas houveram mobilizações no Brasil todo por causas como o fim da fome, moradia e o fim da escala 6x1. O destaque que eu quero dar aqui é que nesse período o PCBR esteve mobilizado no Brasil todo. Ou seja, um partido revolucionário, num país como o Brasil, com todo seu histórico de repressão, foi capaz de mobilizar nacionalmente protestos, atos, ocupações, etc.

O que dominou o debate público todo esse tempo ? Como a esquerda morreu, perdeu o rumo, não tem mais base social, caiu no identitarismo, blá-blá-blá. Inclusive, esse discurso, por parte de lideranças importantes do PCBR, como Jones Manoel e Heribaldo Maia .

E claro, um monte de gente do PDT, PSOL, PT, etc, etc, veio com essa mesma conversa sobre “os rumos da esquerda”, teve uns debates em todo canal considerado de esquerda, o ICL promoveu dois debates sobre isso, tudo para chegar à conclusão que “estamos perdidos”, tem que mudar a comunicação, tem que deixar o identitarismo, tem que ser mais brabo, etc”.

Aí eu fico pensando, anos atrás, inclusive no auge da era Lula, era impossível imaginar que partidos como o PCBR existissem, muito menos, conseguissem essa mobilização popular que a gente viu nesses últimos anos. O próprio Jones destaca que ele teve uma votação expressiva quando foi concorrer à governador em 22. Isso acontecia há algum tempo atrás ? Não estamos claro, vivendo numa onda vermelha, mas com certeza é um avanço do cansaço generalizado do “só pode ser social-democrata, além disso é totalitarismo”.

Pensa comigo : você começa o seu trabalho de mobilização de forma mais concreta, organiza ato, organiza palestra, começa fazer jornal, faz greve, faz movimento estudantil, luta no movimento sindical, faz ocupação (o doido é que o próprio PCBR fez uma ocupação em Florianópolis ! Sim, no meio do sul do Brasil, conhecido por ser completamente bolsonarista), etc.

Aí você tem que ouvir por parte de suas lideranças, em eco com a direita inclusive, que não existe esquerda, que todo mundo é falso, mentiroso, que tá tudo dominado, não tem o que fazer, que a esquerda morreu, perdeu o rumo e um monte de lero-lero. Isso não é desmobilizante ?

Para que raios eu vou gastar meu domingo organizando protesto contra o 6x1 se a esquerda morreu, lá no congresso “o PT não faz nada” e o Lula não faz nada (ainda que o governo Lula seja QUALITATIVAMENTE MELHOR que o do Bolsonaro), “o PSOL virou reformismo” (o mesmo PSOL que abraçou o 6x1 e levou pro congresso, do Glauber Braga, da Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna, esse mesmo), se o outro pessoal que se diz radical não é radical de verdade (ainda que as ocupações, a luta agrária, etc, continue sendo tocada) ? Me diga, se tá tudo perdido, tem o que fazer ? Entende que mesmo depois de você tentar me dizer “dá para fazer X, Y e Z”, no final das contas, vai ser tudo em vão porque você já me disse lá atrás que nada presta ?

Nem tudo é merda.

Na era Bolsonaro-Temer, o mais incrível foi ter a UP ter conseguido surgir e o partido do Bolsonaro não; Foi a gente ver o próprio PCB ter crescido tanto e mesmo depois do racha, ter continuado sendo um partido político organizado. O MST se mantém firme e pressionando mesmo diante de ataques do congresso e recuos do governo petista e dá para ficar citando vários exemplos de luta sendo levadas à frente, apesar desse ar de marasmo generalizado. Auge da pandemia, era Bolsonaro, nós conseguimos conquistar o auxílio emergencial !!

Se o PT e sei lá quem mais, não é radical, não vamos ficar esperando radicalismo deles e ficar tomando eles como parâmetro do que é esquerda ou não. Deixa eles lá com seu Keynes, o importante é a gente ter o nosso Marx pronto para quando a gente tomar o poder conseguir industrializar o país todo. Se a gente toma um território, seja de forma democrática ou não, como a gente vai organizar esse espaço ? Vai ser chamando todo mundo de feio ?

Essa coisa do BPC que o governo propôs e o Jones começou a criticar, primeiro lugar, se usou disso para fazer terrorismo midiático, no sentido de criar um sentimento de caos generalizado, de que tá tudo perdido, o mundo vai acabar. Veja, é fato (basta ler o projeto de lei) que ele é um ataque ao BPC, e aí, a gente faz o quê?

a)fica reclamando dizendo que todo mundo é mentiroso e não presta, a esquerda morreu, não tem o que fazer.

b)organiza a sociedade civil para se mobilizar contra os cortes.

Qual opção vocês acham que foi tomada? Talvez o que deveria ser a grande diferença do marxismo com o discurso liberal, é que enquanto o discurso liberal vai se focar em fazer uma discussão sobre a corrupção moral das pessoas, o marxismo não liga para isso, ele estaria mais preocupado em como de fato, derrotar politicamente esse ataque ao BPC. A gente faz mobilização social, como ? Conversamos com políticos ? Organizamos atos ? Legalmente, tem o que possamos fazer também, podemos acionar advogados populares ? Quanto às estratégias não-institucionais, como a gente pode ajudar essas pessoas idosas e com deficiência que podem ter seu benefício cortado ?

Eu ligo se fulano, ciclano, mente ou deixa de mentir ? Ou se moralmente o beltrano acha imoral as pessoas terem vários benefícios sociais ? O interesse de fato, é, em primeiro lugar, se a gente sabe que isso vai ser ruim para gente, o que a gente pode fazer para garantir esses benefícios e como a gente expande eles ainda mais ?

A própria direita usou disso para promover pânico moral, nós realmente precisamos fazer esse eco com a direita ou propor soluções ? É objetivo, é uma medida draconiana que só serve para agradar o mercado de previdência privada - é uma merda, mas eu preciso ficar a somar nesse discurso de fim dos tempos ?

Existe um incêndio, todo mundo tá vendo que tá acontecendo, precisa jogar mais fogo no que já está queimando ?

De nada adianta ser um bom samaritano, preocupado com as pessoas, cheio de boas intenções, se nós não atuamos dentro da realidade para melhorar essa realidade. O cristão mais fervoroso com certeza vai te pedir para rezar e acreditar em Deus, mas nunca vai te tirar a responsabilidade de viver a sua vida.

Nem Deus não faz o trabalho sozinho.



5-O PT é um partido liberal e isso é ok.




Eu já expliquei que existe uma hegemonia liberal? Então, existe uma hegemonia liberal. O que é considerado “normal” é ser liberal, é isso o que isso quer dizer, isso significa que mesmo os trabalhadores vão ser parte da reprodução da ideologia liberal, que vão formar grupos sociais com ideias liberais, que vão surgir partidos populares com viés liberal, e por aí vai.

Isso é o esperado, é como chover no molhado, uma pessoa não vai se formar marxista por osmose, magia, tarot, ou sei lá - é preciso estudar marxismo, conviver com marxistas, ter um grupo de marxistas, etc. Qual é a doutrina econômica hegemônica das universidades? É marxismo? Não, é a economia política liberal, no máximo um Keynes.

O petista médio ser um liberal, não ter lá uma formação política muito boa (porque grande parte não é organizado e mobilizado e tal), ter posturas em média conservadoras, acreditar muito na boa vontade do mercado, que o grande problema do capitalismo é a ganância, e várias posturas, que para nós marxistas são conservadoras e ainda assim defender justiça social, emprego para todos, fim da fome, etc - isso é o esperado.

Não vai ser chamando todo mundo de feio e mentiroso, que a gente vai conquistar essas pessoas e mais importante, se elas se juntarem conosco em nosso projeto, elas precisam ter espaço para aprender, todos tem capacidade de estudar e mudar suas posturas. Se existe o interesse, não há nada de errado um liberal querer estudar Marx e mudar sua postura liberal. E se ele não quiser, ok, se nos ajudar, ótimo!; se não ajuda, que não atrapalhe e a luta de classes que segue, nós aqui e eles lá e tá tudo certo.

Agora essa caça às bruxas para ver quem é mais brabo e pior, ficar cobrando de quem nem é tão de esquerda assim, posturas mais radicais, é contraprodutivo, para dizer no mínimo.

Revolução não é o que o PT defende e deixe eles lá com isso.


6-Por que é tão importante a esquerda morrer?





Se a gente for tentar buscar dentro da tradição do que a gente chama de esquerda, seja uma visão de que ela são os povos oprimidos, seja naquela definição feita na revolução francesa, qual seria o principal cerne dessa posição ?

A constatação, baseada na razão, isto é, numa conclusão que todos conseguem verificar, de que as pessoas que constroem a sociedade, que são base da nossa civilização, não recebem o que precisam. Que todo ser humano, por mais que seja defendido que é igual, não recebe os mesmos benefícios, e pior, sequer é capaz de decidir a própria vida, já que existem estruturas na sociedade que decidem a sua vida antes mesmo de você nascer.

Se você nasce preto no Brasil, você nasce com um alvo na suas costas por conta do projeto de genocídio negro brasileiro; se você cresce mulher, você se torna uma cidadã de segunda classe por conta do patriarcado; se você é trans, você é negado seu direito de existência e de expressão do seu gênero; se você é pobre é quase certo que você vai morrer de tanto trabalhar e nunca vai conseguir construir nada na sua vida, além de lucro pro seu patrão.

Nós, os oprimidos, tomamos a ciência em nossas mãos e revelamos essas estruturas, mostramos que elas são construídas, que o mundo já foi diferente e mudou, e pode mudar novamente e ser construído por nós.

Se pode ser mudado, algo pode ser feito hoje, algo pode ser construído agora, para que amanhã tenha uma trajetória diferente.

É isso que a esquerda defende, por que é tão importante matar ela ? Porque você retrocede toda a nossa capacidade de pensar para o modo religioso de ver o mundo. Enxergar o mundo como uma realidade parada do tempo que nunca muda independente do que a gente faça, que essas estruturas que nos oprimem vão existir eternamente e de que não há o que fazer.

Voltamos a rezar, a ter superstições, a esperar o divino, para que as coisas tenham alguma mudança para melhor. Num mundo como esse não vai importar se organizar, discutir, construir teorias, trabalhar com ciência para aprimorar nossa vida, vai ser mais importante achar um bom senhor feudal, piedoso o suficiente, que não nos maltrate demais.

Toda essa febre de BET, não é só um fenômeno que pode ser explicado de forma clínica, é um problema social que expressa a incerteza causada pela vida onde o emprego não é formal, não se tem estabilidade de onde vai morar ou se vai comer, de violência no campo e na cidade só cresce, de estudo que não leva para lugar nenhum, etc. Se numa determinada sociedade, se valoriza o trabalho científico, as pessoas vão planejar no longo prazo estudar porque elas sabem que se gastar 10 anos estudando, vão conseguir algum emprego decente.

Agora, hoje em dia, ninguém se aposenta, acabou praticamente o serviço público, todo trabalho é bico - tão bom quanto ficar tentando fazer dinheiro na rua é ficar apostando no tigrinho, porque talvez se ganhe alguma coisa - e a gente sabe que nos dois casos, quem vence é o dono do cassino.

É importante destruir toda noção de que existe mudança. Esse é o ponto. Se nada muda, não tem o que se fazer. Aliás, até tem né ? Rezar.

Se a direita se beneficia desse discurso religioso, isso é fato, ele serve para congelar a história. Agora a esquerda adotar esse discurso, só serve para fazer eco com a direita, é um desrespeito com quem milita, seja aqui no Brasil, seja pensando no movimento internacional dos povos oprimidos.

Fim…

É isso por hoje.

referencias




1 Vou recomendar ACTUALLY, N. A quick rundown on accelerationism. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=lrOVKHg_PJQ&pp=ygUOYWNlbGVyYXRpb25pc20%3D>. Acesso em: 27 dec. 2024.

ROSENFELD, J. accelerationism. Disponível em: <https://www.britannica.com/topic/accelerationism>.
2 Estou desconsiderando completamente o que foi dito ou não dito no twitter, e se eles ainda me perdem tempo com twitter, que é basicamente a rede do Elon Musk, possível ministro de Trump, paciência.



3 Perfil da Ocupação Carlos Marighella. Disponível em: <https://www.instagram.com/marighella.sc/>. Acesso em: 27 dec. 2024.



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01 maio 2024

Por que você deveria bater nos niilistas ?




Infelizmente, eu costumo acertar muito as minhas análises. Dessa vez, eu estou mais cansada e menos informada. Peguei para refletir porque eu estou tão saturada e onde isso acontece. Depois de muita reflexão, eu cheguei a conclusão de que a culpa é desse niilismo generalizado na sociedade.



Ricoeur tem uma célebre análise que coloca Marx, Freud e Nietzsche (tem gente que coloca Darwin também) como os “mestres da suspeita”. Marx te colocaria para entender que existem determinações materiais na economia que endossam os discursos (ideologia), Freud mostra que nós temos um subconsciente que influencia em nossas decisões sem a gente perceber e Nietzsche mostra que a moral é uma coisa meramente arbitrária criada para domar a sociedade.



Em síntese, existem coisas que te influenciam antes mesmo de você pensar. Por isso Darwin também entra na lista de algumas pessoas, existiriam processos biológicos fora do nosso controle que ditam a nossa ação. Eu tendo a olhar para isso com certo cinismo, ainda mais porque a gente já chegou a um ponto na nossa discussão que literalmente todo mundo tem noção de que isso acontece.



Por mais que a gente goste desses autores e ache as barbas deles bonitas, goste do charme de fumar um charutão, essa “meta-percepção” nos torna mais cínicos em relação às coisas. Eu sei que a mensagem deles nem é tanto essa, mas é muito interessante observar que as pessoas pegam essas reflexões e adotam uma postura de “por causa disso, nada importa”, ou simplesmente se tornam pessoas extremamente chatas e usam dessa reflexão para defender um imobilismo (“tá tudo dominado, não dá para fazer nada), fora aqueles que não conseguem gostar de nada, tudo é ruim porque tem X questão ideológica, biológica, etc, etc.



Ou seja, nada importa porque tem na realidade algumas predeterminações e tal, é como se as pessoas ficassem tristes porque existem as leis da física. E assim, os autores morreram certo ? Tudo o que a gente tem é a leitura que a gente faz hoje, o seu “fantasma”. E se é uma coisa arbitrária como o caro Nietzsche nos ensinou, por que a gente escolhe a leitura mais cínica possível ?



Vou fazer uma analogia voltando lá na física. Se você compreende as leis da física e tal, você tem a capacidade de usar desse conhecimento para “quebrar as leis da realidade”. Olhe o avião grandão lá comercial, por exemplo, essa porra pesa por volta de 200 kilos. Eu te pergunto, esquecendo que existe aviação e tal, como que você faz uma coisa de 200 kilos voar ?



Se eu chego para uma pessoa no século XIX, antes de SANTOS DUMONT TER FEITO O AVIÃO, e perguntar se é possível fazer algo tão pesado voar, eu tenho muita certeza que encontraria pessoas falando que é impossível. Porém, se você estuda física e tal, compreende bem as leis da inércia e tal, você consegue calcular a velocidade, o material, e tal, necessários para criar uma máquina de 200 kilos que consegue subir a mais de 10 mil pés.



As conclusões de Nietzsche, Freud, Marx e Darwin, deveriam ser como a física, nós olharmos para realidade sabendo de suas leis, e através disso mudamos a realidade. É difícil não culpar os leitores nessa situação : você me pega Nietzsche e sua crítica à arte em Kant, e sai por aí falando que nada importa, que a arte é uma merda e etc, etc. Quando você deveria é socar Kant, ridicularizar essa noção de que a estética é uma coisa “desinteressada” e se abraçar com tudo na arte. Seja como um mero apreciador, seja como um artista, criar/consumir arte para se envolver até a cabeça.



E freudiano/darwinista chato que trata tudo como se a gente não tivesse como alterar nosso corpo/mente ? Se você entende que existem esses mecanismos, como eles funcionam, você pode inclusive criar outras estratégias para lidar com a sua mente/corpo. Nós somos a porra do monstro de Frankeistein.



Para mim os piores são os marxistas que usam da análise marxista, vocabulário e tal, para ter posições reacionárias bem avançadas. “A revolução é impossível”, “tá tudo dominado por coronel”, “porque a gente não controla nada”, sim demônio niilista, agora você sabe bem onde mirar. Se a questão é a ideologia, como você quebra isso ? Se a questão material grita na cara que a questão é a relação do trabalho e tal, você vai atuar na relação do trabalho (por isso a atuação em sindicatos seu trouxa). Tem latifundiário, etc, etc, você organiza ocupações (por isso MST/LCP) - “Ah mas tem a questão juridica”, você organiza um grupo de advogados do povo.



Mano, é tão difícil assim ? TÁ NO TEXTO, tudo o que eu disse tá escrito lá na obra desses caras. É claro como o dia. Eu te garanto que não precisa ser universitário para entender, o ponto dessas CONCLUSÕES CIENTÍFICAS, é justamente que são coisas que todo mundo consegue ver. Não é um saber hermético trancado a 5 chaves, inclusive você encontra os textos completos de todo mundo online.



Conhecimento é para todos. Se a sociedade burguesa dificulta é justamente porque isso empodera as pessoas a mudarem a realidade como ela está.



Só que assim, eu sei que você leitor vai me entender e tal, mas é um saco todo lugar de convivência você tem esse bando de filhos de puta, niilista, que fica justificando ser niilista, sugando a nossa vontade de viver (que já não é muita) e tornando tudo na vida uma merda. A parte mais triste é que a internet amplifica muito isso e se você tem que lidar com isso na rua, fica difícil não ter depressão.



Ter depressão, ansiedade, etc, é quase uma condição obrigatória no mundo que a gente vive. É muito menos uma condição psíquica individual e mais uma reação do seu corpo em relação ao mundo. Você sente coceira na sua pele quando tem algo irritando ela, certo ? E você não controla a coceira, mas você pode aliviar, ou você pode acabar com a causa da coceira. No meu caso é uma alergia ao niilismo da sociedade moderna, não se pode gostar de nada, não dá para ser feliz nunca e tudo é um eterno sofrimento cristão.



Veja, eu acabei de mostrar que compreendendo as coisas você consegue mudar o seu comportamento e tal, eu observei que o problema era os lugares que eu estava frequentando e passei a ter uma postura a ignorar esses lugares. Parei de ver feed de rede social, parei de ver vídeo de marxista reaça, parei de interagir tanto em grupos de discussão, tento dissociar e alienar o máximo possível as relações na universidade, me aproximei mais das pessoas e coisas que eu gosto. Só assim para não cair no buraco do niilismo.



PS : Não me pergunte quais marxistas reaça. Mas é gente que fica chamando todo mundo de burro, que fica tratando as pessoas como idiota, fica numa arrogância e prepotência que meu deus do céu, faz Bakunin parecer uma moça. E é aquela coisa, por que o Brasil não teria gente que usa vocabulário marxista para ficar destruindo outras organizações marxistas ? A própria universidade tem muito esse papel também, e é cansativo que uma porra.

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25 janeiro 2024

Marxismo, anti-comunismo de esquerda e de direita

 Escrito em 14 de jun. de 2023

 

O Brasil tem uma doença muito forte chamada reacionarismo. Ainda não chegamos a uma compreensão mínima do papel da crítica, muito menos da abordagem científica da análise marxista.

 

O que se tem de crítica contra o marxismo, não raro se resume à "transformaram o marxismo numa religião", como se isso fosse uma questão da esquerda e não parte de uma interpretação liberal. O movimento que é feito é de acusar que a esquerda é muito fanática, daí vem a ideia do "stalinismo", que há um culto à personalidade de Josef Stalin e isso criaria militantes cegos, incapazes de enxergar a "realidade", e interpretam o marxismo como uma religião.


Isso é uma inversão da realidade : na prática quem produz e quem precisa de fanatismo é a política liberal. Ela ainda baseia suas teorias, sua política, em mero idealismo. É ela que trabalha em construir narrativas em questões metafísicas, como liberdade, como empreendedorismo, democracia (no sentido abstrato da palavra) e são os teóricos liberais, que dão um valor extremo à disputa de meras discordâncias gramáticas.


O debate liberal é uma disputa entre homens livres empreendedores, todos concordam com a base material de reprodução do capitalismo, o que discordam geralmente se resume a questões muito pontuais. Eu realmente diria que uma conversa entre um petista e um anarco-capitalista iria ser amigável, com uma breve discordância se os seres humanos merecem se alimentar.


Se as nossas discussões aqui na esquerda, por vezes, de fato, repetem esses vícios do debate liberal, é muito mais uma questão de que, de uma maneira geral, a nossa sociedade está com uma consciência geral muito reacionária. Tem gente que acusa, por exemplo, o PCB de ser LGBTfóbico e machista, se o é de fato, se trata meramente de uma reprodução da sociedade em que vivemos.


Se os nossos partidos reproduzem a ideologia liberal, é sinal que, não que devemos abandonar os nossos partidos, mas que internamente, a luta continua e a gente precisa avançar para que isso não se repita. A luta classes continua dentro do partido também.


Se a organização lida com isso, aí já estamos fazendo uma outra discussão. Querer tratar os partidos de esquerda como mônadas, espaços isolados da sociedade, que não são influenciados pela sociedade em geral, é no mínimo, desonestidade intelectual. O militante é alguém, por incrível que pareça, uma pessoa que faz parte da nossa sociedade, ele vai reproduzir os valores dessa sociedade. Se ele tem consciência disso ou não, é outra discussão.

Se há uma postura fanática religiosa com retórica marxista na esquerda, isso é um problema que supera a esquerda, isso é muito mais uma expressão da própria política liberal, do que culpa de um "extremismo geral de esquerda". O contrário é muito mais verdade, expressa uma incompreensão, tanto de quem crítica essa postura, como de quem a reproduz, com o que de fato é o marxismo. Não é a radicalidade a causa da expressão do liberalismo no partido, é a falta dela.

Há duas questões que eu quero abordar nesse texto : a análise materialista-histórica dialética, o que ela é no seu grosso e o caráter da crítica, a sua direção, se é de esquerda, ou reacionária.


O que é o método materialista-histórico dialético ? E aqui eu prefiro tomar uma postura deflacionista, o que isso significa ? Que eu não vou tratar o marxismo como um dogma fechado em si mesmo, ou como uma grande teoria filosófica com sistemas e pressupostos fechados. Se outros marxistas tomam a teoria dessa forma, sinto informar que é um engano.


Porque de fato ele não é nada disso. Esse espantalho do marxismo como um idealismo utópico, nada mais é que uma incompreensão e nada mais que isso mesmo, mero espantalho.



Precisamos perguntar : qual é o grande contraponto da filosofia marxista ? O idealismo alemão. Em que consiste esse contraponto ? É uma questão que merecia um texto só sobre isso (Marx e Engels abordam em diversos textos), podemos resumir, até para manter a simplicidade, que é na própria compreensão sobre a realidade material.
 

Para Marx, a realidade existe, e é essa materialidade, da relação do homem com a natureza, que determina seus desdobramentos históricos. Peguemos o exemplo do suposto machismo e LGBTfobia do PCB (não temos provas então não podemos afirmar se é verdade) : o que leva a reprodução do machismo e da LGBTfobia em uma organização ? Seria a mentalidade dos militantes ? O espírito do preconceito toma conta de seus corpos ? Marxismo bebe muito do método científico, ele vai olhar para a materialidade.


Dentro do campo marxista, há posições que são incontestáveis, não porque é um dogma, mas porque é uma teoria comprovada cientificamente. Se nós não questionamos sobre a questão da mais-valia, não é porque ela é a palavra de Deus, mas sim, porque assim como a lei da gravidade, ela é uma teoria que foi testada e comprovada.


Isso significa que dentro desse campo, assim como em relação às leis da gravidade de Newton, há a possibilidade de novas descobertas. A física quântica, ao descrever o mundo atômico, por instância, descobre que as leis de Newton não se aplicam para aquele contexto. Da mesma maneira, dentro do marxismo, a lei da mais valia pode ser desenvolvida : será que as mesmas leis se aplicam da mesma forma em uma economia digitalizada ? Será que é preciso uma nova descrição para esse contexto ou ela já se sustenta da forma que é ? É preciso estudar para comprovar e desenvolver as nossas teses.

Entra a questão nacional, cada realidade nacional necessita de uma análise própria. A nossa tarefa é construir um marxismo, por instância, brasileiro, assim como existem outros marxismos, como o russo, o chinês, o cubano, etc. Precisamos também beber de suas análises, com o cuidado de compreender a peculiaridade de cada lugar.

Há uma abertura, por isso o estudo da teoria é muito importante, que a gente possa também, contribuir para o estudo da nossa realidade social. É importante, como marxistas, em especial, nós que somos socialistas científicos, compreendamos esse espírito do estudo científico dentro do nosso campo.

Lenin é bom não porque ele é um santo que teve uma revelação - é bom porque ele foi capaz de teoricamente, assim como o próprio Marx e Engels, criar uma teoria. Isto é, da mesma forma que Darwin, Newton, Galileu, etc - teoria como parte de um estudo sistemático, ou seja, ela foi testada e comprovada.

Voltando na questão do PCB. Nós aqui responderíamos analisando as condições materiais, que é, por exemplo, a instituição da família ocidental patriarcal na sociedade brasileira. Então machismo, por exemplo, tem muita ligação com a própria estrutura de poder interna, que reproduz a organização da família, por instância.

Mas apenas isso seria simplificar até demais. Os homens não são figuras estanques que não respondem ao seu ambiente, as pessoas percebem, nesse caso por serem militantes minimamente informados sobre essas questões, que algumas estruturas organizativas são a raiz do problema, ou parte dele. Então internamente, supondo que de fato a organização seja machista, há uma luta interna para que isso seja diferente.

A partir das hipóteses, podemos também definir nosso estudo, testando a veracidade dessas afirmações. É uma questão cultural interna ? É só a estrutura de poder do partido ? É falta de estudo sobre a questão ? Etc e tal. Nesse caso, até por se tratar de uma questão interna, como alguém de fora, eu sequer acho tão válido assim ficar cobrando. (Sinceramente, falando sobre isso, eu nem sei se esses boatos são verdade)

E aí a gente parte para discutir o seguinte : qual o propósito da crítica ? O que chamar o PCB de machista e LGBTfobico publicamente de fato contribui ? A crítica interna, no seio do partido, por mais que não tenha critérios científicos e todo cuidado com o método materialista-histórico dialético, tem como objetivo fazer com que o partido avance nas suas lutas. A crítica interna, não deixa de ser válida por simplesmente não ter os critérios teóricos em mente, apesar de que com a teoria, fica mais fácil localizar a raiz dos problemas e corrigi-los, eis a importância do estudo da teoria. E bem, sinceramente, nós que estamos aqui de fora, temos pouco a dizer sobre a organização interna de um partido - ainda mais um que ainda atua ainda hoje. (Não significa também, que não seja possível fazer um estudo histórico sobre, por exemplo o PCB e sua atuação, mas perceba que é um outro tipo de crítica)

Publicamente, a crítica não se dirige unicamente aos membros do partido, não se trata de uma sinalização interna, e ela nem sempre tem o propósito de avanço do próprio partido em sua luta.

Vou dar um exemplo prático : Srta. Bira acusa o PCB de ser LGBTfóbico por conta de um texto de 2021 falando sobre identitarismo liberal e ela mesmo, só fala sobre a esquerda identitária.

E a gente precisa fazer um exercício epistemológico : será que esse identitário alienado e narcisista existe lá no PCB ? Em nenhum momento é apresentado provas materiais ou uma tentativa de questionar se o militante cirandeiro de fato existe.

Por isso a abordagem científica é importante. Não adianta, seja internamente ou aqui de fora, ficar criticando os dragões que o PCB mantém nos seus diretórios se eu não sei se esses dragões existem de fato.

A gente pode trabalhar com a hipótese que, considerando o fato da sociedade brasileira ser LGBTfóbica, que isso naturalmente pode se repetir internamente no partido. Note, é uma hipótese e merece ser testada. Até lá são hipóteses.

Então a crítica dela não tem propósito científico, ela não tem critério teórico, é uma crítica que serve única e exclusivamente, para fazer uma sinalização política. Note que em si, desvelada a falta de compromisso científico, fica difícil dizer qual é o objetivo dessa crítica.


Ela queria criticar a LGBTfobia nos partidos de esquerda, mas note que ela só se preocupou em expor o PCB - hoje, um partido pequeno, que está numa fase de reconstrução depois de sua destruição nos anos 90 e que passou boa parte de sua história ilegal. Qual foi o critério para escolher o PCB ? Infelizmente, se a gente for falar em questão de relevância, hoje nenhum partido revolucionário vai aparecer - sim o PT, o PSOL, PSB e cia, que são partidos que se dizem de esquerda e na prática, são uns liberal contra-revolucionário. Mesmo sobre partidos radicais, qual o critério para falar de PCB e não de outros ? Nenhum, foi uma escolha arbitrária.

E aqui eu mostro o caráter reacionário de uma crítica. Se trabalha com categorias ideais nem sempre claras e objetivas, se espera que, por exemplo, o partido as cumpra e se não cumprir, nós temos que descartar, nesse caso, toda perspectiva revolucionária, "porque não dá certo".

O interesse não é que o PCB avance nas suas lutas, é destruir o PCB. Ainda que ela tivesse boas intenções com toda sua pompa pós-moderna e seus doutorados sei lá onde, seus monólogos narcísicos sobre sua vida como prostituta preta e pobre. Que ela quisesse apontar para um problema, com toda boa intenção, mesmo sendo alguém aqui de fora, a forma, o conteúdo em si, só serve para atacar publicamente.

Note que se a crítica tivesse sido bem fundamentada, por ser uma figura pública de relativa relevância, o PCB seria obrigado a responder e a fazer um debate sobre a questão. Pode ser que ele faça, única e exclusivamente, porque ela tem números e isso seria uma oportunidade do partido responder essa crítica - pode ser. Por conta da natureza dispersa da internet, pode ser que ninguém veja a versão do PCB e é isso mesmo, o debate público hoje não se parece muito com uma conversa, ela é muito mais um monte de gente gritando para ter atenção.

Como o alvo dessa crítica não é necessariamente o PCB, é uma sinalização pública, onde eu, você ai, seu avô, etc, etc  que muitas vezes nem tem nada a ver com o PCB ou com a esquerda em si, vão esbarrar nessa capa de jornal que é o Twitter e vão dizer "olha lá, os stalinismo LGBTfóbico". Dou o exemplo de Bolsonaro chamando Flávio Dino de “gordo comunista” - isso serve a quem ? Lembrar aquele estereótipo reacionário do burocrata “stalinismo”, gordo enquanto o resto morre de fome.

Isso era para ser uma crítica bem-fundamentada com as experiências socialistas ? Mas olhe, ele mostrou alguma evidência disso ? Não e nem quer, ele quer só atacar a esquerda. Só isso em si não caracteriza a crítica reacionária. Ela fala muito de identitarismo e a crítica vai muito no sentido de “vocês ligam para isso, mas não ligam para aquilo”. Tem aqui um elemento elitista, uma perspectiva academicista que desconsidera a capacidade dos próprios militantes de perceberem esses problemas. (Bolsonaro em toda sua “simplicidade”, não deixa de ser elitista, para ele todo mundo é burro e ele seria o espertalhão, note que em Olavo de Carvalho há esse mesmo movimento)

Se tem esse problema internamente, como eu já pensei nessa hipótese no texto, vamos ver reações a isso. E a crítica dela também vai num sentido de descaracterizar a militância, jogando essas questões de identidade meramente como “identitárias”. Faz sentido a gente criticar os chineses por serem chineses demais ? Não né, é óbvio que as pessoas vão se organizar conforme com quem se identificam, mesmo pessoas de minoria que são conservadoras como ela. Não deveria nem ser um debate, é um fato comprovado e fácil de se verificar, condenar as pessoas por se organizarem politicamente por conta disso, é só burrice. É como querer condenar as pessoas por terem sentimentos. (Ignorar a diversidade da classe trabalhadora é uma tarefa que a ideologia liberal faz dia e noite com seu debate frágil sobre igualdade).

A diferença de um movimento para outro, se ele é de esquerda ou não, o que vai caracterizar é a sua posição na luta de classes. O movimento feminista liberal (que sim, merece uma crítica pública mais forte) não se preocupa com todas as mulheres, muito menos as pretas, pobres, muito menos ainda as trans. Ele é conservador porque não desafia a organização do capital, é conservador porque ainda luta por um espaço dentro desta sociedade liberal. É basicamente um esforço das mulheres liberais de conseguirem entrar no clube de cavalheiros burgueses.

Isso merece atenção, não o PCB tentando recolher seus pedaços depois de ter sido destruído nos anos 90, perseguido durante toda a ditadura militar e também na era Vargas. Não é ali o foco do poder dos poderosos, é lá em cima e Bira parece acreditar fazer parte dessa elite, para lá do alto, pisar em um bando de comunista tentando reconstruir um movimento massacrado no Brasil.

Nesse ponto sua crítica é reacionária. E muito do nosso debate hoje é só isso : reacionário. Se critica a esquerda por supostamente não abrigar o movimento negro - isso é feito de dois movimentos : apagamento da nossa militância negra junto aos comunistas e novamente, negar as contradições internas dos partidos comunistas.

Se há certa dificuldade do partido em aderir teses anti racistas e de compreender a noção de raça, dependendo do lugar, também uma reprodução do racismo, há também linhas que internamente disputam para que isso seja o contrário. Note que nós não estamos negando que o racismo se reproduz no seio do partido, como explicamos lá atrás, simplificando até, porque esse partido faz parte de uma sociedade racista.

Não significa que isso seja aceitável, mas que é necessário, também dentro do partido, disputar espaço e hegemonia, por exemplo, que sejam adotadas as teorias anti racistas.

A nossa posição não é de se aceitar um determinado dado da realidade. É o de compreender esse determinado dado e a nossa capacidade de alteração dessa realidade. Bira olha para essa contradição interna e se imobiliza, acredita que a realidade não consegue ser transformada.

Isso é, par excellence, o cúmulo do reacionarismo, observar o mundo, como se ele fosse imóvel, sagrado e imutável. Basta um estudo mínimo historiográfico para compreender, não só a capacidade humana de transformação do mundo, como também como o próprio mundo, numa compreensão mínima, também muda.

Voltamos para o início. Nosso problema essencial é a incompreensão científica que possui o marxismo e a função que a crítica tem em cada situação. O nosso trabalho é o de continuar o trabalho científico de Marx e Engels, que se comprovam sólidos e são importantíssimos para compreensão da nossa realidade. Conhecimento é tecnologia, essas ferramentas mudam a nossa percepção da realidade.

A crítica precisa sempre beber dessa fonte, só assim ela vai ser efetivamente certeira e nós conseguimos testar diferentes hipóteses, de forma científica, trabalhar com o que comprovadamente funciona.

Internamente ela funciona para melhorar o nosso trabalho e progredir ao socialismo. É preciso ter em mente que o espaço de debate público é liberal. Não há interesse dele em promover o socialismo.

A nossa posição pública deve ser a de denunciar o reacionarismo e seus limites, dentro das possibilidades de promover nosso projeto político. Não raro essas críticas públicas com retórica de esquerda, com esse viés acadêmico meio afrancesado, servem como eco para o discurso reacionário.

Liberal pouco se importa com inconsistência, hipocrisia, em ter discurso contraditório. Pode ser que todo dia o liberal bata na mulher dele e depois reclame do "masculinismo" da esquerda. Todo dia um partido de direita fazendo projeto genocida contra povos originários e a nossa população negra, mas é fácil denunciar que a esquerda tem dificuldade com pauta racial.

A função disso é desqualificar a nossa luta. E não tem nada errado com isso !! É para isso que o braço da mídia, com o estabelecimento do debate público, precisa fazer. Todo dia um professor universitário, um policial e um jornalista, acordam suando com medo do comunismo.

O comunismo debaixo da cama deles, no armário, na casa do vizinho, por toda parte. Bira só é mais uma parte disso. É um medo quase que cósmico, pode ser que ninguém acredite mais em Deus, todavia, não há uma crença mais firme que a revolução um dia vai acontecer e vai eliminar, junto da burguesia vampiresca, todos esses parasitas que apesar de menos ricos, se beneficiam desse sistema.

 

 


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