19 agosto 2025

Aceleracionismo como ideologia do capitalismo tardio.









Aceleracionistas conscientes, isto é, os que são por saberem o que se trata aceleracionismo, são o grupo político-ideológico mais feliz do século XXI - pelo menos até o momento.



Digo isso porque hoje o mundo vive numa situação de instabilidade perfeita para qualquer um que só quer ver destruição e caos.



Mas assim, exige um certo grau de loucura e egoísmo (no sentido de Stirner) mesmo, para ser aceleracionista de fato. Não é uma questão de não acreditar que o desenvolvimento continuo não traga grandes avanços para a humanidade, o problema é acreditar que isso vai vir de forma desordenada e que isso em si, não teria suas consequências negativas.



O que acontece de fato, e é sobre isso o foco desse texto, é que grande parte das pessoas que podemos chamar de aceleracionistas nunca pensaram muito a fundo sobre o que acreditam (até porque, como vamos ver mais tarde, muita gente apenas reproduz ideias e não tem muita autonomia intelectual).



Ou como quero defender nesse texto, sequer possuem uma noção de que são aceleracionistas - que os seus slogans, barulhos, pautas “importantes” do dia, notas de repúdio e as grandes “novidades” do dia poderiam ser resumidos simplesmente por ressentimento com o mundo presente.



Eu não acho nem que sejam de fato rebeldes - até porque na prática, eles falam muito e realizam muito pouco na prática material.



Por isso, já seria muito diferente de um leitor médio de Deleuze&Guattari, Fisher e Land, por mais que nunca tenha existido um movimento aceleracionista formal (no sentido de termos partidos, instituições e etc), foram autores que influenciaram, tanto pro bem como para o mal, as grandes mobilizaçoes do século XXI.



Land é cunhado como o pai do pensamento da alt-right, Fisher podemos dizer que foi o pensador mais influente pós-crise de 2008, inspirando muitas revoltas como o Occupy, as jornadas de 2013 no Brasil e tal. Que foram manifestações importantes, ainda que a reação à elas tenham na verdade nos vencido (vide golpe 2016 e claro, projeto de austeridade fiscal que se sustenta até hoje).



Quando se trata do aceleracionismo como um movimento político, apesar de ser algo completamente descentralizado e organizado muitas vezes em grupos muito pequenos, ele possui uma agenda política. Quando Trump venceu pela primeira vez, no meio de um monte de excentricidades e idiossincrasias, lá já existia um projeto político.



O caos sempre foi parte do projeto. Tanto no aceleracionismo de esquerda como no de direita, existe uma noção muito simples de história, que existem graus desenvolvimento e que mais importante, é possível acelerar esse desenvolvimento.



Sim, é uma versão de marxismo/positivismo muito mais insana e bem, se pudermos sumarizar, é dizer que o desenvolvimento dos últimos 200 anos não foi rápido o suficiente (“nunca é rápido o suficiente”).



Esse tipo de aceleracionismo é muito mais restrito à academia, à intelectuais, a ratos de internet, etc. O fenômeno que vemos hoje se remete mais à uma espécie de vontade de destruição do presente sem necessariamente ter qualquer noção de futuro.



Isso acontece, podemos começar nossas hipóteses, porque é impossível pensar numa história coerente do mundo.



Eu descrevi aqui, um aceleracionismo muito mais inconsciente e irracional, fruto da aceleração dos nossos processos de produção.



Uma coisa é contar 1984 à 1994, outra radicalmente diferente é tentar explicar que raios aconteceu entre 2014 à 2024. O ritmo dos acontecimentos aumentou além do esperado mesmo para os aceleracionistas mais otimistas dos anos 80.



As coisas que demoraram décadas para acontecer, agora acontecem em semanas, dias, horas... O tempo perdeu completamente qualquer tipo de referencial. Com a revolução industrial, aprendemos a seguir o tempo do relógio - com a era da internet, nem mesmo o relógio é capaz de mensurar nosso tempo.



Se a gente fala de trabalho, por exemplo, não existe mais “horário de trabalho”, todo horário é um horário para trabalhar, para ter lazer e para descansar - e tudo ao mesmo tempo.



Nenhuma tarefa é uma tarefa, sempre estamos fazendo duas, três, quatro, cinco coisas ao mesmo tempo, sem dar atenção máxima para absolutamente nada !!



(A título de parênteses, eu sou contra quem usa desse argumento para dizer que o chamado TDah é uma condição EXCLUSIVAMENTE resultado da sociedade que vivemos - é muito mais correto, até numa perspectiva sociológica, admitir que parte do fenômeno também é biológico, portanto, psicológico, psiquiátrico, etc. Mesmo que a abordagem seja “mudar toda a estrutura da sociedade” isso é algo que precisa ser construído, e não é feito quando as pessoas não estão no seu melhor. É pedir muito para pedir que vocês se cuidem ?)



Se você, por exemplo, não está lendo esse texto enquanto come ou enquanto joga algo, ou enquanto ouve alguma outra coisa, pode se considerar “ultrapassado”.



O ponto é, que a vida em si, toda ficou mais acelerada, mais efêmera.



Para você ter uma noção, algumas décadas atrás, jogos eram exclusivamente histórias fechadas, com mapas construídos cuidadosamente, com cenas estilo cinema; em comparação, muitos jogos hoje, conhecidos como roguelite/roguelike e de certa forma os chamados gacha, dependem muito mais de conteúdos gerados proceduralmente de forma aleatória e caixas com itens aleatórios (loot boxes), do que de fato, possuírem uma estrutura fixa planejada.



Se você comparar um jogo como da série Castlevania e Vampire Survivors : o primeiro tem um mapa predefinido, uma história estruturada, cenas scriptadas, etc; o segundo você é um personagem num mapa genérico que pega itens e melhorias aleatórias.



O mesmo vale para música - raramente alguém busca por ouvir discos ou álbuns, mesmo por artistas específicos - se ouve faixas e quem fornece a playlist aleatória curada por uma inteligência artificial são as plataformas como YouTube e Spotify. E a tendência da indústria da música, por mais que exista uma certa resistência, é que se tenha músicas geradas aleatoriamente por inteligência artificial.



Plataformas como a Netflix, por exemplo, mudaram completamente como as pessoas assistem filmes. Ir ao cinema ou mesmo alugar um filme numa locadora, já não é mais o evento que era nas décadas passadas, é muito mais uma questão de ter aquele 5 minutos para ver enquanto navega nas redes sociais uma série qualquer do momento. Novamente, com listas curadas por inteligência artificial.



E como eu poderia terminar sem falar das redes sociais ? Veja, não estamos nem mais discutindo sobre comunidades específicas, amizades digitais, identidades falsas, etc - nós já chegamos num ponto que nem isso é mais consciente.



O uso é muito mais sobre receber o que o feed, e no futuro o conteúdo, gerado pela inteligência artificial lhe oferece, do que gastar tempo de verdade procurando uma comunidade online que tenha a ver com seus interesses.



Nisso tudo, existe um certo padrão de comportamento importante : se aposta muito mais, isto é, basicamente tudo se transformou em girar uma roleta, o “aleatório” rege muito mais a nossa vida; automação agora não necessariamente só de atividades fabris, mas automação também de pensamento - qual é na prática o grande segredo do sucesso da IA generativa ? Ela é capaz de gerar um discurso genérico e realizar todo processo de busca de informação, que muitas vezes, na maior parte das vezes, as pessoas encontrariam facilmente num dicionário ou numa busca simples na internet.



Trata-se também de uma automação das relações sociais, não mais nos reunimos em clubes, espaços, assembléias, sindicatos, etc, para socializarmos - quem faz isso, são as redes sociais corporativas. Quem te joga num grupo do MBL ou da Soberana, “conforme seus interesses”, são as plataformas - e nisso nós vemos inclusive seu viés político.



Um grupo se reúne com executivos das plataformas, o outro vez ou outra toma uma punição das plataformas (e mais importante, performa radicalidade para fingir que está fora do jogo).



Mas note, por que as pessoas não têm mais essa capacidade de busca ? Justamente, chegamos num ponto de que mesmo o pensamento humano se tornou lento para o tempo da produção do capital.



Qual foi a grande questão da greve dos roteiristas de Hollywood em relação à IA ? Um roteiro bom pode demorar meses, anos, para ser formulado por uma dúzia de roteiristas - com a inteligência artificial é possível gerar um número absurdo de roteiros em menos de alguns minutos - e do jeito que a indústria cultural gosta : clichê, genérico, facilmente reproduzível.



Então, voltando ao aceleracionismo, existe uma certa impaciência generalizada. Não necessariamente, porque as pessoas são ou querem ser impacientes, justamente porque o mundo pede velocidade.



O mundo vive em crises constantes, a vida se tornou mais instável e se tornou mais automatizada.



Quando você observa, por instância, PCBR, Jones Manoel, Gaiofato e o ecossistema de esquerda que eles compõem, “o webcomunismo” são pessoas que vivem nesse mundo acelerado que eu descrevi.



É gente que trabalha de forma precarizada, dificilmente teve emprego formal, precisou encarar a falta de concurso público e teve que se virar, porque estudar não garante absolutamente mais nada no mundo (principalmente no Brasil).



O que já é um perfil muito diferente do petismo. Tanto que eu acho que vale a comparação - o petismo surge no início da formação do neoliberalismo, no início da desindustrialização no Brasil, ou seja, ainda era uma sociedade, comparada com hoje, muito mais estável e com um tempo muito mais lento de acontecimentos.



O PT já nasce como um partido mais moderado, menos radical, que não defendia revolução; em comparação, quando você olha pro PCBR, ele já defende a revolução desde o seu nascimento.



Ou seja, lá na formação do PT não havia essa urgência (ou ansiedade) tão grande em ter as mudanças na sociedade. E veja, até hoje o petismo tem essa forma de enxergar o mundo.



O tempo do PT ainda é o tempo das lentas discussões do parlamento. É o tempo da eleição, de ir lá, lentamente formando quadros, etc. A ponto, do PT desacelerar o próprio reformismo.



O que é completamente diferente, continuando a comparação com o PCBR. Então, quando a esquerda radical olha pro PT e diz que ele tá completamente rendido, que já é um partido de direita, que abandonou as bases, que o PT perdeu a comunicação, etc - e os petistas olham pro mesmo PT e acham que ele tá sendo revolucionário fazendo aliança com o União Brasil (a título de contexto, um partido conservador para dizer no mínimo), isso ocorre exatamente porque de um lado, respectivamente se quer fazer política de forma quase que instantânea, com revolta, live, edit do Lula fodão, Tiktok de trend citando Marx, etc e do outro, já se acredita que no longo prazo, essa aliança com a direita vai ter algum fruto no futuro.



Pro petista médio tem um futuro e tal (ainda que o niilismo esteja se generalizando em nossa sociedade); já pro PCBRista médio não se sabe se vai ter semana que vem.



..





O que de fato acontece na prática é que o PT não é aquele partido conservador que o webcomunismo faz entender; nem é o reformismo revolucionário que o webpetismo defende - na prática, considerando tudo, nossos avanços na via institucional e não-institucional vem aos poucos se enfraquecendo.



Em ambos os casos, de certa maneira, há uma certa euforia excessiva, e aqui nós com certeza poderíamos discutir por uma via psicanalista: No final das contas, está se defendendo/atacando muito mais um PT que se deseja, do que um PT que de fato existe.



Eu acho essa via pouco proveitosa, a solução seria qual ? Levar todo mundo pro divã ? Isso não vai ser útil para ninguém (o que não isenta vocês de irem buscar uma terapia).



E eu nem acho que a questão seja de fato “parar os aceleracionistas”. Até porque eu acho que isso é muito mais um fenômeno da internet, ou melhor, das nossas relações mediadas pela rede.



No momento que eu escrevo esse texto, apesar de toda tecnologia que tomou nossa vida, existe uma certa desigualdade nesse desenvolvimento. Nem todo lugar tem internet de alta velocidade, TV digital até alguns anos atrás era restrita apenas à algumas regiões do Brasil, muita gente ainda acessa informações numa internet de velocidade 3g (da antiga geração).



Eu acho que esse descompasso, no sentido rítmico, entre essa noção da esquerda brasileira entre reforma e revolução, entre entrar ou não nas eleições, entre gostar ou não da China, etc, não são meras discordâncias, são na prática uma dificuldade de decidir um caminho, de tomar uma posição.



Então, a questão mesmo, é muito mais um resultado de uma certa precariedade do nosso movimento. É dessa dificuldade de ter um caminho na prática que surgem essas especulações infinitas.



É justamente porque existem poucas possibilidades de mudanças que se especula.



E sinceramente, eu não sei mais o que escrever então o texto fica incompleto, eventualmente vou voltar nesse assunto.

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27 dezembro 2024

A esquerda morreu (?) e querem que você acredite nisso.






Como pergunta inicial, deveríamos nos questionar: por que tanta gente se dispõe a discutir sobre os rumos da esquerda? É uma questão de tradição crítica? É por conta da hegemonia da esquerda? É, porque as pessoas se importam com o projeto político popular? Talvez por simplesmente se identificar com um projeto popular, mas não gostar da trajetória atual? Enfim.


O motivo subjetivo de cada um não importa tanto para o que proponho nesse texto. A grande questão sobre esses debates políticos é que eles são feitos de forma muito abstrata, sem dados reais, sem uma discussão política objetiva. Esse subjetivismo, de opiniões aqui e ali sobre uma liderança abstrata cuja a origem é desconhecida, debates rasos sobre comunicação social, discursos performativos sobre economia e um apelo moralista, apocalíptico ao pânico moral, não levam a gente atuar, muito pelo contrário, são uma excelente desculpa para não se fazer nada.

Nós precisamos ser bem maquiavélicos, no sentido de compreender, que no fim, quando se trata de política, o próprio debate público também é um campo de batalha e portanto, faz sentido defender os próprios interesses. Se fulano ou ciclano têm um projeto de poder, isso é legítimo e esperado.

Inclusive é dessa simples conclusão que se pode explicar o subjetivismo generalizado no debate público.

Quando se fala de algo comum, no máximo temos explicações baseadas em moralismo, senso comum, etc. Exatamente porque são nessas esferas morais que o subjetivo reina.

Numa comparação bem por cima, quando um bolshevik entrava no partido, quando uma pessoa entrava no movimento negro unificado, ou quando se organizava em um movimento abolicionista, o que a gente precisa entender é que essas pessoas do passado, não tinham essa mesma noção exagerada do “Eu”.

Durante a escravidão no Brasil, ocorriam casos de exceção de abolições dentro do sistema escravista. O que marca o fim da escravidão nunca foram esses casos isolados, mas justamente o movimento abolicionista organizado para tornar a liberdade possível.

A modernidade é marcada pelo individualismo, é a época do nascimento da psicologia, do super–heroi solitário, das histórias de superação e da auto-ajuda. Com qual discurso a extrema-direita conquistou tanto espaço ? Liberdade individual irrestrita !!

Logo, se na política é verdade que as pessoas buscam seus interesses, isso vai se expressar de forma diferente em sociedades diferentes.

Se uma determinada sociedade tem uma cultura de cooperação, essa sociedade vai se organizar em grupos sociais e esses interesses, as articulações da política, as ideias, a forma de produzir ciência, vão ser coletivas.

Seguindo essa lógica, faz sentido que numa sociedade individualista se expresse, por exemplo, uma disputa entre egos, entre valores morais inatos e conhecimentos herméticos, que as articulações sejam muito mais baseadas em interesses pessoais.

Em inglês existe um termo “dog-eat-dog world” (cão come cão) que expressa justamente essa sociedade de todos contra todos que a gente vive. O grande mistério aqui, é como ainda assim, numa sociedade com esses valores individualistas ainda se formam grupos organizados na sociedade civil.

Essa explicação nos serve de base para tentar entender essa pandemia de análises sobre “o rumo da esquerda” que se espalhou no debate público brasileiro.


1- A tese do aceleracionismo-vazio


Se a gente fosse de fato tratar do aceleracionismo de forma séria, a gente estaria discutindo as teorias da história em Hegel, Marx, Deleuze e Guattari, Fisher e Nick Land, etc. O ponto central entre todas essas teorias é que a história se desenvolve de determinada forma a superar qualitativamente e quantitativamente determinado valor considerado como parâmetro de desenvolvimento. Em Hegel, estaríamos falando da liberdade, em Marx um desenvolvimento das forças produtivas, etc, etc.


Digo que existe uma tese aceleracionista-vazia, porque nela não existe essa concepção de história, não se tem parâmetro para dizer que mudou algo. É um tipo de nihilismo além do nihilismo, os anarco-nihilistas pelo menos tem lá seus parâmetros de destruição e caos, já os vazios (como vou chamar essa ideia daqui para frente), nem isso possuem.

A ideia é muito bem resumida pela postura de Bolsonaro : “contra tudo o que está aí”. A pergunta que fica é : “o que está por aí ?” Existe um critério ? É muito isso que eu quero destacar, não se trata de uma proposta de destruição completa, existe uma seleção, senão veríamos atacando mesmo valores que eles defendem. No caso do Bolsonaro, não haveria uma censura em relação a destruir o cristianismo, a família, a propriedade privada, etc.

Se quer destruir tudo que lhe interessa destruir. É uma espécie de explosão controlada, direcionada. Mas sem nenhuma proposta do que fazer depois do estrago, não que as estruturas sejam sagradas e devam ser mantidas eternamente, mas que é necessário entender o papel delas na sociedade, para saber exatamente o que se fazer com elas.

Pode ser que se reforme o sistema educacional, mas que se abolissem a polícia militar. A questão é que os vazios isso nem é uma questão, é uma destruição pela destruição, com objetivo baseado inteiramente num projeto de “se todo mundo morrer, eu viro rei”.

Toda crítica hoje se passa por um “tá tudo uma merda, ninguém presta” e claro “eu vou resolver”. Isso vai do PCBR, passando pelo falecido PDT (e do trabalhismo em geral), alguns grupos trotskistas, pelo PCB-CC, por algumas organizações maoistas e anarquistas. E veja, fora do que a gente chama de esquerda, esse mesmo tipo de crítica também existe, mas ela toma uma forma conspiratória : é a cultura woke por todo lado, é o kit gay, o judeu internacional, CEOs comunistas obscuros, etc.

E fica aí a pergunta : quem tem mais espaço? A direita ou a esquerda ? Note que o reformismo liberal muitas vezes faz eco com o conservadorismo, isso é verdade. Mas a gente realmente precisa que dentro das nossas organizações populares reproduzir teses, discursos, mesmo práticas, que são conservadoras com intuito de “ganhar adesão”.

No final das contas, o que você acha que acontece ? Nós começamos a ver discursos de “E O PT???”, “o identitarismo destruiu a esquerda”, “agenda woke tá em tudo”, etc, dentro mesmo da esquerda. É complicado, para dizer no mínimo, você ver organizações de esquerda soltando esse tipo de discurso conservador como uma pessoa de minoria. Se o lugar de fala é relevante, eu como uma pessoa trans não me sentiria nenhum pouco segura com um grupo social que diz que me defende no sigilo e lá na rua continua reproduzindo preconceitos do status quo “para ganhar adesão”.

É da mesma maneira que a gente sabe que político da direita finge que gosta de pobre em dia de eleição.

Não adianta a esquerda achar que reproduzindo o discurso da direita de forma socialmente aceita (em forma de “crítica”), ela vai ter o mesmo nível de adesão que os políticos conservadores quando fazem a mesma coisa.

É engraçado que se pode criticar quando a esquerda liberal vem com discurso de populismo penal para ganhar voto, quando a esquerda radical, vem com esse mesmo tipo de lógica de discurso conservador para ganhar voto (ou membros), aí pode. Aí não é errado, não tem nada demais, é isso mesmo ?

Ainda que isso dê certo, você acaba por criar uma adesão a você por causa da sua postura conservadora, isto é, você junta cada vez mais do seu lado, gente conservadora que vai te cobrar para que você de fato seja o que fala ser. Quando você for por um secretário de educação, por exemplo, não adianta querer “esquerdar” do nada, porque os seus eleitores já vão estar esperando que você seja um reacionário - você vai acabar saindo como traidor ainda por cima. Por exemplo, não é a toa que a organização neonazi como a Nova resistência tenha juntado ao PDT, a cada 5 segundos o Ciro solta um “E o PT ????”, “e o identitarismo ??” e espera que os nazistas não gostem desse discurso ?

Em política não se faz xadrez 500d, deixe isso para os espiões.


2- Autodestruição ou autocrítica ?



Autocrítica serve em uma definição bem simples para melhorar nossa prática. É uma crítica com propósito de aproveitar o que funciona e aprimorar nossa prática. Ou seja, por mais crítico que sejamos, algum elemento do velho continua existindo. Não se joga água fora com o bebê e a bacia.

Como o que reina são projetos individualistas, ou no máximo projetos de seita evangélica suicida, não existe uma noção de que outras pessoas defendem teses, pautas, militam por causas parecidas, são aliados possamos constituir trabalho em conjunto : se trata de uma lógica de competição.

Então a crítica nesse caso, não tem nenhuma intenção de melhorar ou de aprimorar a prática, a lógica é de fato, de destruição completa do outro. A ideia é vencer o outro, esmagar, destruir, dominar - para isso é usado de todos os meios necessários. O que é interessante tomar de atenção, é que esse outro muitas vezes é alguém literalmente no mesmo grupo que o seu, então é só questão de tempo de se rachar, se criar frações, grupos dissidentes, etc.

É de se perguntar por que nós como movimento temos tanta dificuldade de criar relações inter-partidárias entre nós ? A crítica é importante demais para ser apenas uma arma de autodestruição.

3-Imitar a direita não funciona e não dá certo.

Dentro desse clima de “sou mais brabo que todo mundo”, existe essa crítica aos moderados, isto é, aos liberais e reformistas. Principalmente se você for marxista, você sabe muito bem por que existe essa hegemonia liberal. Eu sei que vocês sabem, não adianta esconder. Vocês entendem toda a parte da perseguição do Estado, o trabalho ideológico, etc, etc.

É muito mais fácil uma pessoa ser liberal, por uma série de razões, do que ela acordar e ser uma marxista-leninista. E veja, é o esperado, você nasce numa sociedade liberal, a sua vida toda você só ouve ideias liberais, tudo o que você pensa, fala, consome e produz é liberal, é claro que você muito provavelmente vai ser liberal.

Dentro desse mesmo escopo, se uma pessoa provavelmente vai ser sempre liberal dentro da democracia burguesa, faz sentido que mesmo quando ela encontrar problemas nesse sistema, o máximo que ela consiga pensar seja em reformar esse sistema.

Ela vai buscar soluções dentro do próprio liberalismo, porque essa é a visão de mundo dela.

Uma pessoa é liberal, conservadora, fascista, reformista, etc, porque de alguma forma, ela enxerga dentro dessa visão de mundo, por mais distorcida que possa ser, algo que a atende politicamente, isto é, que atende alguma necessidade dela.

Essa é a questão aqui : nós conseguimos fazer isso? Por incrível que pareça sim! Ou você acha que sindicatos, partidos políticos, coletivos, organizações de bairro, etc, surgem por mágica ? Ainda que todo anticomunismo seja forte desde a época de Marx, ele não vence a realidade. As pessoas se organizam em movimentos populares porque precisam. O trabalhador se junta com os colegas num grupo, num sindicato, porque ele precisa lutar por melhores condições de vida no trabalho.

Se depois ele vai concluir que ele é anarquista ou socialista, aí já é outra conversa - a questão é que a gente precisa observar esse movimento do real primeiro para depois dar o foco na questão ideológica.

Qual é a razão da gente ter menos adesão? É porque, em primeiro lugar, a burguesia domina o Estado, eles tem muito mais recursos que a gente; segundo lugar, é porque eles têm uma organização política muito mais bem institucionalizada (no sentido de ter uma tradição de práticas de organização social) que a gente; Mas mais importante, nós não temos uma unidade organizativa, não há uma integração entre diferentes movimentos com práticas, táticas, recursos, etc - coisa que a direita por mais que briguem entre si, sempre consegue organizar.

Aqui eu quero que você perceba o seguinte : se na esquerda o discurso político é o mesmo da direita, por exemplo, se a esquerda quer combater o identitarismo tanto quanto a direita, com quem você vai se juntar ? Com os caras que são deputados, governadores, tem uma máquina partidária enorme, tem contato com igrejas, etc, ou com meia-dúzia de jovens que você nem sabe se existe por trás de perfis de redes sociais ?

Ou vocês já esqueceram do Freixo perdendo eleição no Rio de Janeiro ? O cara que até esses dias era do PSOL, amigo de Marielle Franco e tudo - Para ganhar eleição começou a soltar um monte de discurso reacionário para ver se colava. Resultado : não se elegeu.

Por isso assim, apelar por exemplo, para discurso anticiência, transfóbico, racista, etc, de forma socialmente aceita dentro da esquerda - Você deixa de ser uma força politicamente oposta à direita quando defende as mesmas coisas que eles, e entre direita e pseudo-direita com discurso “esquerdista”, vence sempre a direita.

O Uber engenheiro precarizado que tanto se fala por aí em lives “sobre o novo trabalho”, se você só reforça a crença dele que ele não consegue emprego “porque lacração”, ele vai para a direita que defende o extermínio das minorias, ou para uma esquerda que defende as pautas de minoria de forma envergonhada ?

Qual o outro problema de imitar a direita ? Eles têm discursos objetivamente falsos. Essa coisa de que o grande problema do mundo são [insira X minoria] é um discurso falso ou você acha que existe alguma verdade nesse tipo de discurso ? O problema do capitalismo não é o judeu internacional, a travesti mostrando a bunda na faculdade, ou sei lá, os sapos gays, é a lógica autodestrutiva e insustentável do próprio sistema.

Não só um eco com a direita que vai ser feito, mas como não vai ser resolvido nenhum problema. Proíbam o rebolado nas universidades, isso não vai melhorar nossa situação acadêmica brasileira - não faltam bundas na universidade, falta investimento público. A Rússia Czarista e a Alemanha nazista fizeram campos de extermínio o suficiente para matar todo tipo de minoria, nem por isso o capitalismo deixou de quebrar.

Nosso querido Brasil sequestrou, escravizou, prendeu e matou (e continua fazendo isso) os povos originários da América e de África, ainda com o sucesso do projeto supremacista e colonial, o país não deixou de ser ruim como é hoje. Retomar a verdade aqui é mostrar exatamente isso : que esse discurso falso serve apenas para manter o status quo como ele está. Uma travesti numa cota de universidade, um preto conseguindo comprar uma casa, uma mulher conseguindo uma creche para sua família, nada disso vai salvar o mundo - mas o vai tornar melhor - da mesma maneira que se todo espantalho reacionário fosse verdade, o mundo não deixaria de existir da forma que é.

É uma escolha sua : você quer tentar melhorar a vida das pessoas ou você quer caçar redemoinhos e piorar ainda mais o mundo ?

Dito tudo isso, você ainda perde base, vira puxado da reação, promove uma prática social que é ineficaz e fortalece o status quo. Parabéns, você é muito brabo.


4- Como se desmobilizar.


Essas semanas houveram mobilizações no Brasil todo por causas como o fim da fome, moradia e o fim da escala 6x1. O destaque que eu quero dar aqui é que nesse período o PCBR esteve mobilizado no Brasil todo. Ou seja, um partido revolucionário, num país como o Brasil, com todo seu histórico de repressão, foi capaz de mobilizar nacionalmente protestos, atos, ocupações, etc.

O que dominou o debate público todo esse tempo ? Como a esquerda morreu, perdeu o rumo, não tem mais base social, caiu no identitarismo, blá-blá-blá. Inclusive, esse discurso, por parte de lideranças importantes do PCBR, como Jones Manoel e Heribaldo Maia .

E claro, um monte de gente do PDT, PSOL, PT, etc, etc, veio com essa mesma conversa sobre “os rumos da esquerda”, teve uns debates em todo canal considerado de esquerda, o ICL promoveu dois debates sobre isso, tudo para chegar à conclusão que “estamos perdidos”, tem que mudar a comunicação, tem que deixar o identitarismo, tem que ser mais brabo, etc”.

Aí eu fico pensando, anos atrás, inclusive no auge da era Lula, era impossível imaginar que partidos como o PCBR existissem, muito menos, conseguissem essa mobilização popular que a gente viu nesses últimos anos. O próprio Jones destaca que ele teve uma votação expressiva quando foi concorrer à governador em 22. Isso acontecia há algum tempo atrás ? Não estamos claro, vivendo numa onda vermelha, mas com certeza é um avanço do cansaço generalizado do “só pode ser social-democrata, além disso é totalitarismo”.

Pensa comigo : você começa o seu trabalho de mobilização de forma mais concreta, organiza ato, organiza palestra, começa fazer jornal, faz greve, faz movimento estudantil, luta no movimento sindical, faz ocupação (o doido é que o próprio PCBR fez uma ocupação em Florianópolis ! Sim, no meio do sul do Brasil, conhecido por ser completamente bolsonarista), etc.

Aí você tem que ouvir por parte de suas lideranças, em eco com a direita inclusive, que não existe esquerda, que todo mundo é falso, mentiroso, que tá tudo dominado, não tem o que fazer, que a esquerda morreu, perdeu o rumo e um monte de lero-lero. Isso não é desmobilizante ?

Para que raios eu vou gastar meu domingo organizando protesto contra o 6x1 se a esquerda morreu, lá no congresso “o PT não faz nada” e o Lula não faz nada (ainda que o governo Lula seja QUALITATIVAMENTE MELHOR que o do Bolsonaro), “o PSOL virou reformismo” (o mesmo PSOL que abraçou o 6x1 e levou pro congresso, do Glauber Braga, da Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna, esse mesmo), se o outro pessoal que se diz radical não é radical de verdade (ainda que as ocupações, a luta agrária, etc, continue sendo tocada) ? Me diga, se tá tudo perdido, tem o que fazer ? Entende que mesmo depois de você tentar me dizer “dá para fazer X, Y e Z”, no final das contas, vai ser tudo em vão porque você já me disse lá atrás que nada presta ?

Nem tudo é merda.

Na era Bolsonaro-Temer, o mais incrível foi ter a UP ter conseguido surgir e o partido do Bolsonaro não; Foi a gente ver o próprio PCB ter crescido tanto e mesmo depois do racha, ter continuado sendo um partido político organizado. O MST se mantém firme e pressionando mesmo diante de ataques do congresso e recuos do governo petista e dá para ficar citando vários exemplos de luta sendo levadas à frente, apesar desse ar de marasmo generalizado. Auge da pandemia, era Bolsonaro, nós conseguimos conquistar o auxílio emergencial !!

Se o PT e sei lá quem mais, não é radical, não vamos ficar esperando radicalismo deles e ficar tomando eles como parâmetro do que é esquerda ou não. Deixa eles lá com seu Keynes, o importante é a gente ter o nosso Marx pronto para quando a gente tomar o poder conseguir industrializar o país todo. Se a gente toma um território, seja de forma democrática ou não, como a gente vai organizar esse espaço ? Vai ser chamando todo mundo de feio ?

Essa coisa do BPC que o governo propôs e o Jones começou a criticar, primeiro lugar, se usou disso para fazer terrorismo midiático, no sentido de criar um sentimento de caos generalizado, de que tá tudo perdido, o mundo vai acabar. Veja, é fato (basta ler o projeto de lei) que ele é um ataque ao BPC, e aí, a gente faz o quê?

a)fica reclamando dizendo que todo mundo é mentiroso e não presta, a esquerda morreu, não tem o que fazer.

b)organiza a sociedade civil para se mobilizar contra os cortes.

Qual opção vocês acham que foi tomada? Talvez o que deveria ser a grande diferença do marxismo com o discurso liberal, é que enquanto o discurso liberal vai se focar em fazer uma discussão sobre a corrupção moral das pessoas, o marxismo não liga para isso, ele estaria mais preocupado em como de fato, derrotar politicamente esse ataque ao BPC. A gente faz mobilização social, como ? Conversamos com políticos ? Organizamos atos ? Legalmente, tem o que possamos fazer também, podemos acionar advogados populares ? Quanto às estratégias não-institucionais, como a gente pode ajudar essas pessoas idosas e com deficiência que podem ter seu benefício cortado ?

Eu ligo se fulano, ciclano, mente ou deixa de mentir ? Ou se moralmente o beltrano acha imoral as pessoas terem vários benefícios sociais ? O interesse de fato, é, em primeiro lugar, se a gente sabe que isso vai ser ruim para gente, o que a gente pode fazer para garantir esses benefícios e como a gente expande eles ainda mais ?

A própria direita usou disso para promover pânico moral, nós realmente precisamos fazer esse eco com a direita ou propor soluções ? É objetivo, é uma medida draconiana que só serve para agradar o mercado de previdência privada - é uma merda, mas eu preciso ficar a somar nesse discurso de fim dos tempos ?

Existe um incêndio, todo mundo tá vendo que tá acontecendo, precisa jogar mais fogo no que já está queimando ?

De nada adianta ser um bom samaritano, preocupado com as pessoas, cheio de boas intenções, se nós não atuamos dentro da realidade para melhorar essa realidade. O cristão mais fervoroso com certeza vai te pedir para rezar e acreditar em Deus, mas nunca vai te tirar a responsabilidade de viver a sua vida.

Nem Deus não faz o trabalho sozinho.



5-O PT é um partido liberal e isso é ok.




Eu já expliquei que existe uma hegemonia liberal? Então, existe uma hegemonia liberal. O que é considerado “normal” é ser liberal, é isso o que isso quer dizer, isso significa que mesmo os trabalhadores vão ser parte da reprodução da ideologia liberal, que vão formar grupos sociais com ideias liberais, que vão surgir partidos populares com viés liberal, e por aí vai.

Isso é o esperado, é como chover no molhado, uma pessoa não vai se formar marxista por osmose, magia, tarot, ou sei lá - é preciso estudar marxismo, conviver com marxistas, ter um grupo de marxistas, etc. Qual é a doutrina econômica hegemônica das universidades? É marxismo? Não, é a economia política liberal, no máximo um Keynes.

O petista médio ser um liberal, não ter lá uma formação política muito boa (porque grande parte não é organizado e mobilizado e tal), ter posturas em média conservadoras, acreditar muito na boa vontade do mercado, que o grande problema do capitalismo é a ganância, e várias posturas, que para nós marxistas são conservadoras e ainda assim defender justiça social, emprego para todos, fim da fome, etc - isso é o esperado.

Não vai ser chamando todo mundo de feio e mentiroso, que a gente vai conquistar essas pessoas e mais importante, se elas se juntarem conosco em nosso projeto, elas precisam ter espaço para aprender, todos tem capacidade de estudar e mudar suas posturas. Se existe o interesse, não há nada de errado um liberal querer estudar Marx e mudar sua postura liberal. E se ele não quiser, ok, se nos ajudar, ótimo!; se não ajuda, que não atrapalhe e a luta de classes que segue, nós aqui e eles lá e tá tudo certo.

Agora essa caça às bruxas para ver quem é mais brabo e pior, ficar cobrando de quem nem é tão de esquerda assim, posturas mais radicais, é contraprodutivo, para dizer no mínimo.

Revolução não é o que o PT defende e deixe eles lá com isso.


6-Por que é tão importante a esquerda morrer?





Se a gente for tentar buscar dentro da tradição do que a gente chama de esquerda, seja uma visão de que ela são os povos oprimidos, seja naquela definição feita na revolução francesa, qual seria o principal cerne dessa posição ?

A constatação, baseada na razão, isto é, numa conclusão que todos conseguem verificar, de que as pessoas que constroem a sociedade, que são base da nossa civilização, não recebem o que precisam. Que todo ser humano, por mais que seja defendido que é igual, não recebe os mesmos benefícios, e pior, sequer é capaz de decidir a própria vida, já que existem estruturas na sociedade que decidem a sua vida antes mesmo de você nascer.

Se você nasce preto no Brasil, você nasce com um alvo na suas costas por conta do projeto de genocídio negro brasileiro; se você cresce mulher, você se torna uma cidadã de segunda classe por conta do patriarcado; se você é trans, você é negado seu direito de existência e de expressão do seu gênero; se você é pobre é quase certo que você vai morrer de tanto trabalhar e nunca vai conseguir construir nada na sua vida, além de lucro pro seu patrão.

Nós, os oprimidos, tomamos a ciência em nossas mãos e revelamos essas estruturas, mostramos que elas são construídas, que o mundo já foi diferente e mudou, e pode mudar novamente e ser construído por nós.

Se pode ser mudado, algo pode ser feito hoje, algo pode ser construído agora, para que amanhã tenha uma trajetória diferente.

É isso que a esquerda defende, por que é tão importante matar ela ? Porque você retrocede toda a nossa capacidade de pensar para o modo religioso de ver o mundo. Enxergar o mundo como uma realidade parada do tempo que nunca muda independente do que a gente faça, que essas estruturas que nos oprimem vão existir eternamente e de que não há o que fazer.

Voltamos a rezar, a ter superstições, a esperar o divino, para que as coisas tenham alguma mudança para melhor. Num mundo como esse não vai importar se organizar, discutir, construir teorias, trabalhar com ciência para aprimorar nossa vida, vai ser mais importante achar um bom senhor feudal, piedoso o suficiente, que não nos maltrate demais.

Toda essa febre de BET, não é só um fenômeno que pode ser explicado de forma clínica, é um problema social que expressa a incerteza causada pela vida onde o emprego não é formal, não se tem estabilidade de onde vai morar ou se vai comer, de violência no campo e na cidade só cresce, de estudo que não leva para lugar nenhum, etc. Se numa determinada sociedade, se valoriza o trabalho científico, as pessoas vão planejar no longo prazo estudar porque elas sabem que se gastar 10 anos estudando, vão conseguir algum emprego decente.

Agora, hoje em dia, ninguém se aposenta, acabou praticamente o serviço público, todo trabalho é bico - tão bom quanto ficar tentando fazer dinheiro na rua é ficar apostando no tigrinho, porque talvez se ganhe alguma coisa - e a gente sabe que nos dois casos, quem vence é o dono do cassino.

É importante destruir toda noção de que existe mudança. Esse é o ponto. Se nada muda, não tem o que se fazer. Aliás, até tem né ? Rezar.

Se a direita se beneficia desse discurso religioso, isso é fato, ele serve para congelar a história. Agora a esquerda adotar esse discurso, só serve para fazer eco com a direita, é um desrespeito com quem milita, seja aqui no Brasil, seja pensando no movimento internacional dos povos oprimidos.

Fim…

É isso por hoje.

referencias




1 Vou recomendar ACTUALLY, N. A quick rundown on accelerationism. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=lrOVKHg_PJQ&pp=ygUOYWNlbGVyYXRpb25pc20%3D>. Acesso em: 27 dec. 2024.

ROSENFELD, J. accelerationism. Disponível em: <https://www.britannica.com/topic/accelerationism>.
2 Estou desconsiderando completamente o que foi dito ou não dito no twitter, e se eles ainda me perdem tempo com twitter, que é basicamente a rede do Elon Musk, possível ministro de Trump, paciência.



3 Perfil da Ocupação Carlos Marighella. Disponível em: <https://www.instagram.com/marighella.sc/>. Acesso em: 27 dec. 2024.



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01 outubro 2024

Por que você aposta sua vida fora ?

Hey
Wait
I got a new complaint
Forever in debt to your priceless advice.

Kurt Cobain



Venho acompanhando um pouco mais o jornalismo “progressista” (papel que muitos streamers acabam fazendo também) e sabe, vou dizer, fora algumas exceções, me faz falta ter informação, uma perspectiva mais trabalhada, estudada, literalmente textos melhores.


Eu sou dessas pessoas que estudam e lêem textos - não se preocupe, não sou nenhum tipo de alienígena. Então, para mim, é um universo de diferença entre um texto acadêmico razoável e mesmo uma boa reportagem jornalística. Obviamente, eu também sei que não se escreve da mesma forma num jornal e num texto acadêmico, cada estilo tem sua função.


Todavia, mesmo numa perspectiva de divulgação de conhecimento, o jornalismo não deveria supor que as pessoas são completamente estúpidas. Por exemplo, a gente deveria sempre buscar um novo escândalo de gente famosa para tentar apontar um problema na nossa sociedade ?


No momento que eu escrevo esse texto, rolou aí uma prisão preventiva (ou algo assim, eu literalmente me perdi já) de Deolane Bezerra e Gustavo Lima, duas figuras famosas que eu sinceramente pouco me interesso - Mas de repente, por conta de uma interpretação ruim dos tipos ideais de Max Weber, nós temos que lidar com jornalistas discutindo a mau caratisse (ou suposta) de certos indivíduos, ao invés de observar o todo social que faz aparecer esse tipo de pessoa (em Sloterdijk, as antropotécnicas; em Marx, os modos de produção).


Se trata a questão como se prender Deolane ou Gustavo Lima, resolvesse a questão das Bets, da economia de influência ser tão facilmente cooptada pelas Bets, o fato de no Brasil muitas vezes apostar seja mais fácil que ir arrumar um emprego formal. Se normalizou fazer acordos de trabalho informais ao ponto de se normalizar dar golpe como emprego, vender a fé como um trabalho, aceitar contratos de trabalho duvidosos por conta de desespero.


E sempre é assim, outro exemplo, se denuncia o deputado Nicolas Ferreira por transfobia - ok, é uma coisa que ele faz, mas eu não acho que a transfobia vai acabar se ele sumisse da face da terra - existe uma sociedade toda que cria pessoas como ele. Ele como indivíduo pode até ter um papel, mas é a sociabilidade que gera mais pessoas como ele. Podemos não concordar com o PL, mas é um fato que eles representam uma parcela da população - como que a gente cria uma parcela da população que reproduz esse tipo ideologia, a ponto, de ser formado um partido político que legisla, assume cargos na estrutura do Estado, mobiliza a sociedade em tornos desses debates ?


A estrutura das notícias é muito (fulano famoso) + crime = notícia bombástica , e isso é posto como informação. Os comentaristas políticos se resumem a falar da moral desses famosos e no máximo fazem uma sociologia batata pré-Comte. Digo até pré-Comte, porque nos positivistas, salve todos os “pecados” que eles tenham “cometido”, uma coisa que existe é sociedade - pouco interessa pro sociólogo o individual, tanto para se diferenciar da nascente psicologia.


É quase como se estivéssemos falando de maldições : é uma espécie de misticismo que atribui ao sujeito poderes, que ele só tem na prática porque existe em sociedade. Até pensando numa perspectiva do direito, fora toda a questão da lavagem de dinheiro que Deolane e Gustavo Lima estão sendo acusados, é fato que a imagem deles influencia as pessoas a consumirem o produto Bet - Tanto isso é verdade, que é justamente por isso que eles se tornaram a “cara” do produto que estava sendo vendido. É possível dizer que eles são responsáveis em influenciar pessoas a entrarem no mercado de apostas.


A questão individual criminal, que a PF investigue e que eles tenham o julgamento deles, que eles tenham os direitos garantidos e tal. Nesse sentido, sequer faz sentido desejar uma mudança de postura da justiça por meio de um “caso exemplar”. O que é importante discutir, se apostas são uma coisa considerada ruim, se você tem pesquisa que aponta o adoecimento mental, o endividamento das famílias, etc, o que permite que isso seja socialmente aceito ? Veja, é muito difícil, e assim, olhando empiricamente, sem ir muito a fundo, não comparar o mercado capitalista com um mercado de apostas.


A bolsa de valores é baseada em apostar se determinada ação vai subir ou descer, se aposta para ver se determinadas moedas vão valorizar, se põe dinheiro em fundos de investimento se apostando que eles vão oferecer determinado nível de retorno. Talvez a única diferença entre uma Bet e uma bolsa de valores, é que uma é legalizada e a outra não, pois inclusive práticas que poderíamos atribuir aos cassinos, poderíamos dizer que a bolsa de valores também faz. Até a barreira de entrada se tornou baixa : hoje você aposta em Bet e na bolsa de valores, com menos de 30 reais com um celular na palma da sua mão.


O que eu sinto que falta nas análises sobre o assunto é qual o papel que a Bet tem nisso ? Por exemplo, existe uma prática comum de se emprestar dinheiro usando o saldo do cartão de crédito - é uma forma de “sacar o saldo” que teria ao longo de meses. Será que a Bet não é reflexo do fato da renda estar cada vez mais instável com a economia informal ? Eu consigo ver emprestar o saldo do cartão de crédito como uma maneira de tentar driblar os juros mais altos do mundo em parcelas do cartão de crédito. Mas e a Bet ?


Eu não sou economista, no máximo sou uma estudante do assunto, mas eu vejo, o fato do debate sempre cair para uma caça às bruxas é porque o próprio meio de comunicação não espera do seu espectador uma capacidade crítica mínima. Claramente, o que eu percebo também desse debate, nem é a ilegalização das apostas, mas a sua regulamentação - o que pode tornar os problemas que falamos ainda piores.


OU SEJA, a tendência é normalizar AINDA MAIS ESSE TIPO DE COISA. Um outro lado que eu acho importante trazer nessa discussão é o mercado de influenciadores. Veja, fazendo uma comparação, ter influência na internet, é uma mistura de sorte com ter dinheiro para manter sua máquina de comunicação. O que não falta é gente influente desconhecida na internet, porque não basta conseguir os números, é preciso de alguma forma viralizar - isto é, de repente, ter seu conteúdo conhecido por todos mesmo de fora do seu nicho.


Acaba sendo uma economia baseada na sorte.


Temos o mercado de trabalho, que se informalizou demais, tornou a vida imprevisivel; Bet, loteria, jogo do bicho e a financeirização da economia, isto é, nossa economia cada vez mais se baseia em especulação, não em desenvolvimento material - num nível micro, estamos dizendo que é mais fácil ganhar dinheiro apostando numa loteria do que trabalhando, numa perspectiva macro, se movimenta mais dinheiro no capital especulativo do que no desenvolvimento das forças produtivas ; Nisso tudo, o que a internet trouxe à mesa, foi uma aceleração da informalidade, do empreendedorismo, um novo mercado de mídia, o mercado de influência, o mercado digital das compras digitais, etc, que é tão acelerado e incerto quanto a própria natureza da internet. O que temos aqui, meus caros ?


Uma coisa que é até uma frase clássica de Marx, “tudo que é sólido se desmancha no ar” - é exatamente nesse sentido que ele afirma que a economia capitalista se torna cada vez mais instável, as relações mais efêmeras, que as crises e bolhas econômicas se tornam mais constantes, as guerras imperialistas em nome da reprodução do capital tendem a aumentar, etc.


Faltam 5 dias das eleições e com muito esforço eu fiquei um pouco longe de tudo. E tendo que voltar obrigatoriamente, até porque vou precisar votar, é meio deprimente como que não se resolve a questão eleitoral no Brasil. Se diz que as eleições são uma farsa, ao mesmo tempo que os partidos são basicamente voltados para campanhas políticas nas eleições; se diz que a institucionalidade é desnecessária, ao mesmo tempo, não se consegue construir nada que sequer seja próximo de suprir nossas necessidades materiais fora do olho do Estado.


Uma hora se invoca Gramsci e Althusser para dizer que devemos lutar por espaços nas instituições; Outra, até num impulso meio anarquista, de que se deve construir movimentos fora das instituições. E veja, eu realmente não vejo nenhum movimento se decidindo qual caminho tomar ou com uma perspectiva clara do que é preciso fazer. É engraçado que a falta de direção é generalizada, nem o próprio Estado brasileiro sabe o que quer de si. Essa mesma desorganização vemos nas instituições públicas.


Talvez por isso a gente tenha tanta gente tentando se tornar profeta, ninguém sabe para onde ir e qualquer um que diga que sabe alguma coisa do que fazer (mesmo sem provar nada) já é melhor do que ficar sem direção nenhuma.




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09 setembro 2024

Só com identidade - um debate sobre o conceito de identidade na política






Todo tipo de texto (leia-se filmes, vídeos e mais) sobre a extrema-direita tem um ponto comum que muitas vezes passa despercebido - a capacidade de se criar uma comunidade.



Ainda que as crenças sejam baseadas em literalmente maluquices, existe uma necessidade de socializar que supera a coerência ideológica da crença. Ela precisa ser coesa para ter uma estrutura, mas não precisa da coerência, isso pode ser ignorado desde que a questão social esteja bem resolvida.



Quando a gente olha tanto para o fascismo clássico, para o neoliberalismo e para o neo-fascismo atual, uma coisa que eles têm em comum é um conjunto de mitos fundadores que possuem algum nível de evidências anedóticas, que não necessariamente refletem a realidade por completo.



Um exemplo atual, é essa ideia de identitarismo. Veja, primeiro que ninguém tem um conceito fechado do que de fato isso é, só por isso, já cria uma pareidolia conceitual, onde cada um enxerga uma coisa com as distorções da sua percepção. Identitarismo pode ser petismo, como lutar por cotas, ou sei lá, ser antirracista.



Pode-se dizer que é dar muita ênfase em políticas ligadas à identidade, mas se levarmos esse conceito no seu limite, fica muito claro que toda política diz respeito a uma determinada identidade, ou os diferentes grupos sociais não são considerados uma identidade ? A própria noção de nacionalidade é uma política de identidade. Porém, digamos assim, denunciar isso é como chover no molhado, já que toda política é baseada na identidade.



Tanto grupos supremacistas, como movimentos antirracistas, também trabalham com uma política de identidade, a primeira em defesa da supremacia branca, a segunda pela luta contra o racismo. A impressão que essa avaliação nos oferece, é que o denunciante do identitarismo, não quer tomar partido, não quer assumir que ele também tem uma identidade, uma estética, etc, então ele “muito inteligentemente” denúncia que todo mundo é identitário (como se ele não tivesse uma identidade e não se pautasse por isso).



A pergunta que a gente deveria realmente nos fazer é : o que você propõe então ? Se a política tem que se tornar essa coisa mágica que desconsidera identidade, o que se propõe para lidar com os conflitos na nossa sociedade ?



Veja, o Estado brasileiro teve uma política de eugenia, que se propunha trazer brancos europeus para embranquecer o Brasil. Isso por si só, já não é uma política de identidade ? Ou quando pensamos na escravidão de pessoas negras e pardas promovida pela Império Português e Brasileiro, isso não se encaixa como uma política de identidade ?



Considerando isso na nossa formação histórica, não seria justo lutar por melhores direitos para as pessoas que sofreram com essa política ? Isso seria política de identidade também ? Seria, a diferença é o lado e que a gente pelo menos é honesto sobre isso. É óbvio, por exemplo, que o movimento negro quer defender a população negra, ou movimento lgbtqia+ quer cuidar da população lgbtqia+.



Pense num sentido prático : como que eu vou fazer política pública sem considerar as diferentes necessidades da minha população ? Se eu preciso distribuir cestas básicas para quem precisa de uma dieta específica, eu preciso identificar quem precisa dessa dieta específica, é simplesmente desperdício de recursos não considerar a diferença.



O que fica claro, é que da mesma forma que toda política é coletiva, toda política diz respeito à uma identidade.



Questão é : qual lado você vai tomar ? É isso que o quem se diz tão crítico do identitarismo não consegue resolver. Uma outra definição de identitarismo que podemos considerar é com a ideia de subjetivismo - é você tratar a política como uma coisa que deve beneficiar ou excluir determinadas identidades baseado no seu gosto pessoal.



Oras, se é uma postura pessoal, que já tem um nome, subjetivismo, por que criar essa confusão com as políticas de identidade ? Se é política, como já deve ser algo que todo mundo concorda, é coletiva. Não tem porque querer confundir. Qual a grande diferença essencial ? Nós estamos do lados dos subalternizados, oprimidos e escravizados desse país.



Veja, no contexto que vivemos, nós sabemos da força que o supremacismo tem (que por sinal, não gosta de aparecer), tentar desqualificar e criar confusão conceitual, na prática, só fortalece o supremacismo.



Impedir os anti-racistas de lutar contra o racismo é ajudar o racismo, não acho que eu precise ir mais longe para te convencer disso.



Esse mito do identitarismo como uma política meramente individualista, como um “desvio pós-moderno”, é como eu disse “ela precisa ser coesa para ter uma estrutura” - isto é, o mito precisa ter uma consistência mínima para ter capacidade de reunir pessoas - é senso comum que justifica opressões.



Essa ambiguidade e essa confusão do conceito, cria uma situação onde se tem uma função muito clara de ser uma forma “educada” de reproduzir mecanismos de opressão (que são também mecanismos de poder). Você denuncia o “identitarismo”, com uma função de não ser explicitamente preconceituoso.



A confusão tem como função criar um consenso de que não devemos lutar por injustiças sociais. É isso que elege, ano após ano, políticos com plataforma EXPLICITAMENTE REACIONÁRIA, mesmo que isso seja contra a constituição (até porque, ela só é válida por algumas pessoas).

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20 maio 2024

A revolução brasileira será satânica, ou não será.


Sinceramente, eu ando bem exausta e bem depressiva. Não vou nem compartilhar tanto esse texto, você que ler agradeço. É foda porque eu quero muito socializar mais e tal, ao mesmo tempo que os ambientes sociais que eu vou frequentar só me deixam triste e sugam minha vontade de viver.



Fora que existe aquela coisa, não se nada contra o rio. Se o rio só te leva pro precipicio, é difícil mudar o curso. ENTÃO, minha desculpa que qualquer erro é porque eu de fato não tô 100%...






Antropologia amadora, ou a compreensão metafísica da realidade.



Saudades de quando comunista era ateu, satânico, gay, e claro, estava embaixo de cada cama do mundo. Não se podia sair a noite, porque o comunista estava lá fora e poderia te pegar, vai que o fantasma do comunismo te possui e de repente você começa a ser anti-imperialista, bissexual e stalinismos. Lembra quando confundiam a gente com os positivistas maluco querendo organizar a sociedade ? Eles diziam, “mudar a realidade não é possível” e chegava os comunista mudando a realidade provando o contrário. Bons tempos.


Brincadeiras à parte, eu resolvi fazer um texto um resposta à uma tribuna do PCB-RR intitulada “A revolução brasileira será evangélica, ou não será”. A razão é muito simples : me incomoda o quanto de conservadorismo o movimento comunista do Brasil possui.


E aqui vou invocar essa imagem de “bom selvagem” que as pessoas têm do brasileiro em geral. Antropologia básica para vocês : já leram o Nacirema ? É um texto que descreve os hábitos corporais de um povo aí do norte da América de uma forma antropológica. (Leiam antes se possível aqui https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/364413/mod_resource/content/0/Nacirema.pdf)


O mais interessante desse texto é mostrar que o antropólogo, mesmo antes de ter contato com um povo, possui pré concepções e noções do povo que vai estudar. O europeu que chega numa ilha no pacifico, numa tribo na Amazônia, ele já entra com uma postura de superioridade, de que esses povos são “crianças”, que a civilização de verdade era a civilização ocidental euroestadunidense, etc, etc.


Existe um tipo de pensamento de que o “selvagem” é inferior ao homem que vive numa cidade qualquer.


Talvez a coisa mais fácil, como meu professor de antropologia clássica ensinou, é você ler esses primeiros antropólogos e criticar sua postura de suposta superioridade, de estudar tudo através de relatos de pessoas que já chegavam com a intenção colonial de dominação, portanto já viam esses povos como inferiores - o difícil mesmo é a gente não reproduzir esse comportamento. E o mais importante : NÓS SOMOS OS POVOS CONSIDERADOS INFERIORES.


Ou seja, o rapaz latino-americano “branco” (eu não sei se é, mas paciência) que escreveu esse texto, talvez nem saiba, que lá fora (ainda mais com a ascensão do fascismo internacional 2.0), ele é considerado tão inferior quanto é no Brasil as nossas populações negras, originárias, trans, mulheres, etc, etc, são consideradas no Brasil.


Com os evangélicos não é tão diferente assim. Um ponto que eu odeio sobre esse assunto é que as pessoas acreditam que religião é uma coisa essencial da humanidade, que as pessoas religiosas vão ser sempre religiosas e que é impossível você no sentido mais iluminista, ensinar para sociedade uma compreensão de mundo mais científica.


Vou ser solidária num ponto : no Brasil nós temos uma noção política muito porca de fazer política de forma exclusivamente reativa. O cara olha os 30% dos evangélicos e naturaliza (no pior sentido da palavra), trata aquilo como algo dado na realidade, impossível de que mude e que não tenha sido construído.


Nesse sentido, ele faz um texto muito anti-histórico. “Nós temos que estudar os neopentecostais” - oras, sim, isso significa compreender o processo histórico que fez com que eles chegassem nesse famigerado 30% da população brasileira. O processo, portanto, estamos falando que a realidade é dinâmica, dialética e que ela muda toda hora.


Por isso eu afirmo que a esquerda brasileira é muito conservadora. Ok, o mundo tá dominado por essa porcaria de sistema - é mais fácil ouvir do cara de esquerda no Brasil que não tem o que fazer, do que do tão odiado positivismo fantasma da universidade.


Ele traz uma afirmação do tipo “São extremamente disciplinados – arrisco afirmar, inclusive, que são mais leninistas na sua forma organizativa do que a esquerda brasileira atualmente”. Será mesmo ? Será que não é uma miragem ? Podemos trabalhar com a hipótese, mas será que a organização é a mesma dos leninistas ?


Será que não é o antropólogo, nesse caso, enxergando uma organização do povo dele em uma outra civilização ?


Será que o problema não é mais na esquerda brasileira que falha de se organizar de forma profissional ? Sem querer soar muito grosseira, o MCDonalds tem uma organização do trabalho muito mais eficaz que boa parte da esquerda, o que me incomoda é que a gente não leva essa organização para as nossas organizações políticas.


Isso significa que nós devemos ocupar todos os fast foods para realizar uma revolução ? Não né, nós precisamos compreender como funciona, de forma científica mesmo, e reproduzir. Poxa, se a gente tivesse cozinhas solidárias, por exemplo, que tivesse a capacidade de organização de uma cozinha profissional, isso aumentaria em muito a nossa capacidade de reproduzir essa cozinha em outros espaços, de atender melhor a população.


No sentido mais materialista e marxista possível da realidade : o que é uma igreja ? Um espaço de convivência social. Só isso, a questão religiosa muitas vezes é até secundária. O importante é você encontrar seus vizinhos, seus amigos, ver a sua família, se reunir para fazer atividades. E aí, você tem a questão de que o Brasil já foi muito rural e as pessoas mais velhas principalmente, sentem falta daquele sentido mínimo de comunidade da vida no interior.


Os jovens que crescem na cidade se sentem isolados, apreensivos, ansiosos, porque a vida urbana é também uma vida muito perigosa, muito “cada um por si”. A igreja acaba funcionando como um refúgio, quem tem igreja vai para a igreja, quem tem remédio usa remédio, quem tem o computador/celular para participar de comunidades digitais vai para o computador. Era isso que Marx queria dizer que a “religião é o ópio do povo”, traduzindo para o português : A religião é a cachaça do povo - Não é a cachaça para se drogar e se divertir, é ópio para anestesiar a dor. Reginaldo Rossi fala disso :


Saiba que o meu grande amor
Hoje vai se casar
Mandou uma carta pra me avisar
Deixou em pedaços meu coração
E para matar a tristeza
Só mesa de bar
Quero tomar todas
Vou me embriagar
Se eu pegar no sono
Me deite no chão
reginaldo rossi garçon


É a materialidade que determina a ideia, e não o contrário.


Os evangélicos, talvez o mais importante de tudo, não são só massa de manobra, curral de voto, etc, são pessoas, como ele mesmo afirma “em sua grande maioria, são trabalhadores precarizados, com baixíssima renda”. Nem por isso, devemos achar que eles não são capazes de ver que a terra não é plana, que a física existe (já que o movimento dos corpos em algumas religiões se dá por espíritos), que existe causa e efeito, etc, etc.


O erro é achar que a compreensão religiosa da realidade (ninguém pode negar que os evangélicos são anti-modernos) é meramente “só a fé deles”. Veja, as pessoas têm problemas médicos de doenças mentais, o evangélico joga a pessoa nessas comunidades terapêuticas que não usam nenhum método científico e ficam lá só jogando religião na cabeça de pessoas que precisavam de cuidado médico profissional.


Gente do céu, me perdoe, mas a gente vai querer passar o pano para literal tortura para ter uns voto ? O que aconteceu com vocês ? A parte inicial do texto me deu depressão, porque ele coloca “é papel nosso, dos comunistas, promover o pensamento crítico, instigar o debate, nas suas devidas proporções, de acordo com o local e a pessoas, e alertar/informar a classe quando esta se encontra cega pelas armadilhas do capitalismo”. Aí vem aquela velha discussão ? Pergunta para esse evangélico pobre que você mesmo construiu, o que ele acha da política econômica, você acha mesmo que ele não sabe que ela serve aos poderosos ?


Não é porque a pessoa é religiosa que ela não tem capacidade, ou não tem como aprender o tal do pensamento crítico. Pedagogia 101. Enfim, espero que a gente possa melhorar o nosso debate sobre religião. É triste que o movimento comunista não seja tudo aquilo, ainda mais agora quando a gente precisa.


“O Livro Negro”







O que eu vou dizer a seguir tem um certo viés meio anedótico, da minha experiência de vida e um pouco de contato com alguns jogos, respectivamente russo e um chinês. Porém, acredito que seja uma coisa facilmente verificável. Existe no Brasil, e não estou só falando de bolsonarismo, uma completa desvalorização do conhecimento.


Numa camada, sim, estamos falando dos negacionistas da vacina, do aquecimento global, etc. Isso, de fato, é evidente. De uma forma geral, a nossa educação pública (que não é necessariamente a escola pública) é bem precária. Um motivo para isso : empregos pouco qualificados, baixa industrialização, concentração de poder.


Um emprego médio no Brasil não vai te exigir muito conhecimento científico, essa é a verdade. Para ser um vendedor, um motorista de carro, um entregador de app, ou coisas do tipo, não é necessário nenhuma formação muito específica. Não é como se você tivesse que estudar a tabela periódica, entender as leis da termodinâmica, aprender a programar em Python, etc. Ainda que exista essa ilusão que as pessoas não conseguem empregos por falta de qualificação, a verdade é que mesmo esse trabalhador bem qualificado dificilmente vai conseguir um emprego dentro do nível do diploma que ele conseguiu. O que não falta é engenheiro Uber, universitário fazendo pós vendendo coisas na rua, etc.


A baixa industrialização força nas cidades uma economia de serviços e no campo uma economia agrária primário exportadora. Por isso na cidade, de novo, por mais que as empresas exijam literalmente PHD para você, no seu dia a dia, no seu “fazer o trabalho”, você não vai usar metade do seu conhecimento. Em grande parte, a indústria de serviços tem “scripts”, formas prontas de fazer o serviço. O exemplo máximo disso é o telemarketing, onde você tem certas técnicas, trabalha com algumas noções de vendas e dependendo do produto, tem algumas informações extras sobre bancos, seguros, etc, mas você não tem a compreensão do porquê você faz as coisas daquela determinada forma.


Você diz que a ligação é gravada, mas não sabe que isso é uma regra de proteção ao consumidor, por exemplo. Você explica como funciona a carência de um seguro, mas não sabe porquê a carência existe. E por aí vai.


No campo, o trabalho é só de extração de recursos. Se tem uma noção mínima de como se faz as coisas, se usa algumas máquinas e joga tudo num navio para vender para países aí do centro do capitalismo. Não se trabalha, por exemplo, a soja, o metal, nós os vendemos brutos, quem os trabalha geralmente são países como a China. (Aqui eu posso acabar sendo reducionista, mas é por questão didática mesmo, a agricultura familiar no Brasil é algo bem minoritário e sustenta esse país nas costas, viva MST e viva LCP !).


A concentração de poder, dentre várias coisas, é concentração de saber. Não é uma questão de “oh eles não querem que a gente saiba que somos dominados” - existe uma questão de como fazer as coisas serem feitas. Por exemplo, o conhecimento técnico em informática, dentre várias coisas, permite que você tenha um sistema de informações mais eficaz, mais rápido, com capacidade de gerenciamento.


Se você se organiza, seja uma empresa, seja um movimento político, um departamento do Estado, e fica dependendo de um software pouco seguro como o Whatsapp, ou não compreende como funciona, ou não sabe que existem alternativas e tal, isso não só te deixa vulnerável no sentido de que você não domina a ferramenta, como você muito provavelmente vai ter dificuldade de organizar o seu espaço de trabalho (trabalho no sentido de fazer as coisas).


O problema das pessoas não terem compreensão pelo menos básica de algumas coisas, além de dificultar a comunicação entre as pessoas (teoria básica de comunicação, precisamos ter informações em comum para conversar), torna elas muito mais dependentes de um poder hierárquico de cima para baixo. Eu nem estou falando do Estado brasileiro em si, o próprio Estado brasileiro, quando precisa de alguma tecnologia, fica dependendo das potências estrangeiras, porque não produz/não investe em tecnologia/conhecimento aqui.


Isso em parte, explica o fenômeno do negacionismo. Ele é também algo promovido por forças reacionárias, é um produto de uma sociedade anti-solidária (conhecimento só produzido com troca de saber), mas essa organização da sociedade também tem um papel importante.


Uma coisa que me incomoda demais e isso é um tipo de negacionismo que vem muito no velho castelo de marfim : é que você precisa ler determinados autores, ficar preso neles, e tudo que o que Outro diz é ruim, não presta, não pode ser lido, é proibido, etc, etc.


Por exemplo, existem na academia (instituições, alunos, professores, revistas, etc) algumas tendências de marxismo que são completamente negacionistas de ler Mao, Lenin, Stalin, etc, e mesmo o sr. Trotsky (ainda que a maioria dos marxistas da academia sejam trotskistas). Você simplesmente, sequer tem citação, uma lembrança que seja desses autores. Sem problema, já que o foco pode ser outro.


Mas a questão é que quando você adota uma linha determinada desse marxismo acadêmico/frankfurtianas/estruturalismo, é como se não existissem outras. Da mesma forma, na sociologia acontece uma coisa muito engraçada que é um anticomunismo muito maluco, que ataca um espantalho de um marxismo do mal que quer mudar a realidade e ao mesmo tempo odeia o positivismo, no que o positivismo pode ser aproveitado.


O que as pessoas não gostam do positivismo e do marxismo é a parte de que é possível racionalizar e compreender a realidade, para mudá-la. É você tirar aquele véu de misticismo, que Max Weber é o principal responsável de defender, deixar de fazer um ritual do fogo e compreender de fato como se faz o fogo.


Positivismo com todos os seus defeitos, é uma teoria que, diferente de Weber, olha para o material, ainda que sem pretensão de transformação, ele tenta racionalizar a compreensão da realidade dentro de uma noção científica, isto é, um tipo de conhecimento que todos podem entender e podem contribuir para que cresça.


Me incomoda que a postura seja de dizer, da boca para fora, que todo conhecimento é válido e tal, que todo mundo pode contribuir, ao mesmo tempo que quando se depara com algo fora daquele trilho, tem uma incapacidade de compreensão. Eu não acho que, por exemplo, nós deveríamos deixar de ler os textos, de estudar mesmo os nossos inimigos - não é isso que acontece tanto do nosso lado, como do deles. As pessoas simplesmente não estudam.


O problema da academia é que ela não tem um projeto político, ela é só um espaço de formação profissional e deixa o espaço de organização social para as igrejas, seitas políticas de extrema-direita e crime organizado. Nós não pensamos na educação como um projeto iluminista (SIM LEVAR A RAZÃO PARA AS PESSOAS, CHOREM), como um processo social que deve ser generalizado para toda a sociedade.


A escola não deveria ser o lugar da educação, deveria ser UM DOS lugares de educação. Todo mundo deveria ter tempo para estudar as coisas que gosta. Seja isso futebol, seja isso física nuclear. A questão é que o conhecimento se tornou apenas uma ferramenta de dominação. Você limita ele, seja com direitos autorais, seja com barreiras linguísticas (seja por estar em outro idioma, seja por possuir termos técnicos demais), seja com dificuldade de acesso com tempo, etc. Os poucos que conseguem ficam isolados do resto da população, e são colocados muitas vezes em posições de gerenciamento social.


A verdade é, você deveria ter a capacidade de discutir e conversar sobre sociologia comigo, tanto quanto eu deveria saber mais sobre como funciona a matemática, do qual sou péssima. É isso que vai dar para gente CAPACIDADE DE ORGANIZAÇÃO POLÍTICA que de fato mude o mundo.


Alguma vez no mundo, adiantou só ter boa vontade para fazer as coisas ?


Aqui invoco a história do jogo Black book, que tem uma pesquisa antropológica sobre a religião russa no século XIX incrível, fui procurar as referências e só tem em russo. (VAI TER OTAKU DE URSS E CHORE) O que é um koldun (feiticeiro numa tradução livre) ? Como você não tem um acesso à ciência moderna (É A RÚSSIA CZARISTA DO SÉCULO XIX), a maneira que as pessoas compreendem a realidade é de forma religiosa.


As pessoas, por exemplo, não sabem que existe vento, para elas são demônios que movem as coisas. Como a Rússia é um país, assim como o Brasil, enorme e com uma variedade de culturas diferentes, existe uma mistura muito doida entre religiões antigas daquela região, com algumas noções que vem do islã, e principalmente do cristianismo na sua vertente ortodoxo.


O koldun (ou knower também), é uma pessoa que pega E VAI ESTUDAR ESSAS COISAS. Ou seja, ele pega o conhecimento que tem sobre o mundo E O ESTUDA NAS CONDIÇÕES QUE TEM. É muito diferente do que a maioria das pessoas faz com religião, por exemplo. Quando você crê, você simplesmente aceita sem pensar.


Por mais que a gente aqui na frente, saiba que o vento tem toda uma questão dos gases, clima, etc, etc, lá atrás, PENSANDO HISTORICAMENTE, existe uma importância DA INVESTIGAÇÃO DA NATUREZA. Ou seja, por mais que seja um saber que a gente pode chamar de equivocado, ele foi um pilar necessário para gente ir mais a fundo e TENTAR COMPREENDER O MUNDO MATERIAL.


Até a gente entender, por exemplo, que para “prever” o clima a gente precisava estudar os ventos, as nuvens, e tal, NÓS PRECISAVÁMOS DOMINAR OS RITUAIS. Eu vejo nisso uma valorização extrema do conhecimento. Uma coisa é você ouvir “abaixa a cabeça, você não entende Deus, deixa eu pastor explicar” - OUTRA É VOCÊ IR ATRÁS DO CONHECIMENTO COM SEDE E TENTAR ENTENDER A NATUREZA.
Outra é você compreender profundamente como funciona um ritual de batismo, qual a necessidade dele no mundo, o que de fato ele faz.


Se eventualmente existirem forças sobrenaturais (se não forem coisas da nossa cabeça, que o cérebro cria para entender o mundo), elas não vão ter a mesma categoria religiosa de antes. Da mesma forma que a gente hoje tem uma compreensão da gravidade, nós não teríamos forças sobrenaturais, logo elas não teriam o véu místico religioso.


É o que acontece na medicina. Hoje nós temos uma compreensão da química das substâncias no corpo e podemos usar conforme a nossa necessidade de cura. Ninguém precisa tomar uma dose muito alta ou muito baixa, você consegue calcular quanto de antibiótico, por quantos dias, porque X antibiótico, como ele funciona no corpo, etc, etc.


O que as doenças eram antes disso ? Maldições, castigos dos deuses, etc - E como a gente foi dessa compreensão para a noção materialista da realidade ? ESTUDANDO.


É muito diferente da postura dos religiosos que a gente tem no Brasil. Você reza porque o pastor mandou, você faz trabalho X porque o pai de santo quis, você pede permissão para entrar na floresta porque o pajé te disse, você não entende porque faz nada disso.


Não só, esse conhecimento é proibido, não pode ser compartilhado, é secreto. Para você acessar você precisa ser um iniciado. O conhecimento científico é de todos, você entende se estudar e compartilhar com outros, tem uma lógica, é público.


Infelizmente eu zerei o Black Book, porque viver num mundo que saber das coisas é valorizado me deixou muito feliz.


Por isso que, e assim supondo claro, se lá de fato tinha uma cultura assim, eu entendo porque o socialismo deu certo lá e não deu aqui. Porque deu certo em Angola e Moçambique, e não deu no grandioso Brasil.

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