17 setembro 2024

Teocracia Mad Max e a necessidade de uma organização popular


Tem alguns spoiler de Mad Max Estrada da Fúria, Star wars, Cyberpunk 2077 - nada muito grande, mas né, é spoiler igual.

Sugestão de música do dia - Mazzy Star - Halah

Observando de longe (bem de longe - através claro, de pura alienação ) o cenário político do Brasil, uma coisa é muito clara : estamos caminhando à passos largos para uma versão de Mad Max teocrático sem a catarse da violência dos filmes.

Falando especificamente de Estrada da Fúria, o que faz ele ser um filme tão gostoso de se ver, é a vingança da Furiosa contra o Imortal Joe, a vitória do povo sobre o supremacista branco que tomava todos os recursos naturais para si.

O que Ian Neves não consegue ver em comum de toda distopia (1), seja o apocalipse zumbi genérico, distopias cyberpunk de Phillip K Dick, por fim, filmes como Matrix e cia, é que todos eles tem um grupo organizado de resistência, por mais poderoso que possa ser ou por mais insalubre que seja a situação.

Mesmo se você considerar Star Wars (de uma forma geral, e sim), por mais que o Império seja uma força imbatível e os Jedi sejam a coisa mais bundamole que eu já vi (se a resistência dependesse deles não tinha como derrotar o Império), o que de fato, destrói o Império galático é a organização da resistência.

E a gente se encaminha para uma distopia sem os grupos de resistência. Talvez o mais icônico seja que em Cyberpunk 2077, no ano de 2020, mesmo com o hiper-monopólio das empresas e seu poder quase que absoluto, ainda era possível que grupos de rebeldes lutassem contra as corporações. Nós vivemos o cyberpunk sem todo neon e tecnologia.

Você pode até ver aqui e ali alguma iniciativa de se fazer isso : mas ainda muito carregada de voluntarismo, “boa vontade” e messianismo. São muitas iniciativas individualizadas, seguradas por organizações que concentram trabalho em algumas pessoas, de forma amadora e que espera “boa vontade”, no sentido de que a segurança dos militantes é deixada à boa vontade das autoridades e dos nossos inimigos de classe.

Segurança, não só no sentido físico, digo também, segurança de ter onde comer, viver, trabalhar, etc. Os nossos movimentos mais avançados nesse sentido fazem isso (MST, MLB, LCP, Olga Benário e cia), mas o fazem numa situação de precariedade tremenda.

O que fica muito claro é que nós estamos no máximo sobrevivendo, nós ainda não construímos condições de realmente revidar. Nossos movimentos ainda dependem da letra fria da lei, por mais burguesa ela seja; por mais que a gente queira atuar fora das instituições, nós acabamos por depender delas para não sermos massacrados ou para conseguir conquistar alguma coisa para nós.

A tendência, muito clara, é a de nós repetirmos os mesmos erros de reproduzir o liberalismo radical. Quem dera pudessemos errar como os Soviéticos e os Chineses ?

Veja, é um padrão que se repete, um ciclo que faz parte da reprodução do capital. O PT já foi um partido radical, olha no que deu : por que seria diferente conosco ?


Não, não é possível escalar infinitamente



É sempre bom ler os ideológos do capital atual (2) e ver que eles ainda acreditam nas mesmas coisas do início do século XIX. Com máquinas se tornou possível produzir mais e mais. “Uma máquina equivale à 100 homens” - quem nunca ouviu isso numa aula de história do ensino médio ? Mesmo que não, é um conceito simples : um sapateiro, digamos que produza um calçado por dia; Uma máquina consegue cuspir 100 sapatos na linha de montagem.

Se você precisasse de 100 sapatos num dia, teria que contratar 100 sapateiros; Se a linha de produção for bem automatizada hoje em dia, talvez você tenha um. A IA surge como quem vai substituir a força de trabalho humano intelectual por completo, essa é a grande promessa desses investimentos doidos em IA.

É só pensar um pouco para perceber que isso vai deixar todo mundo desempregado. “Mas novos trabalhos vão surgir com nova tecnologia !!” com que garantia e por que não podemos organizar os trabalhos de forma racional ao invés de deixar ao acaso “das leis do mercado ?”

Se a gente se “adaptou” (leia-se fomos forçados) à revolução industrial, não foi sem planejamento, não foi sem jogar determinados grupos sociais em determinados tipos de emprego, não foi sem inclusive, manter as riquezas de modos de produção anteriores.

E quando a gente fala “mercado”, ele tem um nome muito mais fácil de compreender : burguesia. Ela existe, tem lugar, tem espaço e está presa conosco nesse planeta.

Qual é a ideia central de Sam Altman e outros ideológos da “nova revolução da inteligência artificial” ? Se você tem X número de CPU, e isso equivale à 100 vezes o trabalho humano, se a gente escalar INFINITAMENTE esses modelos de linguagem, podemos praticamente abolir por completo o trabalho humano.

Não entra em questão nem se o trabalho está sendo bem feito ou se esse trabalho está sendo feito para a sociedade; Só que uma IA vai “fazer” mais do que um humano, até porque ela não sofre das limitações humanas (como literalmente PRECISAR DE COISAS PARA VIVER).

Ou seja, se a gente determinar que gerar emojis como uma moeda tem valor para a sociedade, essa máquina de gerar emojis até esgotar toda a energia elétrica e poder computacional, mas será que essa quantidade infinita de emojis sequer vai ter um destino social ? Nós precisamos mesmo de tantos emojis ? É como se você enchesse seu armazenamento no seu computador/celular com cópias infinitas de um mesmo arquivo, você não vai ter espaço para mais nada e o seu dispositivo vai deixar de funcionar.

E a gente volta para as crises de hiperprodução, de novo e de novo, até claro, nós morrermos e a economia nem importar mais nada. Se tinha uma coisa que Marx queria dizer em todo seu trabalho de economia política era isso.

O capitalismo é um sistema de produção muito bom em produzir - é uma impressora de parafusos !!! Mas não tem ideia de como usar o parafuso ou sequer se precisa de parafusos, é uma impressora ligada no talo, imprimindo de tudo até não ter mais nada de matéria-prima para imprimir.

A IA vai resolver esse problema do capitalismo ? Da mesma forma que o torno, ela poderia servir para tornar a produção mais produtiva. Oras, imagina ter que derreter metal e entornar o metal com martelos ? É praticamente impossível, na mesma medida, a IA poderia trazer novas possibilidades - ao mesmo tempo, adianta alguma coisa produzir infinitamente sem nenhuma racionalidade para, destruir o planeta e esgotar TODOS OS RECURSOS NATURAIS ?

A máquina de costurar tirou o emprego das costureiras ? Sim e ainda podemos dizer, as fez trabalhar ainda mais. A máquina morta sozinha faz isso ou É TODO UM SISTEMA ECONÔMICO QUE FAZ ISSO ? Quem faz a sociedade são as pessoas.

Olha que esse meu marxismo tá bem raso, isso é só uma ponta dos problemas nessa noção de que se você ficar transformando tudo em produção de escala vai ter um retorno muito grande. Leia Marx, ele escreveu 3 volumes sobre isso. (3)


É tão difícil assim não ser reacionário ?

Resposta rápida : sim, ainda mais no Brasil.

Agora vai a resposta longa - novamente, observando de longe, alienada, dopada, literalmente pegando para ver Pinguins de Madagascar e rindo das piadas - uma coisa em comum em todo movimento de esquerda no Brasil é o fato de que a gente cresce no capitalismo, numa sociedade desigual machista, supremacista branca, etc, etc.

No contexto geopolítico atual, sem entrar em uma análise muito grande, é muito óbvio o papel que o Brasil tem de cadela do imperialismo na América Latina, mesmo nesses governos “progressistas”. O Brasil é o maior país da América Latina em diversos aspectos, líder regional importante, uma das maiores economias do mundo - O que afeta o Brasil, afeta toda a região e os países que dependem da grande economia do Brasil. Seria importante portanto, numa perspectiva estratégica, buscar relações de cooperação, de amizade, de desenvolvimento regional. Qual é a lógica atual ? Muito discurso, muito pouco trabalho em direção à assumir essa responsabilidade regional.

Atualmente no BRICS, o Brasil é bem tímido em se empreender em projetos de infraestrutura, como a “Nova rota da seda” por “medo de pressões geopolíticas” (4).

Claro que essa presença imperialista no Brasil e na América Latina não foi capaz de impedir por completo todos os nossos movimentos populares, temos exemplos de literalmente de norte a sul no continente americano de construção das lutas populares.

O que me parece evidente dos nossos movimentos no ocidente é que a gente está muito menos disposto em criar organizações sociais novas, de criar uma cultura popular popular (sim, isso mesmo), de realmente pegar um projeto e lutar por ele, criar novas instituições populares, novas formas de produzir a vida em sociedade.

É no mínimo engraçado que no Brasil a gente sempre faz tudo de forma que a gente põe a vida das pessoas em risco, onde todo mundo precisa ser um bom indivíduo e a gente não é capaz de construir uma máquina organizativa (um partido, oras bolas) que é uma arma de luta contra a burguesia.

É sempre o paradigma do profeta - só que dá revolução ! “Nossa visão é a correta, todos os outros estão errados !!”. Só que o seguinte, essa visão correta não é uma visão subjetiva, uma mensagem recebida de Deus, ou uma elocubração acadêmica hegeliana - é a análise científica da realidade que possibilita que a gente tome as melhores ações.

Tô dizendo num sentido bem prático mesmo, sem firula nenhuma, X funciona por conta disso e disso - reproduza e veja se funciona. É ciência !!! Se não funcionar, experimente, tome notas, use da metodologia para alcançar mais precisão nos seus resultados, tente entender o que deu errado e porque deu errado, o que é dar errado e o que é dar certo, etc.

Desde a crise do antigo PCB (a crise recente), eu notei que todo mundo tava muito bonito criticando a postura de um lado e de outro, eu vi pouquíssimas pessoas discutindo de fato, como aquilo aconteceu, porquê aconteceu e onde a gente pode fazer diferente para não cair no mesmo problema (e sim, rachar um partido ao meio é um problema).

Porque, disputa de micro-poder, burocracia que só funciona de um lado, abuso disso, daquilo e tal, existe em maior ou em menor grau, EM TODA ORGANIZAÇÃO. Veja, eu sei que é algo óbvio de dizer, mas bem vindo ao deserto do real. As pessoas são escrotas, pessoas que muitas vezes você admira; o militante mais velho, seu pai, seu professor, etc, autoridades e tal , por mais que saiba uma coisa ou outra a mais que você, está numa situação de desespero de não saber o que fazer da vida tanto quanto você novinho que não vai se aposentar.

O que a gente precisa fazer é exatamente, criar mecanismos para evitar ou mitigar essas coisas que enfraquecem nossa organização. E de fato, analisar, tratar com critério, MÉTODO CIENTÍFICO É IMPORTANTE, para ver de fato, o que podemos fazer para melhorar. O que é melhor ? Melhor para quê ?

Se o PCB rachou, tem motivos, tem causas, tem uma história por trás disso; E PODE ACONTECER CONOSCO TAMBÉM. Da mesma forma que o PT falava de socialismo no seu início, hoje nós falamos também, o que impede de nós nos tornamos PT social-liberal do amanhã ? (Se a gente julga isso como ruim.)

É igual caso Silvio Almeida, a questão individual quem vai resolver são as autoridades competentes; Agora a sociabilidade que cria o intelectual que se acha a última bolacha do pote, que faz o que quiser “porque é importante”, que é famosinho e é o rosto de várias causas sociais, isso não falta - muito provavelmente você conhece outros parecidos. Você depender a imagem do seu movimento, a voz dele, à figurinhas famosas aqui e ali, é pedir para ter um escândalo estourar a qualquer momento.

Veja, nem precisa ser um crime verdadeiro ou falso, pode ser um assassinato como o caso de Marielle. No caso do Silvio, você recebe uma acusação, pronto, o movimento negro perde toda força e credibilidade diante de uma sociedade já supremacista branca ; Marielle morre, toda a organização que dependia dela vai abaixo.

É difícil deixar de reproduzir o reacionarismo, justamente, porque a gente continua reproduzindo as formas de se organizar, pensar e construir a vida dos conservadores. A gente repete as mesmas coisas deles, muitas vezes, sem nem perceber que o problema mora justamente na forma de ser que eles nos ensinam.

O militante age de forma agressiva com outro militante do mesmo partido, porque cresceu num ambiente violento; o partido imita a organização de gestão de grandes empresas por acreditar ser mais eficiente, sendo que na prática, são organizações feitas para esmagar a organização popular; por fim o país, imita os países imperialistas, “porque dá certo lá, deve dá certo aqui também” e não cria uma política nacional própria e soberana.


Como sugestão sugiro estudar no :


https://www.marxists.org/ - (tem em várias linguas e melhor EM PORTUGUÊS, textos marxistas diversos, comece por Manifesto Comunista.)






















(dica, busquem na sua região, sempre tem algum movimento próximo de vocês)



e vou recomendar esse texto do Fisher - k-punk.org/abandon-hope-summer-is-coming/

(da pra usar um google translate se vcs n dominarem inglês)



(se vcs quiserem depois eu faço um post só com sites legais de esquerda - eu acho que vou fazer de qlqer forma depois)



fontes (pq eu sou dessas) :



1. NEVES, I. POR QUE OS COMUNISTAS ODEIAM DISTOPIAS? | Cortes do Ian Neves. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=A6azM-CDavU&pp=ygUTaWFuIG5ldmVzIGRpc3RvcGlhcw%3D%3D. Acesso em: 18 sep. 2024.

2. Moore’s law for everything. Disponível em: https://moores.samaltman.com/. Acesso em: 18 sep. 2024.

3. O Capital. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/capital/index.htm. Acesso em: 18 sep. 2024.

4. Nova Rota da Seda: o que Brasil ganha ou perde se aderir a plano trilionário chinês. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/04/12/nova-rota-da-seda.ghtml. Acesso em: 18 sep. 2024.




ps: sim eu demorei para postar pra fazer um post melhor 🤡





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15 julho 2024

Seria bom, talvez, sermos menos sectários ?


Essas semanas eu passei longe da internet, ou dos debates online. Por uma série de razões que não pretendo mencionar. E aqui vou dar meu pitaco de graduanda de ciências sociais, que acaba lendo um Marx acadêmico, estruturalismo/pós-estruturalismo, funcionalismo, positivismo, etc, etc - e lendo uma versão do marxismo-leninismo, em Lênin, Mao, Stalin e cia, até alguns textos anarquistas, de uma tradição mais radical. Isso importa porque eu acabo ficando meio que na encruzilhada, acaba que eu leio as coisas.

É interessante observar uma questão em relação aos textos, de uma forma geral, todo teórico, por viver no capitalismo ou por estar disputando poder como qualquer pessoa nessa sociedade, acaba tendo uma certa necessidade de tentar convencer você, leitor, que ele está certo e portanto, ele precisa te convencer que está certo para que você espalhe a palavra dele.

Veja, eu estou fazendo isso agora, vou usar uns argumentos, vou desenhar como isso funciona, blabla. Todo autor precisa ser lido a partir de sua biografia e seu contexto histórico, e a sua leitura precisa ser capaz de diferenciar quando está lendo o autor ou seus seguidores. Por exemplo, Lênin é uma coisa, Durkheim é outra radicalmente diferente.

Lênin é um líder político, intelectual, que vivia num país de “terceiro mundo”, a Rússia czarista era basicamente um grande império que existia para garantir a exploração dos recursos da Rússia para as potências estrangeiras. Ou seja, quando Lênin escreve sobre imperialismo, é num contexto político, de que essa exploração estrangeira é parte central da reprodução capitalista na Rússia e uma das razões para em pleno século XX essa mesma Rússia mal ser eletrificada ou industrializada.

Você aí, que nunca leu nada de Lênin, ou que sei lá, acha “muito rígido”, “muito autoritário” não pode chegar numa discussão e querer dizer que Lênin estava errado sem ter lido o texto. Ou sem considerar a biografia de Lênin, a sua trajetória política, etc, etc. Veja, você tem que pôr em contexto, que ele era perseguido, passou boa parte da vida exilado no exterior, teve que lidar com uma guerra civil, precisou brigar internamente no partido e ainda por cima, precisou dirigir um Estado.

É óbvio, chega a ser no mínimo infantil, querer cobrar de Lênin que ele seja menos assertivo, “menos autoritário”, mais bon vivant das ideias. Isso é ler Lênin, outra coisa é a leitura que se faz de Lênin. Uma coisa é o PCB dos anos 60 usando a ideia de centralismo democrático para calar a fração radical do partido, outra é Mao Zedong no mesmo período lendo Lênin construindo a revolução cultural. É o mesmo autor, mas lido de formas diferentes.

Isso diz mais do leitor ou do autor que escreveu o texto ? Uma coisa é o professor universitário cansado, que foi estudante na ditadura, que cansou de ver partido comunista brasileiro morrendo, sendo perseguido, errando e se deixando levar pelo liberalismo. É claro que ele vai ler um Marx, muitas vezes, mais liberal, mais democrático reformista, ou até vai dizer que “Marx errou”. Agora, nós aceitamos essa leitura ? Lendo objetivamente, isto é, ler o texto, considerando a trajetória histórica de Marx, etc, etc, é uma leitura objetivamente errada.

Mas é uma leitura que vem num contexto de Brasil, num contexto de guerra fria e de cooptação da esquerda para administração do capitalismo. Esse autor brasileiro, de uma forma geral, por não ser militante político, por não ser organizado, por ter passado por poucas e boas na história do Brasil, por precisar pagar suas contas, ele com certeza vai ter um texto muito diferente de Marx e Lênin. É outra realidade social.

Falando mais de Brasil, por isso existe uma diferença tão brutal, de quem é estudante e militante, de quem é militante em sindicato, do quilombola, do militante de ocupação, do universitário, do professor universitário, etc. Objetivamente são realidades paralelas. Uma coisa é o aluno cotista fudido que mal tem passagem de ônibus para ir para aula, outra é o professor que vem de Uber, outra é o aluno da medicina que o pai traz ele. E tem gente que nunca nem pisou na universidade, ou num quilombo !!

Por que a gente é tão sectário ? Porque a gente vive em realidades sociais tão distintas, que claro, o professor velho vai cair nessa história de que “identitarismo” é um desvio pequeno burguês, sla , etc, bla bla - Muitas vezes essa pessoa NUNCA TEVE CONTATO com pessoas LGBTQIA+, e por isso muitas dessas vezes,o que sobra é o estereótipo, não uma pessoa que sofre no capitalismo, ou uma pessoa com emoções, etc, etc.

Fica difícil criar laços de solidariedade - tanto pessoas velhas, como pessoas LGBTQIA + sofrem nas mãos das comunidades terapêuticas, se houvesse (ou se há) mais interação entre esses dois grupos, pronto você já tem uma pauta em comum para construir uma luta.

O que acontece geralmente é o seguinte : fulaninho diz que a causa dele é a mais importante de todos, que o outro não segue tá errado. E veja, o problema é não tratar as coisas de forma científica e ficar usando palavras de ordem sem critério nenhum.

Por isso que o critério é literalmente estético, subjetivo, de quem vai ser o “grande líder da esquerda” - Quem é mais de “esquerda”, isto é quem se parece de esquerda mais do que os demais. Por isso tem concurso de quem é mais Jesus, por isso tem competição de quem é o mais radical, do mais formado e etc, etc, et. É uma esquerda desconectada da realidade, que não tem penetração social e que internamente é muito hostil a si mesma, sob égide de uma suposta autocrítica, só que sem critério científico nenhum.

O que, por exemplo, é o meu maior receio de me organizar é, não só toda a perseguição política que isso desenrola, mas o quanto internamente, dentro da organização, eu vou ser também acolhida, quanto isso vai trazer para minha vida alguma MUDANÇA MATERIAL.

Sim, eu sou uma porca materialista. Eu me preocupo com o fato de entrar nessa e só me ferrar (como já me aconteceu por sinal). Isso não é para tirar o ânimo de quem é organizado ou vai se organizar, mas é para apontar de que nada adianta a gente juntar e fazer essas organizações, se elas não são lugares de acolhimento - E não só mais um espaço social de gente devorando uns aos outros na cadeia alimentar (a gente já precisa aturar muito disso por toda parte).
(pela amor, não estou falando nem numa unidade prática/teórica, mas de ser mais legal uns com os outros - bora crescer ? S2)

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30 março 2024

É necessário falar grego com as massas ?

Se tem uma coisa que boa parte das pessoas pede para a esquerda fazer é voltar a fazer trabalho de base, participar mais da sociedade, trabalhar mais com associações, reatar os laços sociais destruídos pelo capital. E no meio dessa crítica sempre tem a questão de “falar a língua das massas”, ou seja, largar os jargões acadêmicos de lado e falar do jeito comum que as pessoas conversam.

Para mim essa segunda parte perde de vista uma coisa importante : o conhecimento desde sempre teve uma natureza de ser exclusivo, limitado, codificado, encriptado, para ser consumido por alguns monges no monastério. Esse nosso foco individualista em autores como grandes profetas, como pessoas que enxergam coisas que ninguém mais vê, é um elemento que mostra que o saber não é algo público, a ser conhecido pelo máximo número de pessoas e pensado como uma construção coletiva.

Não existe gênio iluminado, para existir Newton, Einstein, Darwin, etc, etc, em volta sempre existiu uma academia, um conjunto de outros pares que compartilham o conhecimento entre si, que construíam esse saber juntos e o mais importante, em todas as vezes o investimento público foi necessário para que esses cientistas fizessem seus estudos.


Então antes de “falar para as massas”, é preciso ter em mente que nós precisamos criar uma pedagogia popular que não transforme a escola num local fechado, recluso, distante, cheio de códigos que ninguém mais entende e supostamente não pode compreender. O conhecimento deveria ser uma coisa de cada praça, cada rua, cada discussão de bar, cada espaço deveria ser um espaço para a construção do nosso saber popular.


A forma que o conhecimento é construído, através do que vou chamar de encriptação, ou seja, você cria uma linguagem que só algumas pessoas dominam e que mesmo que outros tenham acesso, é como pegar uma mensagem codificada sem saber o código - não faz o menor sentido. Veja, existe acesso ao conhecimento na internet - mas você entende o que diz ?


É como receber um código morse sem saber código morse, são apenas sinais sem sentido algum, mesmo que a mensagem seja bem escrita e pensando na “linguagem vulgar”. Em parte, existe um motivo político muito claro de colocar o conhecimento atrás desses códigos : você domina o saber, enquanto o outro não consegue; Isso cria uma disparidade terrível entre aquele que sabe e o que não sabe - mesmo que a decisão do que sabe seja melhor informada e possa ser melhor para o “ignorante”, é quem tem o conhecimento que acaba tendo poder de decisão na sociedade.


Se a gente defende uma democracia, é impossível falar dela sem a difusão do conhecimento. O que é preciso fazer : ensinar o código para todos. É impossível ensinar matemática, por exemplo, se você não ensinar o conceito de número. A questão do ensinar não é abandonar completamente o conhecimento chamado de “erudito” para ensinar apenas tudo no jeito “vulgar” - é justamente criar pontes para que nós possamos não ter nem o “erudito” e nem o “vulgar”, mas um conhecimento popular que flua entre todas as pessoas.


Se você chegar na sua tia e explicar bem, sem ficar enrolando, conversando, sem tratar ela como inferior, sem ignorar o que ela sabe - você ensina facilmente conceitos como biopolítica de Foucault para ela. A sua tia pode já ter passado num hospital, dependendo da situação da família, já teve gente próximo no sistema prisional, sabe do que a disciplina escolar e a que existe dentro da própria casa dela.


A questão não é você ensinar isso para ela sem que você também aprenda alguma coisa a mais sobre o tema, entre outras palavras, que ela também tenha para contribuir dentro da teoria biopolítica de Foucault - sua tia consegue fazer isso, se você não acredita que seja possível ensinar isso para todo mundo e que todo mundo possa construir esse conhecimento, do que adianta conhecimento ?


Existe uma questão de manter o poder político na mão de poucos e de forma que seja fácil dominar, por isso o conhecimento é tão isolado e é criado tantas barreiras em torno dele para que as pessoas não o acessem. Uma sociedade, importante frisar isso, SOCIEDADE, que produz e difunde conhecimento entre si, consegue avançar muito mais no desenvolvimento da sua capacidade de modificar a realidade.


A questão não é ter mais escolas fechadas, mas sim escolas abertas para todos em todas as partes, em cada lugar do país. Ao invés de igrejas, e sim, eu sou dessas, deveríamos colocar escolas em cada esquina, cada lugar deveria distribuir conhecimento, livros por toda parte, clubes e mais clubes de leitura. Mesmo cada igreja, não vai ser mais necessário ter pastor, nós vamos todos sentar e discutir criticamente cada religião, vai ter teologia e exegese (interpretação de texto) em cada lugar.


Esse é o sonho que a internet nunca conseguiu entregar. O conhecimento é um fluxo e esse fluxo é cuidadosamente construído para passar em apenas alguns lugares, é um rio construído para irrigar apenas alguns lugares, enquanto seca outros. Se a gente quer ter abundância para todos, o rio precisa passar por cada pedacinho de terra.


Por isso eu acho assim, não é uma questão de “falar com a linguagem da quebrada”, mas falar de uma forma que exista de fato uma conversa. De forma que eu entenda você e você me entenda, sem haver a necessidade da gente ficar criando mais barreiras de conhecimento cheias de códigos específicos. Não é sobre eu te ensinar, ou você me ensinar, é sobre nós ensinarmos/aprendermos juntos e construir conhecimento junto para que todos tenham acesso a esse saber.


Por hoje é isso.


PS : Faculdade, eu ando meio borocochó e é isso, vou voltar pro meu LOL.

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14 março 2024

Pensamento Galo de Luta

Eles têm o monopólio e o controle do ódio!

 

Muitas pessoas têm me perguntado sobre como fazer para organizar o ódio. Você precisa descobrir quem é seu verdadeiro inimigo, na maioria das vezes nosso inimigo utiliza espantalhos para nos manter alienados e dispersos, nosso inimigo sabe que o ódio que carregamos pode destruí-lo e por isso ele se encarrega de criar esses espantalhos, que podem ser políticos, policiais, pessoas de outra tonalidade de pele, outro bairro, foras da lei, professores, funcionários públicos e até nossos pais são milhares os espantalhos que nosso inimigo cria a fim de nos manter alienados e dispersos. 

Como eles fazem isso? Eles têm o monopólio e o controle do ódio eles têm o poder de nos colocar contra nós mesmos e assim conseguirão sempre se manter no poder e fazer a sua manutenção! 

Faz o cálculo comigo: Como você consegue odiar tanto um político corrupto seja ele de esquerda ou direita não importa, e não consegue nem ao menos questionar quem o corrompeu? Você odeia quem recebeu uma mala de dinheiro, mas nem ao menos questiona quem o deu essa mala de dinheiro e por que? Você odeia o policial que te deu um tapa na sua cara, ou assassinou alguém próximo ou parecido com você, mas você não questiona quem autorizou eles fazer isso? Foi o governador? O Presidente? 

Nunca questionamos o topo da pirâmide sempre desperdiçamos nosso ódio no meio dela com alguém descartável seja ele um policial, seja ele um governador, ou presidente, ou seja, organizar nosso ódio antes de tudo é descobrir quem de fato é nosso inimigo, quem tem tanto interesse em nos ver sofrer que gasta milhões, bilhões e trilhões para que isso aconteça, quem tem esses trilhões pra comprar almas? 

Estude, se exercite, medite, descubra quem controla os espantalhos ao seu redor, organize seu ódio e direcione no lugar correto, não perca sua energia odiando espantalhos e nem a si mesmo, cada um tem a sua forma e seu despertar o meu foi esse cara da foto (Malcolm X) que de trambiqueiro, ladrão e traficante se tornou um dos maiores revolucionários da história, ele foi assassinado porque despertou sozinho e tomou uma atitude sobre isso, ele deu sua vida pelo despertar de outros. Desperte e organize seu ódio!
 
Galo de Luta 
(Só para deixar salvo para sempre)

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11 março 2024

…Viva os caçadores de vampiros.


Talvez em nenhuma outra época da humanidade, nós tenhamos tido um acesso tão vasto e rico do passado.

De certa maneira, o nosso problema não é tanto a falta de fontes, mas como montar a narrativa. Pode até ser uma coisa que possa ser resolvida com o ensino de teoria da história, problema é aplicar esse tipo de ensino, com que poder, do Estado ou uma organização popular dinâmica e descentralizada ? Isso não é discussão que se encerra fácil, muito pelo contrário, nós precisamos observar o contexto histórico que nos inserimos.

Hoje é um desses dias que eu acordei meio anarquista. Eu acho que a forma mais inteligente de se pensar a sua posição política é de forma conjuntural.

Tem um elemento muito claro que é a situação de urgência que nos encontramos e a dificuldade de se criar laços de cooperação.

E assim, é uma coisa que eu não sei se disse explicitamente, mas muita coisa no Brasil estaria numa possibilidade melhor se a gente fosse, no mínimo, o espantalho do leninismo.

Digo espantalho, porque a situação é tão grave a ponto da gente dificilmente achar o tal do bolchevique da disciplina de ferro das propagandas anticomunistas.

Aquilo que os anos 60 se insurgiram nunca de fato existiu no ocidente, por uma razão muito simples : os aparelhos de repressão são bem organizados e estão muito bem estruturados para evitar que algo como os bolcheviques, os maoistas, etc, surjam por esses lados.

Maior prova disso é a operação COINTELPRO, que foi a maior operação de contra-espionagem dos Estados Unidos da América que visava combater forças “contra a segurança nacional”. Como os comunistas, por exemplo. 

Aqui no sul global tivemos golpes de Estado, justamente com esse propósito muito claro de evitar que uma força revolucionária crescesse, ainda que a gente saiba que a gente estava bem longe disso por aqui.

O resultado disso é uma esquerda bem liberal, que usa às vezes jargões marxistas (ou de forma difusa progressista) e tem uma aversão à organização popular, aquém inclusive da tradição liberal da qual verdadeiramente pertencem. Ainda que exista um número bem reduzido da esquerda radical, entre comunistas e anarquistas, nenhum deles chega perto do tamanho do que é o “campo democrático”.

O que nos falta é uma organização popular, seja de caráter anarquista ou marxista-leninista, ou sei lá, a questão é que nada parece oferecer uma alternativa ao incessante e agoniante estado de apatia generalizada. Fisher é muito feliz quando diz que a esquerda está num estado de depressão clínica coletiva.

Longe de querer entrar no marxismo-freudiano-lacaniano de tipos como o Safatle, que não entendem o limite da “psicanálise social”, mas é muito claro o quanto a ideia do vampiro, do monstro do pântano, das bruxas, dos fantasmas, etc, mesmo num “mundo da ciência”, refletem num sentimento generalizado de ansiedade, de medo das mudanças e se você quiser avançar, podemos até falar em uma esquizofrenia generalizada.

O espectro do comunismo, em essência, não é uma invenção de Marx, é mais uma descrição de uma tendência histórica, um “espírito do tempo”, conversando com o finado Hegel.

Veja, Marx escreve o seu manifesto, a Europa passava pela primavera dos povos, a insatisfação popular era generalizada, era só uma questão de tempo - analisando os elementos da realidade, que alguma hora isso estouraria numa revolta mais generalizada que representasse uma revolução popular.

O socialismo popularizado no século XIX é muito diferente do que se tornou comum no século XX. Quando a gente fala em socialismo no século XIX, nós estamos falando de Proudhon, de Fourier, Saint Simon, o socialismo científico, que se tornou o marxismo, foi ganhando mais espaço na segunda metade do século XIX, início do XX.

A grande questão que eu quero apontar é que nem precisa o comunismo existir, a conclusão de que ele é uma ameaça ao status quo é só uma constatação dos fatos. Basta olhar para a luta de classes antagônicas, basta observar as condições de vida de um e de outro, basta olhar para como a riqueza é distribuída, não é, e isso é muito importante, uma teleologia baseada numa ideia abstrata - É uma análise que surge da análise da materialidade, uma tendência histórica.

Tanto é, que você pode olhar para isso e querer evitar um confronto, tentar negociar, como os reformistas, a própria burguesia e uma parte da classe trabalhadora já o fizeram. Outra resposta é criar um Estado socialista (ou algum tipo de comunidade anarquista) a partir de uma revolução popular. A primeira coisa aconteceu no “ocidente”, a segunda no “terceiro mundo”.

O Brasil não foi um dos países que se tornou comunista no século XX, foi um dos lugares que o imperialismo tratou de sabotar e cooptar antes que isso fosse possível.

Ainda sim, e a gente ainda tem um histórico de partidos de esquerda virando para direita para fazer esse argumento melhor, o comunismo nunca deixou de ser um medo das elites brasileiras, dos aparelhos do Estado, das universidades, dos institutos de pesquisa, da polícia, da igreja, etc.

O curso de Ciências sociais, por exemplo, é todo voltado para trabalhar engenharias sociais para evitar tantas revoltas e guerras, para aprender essencialmente o jogo político, a luta incessante entre as duas classes. O sociólogo está no meio disso, assim como o historiador, o físico, o engenheiro, etc.

Existe essa preocupação de criar todo esse aparato social, do treinamento da polícia, passando pela formação do crime organizado, pelas aulas da creche, pela programação da TV e da internet, etc, é para evitar que as pessoas se organizem e vão tomar o Estado.

Tudo isso me veio ao ver Buffy, a caçadora de vampiros. Veja, o vampiro é essa figura que é imortal por sugar o sangue dos vivos - uma analogia direta à burguesia.

O que é interessante desses dois episódios iniciais de Buffy é que ela havia mudado de escola por conta dos eventos do filme, eu acho (não vi o filme) e ela só queria viver a vida normal de uma jovem de 16 anos.

Ela não queria ter que caçar vampiros, bruxas, zumbis, lobisomens, etc, o que ela queria mesmo é estudar na escola, fazer amigos, ir à festas (inclusive puta música boa dessa série), quem sabe fazer parte do time de animadora de torcida ?

O que eu achei interessante da série é como ela apresenta a ameaça do vampiro. (spoiler para uma série de mais de 20 anos atrás, mas eu só vi até o episódio 4, 5)

Ele não é explícito. Ele aparece primeiro através dos sonhos. Buffy ignora os pesadelos de vampiros, crucifixos e destruição do mundo.

Isso fica ainda mais interessante quando os sinais começam a parecer no mundo real. Há jornais de jovens desaparecidos misteriosamente e mais tarde se acha um dos corpos dentro do armário de uma das estudantes com marcas de mordidas no pescoço.

Buffy por um momento apenas suspeita que na escola tenham vampiros e veja, a reação dela não é de medo, mas sim de cansaço.

A impressão que eu tive (lembrando que eu não vi o filme) foi que essa história de ser caçadora de vampiros é uma coisa que atrapalha a vida dela.

Impede dela fazer as coisas que ela queria fazer. Voltando para a psicanálise, é um caso de castração, um gozo interrompido - O bom de ser jovem, em tese, é a própria juventude, mas mais importante a vitalidade.

Mesmo que Buffy não fosse uma caçadora de vampiros, a presença deles já cria uma certa aura social de que algo, alguém, está nas sombras planejando formas de sugar a sua vida.

Uma das formas que a gente pode ler Buffy, é como analogia para o trabalho do jovem na adolescência. Veja, ela quer só viver, fazer o que quer fazer, satisfazer seus desejos.

A questão é que ela não pode - ela tem uma tarefa. Por conta da forma que a história é estruturada, é muito claro aquela coisa do escolhido, e bem, é uma série adolescente, isso é esperado.

Eu não sei se Buffy já conhecia o bibliotecário da escola, mas quando ela vai consultar ele, porque ele é um especialista nessas criaturas (para mim, é leia-se um marxista), um rapaz acaba ouvindo a conversa deles e descobre que Buffy é uma caçadora de vampiros.

Mais tarde, isso leva ele e mais uma menina hacker nerd (hoje chamariam ela de femcel ou algo assim), que se tornou uma amiga dela a se ajudarem para tentar derrotar os vampiros que apareceram no cemitério.

Para mim isso é um flerte muito grande e uma certa quebra da ideia de escolhido, com noções mais coletivas de organização.

E assim, existe essa ideia de que conhecimentos “místicos” são meramente pseudo-ciência. A questão é que nesse mundo que ela está, as coisas de fato existem e para derrotá-las, ela precisava ter um conhecimento vasto.

Aí entra a figura do bibliotecário estudioso, da menina nerd hacker que sabe muita coisa sobre tudo e é interessante que o rapaz lá, ele não tem uma especialidade, mas ele sempre está lá para ajudar da forma que pode.

É essa combinação de forças que ajuda Buffy (que tem super poderes e tal) que dá as ferramentas para ela conseguir destruir o vampirão que queria o poder infinito dos jovens para destruir o mundo.

Da mesma forma que a possível presença de vampiros cria essa tensão na escola, a presença de Buffy causa medo entre os vampiros.

É muito nesse ponto que eu quero chegar : Numa situação tão rendida e emergencial, assim como no mundo de Buffy, os vampiros querem abrir o portal do inferno e destruir o planeta, será que a gente não precisa de uma caçadora de vampiros ?

Só o fato de existir um pequeno grupo organizado já faz o grupo de vampiros em maior número, mais poderosos, com mais recursos, tremerem de medo.

Afinal, se existe esse grupo pequeno, será que não existem outros mais bem organizados e preparados, sabendo de todas as suas fraquezas e forças, capazes de eliminar de vez os vampiros ?

  

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21 dezembro 2023

Depressão pós-eleição : Será que Lula vai nos salvar ?


21 set 2022 (eu escrevi esse texto depois do primeiro turno de 2022)

Por fim, livres de Bolsonaro. Ao que tudo indica, Lula tem tudo para vencer, tanto em um primeiro turno como num possível segundo turno. O resultado dificilmente vai ser diferente do que indica as estatísticas.

Tanto ânimo, tanto entusiasmo, tanta felicidade com a festa da democracia para depois mais 2 anos hibernando para as eleições municipais. É muito comum se discutir política intensamente durante as eleições e depois que tudo passa, se esquece de tudo e se pratica política sem nenhuma discussão.

Não é como se essa discussão política feita nas eleições também seja qualificada, porque de fato, ela está bem longe disso. Nós sempre voltamos a hercúleas discussões sobre comunismo de Stalin e se esse Stalin realmente matou tanta gente assim, discutimos se devemos ter serviço público ou se queremos matar todos os pobres de uma vez. Coisas que em nenhum momento importam, ou que enriquecem as discussões sobre a nossa realidade.

O que ainda mantém alguma sanidade legal no Brasil é o trabalho de alguns funcionários do Estado (aqueles que são concursados) que aqui e ali, conseguem garantir um bom serviço público. São médicos, juízes, administradores e cia, que fazem um trabalho seguindo a velha constituição que garantem que medidas, muitas vezes ilegais, evitem de serem aplicadas.

Mas nada impede, de repente, mesmo isso desaparecer (até porque os concursos desapareceram) para o Brasil de vez se derrubar no seu próprio peso. Com alguma ordem institucional, vemos o Supremo Tribunal defendendo empresas de plano de saúde derrubando o piso da enfermagem, a polícia que cada vez mais mata os negros pobres, a comunidade trans cada vez mais excluída de seus direitos quando se trata de acesso à saúde, sem contar as inúmeras atrocidades diárias que nunca aparecem em canto algum.

Há esperança, diz Lula. Com seu governo o povo vai poder sorrir novamente e consumir. Será ? E será que vai importar alguma coisa ?

Há setores da esquerda que apoiam Lula sem olhar o Lula de hoje,  que é neoliberal, e apoiam o Lula como se ele fosse o velho operário sindicalista dos anos 80. De certa maneira, há um exagero nesse apoio, mas é compreensível.

O governo Bolsonaro foi muito ruim. Destruiu vidas, tirou outras tantas. Há uma vontade tremenda de tirar Bolsonaro e essa vontade persistiu durante todo seu governo. Manifestações Fora Bolsonaro e pedidos de impeachments não faltaram para que ele saísse. Todas elas, frustradas e a via eleitoral se tornou a única saída para esse inferno.

O desespero de viver no governo Bolsonaro, de certa forma, faz com que as pessoas não liguem tanto para quem ganhe, desde que não seja nenhum tipo de Bolsonaro. Lula ganha destaque por representar um Brasil, onde de fato, as pessoas cresceram economicamente e as condições de vida melhoraram.

O que de fato, lhe dá um cheque em branco para fazer alianças e continuar defendendo políticas neoliberais sem sofrer nenhuma crítica.

Lembro de uma vez, ver um filósofo (que não vou citar o nome) chorar por Lula e o PT não articularem o impeachment durante a Covid, para vê-lo abandonar todo papel crítico para apoiar Lula de maneira incondicional. Para ver, esse mesmo cara que acusava os outros de eleitoralistas, talvez com gosto amargo na garganta, fazer a mesma coisa de maneira acrítica.

Esse é o poder de Lula pós-covid. O que podemos esperar é que o governo Lula pelo menos governe e nada mais, mais do que isso é sonho. Se ele fizer e de fato, ajudar a população mais pobre, pouco vai importar se Lula é amigo de Alckmin.

Claro que isso não vai levar ninguém para uma mudança social radical. Vamos continuar miseráveis, com Lula, talvez vivendo um pouco melhor.

Mas nada disso é suficiente.

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20 novembro 2023

ᴼ ᵈᵉᵇᵃᵗᵉ ᵈᵃ ˢᵘᵖᵉʳᶠíᶜⁱᵉ

CONTEXTO - Isso é uma postagem que eu fiz no Facebook no dia 14 de abril desse ano de 2023. Mudei umas coisas, adcionei algumas notas e corrigi alguns erros. As notas novas vão estar em verde. Desculpa qualquer caps lock, eu estava com raiva. E sim, eu escrevo com ódio no coração muitas vezes. É foda, porque olhando assim hoje, eu vejo o quanto eu tava só precisando de uma ajuda e ninguém não teve nem a pachorra de vir me perguntar se eu tava me sentindo bem. Empatia não é uma rua de vias aparentemente, não é mesmo ?

Pode ser a velhice chegando aos 26 anos, mas sério gente, tá foda a burrice. Aqui em Salvador tem violência, sim - mas não é a faixa de Gaza (até porque Portugal foi embora, e a violência de lá e cá, funcionam de formas diferentes) que tentam vender. É tão óbvio que:

1) o crime organizado TEM LAÇOS COM AS ELITES (o cara que manda no tráfico é rico, você precisa pensar isso com um negócio. Logo, o traficante mor é um burguês e para manter seu poder, é muito óbvio a ligação dele com o Estado. Ou seja, a própria ordem burguesa facilita a vida do crime organizado), senão não crescia, não ganhava espaço;
2) tem um populismo policialesco para candidatos da direita vencerem;(o discurso deles é claramente racista, claramente fala sobre a moral dos homens, não trata o problema como material e possível de se resolver)

Aí me vêm esses ataques em escolas, que basicamente são fruto de FALTA DE MONITORAMENTO E NEGLIGÊNCIA. A polícia só trabalha como bombeira, espera dar merda para aparecer, quando deveria fazer essas investigações de prevenção do crime (sabe daquelas que só rolam em filme).(um de vocês inclusive me apontou uma coisa que esqueci de apontar : é preciso também entender o fenômeno como algo fabricado, ele não se trata de um fenômeno social que acontece do nada, ele é incentivado. Ou seja, é preciso combater quem incentiva e apagar os focos que naturalizam esse tipo de coisa)

Pior é essa esquerda, isso eu meto bronca em quem se diz anarco, marxista-leninista, trotskista ou social-democrata, que fica se pautando em debates burros da direita. Gente, fofoca do BBB, corpo sei lá de quem, se Cuba faz isso ou aquilo, se a URSS tinha melão ou não, isso não importa. Quero saber de emprego, trabalho, dá para pautar algum debate uma vez na vida? (recomendo sr. Jones Manoel aqui)

E essas conversas sobre trans completamente desinformadas que rolam por aí, hein? Puta merda, por isso eu só apoio o dia que o movimento trans parar de ter paciência e só conversar com quem está disposto a aprender (isso aqui é mais uma falta de paciência e cansaço mesmo de o tempo todo ser negada o tempo todo de fazer tudo e ainda ter que agradar CIS/hétero (às vezes até umas gay por aí)  com má vontade de ouvir o que a gente tem a dizer)Porque é muita ignorância. É tão fácil relacionar a transfobia como uma política que engaja todo mundo. É mais fácil convencer as pessoas a fazerem qualquer merda se for contra trans, isso é literalmente o plano, porque ninguém gosta de trans, nem você desconstruído de merda.(sim, estou olhando pro liberal que acha que usar esmalte mata a transfobia e o machismo)

Aí a gente entende Bolsonaro, a inabilidade de atuação da esquerda, em especial do PT que era o mais capaz de reagir de forma mais contundente.(por falta de organização, falta de trabalho teórico, falta de ação política, falta de mobilização)

Eu realmente tenho muitas dúvidas muito em relação à utilidade da internet, principalmente quando se trata de um acesso difuso, guiado por algoritmos corporativos, sem um objetivo específico de uso. Se a gente entra aqui para "trocar ideia" e a média das opiniões é um bando de conhecimento malformado, com pessoas que só querem ganhar no jogo de argumentar, eu sinceramente preferiria que a internet nem existisse.(isso eu não falo aqui explicitamente, minha crítica é em relação ao uso "optimal" da linguagem, isto é, você trata a língua como um jogo e assim como num jogo, seu único objetivo é vencer - toda parte da comunicação, da ludicidade, do criativo, do afetivo, se esvai e toma lugar um tipo de comunicação que só está preocupada em vencer o jogo daquela comunicação. Outro ponto que eu trago, é a questão pedagógica, todo mundo pode redescobrir todo conhecimento que existe, porém isso vai ser um trabalho desoriententado e vai bater em muitas teses erradas por muito tempo, que foi o que aconteceu com a ciência por muito tempo. Você precisa entender o processo histórico das descobertas científicas, nós só conseguimos avançar muito porque passamos a subir nos ombros dos gigantes. Dando um exemplo muito básico, só foi possível descobrir a multiplicação, porque alguém aprendeu a soma antes. Uma coisa ajuda a gente enxergar outra e por aí vai. Por isso nós precisamos de professores)

"Ah, mas a educação", gente, hoje se a gente pudesse oferecer tudo que a gente produz (isto é, se a gente tivesse capacidade transmitir todo conhecimento que a gente tem), a gente estaria produzindo lixo (é uma palavra forte, mas presta atenção no que vem depois). Educação sem um projeto político de sociedade vira um idealismo maluco, não dialoga com a realidade, e fica só nessa de inventar método isso, aquilo. Paulo Freire sofre disso sem o socialismo que ele defendeu quando escreveu a Pedagogia do Oprimido.(o que eu estou dizendo ? Se a gente não tem o nosso projeto político, nós copiamos o dos outros sem uma crítica. O mesmo erro do PCB da década de 60 em acreditar numa burguesia nacional, Freire comete aqui, quando vai defender um democratismo radical. As burguesias nacionais americanas apoiaram a revolução americana, mesmo os racistas do sul; enquanto no Brasil a nossa elite sempre foi rentista, sempre foi entreguista e escrava dos interesses da burguesia. Basta lembrar que o Brasil, mesmo independente nunca deixou de ser uma colônia da Europa, sempre foi exportadora de produtos primários e hoje isso foi atualizado, com o capital financeiro entrando em tudo que é nosso, sabe qual é a grande novidade ? Grande parte é capital estrangeiro)

Enfim, fica aí o desabafo, eu só me sinto triste, até porque a minha universidade não está fazendo o básico de renovar a carteira de estudante, aí fico sem poder ir e ainda vou sair punida disso. Fora outras questões que se eu fosse expor daria um bom livro.(eu consegui resolver, problema era que o sistema do transporte não aceita nome social internamente. "Ah porque você usa nome social se tem como retificar" - a retificação é um processo traumático, extremamente ineficaz e apesar da lei, você ainda tem muito lugar que não faz por transfobia mesmo. Recomendo sempre que vocês trans façam junto a defensoria pública do Estado de vocês ou sempre com alguma orientação de alguma organização do tipo. Fora que nessa época, eu já tava bem mal com desemprego, mal com universidade me desanimando, etc)

Meu alinhamento político é daqueles que entende que a gente deveria construir um socialismo, mas que o coletivo aqui ainda não consegue sair desse marasmo liberal (toda organização tem um tempo de aprendizado, o que eu estou dizendo, é que a gente não sabe se organizar como esquerda radical no Brasil. A gente ainda imita muito os liberais, os socialistas utópicos, o pior tipo de anarquismo vulgar), aí só me resta me voltar para o anarco-niilismo e sei lá. Ser o abismo que as pessoas precisam olhar para compreender um pouco a si mesmas e o mundo em que vivem.(aí vem a ética do exemplo misturada com o poder o anarquismo-niilista em transformar a negatividade, a depressão, uma situação completamente sem salvação, numa possibilidade de um outro mundo - só que eu oscilo entre o marxismo-leninismo e essa posição, depende geralmente do meu humor)

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