30 março 2024

É necessário falar grego com as massas ?

Se tem uma coisa que boa parte das pessoas pede para a esquerda fazer é voltar a fazer trabalho de base, participar mais da sociedade, trabalhar mais com associações, reatar os laços sociais destruídos pelo capital. E no meio dessa crítica sempre tem a questão de “falar a língua das massas”, ou seja, largar os jargões acadêmicos de lado e falar do jeito comum que as pessoas conversam.

Para mim essa segunda parte perde de vista uma coisa importante : o conhecimento desde sempre teve uma natureza de ser exclusivo, limitado, codificado, encriptado, para ser consumido por alguns monges no monastério. Esse nosso foco individualista em autores como grandes profetas, como pessoas que enxergam coisas que ninguém mais vê, é um elemento que mostra que o saber não é algo público, a ser conhecido pelo máximo número de pessoas e pensado como uma construção coletiva.

Não existe gênio iluminado, para existir Newton, Einstein, Darwin, etc, etc, em volta sempre existiu uma academia, um conjunto de outros pares que compartilham o conhecimento entre si, que construíam esse saber juntos e o mais importante, em todas as vezes o investimento público foi necessário para que esses cientistas fizessem seus estudos.


Então antes de “falar para as massas”, é preciso ter em mente que nós precisamos criar uma pedagogia popular que não transforme a escola num local fechado, recluso, distante, cheio de códigos que ninguém mais entende e supostamente não pode compreender. O conhecimento deveria ser uma coisa de cada praça, cada rua, cada discussão de bar, cada espaço deveria ser um espaço para a construção do nosso saber popular.


A forma que o conhecimento é construído, através do que vou chamar de encriptação, ou seja, você cria uma linguagem que só algumas pessoas dominam e que mesmo que outros tenham acesso, é como pegar uma mensagem codificada sem saber o código - não faz o menor sentido. Veja, existe acesso ao conhecimento na internet - mas você entende o que diz ?


É como receber um código morse sem saber código morse, são apenas sinais sem sentido algum, mesmo que a mensagem seja bem escrita e pensando na “linguagem vulgar”. Em parte, existe um motivo político muito claro de colocar o conhecimento atrás desses códigos : você domina o saber, enquanto o outro não consegue; Isso cria uma disparidade terrível entre aquele que sabe e o que não sabe - mesmo que a decisão do que sabe seja melhor informada e possa ser melhor para o “ignorante”, é quem tem o conhecimento que acaba tendo poder de decisão na sociedade.


Se a gente defende uma democracia, é impossível falar dela sem a difusão do conhecimento. O que é preciso fazer : ensinar o código para todos. É impossível ensinar matemática, por exemplo, se você não ensinar o conceito de número. A questão do ensinar não é abandonar completamente o conhecimento chamado de “erudito” para ensinar apenas tudo no jeito “vulgar” - é justamente criar pontes para que nós possamos não ter nem o “erudito” e nem o “vulgar”, mas um conhecimento popular que flua entre todas as pessoas.


Se você chegar na sua tia e explicar bem, sem ficar enrolando, conversando, sem tratar ela como inferior, sem ignorar o que ela sabe - você ensina facilmente conceitos como biopolítica de Foucault para ela. A sua tia pode já ter passado num hospital, dependendo da situação da família, já teve gente próximo no sistema prisional, sabe do que a disciplina escolar e a que existe dentro da própria casa dela.


A questão não é você ensinar isso para ela sem que você também aprenda alguma coisa a mais sobre o tema, entre outras palavras, que ela também tenha para contribuir dentro da teoria biopolítica de Foucault - sua tia consegue fazer isso, se você não acredita que seja possível ensinar isso para todo mundo e que todo mundo possa construir esse conhecimento, do que adianta conhecimento ?


Existe uma questão de manter o poder político na mão de poucos e de forma que seja fácil dominar, por isso o conhecimento é tão isolado e é criado tantas barreiras em torno dele para que as pessoas não o acessem. Uma sociedade, importante frisar isso, SOCIEDADE, que produz e difunde conhecimento entre si, consegue avançar muito mais no desenvolvimento da sua capacidade de modificar a realidade.


A questão não é ter mais escolas fechadas, mas sim escolas abertas para todos em todas as partes, em cada lugar do país. Ao invés de igrejas, e sim, eu sou dessas, deveríamos colocar escolas em cada esquina, cada lugar deveria distribuir conhecimento, livros por toda parte, clubes e mais clubes de leitura. Mesmo cada igreja, não vai ser mais necessário ter pastor, nós vamos todos sentar e discutir criticamente cada religião, vai ter teologia e exegese (interpretação de texto) em cada lugar.


Esse é o sonho que a internet nunca conseguiu entregar. O conhecimento é um fluxo e esse fluxo é cuidadosamente construído para passar em apenas alguns lugares, é um rio construído para irrigar apenas alguns lugares, enquanto seca outros. Se a gente quer ter abundância para todos, o rio precisa passar por cada pedacinho de terra.


Por isso eu acho assim, não é uma questão de “falar com a linguagem da quebrada”, mas falar de uma forma que exista de fato uma conversa. De forma que eu entenda você e você me entenda, sem haver a necessidade da gente ficar criando mais barreiras de conhecimento cheias de códigos específicos. Não é sobre eu te ensinar, ou você me ensinar, é sobre nós ensinarmos/aprendermos juntos e construir conhecimento junto para que todos tenham acesso a esse saber.


Por hoje é isso.


PS : Faculdade, eu ando meio borocochó e é isso, vou voltar pro meu LOL.

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27 março 2024

report 023

Eu me sinto meio cansada, sabe.


Sei lá, se eu sumir, pode ser que eu tenha morrido. Me incomoda muito que no final das contas, eu sou completamente descartável e eu deveria, segundo os ditames sociais, fazer o mesmo.


Tenho uma sensação de sufocamento, uma vez na vida queria no mínimo me sentir em paz. (Marx, Karl)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PATCH NOVO :

 

-atualizei o banner

-atualizei o hub

-mudei o fundo

-NOVA CATEGORIA "ONLINE" (ainda não postei nada nela ainda)

 

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19 março 2024

DOC 008 : Jones Manoel, ou o intelectual público.

Mandem esse gif para suas mães.

É muito claro que Jones nos últimos tempos vem tentando se estabelecer entre Sartre, Abdias Nascimento e Darcy Ribeiro.

Ele mesmo admite que vem fazendo vídeos mais conjunturais com um propósito claro de tentar ganhar um espaço político. A sua produção intelectual escrita também segue uma tendência de tentar estabelecer um tipo de autoridade. De mostrar que ele tem capacidade de fazer política e “sabe o que fazer”.

Tanto que nos últimos anos, especialmente no governo Lula, ele anda fazendo muitas proposições do que fazer.

O que fez ele mudar de direção, não sei exatamente, mas é claro que ele quer estabelecer uma oposição de esquerda ao petismo, espaço que antes era ocupado pelo PDT e pelo PSOL (que hoje basicamente compõe o governo junto do PT).

É uma tática que tende a funcionar ? Sei lá, a única coisa que me incomoda é a capacidade de Jones executar o que propõe. Veja, gostemos ou não do PT, a questão que hoje, por serem um partido tão grande e que ocupa várias esferas de poder diferentes, apesar dos tiques liberais, o PT é o único partido de esquerda com capacidade de executar o que propõe, por mais rebaixado que seja.

O problema do PT não é tanto Lula, a questão é que a esquerda de uma forma geral, tem uma dificuldade gigantesca de organizar as pessoas, colocar elas para militar de forma mais dedicada, de ocupar outros espaços também fora da institucionalidade e isso dificulta muito fazer mesmo políticas de esquerda recuadas.

Existe um medo do povo, justamente porque hegemonicamente não existe um
“progressismo mínimo” geral na população. É no mínimo uma ingenuidade acreditar que fazer política pública é sempre algo de caráter de esquerda, a direita faz e faz muito mesmo que não admita.

Por isso, quando o PT quer conquistar novos eleitores, ele recua. Porque ele não se propõe a combater o conservadorismo, ele quer justamente compor com os conservadores. Basta a gente ver a postura de Boulos (que quer ser prefeito com apoio do PT) ele evita “parecer radical” e quer se tornar alguém mais palatável para eleitores conservadores - digo, empresários que vão financiar a campanha.

E assim, é muito claro que o PT, olhando assim para a maioria dos partidos de esquerda, não tem necessariamente aquele velho marxismo estudado, sistematizado, o PT não tem mais os intelectuais de antigamente (e o que não falta é ex-petista frustrado com o caminho do PT, seja na academia e mesmo na política, o que são partidos como PCO, PSTU, PSOL, dos que racharam em 2003...) e tem uma dificuldade enorme de fazer novas lideranças.

É possível acreditar que o PT faz o que faz, acreditando que é muito radical na esquerda.Que desses programas liberais vai sair alguma revolução. A questão é que o PT não supera o liberalismo ensinado desde o berço, mas tem, digamos, intenções de fazer um programa de esquerda. O liberalismo tem uma certa tradição popular também.

O Brasil tem uma situação muito interessante : o maior partido que é considerado de esquerda é no máximo social-democrata, esse é o “campo democrático” - Enquanto a esquerda radical muitas vezes está mais preocupada em brigar para ver quem é mais radical e tem muita dificuldade de se coordenar politicamente.

E veja, como a esquerda radical tem dificuldade de fazer política, muitas vezes, ela depende que o “campo democrático” faça algumas políticas para que eles tenham minimamente um espaço para militar. Só que o “campo democrático” não quer que essa esquerda mais radical cresça, justamente porque ela disputa a mesma base.

Isso é uma razão para o PT não avançar tanto, ao mesmo tempo que existe sim uma limitação ideológica de se fazer política. No final das contas, “o campo democrático” acaba servindo muito mais como uma limitação para uma esquerda radical que tem dificuldade de sequer se estruturar.

Será que a gente tem esse tempo para recolher as nossas partes ? Veja, eu entendo Jones tentando puxar a janela de Overton para a esquerda e tentando reviver os fantasmas do trabalhismo e do nosso movimento comunista.

Hoje a coisa que mais me incomoda, tanto de forma pessoal, como política, é que não existe a ideia mínima de que se você se organizar em grupo, você consegue fazer muito mais coisas do que sozinho. A gente precisa dizer o óbvio : vivemos em sociedade.

Todo mundo age como se fosse um John Wayne, o problema é que alguns cowboys atiram com metralhadoras enquanto outros têm estilingues.

Num mundo que todo mundo quer chegar no topo da pirâmide, vence quem já começa no topo. É literalmente uma questão de quem tem mais força e o jogo não começa bem para o nosso lado.

Eles já começam na frente, porque eles têm capacidade de coordenar politicamente a sociedade através do dinheiro. Até a gente convencer o militante para panfletar, eles conseguem pagar um monte de pessoas para fazer a mesma coisa e sem precisar convencer ninguém.

O dinheiro tem esse caráter fetichizado, essa propriedade quase mágica de tornar material o que era só uma ideia. Hoje, se você tem dinheiro, você tem capacidade de fazer praticamente qualquer coisa, não precisa tanto convencimento quanto um debate público.

A única língua universal da burguesia é o dinheiro, se você não se parece com dinheiro, você não vai conseguir fazer nada. Lula com certeza entendeu isso muito bem.

Veja eu não estou querendo condenar o PT, nunca foi compromisso do PT ser socialista, a questão que eu quero apontar, é que não basta fazer uma boa crítica.

A questão central, minimamente, como que a gente pode fazer política, ou seja, como que nas condições atuais nós podemos construir um movimento capaz de direcionar um embate político para a revolução ?

A revolução, e nisso concordo com Jones, não é algo para o futuro, da mesma forma que quando contamos história não estamos falando do passado, quando desenhamos um futuro estamos expressando nossos desejos do presente.

Veja, nós precisamos superar aparatos organizativos do tamanho do mundo. Por acaso, você já trabalhou numa empresa grande ? Ou já observou alguma repartição pública ? Um hospital ? Uma prisão ?

Não é um bom discurso, uma análise perfeita da realidade que faz uma empresa funcionar, é justamente essa organização social - essa engenharia social. Você cria processos na sociedade que não precisam de convencimento ideológico, pode até ser que existam pessoas que fazem as coisas por convicção, mas a questão é que a sociedade é organizada de tal forma, que pouco importa o que alguém individualmente acredita. Por isso todo lugar existe essa sensação generalizada de castração, de apatia, nós nos sentimos pequenos num mundo desse.

A nossa grande vantagem é a capacidade de racionalizar isso, de tomar nas nossas mãos a capacidade de direcionar o nosso caminho como classe.

Enquanto o que a gente chama de “sistema”, funciona quase que de modo irracional, como uma máquina, nós temos uma capacidade de compreender esses processos “irracionais” e através da ciência construir algo completamente novo.

É sobre entender como funciona, por exemplo, a matéria física do metal, para forjar a ferramenta que precisamos para sobreviver. O trabalhador consegue fazer isso, que burguês consegue fazer algo desse nível ? A questão é que eles têm o poder político, eles têm recursos, eles privatizaram tudo e tornaram a propriedade privada sagrada para ter controle sobre tudo. Nós somos obrigados a servir eles porque não temos mais nada.

Nós temos plena capacidade de transformar o mundo, não por uma questão metafísica qualquer, é material, nós que trabalhamos, nós que fazemos as coisas.

Quem sabe cozinhar, caçar, plantar, por exemplo, tem mais capacidade de sobreviver na natureza, nós só temos essa dificuldade porque nós somos espoliados. Pergunte para o vendedor de seguros telemarketing se ele tem um seguro, pergunte para a cozinheira de um restaurante se ela come tanto quanto ela cozinha, pergunte a si mesmo se o que você faz fica com você ?

O pulo do coelho está aí. Repito o que já disse num outro texto, e vejo que existe um certo consenso, Jones anda muito trotskista, isto é, ele sabe agitar, é popular, tem discursos muito bons, até tem uma consistência teórica, mas na hora de fazer as coisas, age de forma extremamente idealista.

A organização popular e a revolução sozinhas não vão nos salvar, no dia 2 da revolução tudo vai precisar ser construído para ter capacidade de servir ao povo e olhe lá, pode ser que a gente fracasse, pode ser que demore para gente chegar lá, a questão é que a realidade não se faz sozinha, nós precisamos tomar nas nossas mãos o nosso destino, só assim temos alguma chance mínima de sobrevivência.

Se o que dizem sobre a "conspiração trotskista contra URSS" é verdade, mesmo essa conspiração precisou se organizar, ganhar informação, trabalhar com hierarquias, burocracias, códigos, etc. Veja, eu não condeno Sr. Trotsky por supostamente ter feito isso, na verdade, devemos admirar a capacidade do trotskismo ter se tornado sozinho uma nova linha política, essa capacidade criativa no mínimo deve ser reconhecida e a gente precisa criar a nossa - Uma linha brasileira do marxismo, e Sr. Jones contribui para isso e espero que ele consiga criar o marxismo-nordestino...

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15 março 2024

Partido dos Trabalhadores à direita ?

Eu vou assumir aqui uma postura de que você, meu caro leitor, saiba a importância da memória histórica. Se não souber, eu recomendo o João que ele explica nesse vídeo e leu uns textos da AND e do A Verdade sobre o tema.

O que eu quero abordar é mais a questão do que a gente está vendo, qual é o movimento político que o PT está apresentando ? Para isso, eu vou me usar de uma citação de uma matéria do jornal Bahia notícias, ela segue assim : 


"Durante uma reunião da federação em Salvador, na última quarta-feira (13), um questionamento causou embaraço aos membros partidários. Segundo presentes no encontro revelaram ao Bahia Notícias, um quadro da federação questionou sobre a permanência de André Fraga no PV. Uma das fontes relatou ao BN que a saia justa fica por conta da postura de outros vereadores da Federação Brasil da Esperança com matérias apresentadas pelo Executivo Municipal. "E Suíca (que é do PT), que vota com [o prefeito que foi vice de ACM Neto, vice presidente nacional do União Brasil] Bruno Reis às vezes? E Tiago Ferreira? O próprio Hélio Ferreira, do PCdoB", disse um integrante em condição de anonimato.
 
Os exemplos de "adesão velada" à gestão, que não passam necessariamente por votação em Plenário, foram citados à reportagem, incluindo durante reuniões conjuntas da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara de Vereadores. Um dos casos relatados ao Bahia Notícias por vereadores é sobre a apresentação de um relatório no colegiado, presidido por Paulo Magalhães, do União Brasil. Durante a leitura de um parecer, Suíca pareceu "muito empenhado" em acompanhar o relator, mesmo com questionamentos de colegas de oposição sobre a matéria em questão. O movimento causou estranheza inclusive em seus correligionários petistas." LEIRO, G. L. /. Adesão de vereadores do PT a projetos de Bruno Reis “dá fôlego” para André Fraga continuar no PV. Disponível em: <https://www.bahianoticias.com.br/noticia/290200-adesao-de-vereadores-do-pt-a-projetos-de-bruno-reis-da-folego-para-andre-fraga-continuar-no-pv>. Acesso em: 15 mar. 2024.



Com esse elemento, somada alguns outros movimentos que o PT vem fazendo, me fica me parecendo claro que o que está acontecendo, é que existe internamente, pelo menos uma boa fração do partido, que acredita que a melhor forma de combater o bolsonarismo/conservadorismo, não é nem puxando as temáticas para a esquerda, mas ocupando o que seria espaço do conservadorismo e no processo, o próprio PT acaba dando umas guinadas para a direita. Note que existe para a direita um desconforto com o fato do PT estar compondo até bem demais com a própria direita, enquanto existe um certo descompasso com parte da militância que ainda é "progressista".

Só o fato do próprio governo decidir se auto impor um teto de gastos e ainda por cima com meta zero, e caso não cumprir isso, um crime de responsabilidade na cabeça do presidente, de à todo custo evitar um conflito contra o bolsonarismo/conservadorismo e em muitos casos, aderindo à essas políticas públicas da direita com um véu mais arrumado - tudo o que me parece é que a ideia geral é agradar tanto a burguesia que o bolsonarismo perca espaço e esse campo da direita, o PT passe a ocupar. A idéia parece ser recuar a ponto da extrema-direita perder esse contato com a direita conservadora mais "moderada", que é a que tem grana.

Esses cancelamentos dos atos apontam para uma guinada para direita na disputa ideológica, se Hamilton Mourão, que foi vice de Bolsonaro aprovou, isso só indica que o PT quer estar no meio de conservadores “arrumadinhos” - vide Joice Hasselmann e Simone Tebet. Arthur Lira mesmo não enxerga como alguém dentro do campo da extrema-direita, "ele é alguém que dialoga" segundo o que ele fala na sua entrevista no Roda-viva.

Ou seja, me parece que o PT não quer nem disputar tanto a hegemonia na esquerda, tanto que isso permite que muitas vezes o PSOL, que por enquanto não capitulou (é o que vamos ver nos próximos anos), ganhe destaque na esquerda, mesmo que ele tenha infinitamente menos deputados, senadores, vereadores e seja um partido infinitamente menor que o PT.

“Ah mas o PT faz política pública” - meu caro, isso é o mínimo, até Reagan, Thatcher, o imperador Dom Pedro II, Pinochet, Mussolini e cia, faziam alguma política pública. Fazer ou não política pública não é uma coisa que determina a sua posição política, a questão é o que você faz com essa política, isso que a gente precisa observar.

Por exemplo, no governo atual o BNDES está sendo usado para financiar o processo de PPP para privatizar grande parte dos serviços públicos, oras bolas, isso é assistencialismo para rico que ainda não tem uma renda garantida e sem perdas, de administrar um serviço público.Vai dizer que isso não é uma política conservadora ? E note, que existe um tamanho tremendo, é onde basicamente o orçamento todo é direcionado.

Enquanto as universidades públicas sofrem risco de não conseguir terminar o ano por falta de orçamento, não falta dinheiro para as polícias militares e sem fazer nenhuma mudança na lógica militar ideológica da corporação (que o governo inclusive fez um decreto para incluir no exército nacional). Então assim, ao que tudo indica, o PT não quer mais ser aquele partido de esquerda liberal, a gente não pode esquecer por exemplo, que o PCdoB abandonou aquela estética socialista para adotar uma verde-amarela, tentando pegar aquele eleitor do Bolsonaro nas eleições municipais de 2020 (posso estar confundindo, mas eu tenho certeza que isso rolou, me mande mensagem se estiver errado).

Me parece que o sucesso eleitoral da direita (que não se resume só a eleição de Bolsonaro, mas sim, tanto em 2020, 2022, ocupando vários cargos diferentes) faz com que esses partidos de esquerda do “campo democrático”, que abandonaram muito aquela velha militância de rua, de instituições, de fazer combate ideológico, etc, vêem isso como uma ameaça para sua própria capacidade de mobilizar numa sociedade que não é mais tão “progressista” como antes, nós estamos falando de ethos reacionário geral e que não tem por parte dessas máquinas partidárias, nenhum grande esforço de disputar consciência.

Então eles tentam ganhar de partidos como União Brasil, PMDB e cia, o eleitorado conservador. O PT hoje tenta ganhar muito mais o eleitor descompromissado com política (e pensa a política unicamente de forma eleitoral), do que disputar consciência, ocupar espaços, etc, etc.

Será que o crescimento da esquerda radical não foi um crescimento, mas na verdade um encolhimento do “campo democrático” ? Será que na verdade estamos falando de partidos que podem até ter nomes populares no nome, mas que já não tem mais nenhuma consciência minimamente de esquerda ?


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14 março 2024

Pensamento Galo de Luta

Eles têm o monopólio e o controle do ódio!

 

Muitas pessoas têm me perguntado sobre como fazer para organizar o ódio. Você precisa descobrir quem é seu verdadeiro inimigo, na maioria das vezes nosso inimigo utiliza espantalhos para nos manter alienados e dispersos, nosso inimigo sabe que o ódio que carregamos pode destruí-lo e por isso ele se encarrega de criar esses espantalhos, que podem ser políticos, policiais, pessoas de outra tonalidade de pele, outro bairro, foras da lei, professores, funcionários públicos e até nossos pais são milhares os espantalhos que nosso inimigo cria a fim de nos manter alienados e dispersos. 

Como eles fazem isso? Eles têm o monopólio e o controle do ódio eles têm o poder de nos colocar contra nós mesmos e assim conseguirão sempre se manter no poder e fazer a sua manutenção! 

Faz o cálculo comigo: Como você consegue odiar tanto um político corrupto seja ele de esquerda ou direita não importa, e não consegue nem ao menos questionar quem o corrompeu? Você odeia quem recebeu uma mala de dinheiro, mas nem ao menos questiona quem o deu essa mala de dinheiro e por que? Você odeia o policial que te deu um tapa na sua cara, ou assassinou alguém próximo ou parecido com você, mas você não questiona quem autorizou eles fazer isso? Foi o governador? O Presidente? 

Nunca questionamos o topo da pirâmide sempre desperdiçamos nosso ódio no meio dela com alguém descartável seja ele um policial, seja ele um governador, ou presidente, ou seja, organizar nosso ódio antes de tudo é descobrir quem de fato é nosso inimigo, quem tem tanto interesse em nos ver sofrer que gasta milhões, bilhões e trilhões para que isso aconteça, quem tem esses trilhões pra comprar almas? 

Estude, se exercite, medite, descubra quem controla os espantalhos ao seu redor, organize seu ódio e direcione no lugar correto, não perca sua energia odiando espantalhos e nem a si mesmo, cada um tem a sua forma e seu despertar o meu foi esse cara da foto (Malcolm X) que de trambiqueiro, ladrão e traficante se tornou um dos maiores revolucionários da história, ele foi assassinado porque despertou sozinho e tomou uma atitude sobre isso, ele deu sua vida pelo despertar de outros. Desperte e organize seu ódio!
 
Galo de Luta 
(Só para deixar salvo para sempre)

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report 022

De tempos em tempos, eu vou lá no Facebook pessoal e lá tem gente que usa ainda, muita gente eu adicionei eu nem sei porque. Tem muitas meninas trans por lá, é uma coisa que me chama atenção, quase sempre a pessoa faz GP ou faz conteúdo adulto. Sabemos bem a estatística que a Antra divulga e realmente, me parece uma coisa que todas nós “somos obrigadas a fazer né”. Eu sou uma exceção que não faz e nunca fez, e ainda chegou na universidade pública, mas mesmo para mim, não parece que existe algum horizonte diferente.

Aqui não é um tratado sociológico nem nada, é só um relato pessoal mesmo. Mas uma coisa que eu acho assim, essencial de qualquer relacionamento humano, seja algo físico, família, amigos, colegas de trabalho ou algo parassocial como a internet, ou a relação que a gente tem com deuses, celebridades e etc, é que a gente se vê naquilo que gosta.

Por exemplo, gostar de Beyoncé, não é só uma questão de gosto musical ou sei lá, as pessoas sentem que aquela história (ou mito, melhor dizendo) ressoa com a própria história delas. Ainda que sei lá, boa parte seja uma invenção, o ponto não é se é verdade ou não, e sim que aquilo tem ressonância em você.

Todo mundo sofre, Jesus é o símbolo máximo do sofrimento, por isso ele é tão popular. O mesmo vale para os Beatles, alguma coisa neles reproduz valores num alto número de pessoas. Tanto Jesus, como os Beatles, têm histórias, símbolos, ideais, que as pessoas que gostam reproduzem.

(Claro que isso não é necessariamente uma regra)

Isso vale para um familiar que você gosta, para um amigo, para alguém que você namora. Ali existe alguma coisa naquela história que você vê e quer fazer igual, quer levar junto de você.

Isso por um lado, um outro esforço que a gente faz é olhar em volta e tentar ver o que outros estão fazendo da vida para a gente se guiar no que fazer.

Depois de muito observar, eu cheguei a conclusão que as pessoas não tem ideia nenhuma do que estão fazendo. Pode ser uma coisa do caos da vida ? Pode, só que ainda assim, existe uma direção, um caminho, alguma noção mínima de como navegar entre esse caos.

Se isso fosse uma coisa dada, seria impossível para a humanidade navegar no oceano, construir estradas e fazer trilha. Nós temos a capacidade de desbravar o desconhecido e tentar fazer ele conhecido, existe uma possibilidade de entender o mundo, mesmo que minimamente, para viver.

Aí eu olho as pessoas e vejo que tudo se baseia na sorte. É roleta russa do PJ, do CLT arrombado, do app, dos app de Bet, etc. É muito foda ver que, sei lá, “é isso mesmo”.

Não tem uma mínima direção. Aí eu real, fico vendo a vida de todo mundo piorar e não existe nem uma organização, nem do grandalhão do Estado, para evitar que tudo vire uma loucura sem fim ainda maior.

Gente, eu duvido que vocês vão se aposentar. Eu mesmo, não tenho nenhuma expectativa de que eu vá fazer uma carreira ou algo assim. Os professores que a gente tem aula na faculdade, são os últimos do tipo, do jeito que a educação vai, não vai existir mais tanto doutor, até porque quem se forma agora, vai para onde ? Para o desemprego, para o app, para uma indústria de serviços, para o trabalho autônomo ?

Até para não deixar esse texto uma literal tese de TCC (até porque ninguém lê esses posts), volto às meninas trans. Fico vendo que a gente não consegue fazer nada na vida, tudo a gente é excluída e quase sempre a única forma de ter espaço para fazer qualquer coisa é sendo GP.

Isso me incomoda não por uma questão moral, aqui é um blog satânico, não tem isso aqui por aqui, mas porque sinceramente, por que não tentar algo diferente ?

“Ah mas as pessoas não tem escolha”, isso é verdade e o meu argumento pode até ser o meu impulso autodestrutivo falando, se você literalmente não tem nada para perder, maioria de nós nem vai ter enterro, o nosso nome vai ser apagado da história, as pessoas precisam se esforçar para respeitar a gente minimamente, por que a gente não constroi nada entre a gente ? Por que existe uma dificuldade tão grande de ver que para sobreviver a essas condições péssimas de vida, a gente precisa se juntar e tentar fazer o melhor que der ?

Me incomoda muito assim, por que tudo vira bet, gp, aplicativo, tráfico de drogas, agro e garimpo ilegal ou sei lá que de ruim existe por aí ?

Eu sou o tipo de pessoa que tanka muita coisa e consegue ser independente e as porra, mas eu não gosto de ser assim. Sei lá, eu gosto de companhia, mas eu tô vendo que a única forma de eu conseguir fazer qualquer coisa na minha vida é literalmente virando a porra de uma malhada que faz exercício todo dia, escreve mil livros por semana, lê sei lá o que e ainda sabe manipular muito bem essas tecnologias atuais.

Se a solução para você viver bem é ter que virar o Thanos lutando contra o universo, o mundo tá realmente muito fudido.

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13 março 2024

Sou contra o individualismo mas…


Não quero entrar em nenhuma teoria tão profunda, estou mais satisfeita em só expressar algumas frustrações.

Primeiro ponto essencial : não é necessário ser um gênio para perceber o que vai acontecer no Brasil, da mesma forma que alguém olha a trajetória de um objeto e consegue ver onde vai cair, é muito fácil saber que as coisas vão piorar muito rápido daqui alguns meses.

Estamos em março, daqui a pouco pegamos as propagandas políticas, toda aquela agitação política e animosidade normal das eleições, com o problema que a gente tem uma esquerda liberal, que é hegemônica, que quando vai criticar a esquerda radical não cansa de dizer que tem gente nas instituições, que está nos sindicatos, que está nas massas, porém é completamente incapaz de fazer uma mobilização política mínima.

Não só isso, demora alguns meses para as pessoas sentirem algumas políticas públicas, estamos chegando próximos da metade do ano, é quando geralmente nós começamos a ver o resultado de algumas políticas públicas, como o teto de gastos.

Então assim, não precisa ser um gênio para perceber isso, basta viver no Brasil. Enquanto isso, o fascismo se mantém mobilizado. Uma coisa é estar numa organização, saber disso e não fazer nada, outra coisa radicalmente diferente é se organizar para combater isso de frente - ou o fascismo não é um problema ?

Segundo ponto : Chorem para Lenin, chorem para Stalin, Mao, para os positivistas, para a filosofia estruturalista, para Nietzsche e os pós-modernos (inclusive fica a sugestão de nome para banda) e se ainda não tiver chorado o suficiente, chorem para Fisher.

Se tem um mito moderno que é problemático é essa noção de sujeito/indivíduo. Você é um animal social, você é a dialética entre o ambiente e a mistura de coisas que você chama de eu. Se a gente tem um determinado problema na nossa vida, nós precisamos observar exatamente, que ele não surge magicamente na gente - ele é um problema social, ainda que existam coisas que aconteçam internamente.

A sua ansiedade, a sua depressão, mesmo a sua TDAH, o seu TEA, etc, não são uma condição apenas sua, a gente pode falar inclusive em doenças sociais. Tem coisas que só são problema porque nós vivemos no capitalismo e precisamos ser máquinas de produzir lucro para alguém.

Então, tem coisas que só são resolvidas coletivamente. É uma questão de compreensão mínima da realidade, não precisa nem ser marxista para entender isso. Desemprego não se resolve com boa vontade, fome não se resolve com doações esporádicas, transfobia não se resolve falando bonito e pedindo paz, tudo isso depende de uma organização social constante e com capacidade de ser reproduzida em outros lugares.

O que estou dizendo é : você não cobra as pessoas por problemas que são sociais, isso é privatizar o stress e é um puta de um pensamento mágico achar que sozinho se resolve tudo.

Enfim, a questão que eu quero colocar é que isso não se resolve com boa vontade, com flores, com carinho na cabeça - Se resolve fazendo alguma coisa. E como eu falei no meu texto anterior, eu já acho que nem importa tanto se estamos falando de marxistas-leninistas, situacionistas, anarquistas, anaco-niilistas, ecoanarquismo, etc, para mim a questão é que falta fazer algo.

E eu tô olhando inclusive para você Estado brasileiro, você assim como nossos amigos da esquerda radical, não planeja nada, age de forma desorganizada, enquanto você se preocupa aí com militante pequeno de esquina, a burguesia dilapida o próprio Estado burguês, vende a preço de banana. (Me oferecer vaga, não serve né ? Gastar banda para ler esse texto você consegue…tô de olho…)

Estado brasileiro pare de ser tão inútil, você está brincando com a segurança nacional. Se você tá lendo isso, vá pelo menos direcionar verba PARA AS COISAS FUNCIONAREM KCTA.

Os investidores, latifundiários e pequenos industriais estão pouquíssimos interessados em preservar o próprio país.

E assim, eu nem julgo os policiais, militares, milicianos, criminosos, afins, que se submetem à servir esse sistema, questão é que a gente vive num mundo violento, difícil de viver, injusto, ser bonzinho paga as contas e te possibilita conseguir fazer as coisas ?

Pessoal julga tanto quem se prostitui, mas quem oferece uma ajuda mensal, uma moradia, alimentação ? Quando a gente precisa ninguém ajuda.

Se vocês odeiam tanto essas coisas, comece por ajudar as pessoas a não terem que precisar recorrer a essas coisas, né ?

Infelizmente, eu vou ter que recorrer à confiar na narrativa do Ciro Gomes/Jones Manoel/Krepe, mas o governo abriu uma brecha para empresas de venderem os precatórios para os bancos (e veja o vídeo, eu não domino esse assunto), mas assim, muitos desses lesados são aposentados, gente que trabalhou e por algum motivo, não recebeu o que deveria receber.

É gente que cresceu ouvindo que trabalhar é bom, que trabalho honesto é recompensador, e você cria uma situação onde exatamente o oposto acontece. Você velho, com várias doenças, mal consegue fazer as compras do mês, está cheio de dívidas, é isso que você recebe pelo seu bom trabalho ? Enquanto o que não falta é bandido, miliciano, etc, ostentando dinheiro em festas e a porra toda ? É foda, de um lado você fodida, mas tem “dignidade” e mal consegue comprar um lanche na rua e a “vagabunda” viajando pelo mundo.

Isso me pega muito. Desculpa Erika Hilton, ANTRA e cia, sou obrigada a criticar vocês, adianta a gente bater na tecla que grande maioria das trans faz programa, que elas morrem, que isso e que aquilo, se a gente não se organiza para lutar contra isso ?

É ridículo no meu ponto de vista, a rivalidade que existe entre travestis, o tremendo sectarismo entre umas trans que se acham a última bolacha do pacote, das meninas que se acham a própria Judith Butler falando de gênero, das meninas que brigam por ponto, etc. (E aqui eu tô falando das mulheres trans, eu nem vou comentar o apagamento dos homens trans e a discussão homérica sobre os não-binários).

O que eu vejo na grande maioria dos casos é o seguinte : a menina consegue as coisas, ela se isola, vai viver a vidinha dela. A gente tem uma dificuldade tremenda de se organizar de forma mais ampla.

Veja a prostituição, a produção de conteudo (adulto ou não), a formação acadêmica, a carreira corporativa ou política, NÃO MUDAM NADA A VIDA DA PESSOA TRANS. Você continua na sua condição subalterna da mesma forma e não muda porra nenhuma.

Talvez você morra num caixão feito de ouro. Eles não vão deixar de matar a gente porque a gente tem peitão e bolsa cara de grife.

É um milagre a ANTRA existir, porque a ideologia liberal corroi a maioria das pessoas. Por conta de uns individualismos tacanhos e reacionários, é quase que impossível se organizar.

Ainda tem o elemento de “X não é trans o suficiente” - Jesus, como é tóxico e adoecedor ter que aguentar, de um lado uma sociedade transfóbica e dentro da comunidade trans, umas brigas que as pessoas nem sabem da onde vem.

É isso que me incomoda para o futuro. Não tem emprego, meus caros. É viver de escravo em app, é você se vender seu corpo na rua ou na internet, ou sei lá. Qual alternativa existe além da morte ? Vocês conseguem imaginar ?

A falta de horizonte existe justamente porque não tem como fazer tudo só, você precisa que as pessoas se organizem coletivamente e façam as coisas. Se ninguém faz nada, não há futuro.

Chore o tempo que quiser pro inútil “campo democrático” - se a gente sabe da fraqueza deles, por que a gente não tenta ir para cima e ganhar espaço ?

Me surpreende que não existe uma noção mínima de : existe um problema, será que a gente consegue trabalhar em equipe para resolver ?

E assim, a gente não está nem numa discussão de como organizar, como fazer e tal, o que pode melhorar, porque existe esse vácuo tremendo de vários nada sendo feito. (Eu tô olhando para vocês anarquistas também)

Às vezes, as pessoas até acertam em dizer que a sociedade é patrimonialista, ou sei lá, idólatra de pessoas e figuras, mas não apontam qual é o efeito prático disso.

A gente organiza as coisas no Brasil esperando que alguém sozinho vá resolver tudo MAGICAMENTE. Essa é a questão.

O trabalho de você criar uma organização leva tempo, leva uma certa maturação e no Brasil não só, não se espera isso, como se espera que um líder apareça para guiar todo mundo.

Liderança é a coisa que menos importa, do que adianta liderar uma organização disfuncional que não consegue cumprir tarefas simples ?

O mais importante é saber se adaptar, não existe uma fórmula mágica, vão existir situações que vai ser importante ter hierarquia e a porra toda, outras que vão precisar de mais flexibilidade e descentralização.

Então assim, para finalizar. Eu não quero cair no mesmo problema que todo mundo, ao mesmo tempo que é cansativo e muito brochante (olha Lacan), ter que me sentir tão sozinha e precisando de ajuda, e pior, eu vejo que TODO MUNDO PRECISA DE AJUDA, TÁ TODO MUNDO FUDIDO e ninguém quer largar o osso chamado Eu.

É tão importante ser um indivíduo que se prefere a própria morte a ter que negar o próprio ego, nem que seja um pouquinho para poder sobreviver.

O problema meus caros, não é essa ou aquela teoria, somos nós, não é o morto Marx, Levi Strauss, Bakunin e cia, O PROBLEMA É A GENTE, POUCO IMPORTA SE ELES ERRARAM, NÓS SOMOS VIVOS E PODEMOS NÃO ERRAR.

E vocês sabem disso, essa é uma outra coisa que me incomoda demais. As pessoas enxergam essas coisas com uma clareza maior que a minha inclusive.

Você quer que tudo se exploda e pronto ? É cansativo, sabe, dá preguiça. No final do dia, sou eu que sou doente com depressão e as porra toda né ? Com certeza é uma loucura minha achar que a gente precisa agir para viver.

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11 março 2024

…Viva os caçadores de vampiros.


Talvez em nenhuma outra época da humanidade, nós tenhamos tido um acesso tão vasto e rico do passado.

De certa maneira, o nosso problema não é tanto a falta de fontes, mas como montar a narrativa. Pode até ser uma coisa que possa ser resolvida com o ensino de teoria da história, problema é aplicar esse tipo de ensino, com que poder, do Estado ou uma organização popular dinâmica e descentralizada ? Isso não é discussão que se encerra fácil, muito pelo contrário, nós precisamos observar o contexto histórico que nos inserimos.

Hoje é um desses dias que eu acordei meio anarquista. Eu acho que a forma mais inteligente de se pensar a sua posição política é de forma conjuntural.

Tem um elemento muito claro que é a situação de urgência que nos encontramos e a dificuldade de se criar laços de cooperação.

E assim, é uma coisa que eu não sei se disse explicitamente, mas muita coisa no Brasil estaria numa possibilidade melhor se a gente fosse, no mínimo, o espantalho do leninismo.

Digo espantalho, porque a situação é tão grave a ponto da gente dificilmente achar o tal do bolchevique da disciplina de ferro das propagandas anticomunistas.

Aquilo que os anos 60 se insurgiram nunca de fato existiu no ocidente, por uma razão muito simples : os aparelhos de repressão são bem organizados e estão muito bem estruturados para evitar que algo como os bolcheviques, os maoistas, etc, surjam por esses lados.

Maior prova disso é a operação COINTELPRO, que foi a maior operação de contra-espionagem dos Estados Unidos da América que visava combater forças “contra a segurança nacional”. Como os comunistas, por exemplo. 

Aqui no sul global tivemos golpes de Estado, justamente com esse propósito muito claro de evitar que uma força revolucionária crescesse, ainda que a gente saiba que a gente estava bem longe disso por aqui.

O resultado disso é uma esquerda bem liberal, que usa às vezes jargões marxistas (ou de forma difusa progressista) e tem uma aversão à organização popular, aquém inclusive da tradição liberal da qual verdadeiramente pertencem. Ainda que exista um número bem reduzido da esquerda radical, entre comunistas e anarquistas, nenhum deles chega perto do tamanho do que é o “campo democrático”.

O que nos falta é uma organização popular, seja de caráter anarquista ou marxista-leninista, ou sei lá, a questão é que nada parece oferecer uma alternativa ao incessante e agoniante estado de apatia generalizada. Fisher é muito feliz quando diz que a esquerda está num estado de depressão clínica coletiva.

Longe de querer entrar no marxismo-freudiano-lacaniano de tipos como o Safatle, que não entendem o limite da “psicanálise social”, mas é muito claro o quanto a ideia do vampiro, do monstro do pântano, das bruxas, dos fantasmas, etc, mesmo num “mundo da ciência”, refletem num sentimento generalizado de ansiedade, de medo das mudanças e se você quiser avançar, podemos até falar em uma esquizofrenia generalizada.

O espectro do comunismo, em essência, não é uma invenção de Marx, é mais uma descrição de uma tendência histórica, um “espírito do tempo”, conversando com o finado Hegel.

Veja, Marx escreve o seu manifesto, a Europa passava pela primavera dos povos, a insatisfação popular era generalizada, era só uma questão de tempo - analisando os elementos da realidade, que alguma hora isso estouraria numa revolta mais generalizada que representasse uma revolução popular.

O socialismo popularizado no século XIX é muito diferente do que se tornou comum no século XX. Quando a gente fala em socialismo no século XIX, nós estamos falando de Proudhon, de Fourier, Saint Simon, o socialismo científico, que se tornou o marxismo, foi ganhando mais espaço na segunda metade do século XIX, início do XX.

A grande questão que eu quero apontar é que nem precisa o comunismo existir, a conclusão de que ele é uma ameaça ao status quo é só uma constatação dos fatos. Basta olhar para a luta de classes antagônicas, basta observar as condições de vida de um e de outro, basta olhar para como a riqueza é distribuída, não é, e isso é muito importante, uma teleologia baseada numa ideia abstrata - É uma análise que surge da análise da materialidade, uma tendência histórica.

Tanto é, que você pode olhar para isso e querer evitar um confronto, tentar negociar, como os reformistas, a própria burguesia e uma parte da classe trabalhadora já o fizeram. Outra resposta é criar um Estado socialista (ou algum tipo de comunidade anarquista) a partir de uma revolução popular. A primeira coisa aconteceu no “ocidente”, a segunda no “terceiro mundo”.

O Brasil não foi um dos países que se tornou comunista no século XX, foi um dos lugares que o imperialismo tratou de sabotar e cooptar antes que isso fosse possível.

Ainda sim, e a gente ainda tem um histórico de partidos de esquerda virando para direita para fazer esse argumento melhor, o comunismo nunca deixou de ser um medo das elites brasileiras, dos aparelhos do Estado, das universidades, dos institutos de pesquisa, da polícia, da igreja, etc.

O curso de Ciências sociais, por exemplo, é todo voltado para trabalhar engenharias sociais para evitar tantas revoltas e guerras, para aprender essencialmente o jogo político, a luta incessante entre as duas classes. O sociólogo está no meio disso, assim como o historiador, o físico, o engenheiro, etc.

Existe essa preocupação de criar todo esse aparato social, do treinamento da polícia, passando pela formação do crime organizado, pelas aulas da creche, pela programação da TV e da internet, etc, é para evitar que as pessoas se organizem e vão tomar o Estado.

Tudo isso me veio ao ver Buffy, a caçadora de vampiros. Veja, o vampiro é essa figura que é imortal por sugar o sangue dos vivos - uma analogia direta à burguesia.

O que é interessante desses dois episódios iniciais de Buffy é que ela havia mudado de escola por conta dos eventos do filme, eu acho (não vi o filme) e ela só queria viver a vida normal de uma jovem de 16 anos.

Ela não queria ter que caçar vampiros, bruxas, zumbis, lobisomens, etc, o que ela queria mesmo é estudar na escola, fazer amigos, ir à festas (inclusive puta música boa dessa série), quem sabe fazer parte do time de animadora de torcida ?

O que eu achei interessante da série é como ela apresenta a ameaça do vampiro. (spoiler para uma série de mais de 20 anos atrás, mas eu só vi até o episódio 4, 5)

Ele não é explícito. Ele aparece primeiro através dos sonhos. Buffy ignora os pesadelos de vampiros, crucifixos e destruição do mundo.

Isso fica ainda mais interessante quando os sinais começam a parecer no mundo real. Há jornais de jovens desaparecidos misteriosamente e mais tarde se acha um dos corpos dentro do armário de uma das estudantes com marcas de mordidas no pescoço.

Buffy por um momento apenas suspeita que na escola tenham vampiros e veja, a reação dela não é de medo, mas sim de cansaço.

A impressão que eu tive (lembrando que eu não vi o filme) foi que essa história de ser caçadora de vampiros é uma coisa que atrapalha a vida dela.

Impede dela fazer as coisas que ela queria fazer. Voltando para a psicanálise, é um caso de castração, um gozo interrompido - O bom de ser jovem, em tese, é a própria juventude, mas mais importante a vitalidade.

Mesmo que Buffy não fosse uma caçadora de vampiros, a presença deles já cria uma certa aura social de que algo, alguém, está nas sombras planejando formas de sugar a sua vida.

Uma das formas que a gente pode ler Buffy, é como analogia para o trabalho do jovem na adolescência. Veja, ela quer só viver, fazer o que quer fazer, satisfazer seus desejos.

A questão é que ela não pode - ela tem uma tarefa. Por conta da forma que a história é estruturada, é muito claro aquela coisa do escolhido, e bem, é uma série adolescente, isso é esperado.

Eu não sei se Buffy já conhecia o bibliotecário da escola, mas quando ela vai consultar ele, porque ele é um especialista nessas criaturas (para mim, é leia-se um marxista), um rapaz acaba ouvindo a conversa deles e descobre que Buffy é uma caçadora de vampiros.

Mais tarde, isso leva ele e mais uma menina hacker nerd (hoje chamariam ela de femcel ou algo assim), que se tornou uma amiga dela a se ajudarem para tentar derrotar os vampiros que apareceram no cemitério.

Para mim isso é um flerte muito grande e uma certa quebra da ideia de escolhido, com noções mais coletivas de organização.

E assim, existe essa ideia de que conhecimentos “místicos” são meramente pseudo-ciência. A questão é que nesse mundo que ela está, as coisas de fato existem e para derrotá-las, ela precisava ter um conhecimento vasto.

Aí entra a figura do bibliotecário estudioso, da menina nerd hacker que sabe muita coisa sobre tudo e é interessante que o rapaz lá, ele não tem uma especialidade, mas ele sempre está lá para ajudar da forma que pode.

É essa combinação de forças que ajuda Buffy (que tem super poderes e tal) que dá as ferramentas para ela conseguir destruir o vampirão que queria o poder infinito dos jovens para destruir o mundo.

Da mesma forma que a possível presença de vampiros cria essa tensão na escola, a presença de Buffy causa medo entre os vampiros.

É muito nesse ponto que eu quero chegar : Numa situação tão rendida e emergencial, assim como no mundo de Buffy, os vampiros querem abrir o portal do inferno e destruir o planeta, será que a gente não precisa de uma caçadora de vampiros ?

Só o fato de existir um pequeno grupo organizado já faz o grupo de vampiros em maior número, mais poderosos, com mais recursos, tremerem de medo.

Afinal, se existe esse grupo pequeno, será que não existem outros mais bem organizados e preparados, sabendo de todas as suas fraquezas e forças, capazes de eliminar de vez os vampiros ?

  

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