24 setembro 2024

Uma porta de entrada para o debate econômico


O Capital (e muitas das obras de Marx) são considerados livros muito difíceis de se ler. Além de ser um texto grande, ele é denso, complexo. Claro, pensando na necessidade de trazer essa explicação sobre o funcionamento para todos, nós ganhamos de presente o Manifesto Comunista, uma versão condensada dos estudos de Marx e Engels.

Fora que conforme o movimento comunista foi se desenvolvendo, ele foi criando pedagogias, obras de arte, música, textos, etc, que conseguiram popularizar o que a gente chama hoje de marxismo. Da mesma forma que Newton, Darwin, Marx ganhou uma versão pop - uma forma de explicar que poderia servir como uma leitura inicial..

O que me pega um pouco, em algumas figuras do debate público, especialmente o debate sobre economia, é que elas tratam o debate público como algo exclusivo e unicamente um papel de gestores do capital. Isto é, se inventa um código para falar sobre economia que exclui 99% das pessoas.

Se são as pessoas que fazem parte da economia, não seria justo que elas discutissem política econômica ?

Veja, não é uma questão científica de ter termos específicos da economia, a questão vai mais longe : é negada a educação política, isto é, não é um conhecimento ensinado nas escolas para evitar que os trabalhadores pensem uma nova economia popular.

Conhecimento é poder nesse sentido. Saber como funciona a economia, permite a gente pensar uma economia para um determinado fim.

Como esse texto vai ser uma resenha/recomendação, ele não vai ser tão longo. Quero deixar uma recomendação do programa ICL Mercado e Investimentos, de Deborah Magagna e André Campedelli.

Se eu fosse descrever esse programa seria “O que o Manifesto Comunista foi pro Capital” - É esse trabalho de Marx e Engels, em estudar a economia burguesa como ciência e desvelar a natureza do capital como um sistema político social. Tudo isso feito de uma forma popular e acessível para todos, sem simplificar demais e de forma pedagógica.

Na minha opinião, é muito mais importante a gente ter uma capacidade de apontar um alvo nas costas da burguesia, MOSTRANDO MATERIALMENTE como a economia funciona do que apelar para discursos moralistas acusando a “maldade dos ricos”.

A moral é ideológica, ela serve para reproduzir uma determinada sociedade, assim que a gente construir uma sociedade que valoriza bilionário, valorizar bilionário vai ser considerado bom e ser trabalhador vai ser considerado ruim.

Por isso, é mais importante mudar a forma de produzir a vida, isto é, o modo de viver vai mudar como a gente pensa.

O que fica muito claro nesses últimos meses, nos comentários de Deborah e André, por exemplo, que a escolha da política econômica em beneficiar o agronegócio, as apostas no mercado financeiro, agora mais ou menos recentemente as bets : isso gera uma sociedade valoriza muito pouco o trabalho, valoriza o lucro (ou o superávit) acima da vida humana.

De forma muito inteligente, eles nos mostram como que o crescimento é fruto de um investimento público, ainda que tímido (sim, eu to olhando pra essa disputa interna Alckmin vs Haddad). E esse crescimento é visto com maus olhos pelo mercado, porque isso desafia o modelo econômico rentista que o Brasil adotou, principalmente com Collor/FHC. Haddad e Campos Neto conspiram para agradar o mercado de toda forma, enquanto isso um “desastre acontece” : OS TRABALHADORES TIVERAM AUMENTO DE RENDA !!

Aí começa o choro com medo do fantasma da inflação ! Quer ver alguém literalmente pisando nesses caras ? Tá aí, Deborah e André, traduzindo a ideologia burguesa pro bom português brasileiro, sem firula liberal.




Enfim, vejam aí. Fica aí minha recomendação.




Tem essa página que facilita ver os vídeos de forma organizada : https://icleconomia.com.br/videos/




e claro, a playlist do youtube... link

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17 setembro 2024

Teocracia Mad Max e a necessidade de uma organização popular


Tem alguns spoiler de Mad Max Estrada da Fúria, Star wars, Cyberpunk 2077 - nada muito grande, mas né, é spoiler igual.

Sugestão de música do dia - Mazzy Star - Halah

Observando de longe (bem de longe - através claro, de pura alienação ) o cenário político do Brasil, uma coisa é muito clara : estamos caminhando à passos largos para uma versão de Mad Max teocrático sem a catarse da violência dos filmes.

Falando especificamente de Estrada da Fúria, o que faz ele ser um filme tão gostoso de se ver, é a vingança da Furiosa contra o Imortal Joe, a vitória do povo sobre o supremacista branco que tomava todos os recursos naturais para si.

O que Ian Neves não consegue ver em comum de toda distopia (1), seja o apocalipse zumbi genérico, distopias cyberpunk de Phillip K Dick, por fim, filmes como Matrix e cia, é que todos eles tem um grupo organizado de resistência, por mais poderoso que possa ser ou por mais insalubre que seja a situação.

Mesmo se você considerar Star Wars (de uma forma geral, e sim), por mais que o Império seja uma força imbatível e os Jedi sejam a coisa mais bundamole que eu já vi (se a resistência dependesse deles não tinha como derrotar o Império), o que de fato, destrói o Império galático é a organização da resistência.

E a gente se encaminha para uma distopia sem os grupos de resistência. Talvez o mais icônico seja que em Cyberpunk 2077, no ano de 2020, mesmo com o hiper-monopólio das empresas e seu poder quase que absoluto, ainda era possível que grupos de rebeldes lutassem contra as corporações. Nós vivemos o cyberpunk sem todo neon e tecnologia.

Você pode até ver aqui e ali alguma iniciativa de se fazer isso : mas ainda muito carregada de voluntarismo, “boa vontade” e messianismo. São muitas iniciativas individualizadas, seguradas por organizações que concentram trabalho em algumas pessoas, de forma amadora e que espera “boa vontade”, no sentido de que a segurança dos militantes é deixada à boa vontade das autoridades e dos nossos inimigos de classe.

Segurança, não só no sentido físico, digo também, segurança de ter onde comer, viver, trabalhar, etc. Os nossos movimentos mais avançados nesse sentido fazem isso (MST, MLB, LCP, Olga Benário e cia), mas o fazem numa situação de precariedade tremenda.

O que fica muito claro é que nós estamos no máximo sobrevivendo, nós ainda não construímos condições de realmente revidar. Nossos movimentos ainda dependem da letra fria da lei, por mais burguesa ela seja; por mais que a gente queira atuar fora das instituições, nós acabamos por depender delas para não sermos massacrados ou para conseguir conquistar alguma coisa para nós.

A tendência, muito clara, é a de nós repetirmos os mesmos erros de reproduzir o liberalismo radical. Quem dera pudessemos errar como os Soviéticos e os Chineses ?

Veja, é um padrão que se repete, um ciclo que faz parte da reprodução do capital. O PT já foi um partido radical, olha no que deu : por que seria diferente conosco ?


Não, não é possível escalar infinitamente



É sempre bom ler os ideológos do capital atual (2) e ver que eles ainda acreditam nas mesmas coisas do início do século XIX. Com máquinas se tornou possível produzir mais e mais. “Uma máquina equivale à 100 homens” - quem nunca ouviu isso numa aula de história do ensino médio ? Mesmo que não, é um conceito simples : um sapateiro, digamos que produza um calçado por dia; Uma máquina consegue cuspir 100 sapatos na linha de montagem.

Se você precisasse de 100 sapatos num dia, teria que contratar 100 sapateiros; Se a linha de produção for bem automatizada hoje em dia, talvez você tenha um. A IA surge como quem vai substituir a força de trabalho humano intelectual por completo, essa é a grande promessa desses investimentos doidos em IA.

É só pensar um pouco para perceber que isso vai deixar todo mundo desempregado. “Mas novos trabalhos vão surgir com nova tecnologia !!” com que garantia e por que não podemos organizar os trabalhos de forma racional ao invés de deixar ao acaso “das leis do mercado ?”

Se a gente se “adaptou” (leia-se fomos forçados) à revolução industrial, não foi sem planejamento, não foi sem jogar determinados grupos sociais em determinados tipos de emprego, não foi sem inclusive, manter as riquezas de modos de produção anteriores.

E quando a gente fala “mercado”, ele tem um nome muito mais fácil de compreender : burguesia. Ela existe, tem lugar, tem espaço e está presa conosco nesse planeta.

Qual é a ideia central de Sam Altman e outros ideológos da “nova revolução da inteligência artificial” ? Se você tem X número de CPU, e isso equivale à 100 vezes o trabalho humano, se a gente escalar INFINITAMENTE esses modelos de linguagem, podemos praticamente abolir por completo o trabalho humano.

Não entra em questão nem se o trabalho está sendo bem feito ou se esse trabalho está sendo feito para a sociedade; Só que uma IA vai “fazer” mais do que um humano, até porque ela não sofre das limitações humanas (como literalmente PRECISAR DE COISAS PARA VIVER).

Ou seja, se a gente determinar que gerar emojis como uma moeda tem valor para a sociedade, essa máquina de gerar emojis até esgotar toda a energia elétrica e poder computacional, mas será que essa quantidade infinita de emojis sequer vai ter um destino social ? Nós precisamos mesmo de tantos emojis ? É como se você enchesse seu armazenamento no seu computador/celular com cópias infinitas de um mesmo arquivo, você não vai ter espaço para mais nada e o seu dispositivo vai deixar de funcionar.

E a gente volta para as crises de hiperprodução, de novo e de novo, até claro, nós morrermos e a economia nem importar mais nada. Se tinha uma coisa que Marx queria dizer em todo seu trabalho de economia política era isso.

O capitalismo é um sistema de produção muito bom em produzir - é uma impressora de parafusos !!! Mas não tem ideia de como usar o parafuso ou sequer se precisa de parafusos, é uma impressora ligada no talo, imprimindo de tudo até não ter mais nada de matéria-prima para imprimir.

A IA vai resolver esse problema do capitalismo ? Da mesma forma que o torno, ela poderia servir para tornar a produção mais produtiva. Oras, imagina ter que derreter metal e entornar o metal com martelos ? É praticamente impossível, na mesma medida, a IA poderia trazer novas possibilidades - ao mesmo tempo, adianta alguma coisa produzir infinitamente sem nenhuma racionalidade para, destruir o planeta e esgotar TODOS OS RECURSOS NATURAIS ?

A máquina de costurar tirou o emprego das costureiras ? Sim e ainda podemos dizer, as fez trabalhar ainda mais. A máquina morta sozinha faz isso ou É TODO UM SISTEMA ECONÔMICO QUE FAZ ISSO ? Quem faz a sociedade são as pessoas.

Olha que esse meu marxismo tá bem raso, isso é só uma ponta dos problemas nessa noção de que se você ficar transformando tudo em produção de escala vai ter um retorno muito grande. Leia Marx, ele escreveu 3 volumes sobre isso. (3)


É tão difícil assim não ser reacionário ?

Resposta rápida : sim, ainda mais no Brasil.

Agora vai a resposta longa - novamente, observando de longe, alienada, dopada, literalmente pegando para ver Pinguins de Madagascar e rindo das piadas - uma coisa em comum em todo movimento de esquerda no Brasil é o fato de que a gente cresce no capitalismo, numa sociedade desigual machista, supremacista branca, etc, etc.

No contexto geopolítico atual, sem entrar em uma análise muito grande, é muito óbvio o papel que o Brasil tem de cadela do imperialismo na América Latina, mesmo nesses governos “progressistas”. O Brasil é o maior país da América Latina em diversos aspectos, líder regional importante, uma das maiores economias do mundo - O que afeta o Brasil, afeta toda a região e os países que dependem da grande economia do Brasil. Seria importante portanto, numa perspectiva estratégica, buscar relações de cooperação, de amizade, de desenvolvimento regional. Qual é a lógica atual ? Muito discurso, muito pouco trabalho em direção à assumir essa responsabilidade regional.

Atualmente no BRICS, o Brasil é bem tímido em se empreender em projetos de infraestrutura, como a “Nova rota da seda” por “medo de pressões geopolíticas” (4).

Claro que essa presença imperialista no Brasil e na América Latina não foi capaz de impedir por completo todos os nossos movimentos populares, temos exemplos de literalmente de norte a sul no continente americano de construção das lutas populares.

O que me parece evidente dos nossos movimentos no ocidente é que a gente está muito menos disposto em criar organizações sociais novas, de criar uma cultura popular popular (sim, isso mesmo), de realmente pegar um projeto e lutar por ele, criar novas instituições populares, novas formas de produzir a vida em sociedade.

É no mínimo engraçado que no Brasil a gente sempre faz tudo de forma que a gente põe a vida das pessoas em risco, onde todo mundo precisa ser um bom indivíduo e a gente não é capaz de construir uma máquina organizativa (um partido, oras bolas) que é uma arma de luta contra a burguesia.

É sempre o paradigma do profeta - só que dá revolução ! “Nossa visão é a correta, todos os outros estão errados !!”. Só que o seguinte, essa visão correta não é uma visão subjetiva, uma mensagem recebida de Deus, ou uma elocubração acadêmica hegeliana - é a análise científica da realidade que possibilita que a gente tome as melhores ações.

Tô dizendo num sentido bem prático mesmo, sem firula nenhuma, X funciona por conta disso e disso - reproduza e veja se funciona. É ciência !!! Se não funcionar, experimente, tome notas, use da metodologia para alcançar mais precisão nos seus resultados, tente entender o que deu errado e porque deu errado, o que é dar errado e o que é dar certo, etc.

Desde a crise do antigo PCB (a crise recente), eu notei que todo mundo tava muito bonito criticando a postura de um lado e de outro, eu vi pouquíssimas pessoas discutindo de fato, como aquilo aconteceu, porquê aconteceu e onde a gente pode fazer diferente para não cair no mesmo problema (e sim, rachar um partido ao meio é um problema).

Porque, disputa de micro-poder, burocracia que só funciona de um lado, abuso disso, daquilo e tal, existe em maior ou em menor grau, EM TODA ORGANIZAÇÃO. Veja, eu sei que é algo óbvio de dizer, mas bem vindo ao deserto do real. As pessoas são escrotas, pessoas que muitas vezes você admira; o militante mais velho, seu pai, seu professor, etc, autoridades e tal , por mais que saiba uma coisa ou outra a mais que você, está numa situação de desespero de não saber o que fazer da vida tanto quanto você novinho que não vai se aposentar.

O que a gente precisa fazer é exatamente, criar mecanismos para evitar ou mitigar essas coisas que enfraquecem nossa organização. E de fato, analisar, tratar com critério, MÉTODO CIENTÍFICO É IMPORTANTE, para ver de fato, o que podemos fazer para melhorar. O que é melhor ? Melhor para quê ?

Se o PCB rachou, tem motivos, tem causas, tem uma história por trás disso; E PODE ACONTECER CONOSCO TAMBÉM. Da mesma forma que o PT falava de socialismo no seu início, hoje nós falamos também, o que impede de nós nos tornamos PT social-liberal do amanhã ? (Se a gente julga isso como ruim.)

É igual caso Silvio Almeida, a questão individual quem vai resolver são as autoridades competentes; Agora a sociabilidade que cria o intelectual que se acha a última bolacha do pote, que faz o que quiser “porque é importante”, que é famosinho e é o rosto de várias causas sociais, isso não falta - muito provavelmente você conhece outros parecidos. Você depender a imagem do seu movimento, a voz dele, à figurinhas famosas aqui e ali, é pedir para ter um escândalo estourar a qualquer momento.

Veja, nem precisa ser um crime verdadeiro ou falso, pode ser um assassinato como o caso de Marielle. No caso do Silvio, você recebe uma acusação, pronto, o movimento negro perde toda força e credibilidade diante de uma sociedade já supremacista branca ; Marielle morre, toda a organização que dependia dela vai abaixo.

É difícil deixar de reproduzir o reacionarismo, justamente, porque a gente continua reproduzindo as formas de se organizar, pensar e construir a vida dos conservadores. A gente repete as mesmas coisas deles, muitas vezes, sem nem perceber que o problema mora justamente na forma de ser que eles nos ensinam.

O militante age de forma agressiva com outro militante do mesmo partido, porque cresceu num ambiente violento; o partido imita a organização de gestão de grandes empresas por acreditar ser mais eficiente, sendo que na prática, são organizações feitas para esmagar a organização popular; por fim o país, imita os países imperialistas, “porque dá certo lá, deve dá certo aqui também” e não cria uma política nacional própria e soberana.


Como sugestão sugiro estudar no :


https://www.marxists.org/ - (tem em várias linguas e melhor EM PORTUGUÊS, textos marxistas diversos, comece por Manifesto Comunista.)






















(dica, busquem na sua região, sempre tem algum movimento próximo de vocês)



e vou recomendar esse texto do Fisher - k-punk.org/abandon-hope-summer-is-coming/

(da pra usar um google translate se vcs n dominarem inglês)



(se vcs quiserem depois eu faço um post só com sites legais de esquerda - eu acho que vou fazer de qlqer forma depois)



fontes (pq eu sou dessas) :



1. NEVES, I. POR QUE OS COMUNISTAS ODEIAM DISTOPIAS? | Cortes do Ian Neves. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=A6azM-CDavU&pp=ygUTaWFuIG5ldmVzIGRpc3RvcGlhcw%3D%3D. Acesso em: 18 sep. 2024.

2. Moore’s law for everything. Disponível em: https://moores.samaltman.com/. Acesso em: 18 sep. 2024.

3. O Capital. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/capital/index.htm. Acesso em: 18 sep. 2024.

4. Nova Rota da Seda: o que Brasil ganha ou perde se aderir a plano trilionário chinês. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/04/12/nova-rota-da-seda.ghtml. Acesso em: 18 sep. 2024.




ps: sim eu demorei para postar pra fazer um post melhor 🤡





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09 setembro 2024

Só com identidade - um debate sobre o conceito de identidade na política






Todo tipo de texto (leia-se filmes, vídeos e mais) sobre a extrema-direita tem um ponto comum que muitas vezes passa despercebido - a capacidade de se criar uma comunidade.



Ainda que as crenças sejam baseadas em literalmente maluquices, existe uma necessidade de socializar que supera a coerência ideológica da crença. Ela precisa ser coesa para ter uma estrutura, mas não precisa da coerência, isso pode ser ignorado desde que a questão social esteja bem resolvida.



Quando a gente olha tanto para o fascismo clássico, para o neoliberalismo e para o neo-fascismo atual, uma coisa que eles têm em comum é um conjunto de mitos fundadores que possuem algum nível de evidências anedóticas, que não necessariamente refletem a realidade por completo.



Um exemplo atual, é essa ideia de identitarismo. Veja, primeiro que ninguém tem um conceito fechado do que de fato isso é, só por isso, já cria uma pareidolia conceitual, onde cada um enxerga uma coisa com as distorções da sua percepção. Identitarismo pode ser petismo, como lutar por cotas, ou sei lá, ser antirracista.



Pode-se dizer que é dar muita ênfase em políticas ligadas à identidade, mas se levarmos esse conceito no seu limite, fica muito claro que toda política diz respeito a uma determinada identidade, ou os diferentes grupos sociais não são considerados uma identidade ? A própria noção de nacionalidade é uma política de identidade. Porém, digamos assim, denunciar isso é como chover no molhado, já que toda política é baseada na identidade.



Tanto grupos supremacistas, como movimentos antirracistas, também trabalham com uma política de identidade, a primeira em defesa da supremacia branca, a segunda pela luta contra o racismo. A impressão que essa avaliação nos oferece, é que o denunciante do identitarismo, não quer tomar partido, não quer assumir que ele também tem uma identidade, uma estética, etc, então ele “muito inteligentemente” denúncia que todo mundo é identitário (como se ele não tivesse uma identidade e não se pautasse por isso).



A pergunta que a gente deveria realmente nos fazer é : o que você propõe então ? Se a política tem que se tornar essa coisa mágica que desconsidera identidade, o que se propõe para lidar com os conflitos na nossa sociedade ?



Veja, o Estado brasileiro teve uma política de eugenia, que se propunha trazer brancos europeus para embranquecer o Brasil. Isso por si só, já não é uma política de identidade ? Ou quando pensamos na escravidão de pessoas negras e pardas promovida pela Império Português e Brasileiro, isso não se encaixa como uma política de identidade ?



Considerando isso na nossa formação histórica, não seria justo lutar por melhores direitos para as pessoas que sofreram com essa política ? Isso seria política de identidade também ? Seria, a diferença é o lado e que a gente pelo menos é honesto sobre isso. É óbvio, por exemplo, que o movimento negro quer defender a população negra, ou movimento lgbtqia+ quer cuidar da população lgbtqia+.



Pense num sentido prático : como que eu vou fazer política pública sem considerar as diferentes necessidades da minha população ? Se eu preciso distribuir cestas básicas para quem precisa de uma dieta específica, eu preciso identificar quem precisa dessa dieta específica, é simplesmente desperdício de recursos não considerar a diferença.



O que fica claro, é que da mesma forma que toda política é coletiva, toda política diz respeito à uma identidade.



Questão é : qual lado você vai tomar ? É isso que o quem se diz tão crítico do identitarismo não consegue resolver. Uma outra definição de identitarismo que podemos considerar é com a ideia de subjetivismo - é você tratar a política como uma coisa que deve beneficiar ou excluir determinadas identidades baseado no seu gosto pessoal.



Oras, se é uma postura pessoal, que já tem um nome, subjetivismo, por que criar essa confusão com as políticas de identidade ? Se é política, como já deve ser algo que todo mundo concorda, é coletiva. Não tem porque querer confundir. Qual a grande diferença essencial ? Nós estamos do lados dos subalternizados, oprimidos e escravizados desse país.



Veja, no contexto que vivemos, nós sabemos da força que o supremacismo tem (que por sinal, não gosta de aparecer), tentar desqualificar e criar confusão conceitual, na prática, só fortalece o supremacismo.



Impedir os anti-racistas de lutar contra o racismo é ajudar o racismo, não acho que eu precise ir mais longe para te convencer disso.



Esse mito do identitarismo como uma política meramente individualista, como um “desvio pós-moderno”, é como eu disse “ela precisa ser coesa para ter uma estrutura” - isto é, o mito precisa ter uma consistência mínima para ter capacidade de reunir pessoas - é senso comum que justifica opressões.



Essa ambiguidade e essa confusão do conceito, cria uma situação onde se tem uma função muito clara de ser uma forma “educada” de reproduzir mecanismos de opressão (que são também mecanismos de poder). Você denuncia o “identitarismo”, com uma função de não ser explicitamente preconceituoso.



A confusão tem como função criar um consenso de que não devemos lutar por injustiças sociais. É isso que elege, ano após ano, políticos com plataforma EXPLICITAMENTE REACIONÁRIA, mesmo que isso seja contra a constituição (até porque, ela só é válida por algumas pessoas).

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