ᴱᵈᵘᵃʳᵈᵒ ᴹᵒʳᵉⁱʳᵃ ᵉ ᵒ ˢᵒᶜⁱᵃˡⁱˢᵐᵒ ᵘᵗóᵖⁱᶜᵒ
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(Resenha do filme Ele está de volta)
Sem spoilers :)
A história nunca é sobre o passado, ela diz muito mais sobre o nosso presente.
Todos nós sabemos que Hitler morreu em 1945 no seu bunker, apesar das teorias de conspiração afirmarem o contrário. O filme parte da ideia fantástica (num sentido fantasioso), mesmo sem explicação alguma, e se Hitler fosse transportado para Berlin em 2015 ? O que ele pensaria, o que ele faria, ele seria capaz de subir ao poder novamente ? Como ele faria ?
O filme é muito competente em mostrar o reacionarismo em uma sociedade que supostamente é a mais progressista da Europa. A Alemanha do Estado de bem-estar social, do partido verde, dos planos de sustentabilidade e das ciclovias, ainda tem em si os mesmos elementos para construção de uma nova onda fascista.
É muito interessante a eficácia que o filme tem em mostrar a substituição da xenofobia contra o judeu para o muçulmano, ou mesmo contra o resto da Europa.
A ideia de que o branco perdeu seu espaço para lgbt+, veganos e defensores dos animais. É um filme na mesma pegada que Borat, no sentido de que usa entrevistas, abordagens, com pessoas reais para compor as suas filmagens.
E assim como os trabalhos de Baron Cohen, servem em parte como um material antropológico. O humor vem acompanhado de lágrimas porque aquelas pessoas são reais. O absurdo do personagem faz com que as pessoas fiquem a vontade para dizer coisas que nunca diriam em situações comuns. Tem personagem mais absurdo que o próprio Hitler ?
O filme tenta responder a seguinte pergunta : O que Hitler faria em 2015 ? Como ele faria ? O que ele pensa de algumas tecnologias e figuras atuais ? É partindo dessas perguntas que o filme segue.
Uma pergunta que não é respondida e é ela que devemos prestar atenção : Se você pode escolher reviver uma figura histórica importante, de todas elas, por que sempre nós escolhemos Hitler ?
Isso eu digo num tom para gente observar a imensa quantidade de filmes sobre Hitler, ou sobre o nazismo, que são lançados. É claro, em muitos deles, ele é o vilão e etc, etc. Mas o fato da gente sempre voltar a falar dele é parte de um sintoma da nossa cultura atual.
"À medida que uma discussão online se alonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou os nazistas tende a 100%"
Vocês já devem ter ouvido isso. Essa é a famosa lei de Godwin, em grande parte ela é verdadeira, porém ela não tenta explicar porque isso acontece.
O grande problema da sociedade ocidental pós-segunda guerra foi que ela não matou os nazistas, na verdade, muitos dos ex-oficiais ganharam cargos na Alemanha ocidental, cientistas foram trazidos para os Estados Unidos com a operação Paperclip. Quem de fato matou os nazistas e teve papel central na vitória foram os soviéticos.
Houve então uma onda anticomunista justamente por medo que o socialismo soviético ganhasse espaço no ocidente, se perseguiu militantes, fomentou golpes militares, se forjaram guerras, justamente com o propósito central de eliminar o socialismo como um horizonte.
O fascismo de um lado, sempre foi uma ferramenta excelente do status quo contra a classe trabalhadora. Por outro, ele serve também de um excelente bode expiatório para a esquerda liberal (a tal da new left) criticar o status quo sem fazer uma análise mais aprofundada da materialidade, sem de fato desafiar o status quo.
É muito comum essa new left igualar Stalin e Hitler, por conta do "autoritarismo"; Muito comum também ela usar disso para se dizer contra a burocracia, portanto reforçando o discurso neoliberal de privatizações; Há sempre junto desse pacote uma crítica difusa completamente reacionária, cheia de inverdades, sobre as experiências socialistas.
O que é impossível para esse pessoal entender é que o fascismo como movimento não precisa de um novo Hitler ou dele próprio. Nunca precisou. A grande questão é que você pega elementos reacionários de uma sociedade, junta com políticas anticomunistas, junta com a tal defesa do status quo e pronto, você tem um movimento fascista fácil de identificar. Ele em si não é uma causa, é uma consequência das políticas liberais.
Qual é o conjunto de políticas que nós podemos identificar como nazistas ? Eugenia, políticas contra minorias, contra imigração, forte participação privada na economia, ataque a sindicatos, prisões arbitrárias, militarização, etc. Eu não acabei de literalmente descrever qualquer Estado liberal ?
Essa é a questão, o que a esquerda liberal faz é individualizar a questão no nazismo, nas corporações, etc. Mas ela na verdade, naturaliza o capitalismo, para ela não é uma questão de fazer uma revolução, é de criar "empresas mais éticas e sustentáveis". Por isso toda discussão vira Hitler, por isso sempre tem filme de Hitler e gente que centra todo seu debate no Hitler - porque não pode falar do capitalismo. Nessa história Hitler é só o cachorrinho do capital.
Porque não se pode apontar que o ministro de sapatênis ao promover mais austeridade e até privatização em presídio, é tão promotor do nazismo quanto o próprio Hitler. A gente não pode esquecer o papel que o partido social-democrata alemão teve na hora de matar Rosa Luxemburgo e perseguir os comunistas, e de deixar o partido nazista livre para existir e participar das eleições normalmente.
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Novo design, resolvi por um fundo mais escuro e por uma cor azul nas fontes de todas as postagens. A visibilidade melhorou bastante. E mudei meu cabeçalho, tá mais interessante agora. As redes que eu uso ficaram mais claras também. Arrumei a seção sobre (ainda acho que vou mudar, mas já tá melhor que antes).
Enfim, coisas a fazer :
-Reprodução do blog em outras plataformas (considerando Medium por exemplo). A ideia é abusar do SEO desses lugares : Medium ranqueia bem no Google, eu sei que deve ter uns outros espaços (mastodon também costuma aparecer bastante, o Pinterest também, etc) então vou considerar eles também.
-Conteúdos usando vídeos (por exemplo, eu queria muito fazer um texto de música legal que eu ouvi, sobre algum vídeo importante, sei lá).
-Estudando a ideia de por algum som de fundo no blog. Pode ser algo bem background, acho que uma rádio incomodaria demais. Acho que ajudaria a dar um clima, sedimentaria uma estética pro blog. (experimental)
-Sobre temas, eu não sei se deveria pegar um nicho. Eu acho interessante essa experiência de escrever sobre jogos para um público que não joga, sabe ? Música para quem não liga muito para música, etc. Até porque quem lê sobre geografia, química, informática, também vai ter algo sobre filme, jogo, etc. Quero evitar muito essa coisa se você ter um público X e ele ser completamente alienado em outros temas. O fenômeno do gamer, do roqueiro, do nerd, do divulgador científico, reacionários, vem muito porque o criador foca tanto numa coisa só e oculta suas posições de uma maneira que forma mesmo um público reacionário. É o curso natural de uma sociedade conservadora.
-Dito isso, talvez eu devesse deixar mais claro minha posição. Não sei se o Lenin no cabeçalho basta (risos).
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De todo racista, eu acho que ele é o que nos fornece mais elementos para a gente entender a mente de um racista. Esse medo, a forma que o mundo branco perfeito dele é mexido completamente pela nossa existência.
Diz muito também, sobre o papel que a religião tem na construção do racismo. A instituição, o credo, a forma de enxergar o mundo. Qual o ponto que eu quero fazer ?
Tem gente que trata os negros, por mais que não seja um racista explicitamente, como esses seres radicalmente diferente "dos humanos", que tem crenças, uma forma de falar, uma cultura, mas que num nível liberal de tratamento, respeitam, acham bonitinho, até escutam suas músicas se for preciso.
É uma cordialidade formal, um respeito distante, impessoal, protocolar. Nós quando falamos de racismo geralmente apontamos para quem sofre o racismo, como se quem sofresse com o racismo sozinho, fosse o negro e o branco, por algum motivo, coincidentemente, é uma exceção dos diversos casos dos que cometem crime de racismo.
A branquitude, assim como a masculinidade, precisa ser repensada, recontextualizada. A grande questão é que para mudar isso, não basta colocar um "especialista do racismo" e um ministério de enfeite.
É preciso uma mudança radical de perspectiva, coisa que o governo Lula nunca esteve disposto a fazer. Note a situação, o governo promove uma série de políticas públicas que aprofundam mais ainda a reprodução do racismo no país e você é o ministro dos direitos humanos e tem um dos menores orçamentos dentre os ministérios.
Aqui eu preciso citar, porque de tempos em tempos o discurso dele é reproduzido, Ghiraldelli critica Silvio num tom de falar de sua ineficiência, de sua falta de trabalho. Mas a gente não pode esquecer que : 1) Silvio não é político de carreira; 2) Considerando como a academia funciona, mesmo ser espectador fracassado do próprio ministério já basta "como experiência"; 3) É muito claro que o próprio governo que indicou Silvio, assim como a irmã de Marielle, Anelle, Marina, a moça do vôlei Ana Moser (ficou claro que era de enfeite), e o próprio Silvio, como uma expressão de "compromisso" com essas causas - na prática, nós sabemos o compromisso verdadeiro com o rentismo e com o agronegócio.
Quem o Silvio é pessoalmente, se ele quer ser ministro do STF, se ele é palestrinha, se ele tem ego grande por ter livro com o rosto dele na capa, se ele não trabalha, pouco importa - se ele dar chilique e sair do governo agora, ele literalmente não vai sair nenhum pouco abalado.
Pouco importa quem é o Silvio pessoalmente por uma outra questão também : ao dividir seu orçamento, ao pensar suas políticas públicas neoliberais, o governo dá muito pouco espaço para construir qualquer coisa que respeite os direitos humanos, a não ser formalmente.
É uma cova que o próprio governo cavou para si mesmo, Silvio tem pouca agência em relação a isso. Ele pode apontar isso e acabou, ele pode ser a pior pessoa do mundo, quem sai bem na fita é ele. De forma bem vulgar, e uma coisa que o próprio governo pode ficar falando : "é estrutural, a correlação de forças" - mesmo o governo sendo o governo. Pior, Silvio pode sair e ainda continuar amiguinho do governo.
Não, é uma atuação formal. Lembrar a cor do mês, promover folheto pro pessoal lembrar de não ter preconceito e sei lá, fazer palestra. Olhando assim de longe, parece ser exatamente essa função do ministério de Silvio e isso ele faz.
O Brasil tem cota para minoria na universidade. Ótimo, agora a gente chega lá, mas isso significa que a universidade quer a gente lá ? Significa que a forma da universidade ser mudou ? Tem mais gente preta no ensino superior, têm até travesti (eu sou uma, por exemplo), ótimo, mas aí te pergunto : mudou alguma coisa ? Se tem uma coisa que eu sei, é que pouco importa se eu vou chegar no final do curso e que ali, eu sou um pequeno enfeite para a universidade não ser acusada de transfóbica. E para militância liberal isso basta.
Aí o sr. Ghiraldelli, que é incapaz de criticar a política liberal e o trotskismo do governo, que até consegue identificar o individualismo promovido pelo neoliberalismo, e fica aí falando de identitarismo como a grande crítica contra a esquerda não consegue compreender que na verdade, o que a gente tem em excesso, é um bando de liberal idealista muito mais interessado em não parecer racista e deixar os liberal das minorias ter espaço para isso.
É uma dinâmica muito tranquila de entender. As instituições, nós sabemos, mais importante, elas sabem, de seu legado na promoção do racismo, etc. Mas mudar isso, não é você lembrar que existem negros, é necessário uma mudança no poder, na forma de se fazer as coisas, na maneira de se organizar.
Mas assim, é mais fácil para a instituição lembrar que tem racismo e se dizer contra, mesmo que na prática a gente sabe bem a função dessas instituições na reprodução do racismo (e meio que sequer faz sentido elas quererem largar o osso por boa vontade).
E volto a dizer, pessoas como o Silvio fazendo discurso, ele pode ser bom, mau, bonito, feio, pode ser Deus, o diabo, o que for, tem muito pouco a fazer e na verdade, não mandam em nada. Silvio serve para te dizer : estude, vire advogado, um dia você também pode ser ministro. M e r i t o c r a c i a.
A gente sabe que na prática e isso aqui é o mais importante, nós temos muito mais gente que morre tentando do que "chega lá", e esse chegar lá é sempre individualizado, é sempre o tal do "vencedor".
Se a mera existência de pessoas negras, de povos originários, de mestiços, de deuses estranhos e de crenças completamente diferentes da cristã, já deixou o sr. Lovecraft louco. Viver no mundo atual sendo uma minoria não precisa de muita imaginação, nós vivemos o pesadelo.
E assim, por que mesmo nós não temos uma alternativa política organizada ? Ah é mesmo, mataram os comunistas. Detalhe, o viés do debate é sempre liberal, é sempre contra essa organização, é sempre contra a capacidade das pessoas construírem mundo que elas vivem.
O que muitos petistas preferem fazer é criticar a correlação de forças, direcionar suas críticas para o STF, para algum ministro ou voltar a falar do Bolsonaro. Qual é a grande contradição ? Nós saímos de um governo que nem sabia o que direitos humanos e entramos em um que supostamente teria um compromisso maior em avançar nessa questão. Por Silvio, e aqui quero que prestem atenção, é importante porque cria um jogo de cena perfeito. É como eu disse no meu outro post sobre, há uma fetichização da figura do governante e com Silvio não deixa de ser diferente.
Ele serve para o governo dizer que tem compromisso contra o racismo, que defende direitos humanos e tudo o que um bom marketing empresarial diria - ainda que na prática nada se concretize.
E aqui é pensar : Silvio sabe que ele é só isso ? Se sabe, eu mesmo não creio em ingenuidade.
Update 6/9/2024:
E para ajudar mais ainda, Sr. Silvio é pego sendo acusado de abuso sexual, com histórico anterior ao cargo ! De novo, fica claro que na prática mesmo, o ministério era só de enfeite, ainda mais com um ministro abusador.
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Eu ainda não tive tempo para ver onde posso espalhar esse blog. Coisas que eu estou considerando mudar :
-Tornar o design mais interessante, mais estranho, na vibe do blog em geral.
-O modelo de postagens usando os layers eu acho que esteticamente fica bonito. "Ah mas o SEO", mesma coisa sobre os títulos, eu acho que eu prefiro que as pessoas se sintam interessadas e achem isso aqui meio por acaso. (O que não significa que posso mudar depois, mas acho que fica algo interessante).
-Eu acho que eu não deveria ligar muito se X postagem não alcança muita gente, acho que pela natureza do blog, pela forma que eu quero trabalhar os textos, eu acho que eu deveria focar em deixar os textos legais, interessantes, menos truncados, mesmo que eu esteja escrevendo teoria hard.
-É como eu escrevi em report 001, isso aqui é eu começando a construir uma base para algo maior depois. Aquela coisa, quem sabe eu precise da internet para me sustentar. Quero tentar fugir um pouco dessa lógica de comentar sempre a novidade do dia e focar em coisas legais que eu gosto, e eu acho que vocês podem gostar também.
-Sabe o que sinto mais falta ? Só de exemplo, o post sobre Cyberpunk 2077, eu gostei muito do jogo e do anime (eu sei que critiquei e tal, mas gostei), e sei lá, eu queria compartilhar com alguém só por compartilhar.
-A frequência de postagem vai variar muito. Vai ter semanas que eu vou postar muito, outras que eu não vou nem postar nada. A ideia geral desse pequeno projeto é fugir dessa lógica neoliberal da internet de sempre ter uma novidade, uma coisa absurda, algo que está na moda, etc. A ideia é tentar fazer um espaço com outro propósito, com outros valores.
Esse segmento vai ser meio que o patch notes do blog. Coisas do blog, coisas da minha vida, etc. Até.
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(Lucy é para mim é uma referência clara à Lain do Serial Experiments Lain, inclusive a sua história.)
A premissa de um mundo cyberpunk são suas modificações corporais radicais, o mundo neon ultra-avançado, dominado por grandes corporações e a perspectiva da história geralmente é do mercenário, do punk, do rebelde que luta contra esse sistema.
Eu queria ser mais competente e ter lido mais literatura cyberpunk do que jogado ou visto filmes. É muito claro, olhando para a premissa desse gênero, que apesar da ideia ultra-esquerdista radical, falta alguma perspectiva mais analítica sobre aquela realidade, algumas coisas são postas em debate, enquanto outras são naturalizadas, dadas como coisas impossíveis de mudar.
Fui ver a série porque comecei a jogar o jogo Cyberpunk 2077 (não me perguntem onde eu baixei) e resolvi esperar lançarem a DLC para continuar, já que ela me dá mais uma opção de final e eu quero, como boa jogadora de RPG, ter o máximo de opções possíveis. Então, eu resolvi assistir a série (também não me perguntem como).
Durante a minha jogatina, uma pergunta pairava sobre a minha cabeça : como isso aconteceu ? Como uma empresa de jogos grandes me lança um jogo com mensagens esquerdistas tão explicitamente e isso simplesmente não é algo discutido. É interessante que o que se fala de Cyberpunk 2077 da CD Projekt se resume a pequenas polêmicas em relação à bugs e ao fato de você conseguir criar personagens trans, do que o jogo criticar, não só textualmente, mas na construção de seu universo, o mundo capitalista que conhecemos muito bem.
As relações de trabalho arrombadas, os sistemas públicos privatizados, a extrema desigualdade social, a prostituição, o crime como parte da extensão dos interesses da burguesia (basicamente algumas coisas só são crimes porque você pobre comete). De longe, o que mais me incomoda, da mesma forma que me incomoda no nosso mundo, é o fato de que as pessoas ainda enxergam a integração nesse sistema como um horizonte para um amanhã melhor.
As pessoas querem um bom cargo numa boa empresa e estão dispostas a trair, mentir, sabotar, mesmo contra os próprios colegas de trabalho para conseguir se igualar aos grandes CEOs, que por conta da tecnologia são praticamente imortais. As pessoas estudam já com essa perspectiva, as meninas que viram "bonecas" para satisfazer clientes com muito dinheiro tem isso em mente, assim como os mercenários que pegam contratos de "fixers" (que são tipo uns maluco que dão os contratos) com uma ideia de se tornar uma lenda.
A única forma de sair da pobreza é tentar virar uma lenda, ganhar uma boa reputação e ganhar contratos cada vez mais caros. Mas a grande questão, em quaisquer caminhos de quem tente ganhar a vida neste mundo é que ninguém consegue, porque o sistema em si já é injusto, porque é basicamente um jogo de cartas marcadas onde nós aqui embaixo sempre ficamos à sombra do que as grandes corporações desejam para o mundo.
Por mais que a ideia de sonho americano, glamour, permeia todo espaço do universo do jogo/anime, essa ideia é logo mostrada como uma miragem para um mundo cheio de sujeira, crime, espionagem, e por muito fracasso e situações de perda de confiança. Sim, as pessoas são extremamente individualistas e vão te trair o tempo todo por alguns trocados.
O tempo todo, o que acontece, seja no anime, seja no jogo, são demonstrações que não vale a pena tentar. Em comparação com o nosso mundo hoje, por mais que a gente viva em uma situação muito parecida, a situação do mundo no universo do Cyberpunk 2077 é muito pior. Nós ainda podemos, com muita sorte, fazer um concurso público, arranjar um emprego CLT e talvez fazer um trabalho autônomo não tão arrombado. O mundo do Cyberpunk 2077, por exemplo, privatizou sua polícia, seu sistema de saúde, o Estado (assim como na vida real) é só uma bancada de negócios da burguesia.
Em nosso mundo nós ainda temos coisas que paliativamente fazem com que a nossa situação seja amena comparada com o mundo da ficção do jogo/anime. Só a título de exemplo, em nosso mundo você ainda tem alguns sistemas públicos de assistência social, enquanto no Cyberpunk isso não existe basicamente.
É interessante porque há um discurso dentro do jogo que parece radical : ódio às corporações. Mas é como se as pessoas individualizassem o seu ódio só nessas corporações, não é como se houvesse uma compreensão mais ampla de como funciona o capitalismo. É como hoje, tem gente que odeia a Amazon, mas não compreende que a Amazon só existe porque vivemos no capitalismo.
Eu acho que aí é possível compreender como uma grande empresa parte para um projeto dessa natureza. Há uma naturalização do capitalismo como sistema, uma individualização em relação ao problema.
Vamos supor que você queira fazer algo nesse mundo, que você tenha um sonho para o seu futuro, a única forma de fazer isso passa por você ganhando muito dinheiro. Em termos de RPG, o jogo te dá opções de simplesmente expressar mais empatia, companheirismo, criar laços de amizade e não só de ser um mercenário maluco atrás de dinheiro. Mas é importante aqui a gente tentar pensar o seguinte : se você pode fazer isso, apesar desse mundo, isso significa que outras pessoas também são capazes de fazer isso, e se outras pessoas têm essa capacidade, por que não existe uma organização das pessoas como classe contra essa burguesia ?
Por que tudo precisa se resumir a ganhar dinheiro e por que a gente não tem capacidade de construir comunidades para lutar contra o capitalismo ? Até para uma perspectiva anarquista, por que isso não é uma coisa naquele mundo ?
Há uma glamourização excessiva de você tentar ser uma lenda, ou de você tentar ser um corporativo ou uma prostituta, (ainda que exista muita crítica contra isso) e não é posto como horizonte nada de novo. É um defeito nesses pós-marxistas (Mark Fisher, Baudrillard, Debord, cia) que é apontar que o capitalismo é fadado a nos destruir, que sua única função é a reprodução do lucro e pouco importa se a gente morre no processo. Nós chamamos essa literatura de marxista, mas no final do dia o que mais falta na análise deles, apesar de todo floreio teórico, é o elemento prático para destruir esse sistema - que gostem ou não, Marx, Engels, Lênin, Mao e Stalin são capazes de fazer.
Fisher, por exemplo, fala da nossa incapacidade de inventar um novo futuro e de ficar repetindo o passado em nossa cultura. De um lado, eu acho que há uma fetichização excessiva do novo, do outro, eu acho que há perda de memória em relação ao anticomunismo criado no ocidente e não só, como autores marxistas ocidentais e professores universitários diversos, tiveram como papel não só de denunciar alunos e colegas comunistas, mas de criar toda uma teoria social anticomunista.
Por que as pessoas não se organizam ? A verdade é que, tanto no caso da ficção como da realidade, as pessoas se ajudam, elas criam correntes de solidariedade, criam sindicatos apesar da propaganda anti-sindicato, elas organizam autodefesa, organizam cozinhas solidárias, etc - O que limita a capacidade dessas organizações crescerem e se tornarem revolucionárias ? Essa é fácil de responder, elas são criminalizadas dia sim e dia também, elas são atacadas, muitos são assassinados e existe uma propaganda contra esse tipo de iniciativa o tempo todo. Internamente, por conta de uma ideia dispersa e liberal de democracia, muitas organizações não buscam se organizar de forma mais ampla, de profissionalizar o seu trabalho e pensar a sua militância de forma mais tática. Até em organizações que se dizem leninistas, há um abandono da perspectiva da organização em favor de uma ideia de democracia liberal.
E tem sempre ideia de que a "natureza humana" X.
Há essa ilusão de que a única maneira de "ser alguém" é fazendo dinheiro, porque as outras alternativas de criar um "nós" são esmagadas diariamente. É interessante um outro ponto, que Cyberpunk parece insistir bastante, as pessoas mentem, não são confiáveis. Sem confiança se torna impossível construir uma comunidade.
Mas gente, isso é uma perspectiva extremamente idealista de como funciona a sociedade e as pessoas. Sabe uma organização que funciona na mentira, na traição, na falta de confiança e todo mundo passa o tempo todo defendendo ? A família. O problema da família, como uma instituição, não é porque existe mentira e as pessoas são pessoas, o problema da família existe na maneira que ela é organizada.
De um lado, parece a coisa mais adulta apontar que as pessoas podem não ser confiáveis, mas na verdade é chover no molhado para quem compreende que sim, o mundo é absurdamente complexo e cheio de intrigas. Vou até mais longe, não é que todo mundo mente, é difícil para você descobrir quando você mente para si mesmo.
O jogo, para mim, é muito melhor que o anime em questão de história e tudo mais. Eu acho que o jogo me fez perceber o quão é valioso você, por mais limitado que seja, ajudar as pessoas, criar laços de amizade, num mundo individualista selvagem. Como faz falta uma comunidade, o contato, participar da vida de alguém, construir uma coisa coletiva.
Enquanto a gente não consegue se organizar de forma mais ampla, às vezes uma relação de amizade é o que basta para plantar aquela semente para uma revolução.
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É o que eu vou tentar fazer hoje.
Quero voltar no tema redes sociais. Coisas que todos sabemos : a necessidade de socialização humana; monopólio das grandes corporações; o modelo de redes sociais só serve para vender produtos; o controle do algoritmo por parte das empresas.
Quando você observa grandes criadores de conteúdo, e aqui eu abro bastante o leque, do streamer hiper-famoso à pornstar, passando pelo tiktoker e youtuber, da modelo de Instagram para a página racista do Facebook, etc, o que não passa às vezes na cabeça das pessoas é o quão profissionalizado é todo processo de criação de conteúdo.
Cada passo é manufaturado, construído para ser o mais palatável possível, o mais acessível, portanto que circule mais. É muito comum gente muito famosa ser livre de controvérsias.
Felipe Neto, e aqui muita gente pode querer discordar que ele não seja controverso. Na verdade, se você olhar bem, ele é um cara que se adapta às modas do momento, tendências e por mais que ele tenha ido de Dilma ladra à Lula Livre, ele nunca chegou a ser alguém com uma opinião impopular em momento algum.
No sentido de que ele é capaz de capturar um sentimento coletivo e expressar como algo dele. Eu tô séculos off de Twitter, mas uma discussão que ele ficou muito destacado foi uma que ele disse que Machado de Assis é chato e que a gente deveria ler Harry Potter.
Os professores não gostaram, sei lá quem achou ruim, mas na prática essa é uma ideia que não é impopular nos dias de hoje. Quantas pessoas preferem ler 50 tons de cinza à Odisseia ? Não é algo controverso afirmar que muita gente prefere ler os 50 tons de cinza. (Sinceramente, que prestígio o professor tem no Brasil para discutir o tema que ele estudou ?)
E o assunto, note o que houve, de repente vira uma opinião que o Felipe Neto jogou no ar de "besteira".
Quando você desce, começa a ver criadores menores, você nota que muita gente tenta reproduzir o que esses caras grandes fazem, quase como se o caminho percorrido pudesse ser o mesmo.
Tem gente que fazer trocentos cortes, lives, vídeos, fala com uma linguagem parecida desses criadores grandes, tenta fazer formatos de vídeos parecidos, reproduz estilos estéticos, usa uma infinitude de redes sociais e mesmo com muito trabalho, nunca conseguem crescer e o seu sucesso geralmente é medido por esse número nas redes sociais.
(Note : popular = o que vende mais)
É interessante porque isso cria outros a Felipe Neto, outros Felca, outros Orochi, outros Yetz, outros Yoda, etc. Uma reclamação da era da TV à cabo é que era tudo muito igual, fechado numa caixinha; a internet hoje é basicamente isso. E como vou falar mais tarde, isso abre espaço para um tipo de conteúdo mais absurdo se destacar.
A gente não pode esquecer, o senhor Felipe Neto sempre foi alguém de classe média, nos anos 2000, ter um computador razoável e uma câmera nessa época era muita coisa. Eu digo Felipe Neto, mas pensa o streamer de LOL Yoda, que se eu não me engano, o pai era médico. Até peço desculpa porque eu realmente nem vejo mais nada, então não tenho exemplos mais novos.
Essas modelos do insta, muitas delas são meninas de classe média/alta que vivem de fazer publicidade para as marcas. Por mais que qualquer um possa usar as redes sociais e começar a criar conteúdo, para de fato, fazer dinheiro, ficar famoso, é necessário já ter algum dinheiro para investir nisso.
Ninguém que é grande começou do patamar zero, isso que é importante para a gente lembrar. Fico pensando o seguinte, será que a gente imitar esse povo, ficar acreditando que é possível viver de influencer postando todo dia, sempre com melhor equipamento, sempre com a melhor resolução, em todas as redes sociais, será que realmente essa é a melhor maneira de expor nossas ideias ?
Importante a gente dizer, não só quem é grande tem a produção de conteúdo profissionalizada, como esses influencers em si viram marcas. O espaço que as redes criam, em si, vira um mercado, assim como o shopping center e se dá melhor, quem tem o maior e melhor espaço para venda.
É sobre vender.
O que importa mais no final do dia é a quantidade de pessoas que se engajam com o seu conteúdo, porque no final do dia, vão ser essas pessoas que vão comprar os produtos que você vende.
Estamos notando um certo padrão, certo ? A internet reproduz uma série de valores do capitalismo neoliberal.
Isso cria uma situação de certo marasmo, tédio. Para chamar atenção, e atenção também é dinheiro, cada vez mais se apela para conteúdos mais extremos (no sentido de autenticidade, realidade, crueza). Vou citar o porno, mas não é diferente no resto da internet.
Toda vez é preciso fazer algo mais bizarro, por exemplo, o tamanho do dildo sempre precisa ser maior do que o outro. É sempre preciso aumentar o número de pessoas numa transa, colocar modelos cada vez mais peitudas e bundudas, homens com pênis e musculatura cada vez maior.
O de sempre se torna banal, por isso, por instância, o que é exagerado, histérico, ganha tanto destaque - porque chama atenção.
Você já tem um espaço que reproduz ideologia neoliberal, se de repente ela dá espaço para discursos extremistas, é fácil ver porque a internet quase sempre vira espaço da extrema-direita.
Enfim.
Eu tenho sérias dúvidas se é tão importante assim, estar o tempo todo presente nas redes sociais. Há quase esse dogma que é preciso postar o tempo todo em todo lugar e é preciso ter sempre uma opinião. Pior, que é sempre preciso estar dentro de um tipo de tendência.
A própria construção da fama online na verdade é muito mais uma questão de renda do que qualquer coisa.
Esses não seriam valores que nos são impostos ? Será que não é possível criar novos valores e de fato, ter uma comunidade que tenha de verdade, um sentido de pertencimento, proteção e cuidado ?
Será que a gente não pode ter uma comunidade online que tenha um impacto verdadeiro no mundo real ?
Quando a gente pensa nisso, logo vem os fachos e os ataques à escolas na cabeça. Na verdade, a causa não está na construção de nenhuma comunidade, está na ausência dela e no fato do Brasil ser um país reaça.
Como que a gente transforma um tipo de mentalidade, uma comunidade que nasce na internet, uma forma de pensar, em algo real ?
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