07 fevereiro 2024

Silvio Almeida, Jones Manoel, Paulo Ghiraldelli e prática política.

Acho que a grande marca de 2024 até o momento vem sendo um sentimento geral de decepção. Não teve nada mais broxante para a esquerda de uma maneira geral, o primeiro ano de governo que não entregou quase nada do que prometeu e pior, cria políticas para se sabotar depois, vide teto de gastos e um modelo de gestão baseado na privatização do serviço público.

Se a direita se enfraqueceu com a eleição de Lula, ela facilmente se recuperou com um ano fraco do governo federal. E também a esquerda radical não conseguiu empolgar ninguém além da internet, ainda que aqui e ali, essa agitação tenha ajudado o pessoal a tentar se organizar em primeiro lugar. Querendo ou não, é um trabalho que precisa de algum tempo para dar resultado, mesmo que milagrosamente a gente acerte em tudo o que faz.

E não me entenda errado, já deu resultado, mas para fazer as mudanças políticas que a gente quer, precisamos ir bem mais longe que isso.

Esse marasmo político, essa austeridade, essa falta de mudança de uma forma geral, é o que permite quem estiver disposto a fazer um espetáculo ganhar destaque.

É a única coisa que se espera das eleições municipais, um grande espetáculo e depois a gente esquece que a política não acaba nas eleições. O show tem que continuar e vai continuar despeito das nossas vontades.

É nesse contexto que Silvio Almeida (do qual já fiz uns dois textos sobre, procura aí, bateu a preguiça) finalmente vai falar contra a privatização de presídios, depois de quase um ano que isso foi colocado como uma política através do programa de PPP.

Eu vou soar meio cínica, mas infelizmente é um pouco o estado das coisas neste momento, duvido muito isso resultar numa grande mudança no governo federal. A mídia burguesa é à favor desse tipo de medida do governo Lula, mesmo que isso possa causar um desgaste da base interna do governo e possa servir como uma boa oportunidade para minar o governo, eles querem que o governo continue com as PPPs. Por isso sabe, eu acho que você dificilmente vai ver alguma manifestação dela, a não ser em matérias muito limitadas em relação a isso.

Pode reparar que o Estadão fez questão de antagonizar Silvio e Haddad no seu editorial, ou seja, como quem quer mostrar a “bagunça” dentro do governo. Por mais que o Estadão seja favorável a esse tipo de política, a função dele como mídia burguesa, é tentar atacar o governo “progressista” para naturalizar pautas mais à direita.

Então, se o governo manter a política e se desgastar, para eles é bom porque é o que eles querem mesmo. Se deixar de fazer, também é bom, porque novamente, o governo se desgasta e perde popularidade de qualquer forma. Erro foi fazer uma política dessa.

E assim, o problema de um ministério como o do Sílvio, da Sônia Guajajara e da Anelle Franco, mesmo o ministério da Marina Silva, é que para eles conseguirem fazer o que o ministério deles supostamente deveria fazer, seria importante se eles tivessem mais força política, mais orçamento, uma organização ministerial que não criasse essas hierarquizações baseadas na renda, mas em uma perspectiva geral do que fazer, dentro de um projeto de país.

É difícil, no meu ponto de vista, você fazer políticas de direitos humanos se o seu ministério é o com menor orçamento, é o que menos pauta as decisões políticas do governo de uma forma geral, por exemplo.

O que Silvio no contexto de ministro pode fazer em relação a isso ? Veja que ele disse que esse tipo de privatização, através das PPPs são ilegais, mas boa parte das políticas do governo Lula são baseadas nesse tipo de política pública. O Estado se ausenta, deixa de atuar e passa suas atividades para essas empresas privadas administrarem.

Se isso é ilegal, quer dizer que o governo Lula está todo comprometido ? Eu fico pensando se Silvio tem força política para fazer esse embate e se isso não vai terminar com ele saindo do governo.

Aí você tem duas posturas muito distintas em relação a isso : É muito claro que o Jones está tentando usar isso para criar uma mobilização popular, tentando fazer inclusive quadros rivais da esquerda petista (mesmo dentro dela), se investirem num projeto fora do lulismo; Paulo Ghiraldelli que odeia Silvio, inventa um monte de apelido à Silvio, defende que PPP não é privatização, acredita que o errado é Silvio e Lula, Alckmin e Haddad estariam incontestavelmente certos. Veja, Paulo enxerga, “por trás” desse pensamento, na verdade, que o governo precisa fazer essas medidas que estão no alcance dele.

O viés da crítica do Paulo vai muito no sentido de dizer “É o que tem para hoje, então vamos fazer o melhor com o que a gente tem”. Existe um problema no governo Lula que ninguém é tão carismático, no sentido inclusive “mágico” da palavra, quanto Lula.

Só que não adianta você ser o “populista carismático” se você não tem todo um aparato para que a sua vontade seja feita. Lula pode fazer os discursos mais bonitos na ONU, mas não tem como aplicar nem metade do que disse aqui no Brasil.

Enquanto boa parte do governo representa muito uma política seca, chata, austera, desengajada, Lula é muito simpático, animador, mexe com os desejos da população e dos empresários sedentos por lucro. É nisso que Ghiraldelli aposta quando quer criticar o Silvio, no meio de toda sua retórica, é isso que ele quer dizer.

Ele também não percebe na sana de querer reinventar a roda, ou algo assim, que na verdade ele acaba defendendo políticas públicas que a direita faz. PPP não é nada mais que um mecanismo para gente privatizar sem precisar vender o aparato público. Você coloca uma gestão privada num serviço público. É o que acontece com transporte, por exemplo.

Enquanto Jones aposta que Silvio faça o enfrentamento e tente disputar o governo, Ghiraldelli já acredita que essa crítica é mero oportunismo de Silvio. De um lado, eu acho um erro acreditar que Silvio vai fazer um enfrentamento, justamente porque PPP é toda base da política pública do governo federal. Simples assim, e quem pauta essa política tem muito mais poder dentro do próprio governo.

Eu acho que Silvio consegue fazer um livro, uma palestra, um doutorado sobre privatização de presídio (ou abuso sexual), mas lutar no governo, mobilizar pessoas para tal, duvido muito. Parece que é nisso que Jones aposta.

Só que o grande erro para mim nessa tática é que não tem quadros, não tem uma organização de rua e inclusive uma discussão pública sobre esse debate que faça sei lá, que isso não vire algo contra o governo Lula. Justamente, porque quem pode fazer essa pressão que Jones sonha, é a burguesia com seus quadros espalhados por todo canto, inclusive dentro do governo Lula.

A nossa esquerda não pauta debate nenhum. E não raro, facilmente vira ferramenta para destruir a si mesma.

O erro já foi ter feito a política do seu adversário político. Aí você já perdeu, e se não fizer, você já se desgastou com as suas bases, é nisso que o PT se meteu. Eu não vejo muito o que aproveitar dessa situação, mesmo num contexto, como é o que Jones tenta fazer, ganhar pessoas de esquerda que não gostam do PT.

Veja, eu não sei o quanto isso é de fato efetivo ou eficaz em ganhar pessoas num projeto político. Jones está tentando captar uma tendência possível dos próximos anos, que é um sentimento de decepção por conta das insuficiências da social-democracia rebaixada do governo Lula.

Só que o problema é o seguinte : Jones pode ressoar um sentimento de decepção geral com Lula, mas Jones (digo PCB-RR de forma geral) dificilmente tem capacidade de organizar as pessoas a ponto de instrumentalizar esse sentimento para ocupar espaços de poder (que não são necessariamente cargos políticos do Estado). Acaba sendo um pouco trotskista por parte de Jones, falar as coisas e elas até serem importantes, mas ter dificuldade de coordenar e prosseguir com algo de fato concreto. E por incrível que pareça, Jones acaba ficando muito parecido com Ghiraldelli nesse sentido.

Por outro lado, Ghiraldelli parece que não consegue enxergar o canto da sereia do governo Lula de uma forma geral.

A função do governo Lula, dentro do escopo geral da nova República, sempre foi de tentar estabilizar uma economia neoliberal introduzida por FHC. Agora não é diferente, o sentido de reconstrução nacional, de uma normalidade da alternância de poder entre PSDB e PT dos anos 90/2000.

Eu vejo essa contradição de Ghiraldelli em enxergar em Lula um novo que não existe em lugar nenhum. Só a memória do que Lula fez segura todo seu carisma. Ele é bem menos radical, menos combativo, menos disposto a fazer coisas diferentes. É a nostalgia que mantém Lula popular, não o que ele é no presente.

É interessante antagonizar Jones e Ghiraldelli porque ambos são muito sintomáticos…No sentido de que eles representam muito o que é a prática da política da esquerda hoje.

Jones fica falando que Brizola nunca foi presidente porque nunca se vendeu para a Globo - o que dá a subentender que Lula se vendeu. Ghiraldelli reclama de “pautas identitárias”, da representatividade falsa, da falta de uma política do corpo na esquerda e inventa um “stalinismo” que nunca existiu no Brasil.

O que um petista médio te diz sobre o que o Lula fez com as conciliações ? É questão de estar em minoria, não ter hegemonia, de evitar conflitos, etc. A esquerda radical aponta que isso é uma pauta mínima, que é preciso fazer um enfrentamento.

Qual é a grande questão aqui que isso nos leva a concluir ? Que a esquerda não tem poder popular. Eu acho que Ghiraldelli despolitiza muito quando não aponta o caráter liberal da representatividade falsa, Jones erra ao acreditar que é possível evocar uma radicalidade sem quadros políticos, sem uma organização mais ampla das forças políticas.

Oras, se o governo Lula sofre de ter que ficar conciliando, sofre de ter que rebaixar a sua política, sofre de repetir erros do passado, é justamente porque não existe uma capacidade organizativa de estar nos lugares e ter hegemonia política.

Se o governo apela para uma representatividade falsa é justamente porque é a única forma que tem de agradar sua base, que é um pessoal com uma formação política bem liberal, que defende que propaganda em banco diminui o racismo e coisas do tipo.

O ponto é, PT sofre de não ter construído de fato poder popular e de não ter usado o aparato do Estado para ter seus quadros. O PT sofre de não ter feito o que é acusado pela direita : aparelhar o Estado para realizar o seu projeto político.

O maior problema da esquerda é não discutir dentro de uma perspectiva científica e dentro de uma ação política organizada, com capacidade de coordenar e organizar inclusive a sociedade de forma geral.

É muito claro que no andar das coisas Jones trabalha para tentar criar algum capital político capaz de desafiar a hegemonia petista. Se ele vai conseguir, não sabemos. O interessante disso é ver ele tentando captar um sentimento, que você vê pessoas aqui e ali reclamando, de promessas não cumpridas de campanha. A direita sabe bem disso e vai explorar muito isso. Enquanto o que Ghiraldelli quer nisso tudo ?

E aqui muita gente tem dificuldade de entender o que ele quer dizer e qual é o grande erro da perspectiva dele. O centro da crítica dele, quando ele fala de Silvio, é o identitarismo e por vezes o “stalinismo”.

Mas isso volta lá atrás, quando ele discute identidade no contexto do neoliberalismo. Ele discute sobre uma identidade histérica em si mesma, envolvida de códigos e semiótica, incapaz de enxergar um outro.

O problema para ele do “stalinismo” é porque cria, supostamente, uma práxis política de gado, acrítica, autoritária e que a esquerda precisa se adaptar, criar novas práticas políticas para a época em que vivemos.

Só que para criar essa prática nova, nós precisamos ter pelo menos a capacidade de estudar o que já fizemos para não ficarmos cometendo os mesmos erros. E bem, Ghiraldelli é daqueles que demoniza qualquer tipo de organização popular.

É impossível criar uma nova práxis política sem uma práxis política. Eu acho que existe um engessamento, uma falta de criatividade, mas não é porque existe um “stalinismo”, é justamente porque falta uma organização mínima para fazer as coisas.

Vou dar um exemplo que deve acontecer direto no Brasil todo : Você tem uma tarefa X e essa tarefa X, é feita e organizada por uma pessoa. E só ela faz e só ela sabe fazer. Aí um dia essa pessoa precisa fazer uma outra coisa, ou não pode fazer a tarefa de sempre, a tal da tarefa X fica comprometida porque o resto da militância não é organizada ou tem know-how para fazer essa tarefa.

Se em empresa isso acontece de ter o fulano que manja de excel e se ele faltar um dia, ninguém sabe fazer as planilhas, imagina num contexto de militância política que acontece de forma quase que artesanal e voluntarista ?

Veja, tanto no caso de Ghiraldelli, como de Jones, que pretendem criar uma nova política, existe esse erro de achar que fazer uma política amadora, sem organização, sem uma proposta e formação de quadros políticos vai ser capaz de lutar contra a política burguesa altamente organizada e bem coordenada.

É um caso de pessoas usando estilingues contra tanques.

O mesmo vale para o possível embate interno de Silvio no governo federal. O conhecimento dele é importante e tal, deve ter uma formação incrível, mas é preciso reconhecer (e é isso que a gente precisa ter atenção), que existem figuras dentro do próprio governo que são umas raposa velha com um saber político e com uma capacidade de coordenação muito maior do que a de Silvio.

A grande questão do jogo é a antecipação. O seu oponente sabe bem quem você é e como vai reagir. Sabe para onde você corre quando está assustado. Com isso ele pode manipular seus passos, ele pode jogar para fazer você fazer coisas que ele gostaria de fazer e sem precisar se desgastar por isso.

É fácil a hegemonia burguesa ganhar de volta o discurso público, até porque o que não falta é “a oposição” soltando discurso da burguesia. De um lado, todo esse debate sobre “identitarismo” é um espantalho para quem não quer dar o braço a torcer para tentar entender gênero, raça, etc.

Se na esquerda tem dissonância com isso, é muito claro que a direita vai usar desse discurso para mobilizar as pessoas. Para te dar uma noção : na comunidade trans não existe um consenso mínimo sobre o que é ser trans. Quem é mulher sabe bem sobre a sororidade. E nem te falo sobre o debate horrível de colorismo.

A esquerda não é tão esquerda assim e nem tão radical, por isso é tão fácil para ela transitar entre a direita e a esquerda tão rápido (Almeida não me deixa mentir). A questão não é conseguir fazer uma mudança tão radical, é mais sobre o fato de que a gente é reacionário de uma maneira geral.

O meu problema com esses três, é uma certa falta de noção mesmo, no auge dos doutorado, da produção acadêmica, da idade e da sabedoria política, de que você não vai para lugar nenhum, se você não tem o poder político e nesse caso, eu falo de poder popular.

Adianta propor várias coisas e não conseguir prover nenhuma ? Lula tem esse problema, mas no auge de todas as suas conciliações, de seus erros, alguma coisa ele conseguiu entregar e por isso o petismo não é superado.

Não é porque existe um “peturro” ou algo assim, ou porque “stalinismo”, ou meramente “revisionismo”, é aquela coisa, o Brasil não virou o paraíso do dia para noite, mas o preço da comida diminuiu um pouco não ?

É nesse pouquinho em pouquinho, que faz muitas vezes as pessoas deixarem para lá a discussão política. O governo Bolsonaro conseguiu ficar ruim a ponto de obrigar todo brasileiro a se politizar, porque aquilo afetava a vida de todo mundo.

A normalidade petista cria uma paz política que facilita você passar meses ignorando o debate político e poder fazer as coisas da sua vida.

E isso facilita muito normalizar precarização do trabalho, falta de aposentadoria, privatização dos serviços públicos, etc. Esse é o nosso eterno sono esplêndido. Eu acho, e é uma coisa que eu digo muito, muitas vezes o que faz uma pessoa se importar com política, mesmo com religião, é a capacidade de criar uma imaginação, de mexer com os desejos das pessoas, com seus afetos.

Ok, o mundo é guiado por signos, imagens, pela simulação, por relações parassociais, por tesão, por vontades, etc, por que a gente tem tanta dificuldade de explorar exatamente isso ?

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04 janeiro 2024

Qual é o maior problema das eleições municipais de 2024 ?

É muito claro que os anos Bolsonaro não serviram de pedagogia para a nossa população e muito menos para a esquerda de uma maneira geral. O Brasil é uma prova de que a tese aceleracionista/anarquista não funciona.

O fracasso das políticas neoliberais, que teve seu ápice nos governos de Temer/Bolsonaro, não perdeu nenhum pouco sua força nos mandatos do PT - e não perde agora com a volta do partido ao governo.

Se teve uma coisa que cresceu nesse processo foi a extrema-direita.

Por que eu digo isso ? De nada mudou a organização dos partidos em relação ao desastre que vivemos desde 2014 (puta merda, fazem 10 anos). É muito interessante ver que a militância cresceu, mas os partidos têm uma dificuldade de absorver seus quadros.

Seja por uma dificuldade de conseguir recrutar, seja por ter uma estrutura ainda muito dura e pouco organizada, a esquerda brasileira tem uma dificuldade muito grande de criar novos quadros.
Aquele militante organizado, bem preparado e que está numa organização com uma boa coordenação, logística, etc. Essa figura não existe, nem o partido “stalinista”.


Essa dificuldade de se organizar é muito expressa na dificuldade de pautar o debate, de reagir às políticas públicas reacionárias, de construir poder popular de fato, etc. O auge disso é essa ansiedade em relação ao que fazer depois que Lula morrer.

A esquerda tem alguma outra grande figura nacional ? Ou algum projeto que não seja um reformismo rebaixado do PT (ou neoliberalismo para os íntimos) ? E a resposta até o momento é não.

O grande problema das eleições no Brasil é que de repente isso que eu digo importa. No sentido de que, não se pensa política fora da institucionalidade ou da política formal.

Não estou dizendo que não seja importante disputar os espaços, eu sou à favor da gente tentar tomar mesmo a institucionalidade burguesa. Só que o nosso foco vem sendo exclusivamente nas eleições, seria muito interessante se a gente fizesse também as outras coisas.

A questão é que as pessoas percebem que o político só aparece nas eleições querendo te convencer de votar nele. Se reclamam disso com políticos velhos conservadores, imagina o que as pessoas não dizem da esquerda (não podemos esquecer do anticomunismo, e com o “fim do comunismo”, o antipetismo).

Se a gente não tem hegemonia, não adianta chegar com discurso bonito de igualdade e etc, não só as pessoas sabem que a gente não consegue fazer, como elas nem sabem quem a gente é.

O problema não é que a esquerda tem políticas “identitárias”, mas que muitas vezes a gente não tem um contato maior com o lugar que a gente milita. Adianta eu falar de anti racismo, anti lgbtfobia, etc, sem um debate material sobre as condições econômicas ? Não é que a gente precise deixar de falar dessas coisas, mas que o nosso discurso precisa deixar de ser idealista e achar que essas coisas mudam na conversa - É preciso também assumir embates e disputas.

Mesmo as conquistas que a gente tem hoje vieram com muita luta e sangue. Elas não vieram por amor ao próximo e arco-íris (mesmo o movimento LGBTQIA+).

Por isso não adianta chegar no dia da eleição querendo voto, por exemplo, porque vai lutar contra o racismo em abstrato. É preciso estar lá, estar presente, para fazer esse debate ser importante e junto da população construir o combate ao racismo de fato. Senão a gente vai ser para sempre propaganda do Itaú e nunca vai mudar nada.

É uma coisa que eu disse uma vez num grupo : “o problema não é o militante comunista “stalinista identitário”, é justamente que a gente não tem o militante. O que você vê nas ruas e nas esquinas ? A igreja evangélica”. Para mim chega ser injusto a quantidade de críticas que esse militante hipotético recebe, porque o nosso problema vem sendo justamente o contrário.

Não temos uma presença de massas. Mesmo o movimento estudantil que é conhecido por ter a esquerda, é pequeno comparado com a quantidade de estudantes e pior, se eu te disser que a maioria das faculdades nem tem esse DCE que o pessoal tanta reclama ?

Sim, a maior parte do nosso ensino superior é dado por faculdades privadas, que nem tem movimento estudantil organizado na maioria das vezes. E mesmo na universidade pública, nem todo lugar tem um movimento bem organizado e mobilizado, ainda que seja de esquerda.

Às vezes, uma organização que é muito combativa e organizada num lugar, é pelega, mal organizada no outro. Enfim, falta organização.

E vai pipocar gente falando exatamente isso que eu tô falando.”Precisa trabalho de base”, ou até “a esquerda precisa melhorar a sua comunicação”. Durante as eleições vão querer fazer um avanço nessas questões em menos de alguns meses, para um trabalho que precisa de anos para ser feito.

O que a gente precisa perguntar é por que as pessoas conseguem ver alívio na igreja evangélica caça níquel, nas drogas, nas apostas, no crime, no trabalho PJ escravo e o nosso projeto de emancipação não recebe a mesma atração ?

Se você observar, tanto a política antidrogas (que as drogas vem vencendo curiosamente), como a forma que a segurança pública atua, é no sentido de criar medo e uma sensação de insegurança constante.

Ou seja, existe aí uma ferramenta contra-revolucionária nessa atuação. Se você somar isso com a ideologia neoliberal de cada um por si, com a privatização dos espaços públicos, você começa a entender porque a única coisa que um jovem tem para fazer muitas vezes é se drogar e depois pedir perdão na igreja do bairro.

O desemprego faz as camadas mais pobres, em muitos casos, terem que recorrer ao crime ou a prostituição. A classe média ainda abre um PJ ou algo assim, muitas vezes um Onlyfans ou um canal no YouTube. É muito engraçado que as pessoas reclamem que os jovens querem ser criadores de conteúdo : que opção os jovens têm ?

Estudar para que ? Para ficar desempregado ? Ou mesmo que consiga um emprego, ainda com uma boa qualificação, vamos receber um salário ruim, para fazer mais coisas do que a gente foi contratado para fazer. A inflação cresce justamente porque tudo lentamente vai sendo privatizado, os preços de tudo sobe e o salário mínimo perde valor (e olhe lá se você recebe o salário mínimo).

Então não é difícil entender porque muita gente vai fazer conteúdo, ou se prostituir, ou entrar no crime, ou em algum esquema de pirâmide, ou coisa do tipo. A chance de você conseguir fazer um concurso (se tiver) e arrumar um emprego, é quase a mesma que apostar na loteria.

Mas a questão é, por que mesmo nessas condições a esquerda não consegue capturar essa energia para uma mudança ?

É exatamente porque a sociedade vive esse desmonte, que a primeira coisa que as pessoas pensam, não é se organizar, justamente porque “não se pode confiar em ninguém”, mas também porque o único espaço que essas pessoas tem muitas vezes, é a igreja, é a droga, é prostituição, etc.

Por isso, eu acho muito desonesto quem perde tempo criticando o “stalinismo”, mesmo o trotskismo, ou maoismo, porque falta ter até esse militante hipotético. E mesmo que esses ismos sejam um problema, se eles existem, é justamente por causa dessa desconexão com o lugar.


Por mais que a esquerda tenha crescido com a pandemia e desde 2013, ela não tenha crescido tanto, isso ainda não se traduziu numa mudança na organização dos partidos.

Se a maior máquina partidária (que ainda é considerado um partido de esquerda) que é o PT repete práticas que são consideradas atrasadas, o que partidos menores muitas vezes não tem nem a organização para gente construir uma crítica.

Nós estamos numa situação de reconstrução e mesmo essa reconstrução possui algumas contradições.

Então assim, o cenário para 2024 é de uma esquerda muito pequena e com uma direita que continua forte, mesmo com a “derrota” de Bolsonaro. Digo “derrota”, porque o cara não foi preso, suas bases continuam firmes, o centrão prontinho para voltar para ser fascista.





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03 janeiro 2024

As contradições da esquerda radical

Vou basear grande parte do que vou escrever em três artigos do Educação revolucionária (esse, esse e esse), e parte dos meus comentários é uma continuação do texto anterior sobre o Lula neoliberal.

Uma coisa que fica muito clara em relação ao chamado "campo democrático" é que eles não tem uma resposta para a direita. PT, PCdoB, PSOL e cia, mostram que em relação à própria estratégia eleitoral que eles resolveram adotar, existe uma incapacidade de planejar, disputar e conquistar novos eleitores.

Mesmo assumindo o governo (eu sei das limitações disso inclusive), eles cederam em todos os momentos para a direita, o ápice disso é a proposta, lembrando que por iniciativa do governo, de continuar a política fiscal de teto gastos.

"O amanhã é meu" Thatcher
Em tese, segundo eles mesmos, isso é realismo, isso é ser pragmático - mas o que você vê na prática, é perda de espaço e com a piora na economia (não precisa ser profeta para ver isso acontecendo, basta lembrar o que foram os anos Temer/Bolsonaro - que seguiam o teto de gastos e mesmo com furos, era uma merda - porque furavam para ganhar o congresso), é muito fácil ver a direita crescendo em cima do mesmo discurso da corrupção, “gastança” e blá blá liberal.

Ou seja, estamos com caminho aberto para o fascismo crescer de novo. O reformismo, como sempre, é um caminho insuficiente para lidar com o fascismo.

Quem deveria estar trabalhando mais do que nunca nas ruas, inclusive aproveitando da hegemonia petista e da própria popularidade da esquerda radical na internet, deveriam ser os partidos menores, com propostas mais radicais que o PT e cia propõe.

Não adianta chorar as pitangas e ficar lembrando do discurso de Mano Brown de 2018 : PT e cia, nunca vão voltar às bases do qual vieram. Podem até querer disputar aqui e ali, dentro das instituições, como sempre fazem e como ficou meio que a prática da esquerda liberal.

E mesmo que a gente queira que eles mudem, isso não vai acontecer agora. Então, a tarefa de tomar as ruas está nas mãos de quem se propõe a sair dessa formalidade institucional, desse positivismo jurídico atrasado, etc.

Se a gente sabe que eles não vão fazer - que a gente faça ! Eu sinto que muitas vezes, e isso é uma coisa muito comum para não ser um vício, o pessoal gosta muito de construir uma crítica sem uma proposta do que deveria ser feito ou pelo menos do que deveria mudar, ainda que a discordância fosse mínima.

Então, era para esperar de partidos como a UP, PCR, PCB (qualquer um dos dois), PSTU, até mesmo o infame PCO, no mínimo uma postura mais ativa do que fazer algumas críticas aqui e ali do neoliberalismo do Lula III, em palestras, vídeos, textos, etc (ainda é pequena viu, são muito casos isolados, a comunicação ainda não é organizada), mas também uma postura de tentar pelo menos ocupar mais espaços.

E mesmo que tenham tentado (eu sei o quão difícil isso é), tentar uma coisa diferente sabe. Uma coisa criticada em relação aos reformistas é que eles tem uma política liberal - ou seja, estamos falando que existe toda uma prática/linguagem liberal que é reproduzida na política adotada pelos reformistas.

Por outro lado, uma crítica comum à esquerda radical é que ela não tem uma política, uma linguagem, uma estética, própria. Muitos desses críticos, eu discordo veementemente em relação aos problemas da esquerda radical no mundo - mas nessa baila, os pós-modernos, a esquerda liberal e a esquerda radical, sofrem do mesmo problema : não existe uma forma de fazer política própria, uma linguagem, uma prática para dizer sua.

O PCB por exemplo, quando ocorreu o recente racha, repetiu novamente o que aconteceu tanto em 61, no racha que formou o PCdoB e uma série de partidos menores (indiretamente PCR e PCBR inclusive) e o racha dos anos 90 onde que fez surgir o PPS (atual Cidadania), onde quase perdeu a sigla.

O que se repetiu é a essa coisa de uma fração reformista querer deixar de ser revolucionária por um N motivo, e isso gerar um partido novo ou algum coletivo, ou coisa do tipo. 

Eu não sou dessas que nega as experiências socialistas, mas mais importante que inspirar nas suas lutas, é compreender as contingências históricas, as particularidades de cada uma dessas revoluções que deram certo e que também as que falharam. É ciência meus caros.

Não raro, o que você vê é uma prática muito imitadora de tendências de fora - o PCB que rachou em 61 e foi ouvir a conversa mole de Kruschev. O problema não era nem gostar de Kruschev, muito menos ouvir Stalin, mas uma dificuldade de ter uma prática própria, que não dependesse dessas oscilações internacionais.

Ou seja, além de faltar uma abordagem científica, o que falta na esquerda radical brasileira é ser brasileira. De estar aqui na nossa realidade, de parar de ficar emulando um brasileiro “popular” qualquer imaginário, mas também de respeitar os gostos mesmo que de fora da nossa cultura.

Se a esquerda acadêmica, pós-moderna e a liberal, não tem uma pretensão de se comunicar com a população - isso é uma questão deles, eles que se virem nessa questão. A esquerda radical sofre muito ainda de querer atingir uma camada pobre da população que ela imagina ser o pobre.

Ser pobre nem sempre é gostar de sertanejo, ouvir mpb e achar legal cultura afro. Às vezes o pobre é um moleque precarizado que gosta de League of Legends num computador antigo, ou uma mãe que ama ouvir Beyoncé, etc.

Ou você espera mesmo, numa sociedade informatizada, que elementos da cultura hegemônica não se tornem parte da cultura popular ? Eu acho muitas vezes mais produtivo o que algumas páginas fazem de pegar coisas populares, como memes, mesmo de coisas lá de fora, e fazerem uma colagem com uma mensagem brasileira.

No texto sobre a UP ficou claro a dificuldade do partido em perder alguns vícios antigos de tendências lá de fora. Nos sobre o RR, mesmo numa tentativa de romper com o reformismo e com o sectarismo do CC, repete a mesma prática de tomar decisões a portas fechadas, evitar debate público dentro do partido.

Dentre várias questões que foram postas nesses textos, eu fico pensando, o que vai ser da esquerda radical nesses próximos anos. Porque essas posturas demonstram uma certa falta de planejamento, de organização mesmo.

A gente sabe que o chamado campo democrático não tem ideia do que faz e não tem interesse nenhum em mudar de postura…Mas e a esquerda radical vai ser sempre uma versão que fala umas coisas diferentes, mas que imita as mesmas práticas da esquerda institucional ?

Mesmo em relação à comunicação, será que realmente essa repetição de fórmula ad nauseum de react vai funcionar para sempre ? Será que a gente não poderia adotar novos métodos de comunicação ?

Por exemplo, a gente não entendeu que é importante organizar a propaganda ? A Soberana é cheia de defeitos, mas ela teve algum resultado na disputa de idéias. Goste ou não dela, ela trouxe um paradigma novo para a política na esquerda - e mesmo ela, falha em nem sempre conseguir pautar o debate ou de organizar a sua comunicação melhor.

 Se o petismo com um partido infinitamente maior e agora com a máquina do Estado nas mãos, é incapaz de fazer uma propaganda decente, de tentar ganhar corações e mentes. Por que a gente não consegue fugir desse formalismo ? A gente sabe que não funciona continuar do mesmo jeito, por que a gente continua fazendo igual ?

A grande vantagem dessa situação que a esquerda radical se encontra é a capacidade de adaptação. Enquanto grupos maiores precisam de meses para implementar uma mudança, por conta do tamanho, em tese a esquerda radical conseguiria mudar e adaptar melhor as mudanças na política, justamente por ser pequena. Mas não é isso que acontece.

É engraçado que sempre tem uma crítica contra o personalismo e na prática isso mantém uma postura atrasada em relação à propaganda. Quer dizer, pode ser personalista com figuras antigas e já estabelecidas, enquanto não podemos formar novos líderes ?

A gente sabe todo o problema da adoração, mas a gente vai resolver um problema da cultura ocidental de uma hora para outra ? Não seria no mínimo interessante instrumentalizar esse tipo acontecimento cultural ?

Para mim, o que fica evidente é que a esquerda radical, por mais que aponte corretamente que o projeto neoliberal está fadado ao fracasso, ainda não tem o que pôr no lugar, mesmo que suba ao poder. Da mesma forma que o PT não tem o que fazer de diferente ou de novo, será que se a gente chegasse lá a gente teria alguma posição diferente ?

É essa armadilha que a gente vive no momento - e olha que eu nem falei do elefante chamado Lula. Não existe no horizonte, uma figura tão popular e carismática quanto Lula, quem a gente vai por no lugar ?

Isso é da propaganda de 2018...
O Haddad com todo aquele jeitão Faria Lima de consumidor da Amazon ?

Mano, olha essa propaganda que foi feita em 2018 pro Haddad presidente - olha essa vibe de "hello fellow kids". Um cara que claramente não tem nada de popular tentando ser popular.

O que a gente faz com essa crítica ? A gente avalia e vê o que a gente pode fazer onde a gente está. É como eu disse em outros momentos sobre o racha do PCB, não é para gente sair jogando pedra e jogar tudo que o partido construiu no lixo, é para gente olhar para essas contradições e tentar lutar para mudar.

A esquerda tem problemas, como toda organização humana, o que gente precisa ter é paciência e muita resiliência para construir uma mudança, assim como a gente fez com tudo que a gente construiu.

A gente olha para esses erros e olha para gente também, será que onde eu estou, eu não estou cometendo os mesmos erros ? É engraçado que na época do racha eu lembro de alguns militantes do PT, PSTU, cia, até alguns da UP, criticando o PCB e tal, sendo que eu aposto que muitos desses espaços de militância tinham os mesmos problemas (os textos que eu indiquei inclusive apontam muito isso).

É só você procurar, o que não falta hoje na era da internet, são algumas cartas de desligamento apontando basicamente as mesmas coisas em lugares diferentes.

No Brasil existe um arquétipo de ex-militante velho que distila anticomunismo, fatalista, que joga fora tudo o que a gente construiu no lixo, e que às vezes até se diz "progressista", mas odeia os partidos. Não sejamos essa pessoa.

O que eu quero deixar com esse texto é que partido de esquerda radical com proposta revolucionária não se constrói de uma hora para outra. A gente precisa de um lado, dar tempo ao tempo, ao passo que tenta melhorar a nossa organização.

Nesse momento, seria interessante aproveitar para tentar coisas, mudar a abordagem, aferir os resultados e ver o que funcionou, e melhorar, e repetir em outros lugares com as devidas adaptações. Vamos justificar o nome socialismo científico uma vez na vida ?



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24 outubro 2023

ᴾᵒⁿᵗᵒˢ ˢᵒᵇʳᵉ ᵃ ᵖᵒˡíᵗⁱᶜᵃ ᵇʳᵃˢⁱˡᵉⁱʳᵃ ᵃᵗᵘᵃˡ


É fácil reinventar a roda e ficar discutindo as coisas sem um propósito. Quando vamos falar sobre qualquer coisa, existe sempre um viés, um ponto de vista. É muito difícil sair de si mesmo, o que a gente fala, o que a gente expressa sem passar por uma perspectiva. É esse o problema que eu vejo desse texto.

Lula é posto como um elemento da esquerda de forma indiscutível, não importa as políticas que fez nos últimos meses, os apoios políticos que construiu, o discurso que ele vem construindo. Do outro lado, não se debate o sentimento anti-bolsonaro, não se fala dos problemas que a família Bolsonaro andou se metendo (cita, mas não discute), se destaca que existem setores que ainda o apoiam, mas não falam quais, muito menos há o esforço para entender como esse conservadorismo se reproduziu na sociedade.

É uma visão da política muito estática, sem nenhuma disputa, sem nenhuma mudança. Vou apontar alguns pontos para ajudar quem quer pensar essas coisas ainda.

1- Lula não é de esquerda.


Aqui existem controvérsias. Tem gente que gosta de chamar de social-democrata, de reformista ou até de social-liberal. Fato é que dentro da trajetória de Lula ele foi abandonando aquela perspectiva de socialismo, já tinha abandonado a revolução para adotar um reformismo democrático.


Isso se formos falar até os anos 90, já em sua eleição de 2003, adotou a conciliação com setores da burguesia e desde então foi cada vez mais adotando políticas conservadores. Durante todos os seus governos nunca abandonou o tripé macroeconômico, nunca combateu o domínio do agronegócio na economia, incentivou a iniciativa privada nos serviços públicos, as privatizações mesmo nunca pararam, etc.


E pelo amor de Deus, abandonem essa perspectiva burra que fazer qualquer política pública é necessariamente coisa de esquerda. Isso é vício liberal em privatizar o Estado. Todo governo faz política pública, mesmo governos fascistas, governos conservadores, governos neoliberais, etc, isso é governar minimamente. O Estado protege o pobre minimamente porque é ele que faz a sociedade funcionar, sem alguma política pública, a sociedade colapsa e não é de interesse de quem detém o poder que o que ele domina entre num estado de caos. A culpa não é de Lula se os analistas, os políticos e os liberais são tontos sobre essa questão.


Há muita controvérsia no que eu estou afirmando, mas é impossível ignorar esses elementos, uma análise minimamente criteriosa pelo menos consideraria alguns desses pontos. A perda de hegemonia do PT não surgiu do nada, alguns dizem que foi  a política de conciliação, outros dizem que teve espionagem, etc. Aí me pergunto qual é a função de ocultar essa parte do debate.


2-Bolsonaro como um elemento da falta de organização política.


Se as pessoas não conseguem avaliar Lula de forma crítica, o que as pessoas fazem quando se deparam com Bolsonaro ? A verdade é que a nossa organização política, de participar de sindicatos, organizar coletivos, participar dos partidos, etc, diminuiu drasticamente nesses anos de neoliberalismo. O porquê disso em si é uma discussão e uma literatura inteira de textos.


É fato que Bolsonaro é um sintoma, não uma causa disso. Há um tipo de ignorância de quem o apoio por ser alguém fora da política (o cara é deputado de carreira) e uma dificuldade de quem é contra de se organizar contra ele, porque não entende como, quem, onde as pessoas o apoiam. As pessoas olham para os políticos como se fossem eles a causa do movimento que apoiam, mas a verdade é que eles não fazem as coisas sozinhos.


É preciso entender a base social do movimento fascista e se organizar para combatê-la. Ainda tem gente que acredita que escrevendo livros vai derrotar o fascismo, tem gente que acha falar que o que Bolsonaro é feio, que as coisas que ele faz são ruins, etc, basta como ferramenta de combate.


O bolsonarismo existe porque existe quem o reproduz. Existem elementos na sociedade dispostos a seguirem e aplicarem seus ideais, porque acreditam na mesma coisa que Bolsonaro. Existe o delegado, o juiz, o padre, como tem o trabalhador frustrado, a mãe reacionária, o velho abandonado pela família. Novamente, são elementos que precisam ser considerados mais do que a personalidade infantil de Bolsonaro.


3-Onde está a esquerda revolucionária ?


Meu último ponto a se debater. É fácil abrir a boca para falar contra os revolucionários, afirmar ser um realista político e defender o mesmo programa do status quo. Há um debate, mesmo entre esses analistas políticos mais moderninhos, que o neoliberalismo não funciona e que a gente precisa de uma nova versão da social-democracia. Não se fala como, não se fala quem, onde vão conseguir executar esse feito.


Enquanto isso os recursos naturais acabam, a qualidade de vida piora, o fascismo avança e os chamados progressistas discutem se é democrático o desemprego atingir os índices de 10% ou 10,1%. Existe uma falta de horizonte político tremendo, não é porque a gente tenta imitar o passado, ou porque a gente perdeu a nossa humanidade, ou sei lá o que esses pós-modernos ainda falam - É falta de um horizonte revolucionário. Falta de uma perspectiva que nós podemos construir um futuro e sei lá, mudar, não cometer os mesmos erros do passado.


O nosso problema é não poder discutir mais alternativas organizativas, de poder ter espaços que desafiem a ordem do capital de reprodução do lucro. Isso não vai ser o social-democrata bem vestido que vai fazer.


Esses são apenas alguns pontos. Espero ter contribuido.

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