29 outubro 2024

Pós-eleição 2024 : Algumas notas preliminares.




1. Não se aprende com uma história abstrata e com cinismo.

Já peço desculpas se ficou confuso.

Tem dois conceitos que eu quero que as pessoas entendam antes da gente entrar na discussão.

1.1 A história não ensina sozinha : O primeiro deles é que não existe essa de “aprender com a história”. Para se aprender com a história é necessário primeiro, estudar a história, e isso passa por uma compreensão da realidade, da memória, até de algumas ciências como a geografia e a biologia.

É no mínimo necessário, ter uma capacidade geral de entendimento do mundo - coisa que nós brasileiros falhamos absurdamente. Pode ser que alguém venha dizer que estou chamando as pessoas de burras de forma glorificada.

Mas veja, nós vivemos numa sociedade desindustrializada, com grande maioria dos trabalhadores precarizados, isto é, um serviços autônomos ou terceirizados. Isso significa também que a educação geral da população vai ser menor, já que estamos falando de empregos que não exigem curso superior, técnico, etc.

Você até pode estudar, mas dificilmente vai conseguir um emprego dentro da sua área. Por isso tantos engenheiros são motoristas de aplicativo.

Poucos conseguem uma boa qualificação e os que conseguem muitas vezes nem exercem uma função dentro do que são qualificados.

De uma forma geral, é difícil para a população, por exemplo de São Paulo ou de Porto Alegre, ter uma compreensão mínima da responsabilidade que uma gestão ruim tem nas condições da cidade.

Chove e tudo fica inundado, não há uma compreensão das mudanças climáticas, da política de subfinanciar estruturas públicas - esse raciocínio simplesmente não é feito. Existe hegemonicamente um tipo de pensamento mágico, que é herança do nosso passado (presente) religioso e da forma que a gente se afundou no capitalismo.

O dinheiro oculta as relações de produção - o modo mais explícito disso é o modelo de entregadores de aplicativo : Você aperta um botão e recebe sua comida, mal você sabe que existe toda uma infraestrutura de tecnologia, pessoal para entregar o produto, pessoas cozinhando aquela comida, pessoas que venderam a comida para o restaurante, etc - isso simplesmente desaparece quando você consome seu produto.

É uma relação mágica, “você usa um símbolo e invoca comida”. Então não deveria ser surpresa que o pensamento mágico, tanto por conta dessa relação, tanto por conta da religião em nossa sociedade, seja o pensamento hegemônico. A causa e o efeito não existem, é o mundo se movendo por forças misteriosas - a razão aqui não tem espaço.

Veja, as pessoas não olham para Bolsonaro mais e acham que má gestão dele na Covid foi responsável pelo aumento das mortes. Esse raciocínio, essa compreensão da responsabilidade de um governante em relação à gestão política do Estado, simplesmente, não é o tipo de pensamento que passa na cabeça das pessoas - no melhor dos casos, as pessoas acreditam que Bolsonaro foi uma vítima do “acaso”, do azar, em receber uma força da natureza daquela magnitude - “a vontade de Deus”.

1.2 Cinismo na política : O segundo conceito, é que é preciso parar de ter uma postura cínica em relação à política de uma maneira geral. Como assim ? Olha, você vai ver duas posturas principais nesse pós-eleição : aquele que acha que as eleições são uma farsa, que o jogo já está dado, etc, etc; e quem acha que faltou eleitoralismo, que faltou presença nas bases, a comunicação foi ruim, etc, etc. Essas são posições cínicas e extremamente conservadoras porque elas são imobilizadoras, veja, quando você diz que as eleições são uma farsa, você está dizendo que não importa o que seja feito, nós iremos sempre perder e que é impossível ter hegemonia popular numa democracia burguesa.

E veja, isso não é necessariamente verdade, apesar de tudo, a classe trabalhadora conseguiu encampar e conquistar direitos, apesar da ditadura da burguesia. Então mesmo que a eleição seja em grande parte influenciada pela burguesia, aqui e ali, conseguimos conquistar algum direito para não sermos destruídos de uma vez - vide carteira de trabalho, direitos trabalhistas, SUS, etc, etc. Essa postura da “farsa eleitoral” não afeta exclusivamente as eleições municipais e federais, afeta também a nossa consciência pública, de que não devemos fazer concursos, assumir cargos na máquina do Estado, não devemos tentar competir em associações de bairros e prefeituras-bairro, etc, etc.

Numa perspectiva política, sendo o mais seco e materialista possível, é tolice minha querer pessoas que seguem o mesmo projeto político que o meu, em todas as esferas da sociedade ? Eu to pouco me fudendo se isso é feio, bonito, etc, a questão é que na hora de atuar politicamente, é muito melhor tendo pessoas em cargos chave do Estado e em instituições da sociedade civil - isso nem é algo tão fora do senso comum, isso é o meu Gramsci mal lido, um Lênin de ouvido e uma leitura do Príncipe de Maquiavel.

A segunda postura é cínica porque ela dá valor extremo às ideias, como se elas tivessem propriedades mágicas e que basta as pessoas ouvirem nossas boas propostas para elas entrarem para o nosso lado. Essa conversa de voltar para as bases aparece desde 2018 e desde então todo mundo repete isso, sem ter uma metodologia de como “voltar para as bases”, sem nenhuma proposição real do que fazer.

Outro exemplo disso é essa questão do “problema de comunicação”. O problema não é de comunicação, é de não ter como por materialidade no que se diz. Veja, o PT no governo é bem comunicativo com quem interessa : os empresários e banqueiros, que é quem na prática vai comprar o projeto político nem que seja de forma temporária e oportunista. Se realmente houvesse interesse em se comunicar com a população, a esquerda liberal não aparecia só em tempo de eleição.

Existe, portanto, um foco excessivo no jogo eleitoral, a ponto de que se ignora todo o resto da atividade política. Por isso é uma posição cínica, é como se você dissesse : “para que eu vou ficar fazendo militância e tentando ganhar apoio do povo, se quem manda mesmo são os empresários desse país ?”.

Meu ponto principal em relação a esse conceito é que não adianta atuar politicamente pensando de forma cínica, o cinismo é justamente quem abaixa as calças da formalidade social. Se você quer atuar politicamente, primeiro lugar, isso precisa ter alguns valores, é preciso no mínimo ter um projeto de sociedade, se você só nega isso e assimila ou deixa de participar, você está basicamente minando sua própria atuação política (se é isso que você quer).

Se você se assimila, você reproduz a lógica hegemônica; Se você só nega tudo, você deixa de atuar.

2. É preciso mais do que falar bonito : Dito isso, o que eu realmente quero trazer é esse ponto : política precisa parar de ser discutida sem um propósito material. É óbvio que a urbanização desorganizada, a destruição da natureza para fazer plantações improdutivas e desertos verdes, que a desorganização do mercado de trabalho, etc, que tudo isso, vai tendencialmente tornar a vida mais insalubre.

E o que se discute na política são muito “soluções mágicas” e muito pouco projetos que se podem entrar hoje, agora, e começar a alterar a realidade. De um lado, você tem gente que acha que basta “privatizar” que mágicamente os serviços públicos vão melhorar, do outro você tem gente que acha que basta fazer política pública meia boca (para não desagradar o centro né) para resolver problemas estruturais.

Me desculpe assim, para mim isso é pensamento mágico. Nós precisamos pagar nossas contas, lidar com falta de renda, emprego, fome, problemas climáticos, etc - essas conversas mole, não vão levar ninguém para lugar nenhum e a gente sabe, nós estamos cansados de saber disso. Por isso as pessoas não se interessam tanto em discussão política, ela é abstrata, além de claro, que a discussão de verdade acontece sob portas fechadas nos famosos jantares longe de todo mundo - isso torna a discussão pública praticamente inútil, já que quem decide muitas vezes, o que fazer, como fazer, etc, são “os técnicos” da ditadura burguesa.

Sabe, o que me pega é que as pessoas esperam que todo mundo vá se organizar politicamente “por boa vontade”, como se bastasse se sentir revoltado ou algo do tipo. Não adianta a gente construir militância política se essa militância, muitas vezes, não consegue sustentar, proteger, cuidar, dos próprios militantes. As emoções são importantes na prática política, mas é mais importante ainda, ter capacidade organizativa para usar dessas emoções.

É tão óbvio que entrar num sindicato, num partido político, é algo que pode, por exemplo, dificultar sua busca por emprego, ou desencadear assédio em espaços de trabalho, espaços públicos, etc. Será mesmo, que ainda que revoltados, as pessoas estão dispostas a terem que correr esses riscos ? Será que isso precisa ser um risco ? 

Tem a questão também do tempo. A maioria das pessoas trabalha excessivamente nesse país e ainda, nós precisamos acumular função em toda nossa militância que fazemos. Precisamos mesmo tanto nos sacrificar tanto ? Não é muito cristianismo ? Não é querer ser santo demais ?

Esse acúmulo de função não causa problema só para o indivíduo que faz isso, é um problema coletivo, não se socializa o conhecimento das tarefas e basta essa pessoa ter um dia ruim, ou adoecer, para toda uma organização parar de funcionar. E nem venha apontar dedos para organização do amiguinho, isso é um problema generalizado. Veja, esse comportamento, muito possivelmente, tem raiz na precarização do trabalho : Em nossos empregos acumulamos funções justamente para o empregador não ter que contratar mais pessoas.

O começo da mudança só vai vir quando a gente conseguir construir redes de apoio mútuo e parar de achar que se faz política só com ideias bonitas e boa vontade. É preciso ter um mínimo de “imediatismo” para traçar um caminho para uma solução permanente.

Até por um certo azar, eu acabei vendo um pouco a campanha de São Paulo de Boulos. Veja, o que a deu a diferença dos votos, foi justamente essa parcela do eleitorado que não enxerga na política como um caminho para mudança real e por quem vê em Nunes, “uma governabilidade mais viável”.

Me pega como que não houve (até onde eu tenha ouvido), um grupo de pessoas e tal, que se dispôs em se organizar para dividir eletricidade, guardar alimentos, mesmo uma organização jurídica para processar juridicamente a ENEL e a inabilidade da prefeitura (nem que seja só para ganhar dinheiro em cima desses processos mesmo), etc, etc, etc. Veja, isso é atuar politicamente, você se organiza com grupos de pessoas para determinados fins em comum - a eleição é uma parte muito pequena disso·

O que eu fico vendo é que Sr. Boulos tem cargo de deputado, etc, mas esse ele ter o cargo, realmente trouxe algum saldo positivo para o movimento do qual ele fazia parte ? A vontade do movimento foi expressa através dele, e assim, é foda que falam dessa eleição de Boulos em São Paulo, praticamente desde 2022 e aí Boulos só aparece para fazer campanha. Como isso soa ? Como isso parece para as pessoas ? Não parece só oportunismo de repente ele só aparecer nas eleições ? As pessoas enxergam esse tipo de coisa, é um dos motivos das pessoas não separarem políticos mesmo do PT/PSOL como meros “ladrões corruptos”. É uma falsidade que acaba “se tornando verdade” porque exatamente, o modus operandi deles acaba sendo literalmente o mesmo de políticos invisíveis da estirpe do centrão.

O que eu pus no começo desse texto é importante e é parte dessa dinâmica social. O pensamento mágico e a falta de compreensão da realidade com certeza beneficiaram Nunes, mas essa ideia do “gestor”, nem que seja apenas como título vazio, foi o que fez ele ser o favorito desde o início.

É o realismo capitalismo, essa ideia de que o capitalismo é o único modo de produção, e que basta gerir, “otimizar” o sistema, melhorar sua performance que inevitavelmente nossa vida vai melhorar. Fisher demonstra exatamente, que é essa é a ideologia que guia nossa cultura atual, o nosso limite do que pode ser feito e imaginado.

Só realmente se quebra isso, com uma prática material que supere essa (des)organização capitalista. Isto é, com organização revolucionária. Caiu o muro de Berlim, falaram que o comunismo morreu, por que Cuba e a Coreia Popular continuam em pé ? Por que existe MST no Brasil ainda ? Como que um partido de esquerda radical como a UP surgiu mesmo no governo Bolsonaro ?

Aqui você pode achar feio, fazer cara de nojo, etc, etc, mas é fato que essas organizações se mantiveram ou surgiram em clima de derrota geral para a esquerda. É preciso de uma vez compreender que de um lado, será que tudo o que o PT faz é tão descartável assim ? Será que a gente não pode aprender uma coisa ou outra ? E tipo, será que adianta também chegar ao poder da forma que o PT chegou ?

Isso é uma pergunta que precisamos fazer antes de sair por aí saqueando os espólios políticos do PT e mesmo do trabalhismo. Veja, tanto o trabalhismo como o “petismo” foram hegemônicos por décadas nesse país, fazendo um balanço, será que eles foram mais eficazes em trazer mudanças que outras formas de organização e política popular ? A gente realmente precisa mais Lulas ?

É muito interessante que Jones Manoel quer ser um novo Brizola, enquanto Boulos claramente quer ser um novo Lula. O que isso vai mudar na ponta, na militância de bairro, de rua, da polis ? Que tipo de organização vamos ter ? Quais medidas podemos tomar hoje para proteger a população e nossos militantes ? É uma crítica a eles, para gente pensar justamente, se a gente precisa repetir de novo Brizola/Lula - será que a gente não precisa de algo novo ? Então, tem outra questão, será que a gente não precisa na verdade do Boulos sendo o Boulos, o Jones sendo Jones, ao invés de uma imitação barata de políticos do passado ?

São questões importantes de responder, porque não tem mais essa coisa de “a crise climática vai chegar”, ou “as crises do capitalismo vão surgir”, etc, etc - nós já estamos vivendo nesse futuro distópico. É preciso atuar o quanto antes.

3. Ideias preliminares para o futuro : O cenário principal, certeza, vai ser de água batendo na bunda. Literalmente, claro, mas também no sentido metafórico, no sentido de que cada vez mais esses discursos vazios vão tender a serem abandonados por movimentos que conseguem minimamente “fazer coisas”.

Não adianta você prometer uma casa, comida, uma proteção daqui 20 anos - com as crises do capitalismo cada vez mais constantes é fato de que viver vai se tornar mais difícil e é difícil se organizar politicamente se estiver constantemente em estado de vida ou morte. Fato é que vai vencer quem conseguir oferecer uma rede de apoio e segurança, a ponto de substituir a ausência das políticas públicas do Estado.

O que se desenha, como sempre, é um 2025 frio, todo mundo esquecendo de fazer política e um 2026 quente, chato para kct como 2024. Só que alguma coisa diferente vai precisar ser feita, por questão de literal sobrevivência, essa é a nossa tarefa para os próximos meses. Sabe, passou aquela época que você prometia e prometia, fazia um monte de discurso vazio, e conseguia agregar as pessoas.

Vou recomendar o Jones falando do mesmo tema esses dias.





Por enquanto é isso.

Eu vou escrever mais sobre isso ainda, preciso terminar o texto que eu prometi sobre o The Fixer e o fim da trilogia tentando propor coisas.





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20 outubro 2024

Construir as bases materiais para o futuro socialismo


Vou começar uma sequência de textos mais práticos, discutindo algumas questões políticas, ainda mais agora que a eleição acabou e como eu já havia dito lá atrás, deu ruim - é literalmente física, bastava olhar a trajetória que veria no que iria dar.

Os textos vão seguir mais ou menos a mesma temática de discutir as questões materiais e a minha tentativa de achar uma alternativa real.

Só que diferente da maioria das pessoas que vão escrever nesse pós-eleição, vou ser ousada e tentar ser mais propositiva.

Por que ? Eu não acredito nas eleições ? Quem sou eu para crer ou descrer nas eleições ? Elas cumprem sua função. Claro que a gente sabe que existe toda questão de fraudes, etc, etc, que mesmo o TSE tem dificuldade de lidar, mas talvez o ponto que a gente precisa compreender é que aquele cara que acha massa um político velho de um desses partidos conservadores, existe e se reproduz.


Da mesma medida, tem gente que acha Alckmin uma figura muito simpática, Haddad um galã, e sei lá, que o Paulo Guedes é genial. Talvez para você que é literalmente o próprio comunismo ambulante, seja tosco imaginar que essa gente existe, mas eles existem e mais importante, podem nos machucar.

Ideologia é uma coisa interessante, porque quando você se debruça inicialmente, parece algo até mágico. São pessoas sendo levadas por determinadas ideias, muitas vezes, sem nenhuma racionalidade ou que são contraditórias contra a própria pessoa, e assim como um feitiço, ela faz sem consciência do que faz, para ela aquilo é o normal, ela nem enxerga como uma ideologia.

Um aspecto que passa muitas vezes despercebido é justamente o fato de que a origem da ideologia não surge dela mesma. Ou seja, crenças não são formadas na cabeça, elas são formadas na relação do humano com o mundo material. Matéria precede a ideia, nós vemos o mundo e depois raciocinamos.


Quando alguém acorda num dia de manhã e acha que é uma boa ideia investir todo o dinheiro que tem em uma criptomoeda estranha, num curso de coach de energia quântica, em um esquema de “recomendação e recrutamento” (PIRÂMIDE), enfim, jogo do tigre lá e etc, é porque ela de alguma forma enxerga nisso alguma alternativa.

Claro que muita gente é pega em falsas promessas, isso não tira o fato de que muitas dessas decisões são feitas de forma racional. A pessoa que sentou, pegou uma calculadora e achou uma boa ideia apostar num cassino online é real !! Pode parecer a coisa mais burra do mundo, só que o ponto que eu quero apontar é que a pessoa olhou pro mundo e viu aquilo como uma decisão racional para lidar com os problemas da vida.

Antes da gente beber para esquecer os problemas, nós temos clareza que não podemos fazer nada em relação aos problemas; Bebemos para distorcer nossa percepção e nos distrair enquanto não podemos fazer nada. Dou esse exemplo, porque esse mecanismo não é tão diferente assim do que a religião , as drogas, o coach, os jogos, o copo de água com açúcar, podem oferecer.

Nós somos seres que pensamos em uma abstração chamada futuro. Ele pode até existir, mas não aconteceu e nós temos alguma capacidade de antecipação, baseados em experiências anteriores, tendências, probabilidades e tal. Olhando pro jovem de hoje, terceirizado, precarizado na economia de aplicativo, sem previdência social, sem programas de desenvolvimento social, numa sociedade muito menos solidária e mais hostil, sem muitas perspectivas de comprar uma casa ou sei lá, comprar uma air fryer. É assim, compreensível porque o jovem médio acha uma boa ideia investir numa carreira de criador de conteúdo.

É a única coisa ““viável”” e que parece ter algum resultado. Você vê outras pessoas fazendo e “dando certo”, deve funcionar mesmo né ?

Mas essa possibilidade, mesmo que ínfima, é aquele empurrãozinho final para você dar o próximo passo. E veja, a questão central aqui é que a gente só começa considerar REALMENTE essas coisas, quando literalmente não tem nenhuma saída.

É uma tentativa de literalmente apostar numa saída. E por apostar, leve como literal, porque na prática não vivemos numa época de tanta fartura econômica, com cenários geopolíticos que não terminam em guerra nuclear, sem crise climática.

Muito pelo contrário, crise vem sendo nosso padrão há pelo menos uns 20 anos.

No mínimo, é compreensível que alguém olhe para isso e olhe para a situação difícil que vive, e pense “e se eu começar a vender pack de pezinho no Twitter ?” como uma alternativa para o desemprego, a terceirização, a uberização, etc..

Perceba que isso pode se estender para muita coisa, desde a religião, como trabalhos cada vez piores, como para filiação política, etc.

Eu acho que eu já falei sobre isso em algum texto ou em algum lugar, mas não adianta ter um programa político bonito se ele não traz nenhum benefício real para as pessoas.

Os conservadores têm medo do MST, do MLB, mesmo dos enfraquecidos sindicatos, por quê ? É só anticomunismo reacionário ? Pode até ser, mas vamos olhar mais de perto.


Qual é a pauta central do MST ? Reforma agrária, significa que o MST vai esperar a boa vontade do governo negociar com os latifundiários ? Não, o MST promove ocupação de terras improdutivas que não cumprem seu papel social. Terra que fica parada para especulação financeira.

Isto é, numa longa duração o MST quer construir a reforma agrária - mas ele já constroi as bases políticas materiais para que isso de alguma forma já aconteça hoje.

Ou seja, prosseguindo, eu não preciso ficar apostando numa ideia de futuro abstrata que eu nem sei se vai acontecer - Existe o esforço ATIVO E REAL para que a gente tenha uma reforma agrária por conta de movimentos como o MST.

Existe uma construção no presente, organizada, coordenada, com capacidade de construção real e objetiva de futuro.

É isso que falta na esquerda brasileira, de forma geral, por mais que existam necessidades de mudanças numa longa duração, é também necessário construir as coisas de forma imediata hoje.

Não é que, por exemplo, o MLB deseja que as pessoas tenham moradia, ele de fato, organiza as ocupações para as pessoas terem moradia e elas estão lá.

Pode ser que não seja o programa de moradia soviético, mas o ponto é, nós precisamos construir hoje para ter o que queremos ter amanhã.

Hoje, fora algumas exceções, quantos movimentos populares e partidos que quando você precisar, você pode ir atrás que eles te ajudam ? Claro que existem várias limitações em relação a isso, mas o ponto é, que alternativa real nós estamos oferecendo ?

Que rezar não resolva nada, que aposta em cassino algum vá tirar alguém da pobreza, uber não deixe ninguém rico além de seus Ceos e acionistas - esse “novo” capitalismo oferece uma solução ao “velho” capitalismo.

Se trata de uma disputa interna no campo político da direita - que a gente inclusive só assiste acontecer. Não é só uma questão de “URSS caiu nos anos 90”, ou sei lá, qual grande evento ruim podemos apontar, a questão pode até ser uma questão brasileira.

É elitismo da minha parte explicar o que eu estou explicando ?

De uma vez, é necessário compreender o princípio mínimo do materialismo : se muda a realidade, atuando sobre a realidade, só compreendemos a realidade depois de termos consciência dela, só expandimos nossa consciência com conhecimento.

Écrasez l'infâme

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01 outubro 2024

Por que você aposta sua vida fora ?

Hey
Wait
I got a new complaint
Forever in debt to your priceless advice.

Kurt Cobain



Venho acompanhando um pouco mais o jornalismo “progressista” (papel que muitos streamers acabam fazendo também) e sabe, vou dizer, fora algumas exceções, me faz falta ter informação, uma perspectiva mais trabalhada, estudada, literalmente textos melhores.


Eu sou dessas pessoas que estudam e lêem textos - não se preocupe, não sou nenhum tipo de alienígena. Então, para mim, é um universo de diferença entre um texto acadêmico razoável e mesmo uma boa reportagem jornalística. Obviamente, eu também sei que não se escreve da mesma forma num jornal e num texto acadêmico, cada estilo tem sua função.


Todavia, mesmo numa perspectiva de divulgação de conhecimento, o jornalismo não deveria supor que as pessoas são completamente estúpidas. Por exemplo, a gente deveria sempre buscar um novo escândalo de gente famosa para tentar apontar um problema na nossa sociedade ?


No momento que eu escrevo esse texto, rolou aí uma prisão preventiva (ou algo assim, eu literalmente me perdi já) de Deolane Bezerra e Gustavo Lima, duas figuras famosas que eu sinceramente pouco me interesso - Mas de repente, por conta de uma interpretação ruim dos tipos ideais de Max Weber, nós temos que lidar com jornalistas discutindo a mau caratisse (ou suposta) de certos indivíduos, ao invés de observar o todo social que faz aparecer esse tipo de pessoa (em Sloterdijk, as antropotécnicas; em Marx, os modos de produção).


Se trata a questão como se prender Deolane ou Gustavo Lima, resolvesse a questão das Bets, da economia de influência ser tão facilmente cooptada pelas Bets, o fato de no Brasil muitas vezes apostar seja mais fácil que ir arrumar um emprego formal. Se normalizou fazer acordos de trabalho informais ao ponto de se normalizar dar golpe como emprego, vender a fé como um trabalho, aceitar contratos de trabalho duvidosos por conta de desespero.


E sempre é assim, outro exemplo, se denuncia o deputado Nicolas Ferreira por transfobia - ok, é uma coisa que ele faz, mas eu não acho que a transfobia vai acabar se ele sumisse da face da terra - existe uma sociedade toda que cria pessoas como ele. Ele como indivíduo pode até ter um papel, mas é a sociabilidade que gera mais pessoas como ele. Podemos não concordar com o PL, mas é um fato que eles representam uma parcela da população - como que a gente cria uma parcela da população que reproduz esse tipo ideologia, a ponto, de ser formado um partido político que legisla, assume cargos na estrutura do Estado, mobiliza a sociedade em tornos desses debates ?


A estrutura das notícias é muito (fulano famoso) + crime = notícia bombástica , e isso é posto como informação. Os comentaristas políticos se resumem a falar da moral desses famosos e no máximo fazem uma sociologia batata pré-Comte. Digo até pré-Comte, porque nos positivistas, salve todos os “pecados” que eles tenham “cometido”, uma coisa que existe é sociedade - pouco interessa pro sociólogo o individual, tanto para se diferenciar da nascente psicologia.


É quase como se estivéssemos falando de maldições : é uma espécie de misticismo que atribui ao sujeito poderes, que ele só tem na prática porque existe em sociedade. Até pensando numa perspectiva do direito, fora toda a questão da lavagem de dinheiro que Deolane e Gustavo Lima estão sendo acusados, é fato que a imagem deles influencia as pessoas a consumirem o produto Bet - Tanto isso é verdade, que é justamente por isso que eles se tornaram a “cara” do produto que estava sendo vendido. É possível dizer que eles são responsáveis em influenciar pessoas a entrarem no mercado de apostas.


A questão individual criminal, que a PF investigue e que eles tenham o julgamento deles, que eles tenham os direitos garantidos e tal. Nesse sentido, sequer faz sentido desejar uma mudança de postura da justiça por meio de um “caso exemplar”. O que é importante discutir, se apostas são uma coisa considerada ruim, se você tem pesquisa que aponta o adoecimento mental, o endividamento das famílias, etc, o que permite que isso seja socialmente aceito ? Veja, é muito difícil, e assim, olhando empiricamente, sem ir muito a fundo, não comparar o mercado capitalista com um mercado de apostas.


A bolsa de valores é baseada em apostar se determinada ação vai subir ou descer, se aposta para ver se determinadas moedas vão valorizar, se põe dinheiro em fundos de investimento se apostando que eles vão oferecer determinado nível de retorno. Talvez a única diferença entre uma Bet e uma bolsa de valores, é que uma é legalizada e a outra não, pois inclusive práticas que poderíamos atribuir aos cassinos, poderíamos dizer que a bolsa de valores também faz. Até a barreira de entrada se tornou baixa : hoje você aposta em Bet e na bolsa de valores, com menos de 30 reais com um celular na palma da sua mão.


O que eu sinto que falta nas análises sobre o assunto é qual o papel que a Bet tem nisso ? Por exemplo, existe uma prática comum de se emprestar dinheiro usando o saldo do cartão de crédito - é uma forma de “sacar o saldo” que teria ao longo de meses. Será que a Bet não é reflexo do fato da renda estar cada vez mais instável com a economia informal ? Eu consigo ver emprestar o saldo do cartão de crédito como uma maneira de tentar driblar os juros mais altos do mundo em parcelas do cartão de crédito. Mas e a Bet ?


Eu não sou economista, no máximo sou uma estudante do assunto, mas eu vejo, o fato do debate sempre cair para uma caça às bruxas é porque o próprio meio de comunicação não espera do seu espectador uma capacidade crítica mínima. Claramente, o que eu percebo também desse debate, nem é a ilegalização das apostas, mas a sua regulamentação - o que pode tornar os problemas que falamos ainda piores.


OU SEJA, a tendência é normalizar AINDA MAIS ESSE TIPO DE COISA. Um outro lado que eu acho importante trazer nessa discussão é o mercado de influenciadores. Veja, fazendo uma comparação, ter influência na internet, é uma mistura de sorte com ter dinheiro para manter sua máquina de comunicação. O que não falta é gente influente desconhecida na internet, porque não basta conseguir os números, é preciso de alguma forma viralizar - isto é, de repente, ter seu conteúdo conhecido por todos mesmo de fora do seu nicho.


Acaba sendo uma economia baseada na sorte.


Temos o mercado de trabalho, que se informalizou demais, tornou a vida imprevisivel; Bet, loteria, jogo do bicho e a financeirização da economia, isto é, nossa economia cada vez mais se baseia em especulação, não em desenvolvimento material - num nível micro, estamos dizendo que é mais fácil ganhar dinheiro apostando numa loteria do que trabalhando, numa perspectiva macro, se movimenta mais dinheiro no capital especulativo do que no desenvolvimento das forças produtivas ; Nisso tudo, o que a internet trouxe à mesa, foi uma aceleração da informalidade, do empreendedorismo, um novo mercado de mídia, o mercado de influência, o mercado digital das compras digitais, etc, que é tão acelerado e incerto quanto a própria natureza da internet. O que temos aqui, meus caros ?


Uma coisa que é até uma frase clássica de Marx, “tudo que é sólido se desmancha no ar” - é exatamente nesse sentido que ele afirma que a economia capitalista se torna cada vez mais instável, as relações mais efêmeras, que as crises e bolhas econômicas se tornam mais constantes, as guerras imperialistas em nome da reprodução do capital tendem a aumentar, etc.


Faltam 5 dias das eleições e com muito esforço eu fiquei um pouco longe de tudo. E tendo que voltar obrigatoriamente, até porque vou precisar votar, é meio deprimente como que não se resolve a questão eleitoral no Brasil. Se diz que as eleições são uma farsa, ao mesmo tempo que os partidos são basicamente voltados para campanhas políticas nas eleições; se diz que a institucionalidade é desnecessária, ao mesmo tempo, não se consegue construir nada que sequer seja próximo de suprir nossas necessidades materiais fora do olho do Estado.


Uma hora se invoca Gramsci e Althusser para dizer que devemos lutar por espaços nas instituições; Outra, até num impulso meio anarquista, de que se deve construir movimentos fora das instituições. E veja, eu realmente não vejo nenhum movimento se decidindo qual caminho tomar ou com uma perspectiva clara do que é preciso fazer. É engraçado que a falta de direção é generalizada, nem o próprio Estado brasileiro sabe o que quer de si. Essa mesma desorganização vemos nas instituições públicas.


Talvez por isso a gente tenha tanta gente tentando se tornar profeta, ninguém sabe para onde ir e qualquer um que diga que sabe alguma coisa do que fazer (mesmo sem provar nada) já é melhor do que ficar sem direção nenhuma.




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