31 janeiro 2024

Por que é tão fácil você ser manipulado ?

A sociologia positivista tem alguns problemas de captar as dinâmicas sociais, as mudanças históricas, de trabalhar com contingências e com o novo. Todavia, e isso é importante compreender, a visão positivista é uma visão que estrutura boa parte do Estado moderno brasileiro.

Existe, portanto, nas instituições brasileiras, uma estrutura que pensa a sociedade como o positivismo enxerga, isto é, como um organismo.

É muito importante destacar isso e não é um xingamento dizer que é positivista, porque é essencial a gente tentar entender como se pensa dentro das instituições.

Os movimentos sociais não são inimigos do Estado brasileiro, muito pelo contrário, eles funcionam como uma parte do organismo que faz funções que o corpo em si, por alguma razão (e a gente sabe bem porquê), não consegue cumprir.

Por exemplo, não existe uma política pública para lidar com mulheres que acabam em situação de rua por conta de violência doméstica, mas existe o movimento Olga Benário, que se organiza e faz exatamente isso.

Não tem uma política de moradia e de alimentação na cidade de São Paulo, aí existe o Padre Lancelotti que faz isso, coisa que o Estado brasileiro não faz.

A gente que é marxista sabe bem que certas atividades do Estado não são feitas, porque o Estado tem um caráter burguês, isto é, ele não serve para a classe trabalhadora.

Então, pro Estado brasileiro é normal sustar dívidas de grandes empresários, enquanto o brasileiro trabalhador médio é deixado para se afogar em dívidas.

Mas, você começa a ter problemas, a sociedade começa ficar disfuncional, as coisas começam parar de funcionar e por mais que a máquina queira que tudo seja triturado e consumido, ela precisa que a sociedade de alguma forma continue “funcionando”.

É como as bactérias do nosso intestino que digerem coisas que o nosso corpo não consegue consumir.

Parte do motivo de existir política pública e de existir alguma liberdade para os movimentos sociais, é porque isso tem a função de manter a sociedade “funcionando” minimamente para a reprodução do capital.

Por isso, burro é o empresário que é contra a educação pública, pois se você restringir todo ensino, você não vai ter uma mão de obra qualificada barata, vai ficar mais difícil e mais caro contratar gente.

O que isso tem a ver com manipulação ? Oras, é muito claro : num jogo de disputa ideológica, você tem uma certa oposição controlada e mesmo quando é de fato uma oposição, tem muita dificuldade de profissionalizar a militância e sair do voluntarismo.

Quando eu falo em oposição controlada eu tô falando é claro do chamado “campo democrático” (PT, PSOL, PSB, cia). Existe um papel muito claro deles serem o horizonte, o limite do que se pode pensar em políticas públicas. O governo pode deixar Brasília toda colorida, mas não vai fazer um edital com cota para pessoas trans no serviço público.

O nosso limite é sempre uma representação limitada, uma política de conciliação, políticas públicas tímidas que têm dificuldade de resolverem os problemas que nasceram para resolver.

Existe agora um tipo de bolsa permanência no ensino médio, mas isso não vem acompanhado de uma política de alimentação, previdência social, de moradia, etc. Por mais que a renda extra ajude, ela sozinha não paga todo o resto que uma pessoa precisa para conseguir estudar.

E aí vem meu problema com o voluntarismo, tem coisas que é preciso que o Estado venha e faça uma política pública. Moradia, por exemplo, você toca num ponto essencial para a constituição liberal que é a garantia da propriedade privada.

O Olga, o MLB, o MTST e o MST podem tentar lutar dentro dos seus limites para que isso de alguma forma seja sanado parcialmente. Mas isso sempre vai esbarrar em questões legais, militares, de inteligência, com interesses da burguesia, que mesmo o governo mais “progressista” nunca vai ceder.

Se você faz uma ocupação, você está “invadindo” nos olhos da polícia, da lei, da mídia e da sociedade civil que acaba bebendo muito dessa ideologia. Existem juízes, policiais, agentes do Estado, jornalistas burgueses, preparados para acabar e criminalizar esses movimentos sociais.

Por isso é tão difícil manter muitas vezes, uma, duas, ocupações em algumas cidades, porque existe toda uma organização para que essas ocupações não existam ou que seja muito difícil de novas ocupações aparecerem.

Esse é um ponto muito importante : a gente fica numa situação de penúria e de luta constante tão grande, que a gente vive na verdade num esforço para simplesmente existir.

Dá muito trabalho manter um movimento social justamente porque nós não temos uma hegemonia, nós não temos a máquina do Estado, não temos poder militar, mal conseguimos nos sustentar.

É bom ter o “campo democrático” no poder ? De certa maneira, ajuda alguma coisa, mas é completamente inútil, se esse “campo democrático” não dá espaço para os movimentos sociais ocuparem e ganharem parte do orçamento e do poder político na mão.

Existe essa contradição do Estado brasileiro não querer de jeito nenhum que os movimentos sociais existam, doutrina do inimigo interno que acredita que esses movimentos desafiam a segurança nacional; Por outro lado, eles precisam dos movimentos sociais senão a sociedade simplesmente colapsa e aí agora assim, o Estado pode até ser ameaçado por conta do caos social.

Isso deixa a gente numa situação muito delicada e instável. É muito claro que o “campo democrático” surge para evitar uma revolta popular. Ele é importante para a estabilidade do Estado nacional justamente porque acalma a população e limita a capacidade de mobilização dos movimentos populares.

Para o tamanho e extensão do Brasil temos poucas pessoas organizadas, o que precariza a militância, gera acúmulo de tarefa e a gente vive num país empobrecido, é claro que você vai ter gente que vai entrar na política para tentar ganhar alguma coisa. E nem isso a gente atrai tanto, visto que as igrejas crescem exponencialmente Brasil afora.

Esse é um lado. Agora para os movimentos sociais é sempre difícil lidar com a falta de organização popular, com a falta de recursos, com o risco constante de lidar com as forças do Estado e da segurança pública que servem à burguesia.

Essa precarização da militância política (fora todo discurso franciscano, “anti-burocracia” e derrotista) tem um papel de adestrar e dificultar o crescimento desses movimentos sociais. É muito importante que o Estado brasileiro faça a reforma agrária, cuide dos quilombos e mantenha os povos originários a garantia de suas terras.

Mas o que não falta é isso sendo quebrado. Quantas vezes você já não ouviu falar de território quilombola, indígena e da reforma agrária sendo atacado por coronel, multinacional e fdp miliciano ? Adianta ceder num ponto e não dar poder político para esses movimentos ?

E aí, por que eu te introduzi nessa sociologia ? Para te mostrar que você não sabe nem a metade do que está acontecendo. Eu que estudo esses assuntos, tenho dificuldade e muitas dúvidas sobre esses conflitos, imagina quem muitas vezes sequer estuda ou se dedica para isso ?

É isso que facilita colocar as pessoas numa situação de servirem de soldados do status quo. Você não tem ideia do que acontece, das conversas, das negociações, das dinâmicas de poder, essa confusão é proposital.

Na confusão é difícil saber quem você pode confiar. Na maior parte do tempo, as pessoas evitam a política justamente por conta dessas ambiguidades.

Isso cria uma outra coisa : elitização da informação. Uma coisa extremamente difícil de fazer numa educação claramente com propósito de criar um exército de desempregados bem qualificados, é criar autonomia intelectual.

Por que é tão importante você ter autonomia intelectual ? Porque você pensa, porque você é uma pessoa, porque isso te dá capacidade de decidir o que pensar, possibilita que você escolha o seu caminho.

O que não raro acontece, é gente que só segue porque fulano é famoso, porque fulano é bonitinho, etc. O problema nem é tanto isso, eu mesmo não acho um problema tão grande isso, a questão é que você tem menos cabeças pensando.

Essa é a questão problemática, porque isso cria dinâmicas de “fulano disse, então tá certo, porque é fulano”. Pode reparar que não existe um debate público no sentido do que a palavra debate quer dizer, existem pessoas famosas falando com pessoas famosas e as fanbases brigando.

Isso é anti-científico, isso dificulta a gente construir melhor os nossos movimentos.

Por fim, o que facilita te manipular é essa atomização social. Sem segurança social, você é alvo fácil para a precarização, você se torna uma pessoa que se fecha em si e não consegue confiar em ninguém.

É inegável que na classe trabalhadora os conflitos de gênero, raça, país, etc, são usados para fomentar guerras internas dentro da classe trabalhadora.

Não é à toa que a esquerda nunca chega num consenso no que fazer com as minorias. Aceitamos ou fingimos que elas nunca existiram ? A grande questão que eu quero fazer aqui é que essa postura de querer negar esses conflitos, essas contradições na classe trabalhadora (que inclusive penetra no próprio partido) é parte da luta de classes.

É claramente o mesmo que aconteceu nos Balcãs, se fomenta essas brigas, justamente para fatiar o país e promover limpeza genocida. É o que acontece com nossa juventude negra, com as pessoas trans desse país.

Então, isso são coisas que precisamos dar atenção. Nós não vamos vencer deles da mesma forma que 100 anos atrás, a guerra mudou completamente.

Não só ela tomou um outro patamar tecnológico, como ela ganhou espaço na mente, na cultura, no corpo, na tecnologia e em como usamos essa tecnologia. Nós precisamos pensar em uma política que seja capaz de lidar com essas mudanças.

É disputando teorias, é, assim como é inventando novas práticas. E aqui a necromancia é válida, vale a pena esquecer e tentar olhar o marxismo com um frescor de novidade. Deixar de lado debates bizantinos e começar a fazer debates nossos.

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29 janeiro 2024

Matrix como uma condição existencial

O filme Matrix 4 vai sair no cinema com Keanu Reeves e a diretora Lana Wachowski vai ser novamente a diretora. A franquia em si não é tão aclamada quanto o primeiro filme, que é um clássico do cinema.
 
(Eu escrevi parte do texto antes do filme sair. O filme 4 existe basicamente para deixar BEM CLARO QUE É UMA ANALOGIA TRANS DE ESQUERDA RADICAL).
 
Existem algumas interpretações sobre o filme que seguem as seguintes linhas : a) desconsideram os outros filmes da franquia; b) se interessam mais para a parábola da pílula vermelha/azul; c) interpretam o filme como uma metáfora para a transexualidade.

Há alguns problemas com essas interpretações. (a) desconsidera que dos filmes clássicos da época (Blade Runner, Mad Max, Clube da Luta, etc), Matrix é um dos poucos em ter uma franquia. Mad Max tem seus diversos filmes, mas é um filme diferente. Não é como se o Mad Max 2 acrescentasse ao primeiro e assim por diante. Matrix por outro lado, busca criar uma narrativa e as sequências são importantes mesmo para o primeiro filme.

(b) De certa maneira diz que o filme se trata da parábola da pílula vermelha/azul. Não gosto dessa narrativa, ainda que você possa escolher entre ficar na Matrix ou sair dela e lutar contra ela, o próprio filme nos mostra que a dicotomia entre real vs falso é frágil e que há outras narrativas em jogo. As disposições de poder também são bem diferentes do que nós imaginamos. Se a gente considerar que o filme é menos profundo do que pensávamos, talvez ele de fato seja apenas essa parábola. Essa é uma consideração se estamos desconsiderando a profundidade do filme.

Por conta das irmãs Wachowski terem se revelado transexuais, essa se tornou uma interpretação "original" da franquia : metáfora para a transexualidade. (c) dentre as outras é a mais abrangente e que é capaz de responder mais perguntas. A própria parábola da pílula tem outro sentido, já que o tratamento hormonal usa pílulas. A pílula azul não seria necessariamente um remédio, mas a vida de homem. Ser homem é em grande parte ignorar a própria saúde para ser "macho de verdade". Há uma fase que nós trans passamos que é tentar negar que somos trans, nessa fase que viramos machistas, fascistas e etc - como uma tentativa de viver como homem, mas não só isso, se provar como tal.

Há algumas meninas que são de fato istas em várias coisas, mas muitas que foram, foi através dessa tentativa de se encaixar (e falhando, o que não impede algumas meninas virarem femcel).

Não gosto muito dessa interpretação porque ela não explica a ação do filme, a violência, inclusive a própria mudança do agente Smith (O próprio Reset da Matrix fica sem sentido e o porquê da distopia neoliberal dos anos 90 também).

Diferente dessas interpretações, prefiro olhar a história de Matrix como uma condição existencial da nossa época. Também vou considerar filmes como Brazil, Blade Runner, Mad Max, Pulp Fiction, Natural Born Killers, They Live ,Clube da Luta, Her e O procurado. Nesse texto vou tentar com uma série de pequenos textos achar alguma interpretação interessante e nova.



1 - Trabalhador neoliberal, empresário de si mesmo.

Anos 80 e 90 foram décadas que tiveram papel central na nossa mudança de perspectiva econômica, política e social. A perspectiva neoliberal ganhava o mundo, Hayek e Friedman eram os ideólogos à frente, com Thatcher e Reagan levando o projeto a sério na política.

A TV ganhava cada vez mais espaço, espalhando mais ainda essa ideologia. Em 91 o muro de Berlin caiu e o neoliberalismo se tornou de vez o único projeto de vida para todos. Havia apenas essa vida neoliberal de indivíduos competindo no mercado. É nesse universo que grande parte da história (do filme) se passa.

Viver passou a ser trabalhar para pagar dívidas, tentar uma promoção, ou abrir uma empresa de sucesso. Com as “flexibilizações” da carteira de trabalho e o aumento de empresários individuais, o trabalhador perdeu o horário para ter que trabalhar - trabalhamos o tempo todo para conseguir ter espaço na competição do capitalismo.

Nós nos afundamos com tanta força nessa forma de vida, que para nós vem como uma grande surpresa quando descobrimos que há outras formas de viver.

A cultura do produzir para o produzir é extremamente alienante. Lutar para completar uma meta acima da meta é algo que te afasta dos jornais, dos livros, dos estudos e te aproxima da mídia para alienar. Quando você chega em casa você não quer ouvir o Willian Bonner, você quer ver uma palestra do Karnal. Ou seja, é quase uma alienação dentro da alienação.

Esse drama que o nosso personagem do Clube da Luta sofre. Ele chega em casa e passa a noite toda assistindo propagandas de novos móveis. Esse consumo é o que preenche a existência dele. Tudo parece o comercial da TV e agora das mensagens íntimas que as companhias nos enviam. Em Her até a relação de namoro que ele tem é uma assinatura.

Tudo parece falso porque é falso. “Uma cópia de uma cópia de uma cópia”.

Já pensou se a gente tivesse IAs por aí ? Ah é…


2 - A pílula vermelha.

Marx viu o início do capitalismo que conhecemos. Ele viu ele surgir, estudou sua história. Nós temos avós e pais que já nasceram dentro do capitalismo, nós crescemos no capitalismo, então só há capitalismo.

É muito difícil para grande maioria das pessoas terem essa perspectiva. De que há história e há mundos diferentes, mesmo nos dias de hoje. A escola pública não consegue ensinar historiografia, mas fatos históricos isolados e a internet contribui bastante para essa deshistoricização  da história. A vida de Leandro Narloch ao escrever seu livro Guia politicamente incorreto não poderia ser mais fácil : “Já que ninguém sabe historiografia, eu, jornalista, posso jogar fato histórico fora de contexto contra outro fato histórico.”

Quando você acessa a internet sem saber de nada, você se depara com um mar de narrativas. Contadas sem contexto por pessoas sem rosto e que você nem sabe se são verdadeiras ou não.

Ficamos imersos diante de conhecimentos que não nos parecem verdade e de histórias sem historiografias. Logo, quando alguém nos apresenta uma verdade diferente da que vivemos a vida toda, ficamos eufóricos. A pílula vermelha aqui aparece como uma nova verdade mais verdadeira que as demais, uma perspectiva diferente da que a que todos seguem.

É interessante perceber que essa percepção já é o senso comum. Não há um coach, um youtuber, um político, um escritor, um artista, que não te diga que ele fala a verdade. Que ele te diz coisas que ninguém vai dizer.

Dos Incels a políticos conservadores, dos anarquistas ilegalistas até os social democratas, todos tem uma verdade oculta para revelar. O problema da pílula vermelha e da azul é que ambas possuem o mesmo valor, como é revelado em um dos filmes. A própria resistência era uma parte da Matrix (o que é o PT senão isso não é mesmo ? Uma simulação de resistência ao fascismo).

Não há menos verdade na pílula azul do que há na vermelha.

O problema é que uma verdade pode ter mais valor que a outra conforme alguma realidade que possamos viver ou conforme uma comunidade que possamos fazer parte. Nós sabemos que os negros não tem nenhuma diferença biológica dos homens brancos e que não há sentido em discriminar os negros por serem negros, por conta de uma ideia de superiodade branca que não existe.

Ainda assim, há pessoas que acreditam nisso. Talvez, o que precisamos notar no racismo é que não se trata meramente de uma ideologia ou de uma crença justificada em alguma suposta evidência ou de um preconceito simplesmente, mas que há muitas vantagens em ser racista para muita gente - é uma relação de poder, o racismo sempre tem um caráter político.

O que os supremacistas brancos resgatam é o fato dos brancos terem privilégios na sociedade por serem brancos. Diante de uma sociedade neoliberal que apenas vive em crises constantes, resgatar a comunidade branca e tentar lutar pelos privilégios brancos parece uma ideia muito atrativa. Se você também considerar que essa pauta gera muito dinheiro para os adeptos, é um outro motivo para um homem branco querer resgatar o passado racista. O identitarismo neofascista é uma resposta ao isolamento neoliberal.

Isso vale para muita coisa que a direita faz usando essa metáfora da pílula. É lucrativo, vantajoso e uma resposta ao isolamento neoliberal, ser racista, fascista, incel, anarcocapitalista e etc.

Uma coisa importante de lembrar é que Neo não só saiu da Matrix depois de tomar a pílula, mas também arrumou uma comunidade. Isso foi mais importante do que sair da Matrix em si (a grande diferença entre uma pílula e outra é basicamente isso).

O que esse caso dos supremacistas brancos nos revelam é que nós temos uma sociedade que favorece viver coletivamente, porém a sociedade como um todo vive em retalhos. Há os indivíduos e há os grupos - ou melhor dizendo, os pequenos empreendimentos. Querendo ou não, aderir a uma comunidade pela identidade é algo lucrativo.

Se todo mundo pudesse ser a Coca-cola para vender refrigerante, todos nós seríamos Coca - como os direitos de imagem não permitem, precisamos ser brancos, amarelos, negros, rosas e etc. A identidade serve como uma commodity.

A ideia de uma verdade oculta é algo que dá dinheiro, tanto que todo Coach vende uma verdade por 500 reais no mínimo.

A nossa dúvida agora cai diante de Morpheus : será que ele não é um vendedor da indústria farmacêutica ? Será que esse cara que desafia o sistema não está tentando me vender outra Matrix ?

Dentre tantas narrativas de verdade, quais devo usar ?

Eu acho que essa confusão, muito bem expressa no tipo de teoria pós-moderna e na própria discussão que o filme propõe, mostra a confusão e a dificuldade de sair do castelo do vampiro. A nossa conexão com a internet não nos libertou como queríamos, muito pelo contrário, nunca estivemos tão mensurados, vigiados e presos.

Inclusive abraço para os meninos do monitoramento.

3 -  A alienação da mídia

“A mídia manipula” - dizem por aí. Eu não sou adepta dessa tese. Nós precisamos entender que a mídia é uma empresa de mercado que vende informação. Não faz nenhum sentido vender informações falsas, a informação dela perde valor.

Fora que a informação cada vez mais é algo descentralizado - se um jornal mente, logo é desmentido por outro ou mesmo por evidências descobertas pelos próprios espectadores.

Mas, os jornais de certa maneira, não possuem tanta relevância para contar uma verdade. Os jornais são uma pequena peça e por isso hoje eles podem ser de certa maneira mais ousados com as suas observações (ou pelo menos deveriam ser).

O tipo de alienação que vou comentar é o da indústria do entretenimento. É nela que moram nossas grandes narrativas e é nela que nós nos entregamos sem nenhuma defesa.

O filme They Live, recomendado por Zizek, se trata de um trabalhador da cidade, sem carteira assinada, que mora em uma construção civil que adquire óculos que mostram a verdadeira realidade das mensagens publicitárias.

Quase como se os óculos o ensinassem a interpretar o mundo de uma maneira diferente. Em uma propaganda de bebidas, sem os óculos, diz algo como “refrescante” - com eles diz “trabalhe mais um pouco”. Ou seja, os produtos servem para nos alienar da realidade à nossa volta.

Em momento algum, nas diversas interpretações sobre esse filme nós nos perguntamos : Por que ele precisa do óculos para enxergar a ideologia ? O que aconteceu com a capacidade crítica das pessoas ? E por que o que o óculos mostra tem algum grau de verdade maior ?

Talvez aqui, uma pergunta melhor seria : e se os óculos forem mais um produto ? Se as nossas novas realidades são na verdade uma espécie de produto ?

Tanto em O procurado, como em Matrix, podemos perguntar se há interesses comerciais nas “alternativas”. É uma desconfiança diferente dos mestres da suspeita (Nietzsche, Marx e Freud) - é uma espécie de pergunta que só poderia ser feita durante o neoliberalismo.

A nossa desconfiança não é mais se Deus pode existir, mas se esse Deus pode nos cobrar uma assinatura por cada reza. Orar ainda é grátis ? Nós ainda podemos tomar Sol ou é necessária uma taxa para tal ?

As drogas existem essencialmente para isso. Do cigarro e da bebida, para o ópio e a cocaína há uma jornada tentando escapar da vida e tentando suportar as dificuldades que aparecem. Ninguém hoje se droga por mágica, existe um bom motivo e são as condições de vida do neoliberalismo. Inclusive, eu to sabendo que você anda tomando remédio de dor de cabeça, isso aí vicia também.

Já ouviu a frase “O Brasil me faz beber” ? Essa é a mais pura verdade. Não é nada fácil suportar a vida no Brasil, cada vez mais a nossa qualidade de vida piora e nós nos vemos numa situação impossível de lidar com isso.

O entretenimento é uma outra maneira de fugir. Mas aqui não estamos falando de arte propriamente, mas de entretenimento que se fecha em si. Muita gente daria o exemplo das novelas. Eu já discordaria, as novelas muitas vezes levantam questões importantes para a sociedade. Aqui quando falo de entretenimento falo de coisas como videogames, streamers, youtubers, etc - desde que engaje a pessoa numa espécie de realidade diferente.

É uma espécie de gaiola do prazer. Você não vai assistir o que não te satisfaz, você sempre vai ver o que te agrada. Em si, não há nada de errado nisso, mas a grande questão é que a sua libido, no sentido de energia mesmo, é direcionada para manter o status quo.

O algoritmo é otimizado para sempre te agradar com um propósito muito simples de te fazer um consumidor.

Não é que você é manipulado, é mais uma questão de que o propósito nunca foi te libertar de nada. A ideia é manter a máquina de produção quente.

4 - É realmente útil considerar a possibilidade de viver em uma simulação ?

Nós conseguimos provar que vivemos em uma simulação sem o comprometimento das evidências que encontramos ? Digo isso porque é muito fácil para quem defende essa ideia afirmar que a falta de evidências é uma evidência de que a simulação existe, pois nesse caso, se trata de uma simulação perfeita.

Qualquer pequena evidência, menor que seja, ganha uma proporção muito maior. Qualquer evento incompreendido pode ser considerado um bug na programação desta simulação. Um fenômeno desconhecido que em outros tempos chamamos de Deus, hoje nós dizemos que se trata de uma simulação.

Da mesma maneira que não conseguimos provar e não há nenhuma utilidade em saber se Deus ou deuses existem ou não (e não é por isso que somos religiosos), podemos dizer que saber se vivemos em uma simulação ou não, é algo pouco útil.

A religião pelo menos serve como uma maneira de conectar uma sociedade. A ideia de simulação cria na nossa sociedade pequenos grupos que acreditam serem os detentores da verdade.

A fé religiosa pelo menos tem uma organização social e o papel de profeta é muito mais restrito. Enquanto na teoria da simulação, todo mundo é um potencial profeta, já que ninguém quer ser o NPC.

Enquanto a religião tenta ser universal, esses pequenos grupos são isolados e não estão interessados em incluir outras pessoas. A questão aqui é você observar que se você vive em uma sociedade sem historiografia, sem compreensão de causas e efeitos, incapaz de compreender qualquer coisa vinda das narrativas marxistas (que são as que envolvem melhor o mundo atual), então sobra a conspiração.

É isso onde eu acredito que a narrativa do filme traz mais malefícios do que benefícios. O filme realmente, funciona muito melhor como uma metáfora trans, agora como tratado filosófico, pode criar problemas de conspiracionismo, paranóia.

É isso, espero que tenham gostado. 💔

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28 janeiro 2024

Fama e política : uma breve nota.

A mídia se estabeleceu como um poder político. A grande questão aqui não é o poder em si que ela supostamente possui, mas a capacidade que ela tem de mobilizar e de fazer as pessoas fazerem coisas.

A relação do espectador com a mídia é fetichista. É uma relação invertida, onde o objeto atrai o suposto sujeito, e o transforma em objeto.

Não é um tipo de coisa que a gente deve ignorar, inclusive nas relações políticas que a gente constrói. Existe um certo componente de fama que afeta mesmo a nossa militância política.

Isso é resultado justamente de uma sociedade que não consegue oferecer empregos, mesmo o “estável” funcionalismo público foi afetado e sem contar a literal aposta que é a gente construir um “empreendimento”.

Então, não deveria ser estranho dentro mesmo da militância política de esquerda, você ver pessoas tentando alcançar um certo protagonismo, ganhar destaque, aparecer mais e etc, porque isso pode significar lá na frente, um cargo político estável.

É um desvio liberal pensar dessa forma ? Eu não acredito que seja, isso acontece justamente porque a gente não consegue oferecer para os nossos militantes uma perspectiva dentro do nosso projeto político.

Não é à toa que tem gente que quer ser carreirista, deixar de ser tão radical, para conseguir ocupar bons cargos políticos. Em certa medida, não foi isso que aconteceu com o PT ? Em parte, é uma questão de "se eu ficar mais comportado, eu tomo vinho com o patrão".

O que me preocupa muitas vezes, nem é tanto a juventude, por incrível que pareça, nós até conseguimos fazer um bom trabalho com os jovens, mas a velhice, os adultos, esses são problemáticos.

Estar velho, em si, não é sinal de sabedoria ou de cansaço. Existem pessoas e pessoas, isso vale até para as pessoas mais velhas, a grande questão é a experiência, o saber fazer, o conhecimento, que militantes mais velhos podem nos trazer.

Esse saber fazer, também vem com certo prestígio político, e é muito evidente, que esse arquétipo do ex-comunista que vira um velho reacionário, é muito poderoso. Você tem que pensar o seguinte : essas pessoas são mães, são pais, são avós, eles têm uma influência tremenda nas pessoas à sua volta.

Eu trago isso justamente porque conforme você envelhece, você sente que a morte precisa ser mais próxima e você começa pensar de forma mais pragmática, você começa pensar em como vai envelhecer, como vai fazer as coisas e tal.

Aqui o status quo ganha da gente : ele oferece, nem que seja uma migalha, para quem se comporta. Num mundo extremamente sem segurança social (no sentido de não ter onde morar, em quem confiar, etc), muitas vezes a solução que as pessoas enxergam é se acomodar com algum projeto reacionário.

Veja, não é problema se acomodar, as pessoas estão tentando sobreviver, a questão é o que a gente pode melhorar a vida das pessoas ? E melhor, como a gente pode mostrar que as lutas que a gente trava tem aspectos bem pragmáticos ?

É fácil para mim, uma mulher trans entender a importância de defender o SUS e lutar para ter acesso à ele, isso melhora a minha vida e de outras pessoas (até de vocês cis). Agora eu fico pensando, o que um velho branco aposentado do sudeste entende sobre o caráter pragmático, de por exemplo, ele lutar para que seus netos e filhos também se aposentem num futuro próximo ?
 
O jovem hoje é a criatura mais sem perspectivas de arrajanr um emprego, comprar uma casa e aceitar o status quo, não é a toa que a gente tem uma juventude tão rebelde apesar do Brasil ser um antro reacionário. 

Eu acho que existe um aspecto de perspectiva também, que é muito importante. Veja, existe um certo conforto e um certo futuro, que apesar de todo mundo dizer que é ruim, que ser reaça, que fumar, que se drogar, que se prostituir e entrar no crime, por fim, que a fama (principalmente essa nova moda de influencer) dá que a nossa esquerda vem sendo incapaz de construir.

Isso vem mudando, eu acho que ver a esquerda crescer, nem que seja um pouco, é sinal de boa esperança…

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25 janeiro 2024

Marxismo, anti-comunismo de esquerda e de direita

 Escrito em 14 de jun. de 2023

 

O Brasil tem uma doença muito forte chamada reacionarismo. Ainda não chegamos a uma compreensão mínima do papel da crítica, muito menos da abordagem científica da análise marxista.

 

O que se tem de crítica contra o marxismo, não raro se resume à "transformaram o marxismo numa religião", como se isso fosse uma questão da esquerda e não parte de uma interpretação liberal. O movimento que é feito é de acusar que a esquerda é muito fanática, daí vem a ideia do "stalinismo", que há um culto à personalidade de Josef Stalin e isso criaria militantes cegos, incapazes de enxergar a "realidade", e interpretam o marxismo como uma religião.


Isso é uma inversão da realidade : na prática quem produz e quem precisa de fanatismo é a política liberal. Ela ainda baseia suas teorias, sua política, em mero idealismo. É ela que trabalha em construir narrativas em questões metafísicas, como liberdade, como empreendedorismo, democracia (no sentido abstrato da palavra) e são os teóricos liberais, que dão um valor extremo à disputa de meras discordâncias gramáticas.


O debate liberal é uma disputa entre homens livres empreendedores, todos concordam com a base material de reprodução do capitalismo, o que discordam geralmente se resume a questões muito pontuais. Eu realmente diria que uma conversa entre um petista e um anarco-capitalista iria ser amigável, com uma breve discordância se os seres humanos merecem se alimentar.


Se as nossas discussões aqui na esquerda, por vezes, de fato, repetem esses vícios do debate liberal, é muito mais uma questão de que, de uma maneira geral, a nossa sociedade está com uma consciência geral muito reacionária. Tem gente que acusa, por exemplo, o PCB de ser LGBTfóbico e machista, se o é de fato, se trata meramente de uma reprodução da sociedade em que vivemos.


Se os nossos partidos reproduzem a ideologia liberal, é sinal que, não que devemos abandonar os nossos partidos, mas que internamente, a luta continua e a gente precisa avançar para que isso não se repita. A luta classes continua dentro do partido também.


Se a organização lida com isso, aí já estamos fazendo uma outra discussão. Querer tratar os partidos de esquerda como mônadas, espaços isolados da sociedade, que não são influenciados pela sociedade em geral, é no mínimo, desonestidade intelectual. O militante é alguém, por incrível que pareça, uma pessoa que faz parte da nossa sociedade, ele vai reproduzir os valores dessa sociedade. Se ele tem consciência disso ou não, é outra discussão.

Se há uma postura fanática religiosa com retórica marxista na esquerda, isso é um problema que supera a esquerda, isso é muito mais uma expressão da própria política liberal, do que culpa de um "extremismo geral de esquerda". O contrário é muito mais verdade, expressa uma incompreensão, tanto de quem crítica essa postura, como de quem a reproduz, com o que de fato é o marxismo. Não é a radicalidade a causa da expressão do liberalismo no partido, é a falta dela.

Há duas questões que eu quero abordar nesse texto : a análise materialista-histórica dialética, o que ela é no seu grosso e o caráter da crítica, a sua direção, se é de esquerda, ou reacionária.


O que é o método materialista-histórico dialético ? E aqui eu prefiro tomar uma postura deflacionista, o que isso significa ? Que eu não vou tratar o marxismo como um dogma fechado em si mesmo, ou como uma grande teoria filosófica com sistemas e pressupostos fechados. Se outros marxistas tomam a teoria dessa forma, sinto informar que é um engano.


Porque de fato ele não é nada disso. Esse espantalho do marxismo como um idealismo utópico, nada mais é que uma incompreensão e nada mais que isso mesmo, mero espantalho.



Precisamos perguntar : qual é o grande contraponto da filosofia marxista ? O idealismo alemão. Em que consiste esse contraponto ? É uma questão que merecia um texto só sobre isso (Marx e Engels abordam em diversos textos), podemos resumir, até para manter a simplicidade, que é na própria compreensão sobre a realidade material.
 

Para Marx, a realidade existe, e é essa materialidade, da relação do homem com a natureza, que determina seus desdobramentos históricos. Peguemos o exemplo do suposto machismo e LGBTfobia do PCB (não temos provas então não podemos afirmar se é verdade) : o que leva a reprodução do machismo e da LGBTfobia em uma organização ? Seria a mentalidade dos militantes ? O espírito do preconceito toma conta de seus corpos ? Marxismo bebe muito do método científico, ele vai olhar para a materialidade.


Dentro do campo marxista, há posições que são incontestáveis, não porque é um dogma, mas porque é uma teoria comprovada cientificamente. Se nós não questionamos sobre a questão da mais-valia, não é porque ela é a palavra de Deus, mas sim, porque assim como a lei da gravidade, ela é uma teoria que foi testada e comprovada.


Isso significa que dentro desse campo, assim como em relação às leis da gravidade de Newton, há a possibilidade de novas descobertas. A física quântica, ao descrever o mundo atômico, por instância, descobre que as leis de Newton não se aplicam para aquele contexto. Da mesma maneira, dentro do marxismo, a lei da mais valia pode ser desenvolvida : será que as mesmas leis se aplicam da mesma forma em uma economia digitalizada ? Será que é preciso uma nova descrição para esse contexto ou ela já se sustenta da forma que é ? É preciso estudar para comprovar e desenvolver as nossas teses.

Entra a questão nacional, cada realidade nacional necessita de uma análise própria. A nossa tarefa é construir um marxismo, por instância, brasileiro, assim como existem outros marxismos, como o russo, o chinês, o cubano, etc. Precisamos também beber de suas análises, com o cuidado de compreender a peculiaridade de cada lugar.

Há uma abertura, por isso o estudo da teoria é muito importante, que a gente possa também, contribuir para o estudo da nossa realidade social. É importante, como marxistas, em especial, nós que somos socialistas científicos, compreendamos esse espírito do estudo científico dentro do nosso campo.

Lenin é bom não porque ele é um santo que teve uma revelação - é bom porque ele foi capaz de teoricamente, assim como o próprio Marx e Engels, criar uma teoria. Isto é, da mesma forma que Darwin, Newton, Galileu, etc - teoria como parte de um estudo sistemático, ou seja, ela foi testada e comprovada.

Voltando na questão do PCB. Nós aqui responderíamos analisando as condições materiais, que é, por exemplo, a instituição da família ocidental patriarcal na sociedade brasileira. Então machismo, por exemplo, tem muita ligação com a própria estrutura de poder interna, que reproduz a organização da família, por instância.

Mas apenas isso seria simplificar até demais. Os homens não são figuras estanques que não respondem ao seu ambiente, as pessoas percebem, nesse caso por serem militantes minimamente informados sobre essas questões, que algumas estruturas organizativas são a raiz do problema, ou parte dele. Então internamente, supondo que de fato a organização seja machista, há uma luta interna para que isso seja diferente.

A partir das hipóteses, podemos também definir nosso estudo, testando a veracidade dessas afirmações. É uma questão cultural interna ? É só a estrutura de poder do partido ? É falta de estudo sobre a questão ? Etc e tal. Nesse caso, até por se tratar de uma questão interna, como alguém de fora, eu sequer acho tão válido assim ficar cobrando. (Sinceramente, falando sobre isso, eu nem sei se esses boatos são verdade)

E aí a gente parte para discutir o seguinte : qual o propósito da crítica ? O que chamar o PCB de machista e LGBTfobico publicamente de fato contribui ? A crítica interna, no seio do partido, por mais que não tenha critérios científicos e todo cuidado com o método materialista-histórico dialético, tem como objetivo fazer com que o partido avance nas suas lutas. A crítica interna, não deixa de ser válida por simplesmente não ter os critérios teóricos em mente, apesar de que com a teoria, fica mais fácil localizar a raiz dos problemas e corrigi-los, eis a importância do estudo da teoria. E bem, sinceramente, nós que estamos aqui de fora, temos pouco a dizer sobre a organização interna de um partido - ainda mais um que ainda atua ainda hoje. (Não significa também, que não seja possível fazer um estudo histórico sobre, por exemplo o PCB e sua atuação, mas perceba que é um outro tipo de crítica)

Publicamente, a crítica não se dirige unicamente aos membros do partido, não se trata de uma sinalização interna, e ela nem sempre tem o propósito de avanço do próprio partido em sua luta.

Vou dar um exemplo prático : Srta. Bira acusa o PCB de ser LGBTfóbico por conta de um texto de 2021 falando sobre identitarismo liberal e ela mesmo, só fala sobre a esquerda identitária.

E a gente precisa fazer um exercício epistemológico : será que esse identitário alienado e narcisista existe lá no PCB ? Em nenhum momento é apresentado provas materiais ou uma tentativa de questionar se o militante cirandeiro de fato existe.

Por isso a abordagem científica é importante. Não adianta, seja internamente ou aqui de fora, ficar criticando os dragões que o PCB mantém nos seus diretórios se eu não sei se esses dragões existem de fato.

A gente pode trabalhar com a hipótese que, considerando o fato da sociedade brasileira ser LGBTfóbica, que isso naturalmente pode se repetir internamente no partido. Note, é uma hipótese e merece ser testada. Até lá são hipóteses.

Então a crítica dela não tem propósito científico, ela não tem critério teórico, é uma crítica que serve única e exclusivamente, para fazer uma sinalização política. Note que em si, desvelada a falta de compromisso científico, fica difícil dizer qual é o objetivo dessa crítica.


Ela queria criticar a LGBTfobia nos partidos de esquerda, mas note que ela só se preocupou em expor o PCB - hoje, um partido pequeno, que está numa fase de reconstrução depois de sua destruição nos anos 90 e que passou boa parte de sua história ilegal. Qual foi o critério para escolher o PCB ? Infelizmente, se a gente for falar em questão de relevância, hoje nenhum partido revolucionário vai aparecer - sim o PT, o PSOL, PSB e cia, que são partidos que se dizem de esquerda e na prática, são uns liberal contra-revolucionário. Mesmo sobre partidos radicais, qual o critério para falar de PCB e não de outros ? Nenhum, foi uma escolha arbitrária.

E aqui eu mostro o caráter reacionário de uma crítica. Se trabalha com categorias ideais nem sempre claras e objetivas, se espera que, por exemplo, o partido as cumpra e se não cumprir, nós temos que descartar, nesse caso, toda perspectiva revolucionária, "porque não dá certo".

O interesse não é que o PCB avance nas suas lutas, é destruir o PCB. Ainda que ela tivesse boas intenções com toda sua pompa pós-moderna e seus doutorados sei lá onde, seus monólogos narcísicos sobre sua vida como prostituta preta e pobre. Que ela quisesse apontar para um problema, com toda boa intenção, mesmo sendo alguém aqui de fora, a forma, o conteúdo em si, só serve para atacar publicamente.

Note que se a crítica tivesse sido bem fundamentada, por ser uma figura pública de relativa relevância, o PCB seria obrigado a responder e a fazer um debate sobre a questão. Pode ser que ele faça, única e exclusivamente, porque ela tem números e isso seria uma oportunidade do partido responder essa crítica - pode ser. Por conta da natureza dispersa da internet, pode ser que ninguém veja a versão do PCB e é isso mesmo, o debate público hoje não se parece muito com uma conversa, ela é muito mais um monte de gente gritando para ter atenção.

Como o alvo dessa crítica não é necessariamente o PCB, é uma sinalização pública, onde eu, você ai, seu avô, etc, etc  que muitas vezes nem tem nada a ver com o PCB ou com a esquerda em si, vão esbarrar nessa capa de jornal que é o Twitter e vão dizer "olha lá, os stalinismo LGBTfóbico". Dou o exemplo de Bolsonaro chamando Flávio Dino de “gordo comunista” - isso serve a quem ? Lembrar aquele estereótipo reacionário do burocrata “stalinismo”, gordo enquanto o resto morre de fome.

Isso era para ser uma crítica bem-fundamentada com as experiências socialistas ? Mas olhe, ele mostrou alguma evidência disso ? Não e nem quer, ele quer só atacar a esquerda. Só isso em si não caracteriza a crítica reacionária. Ela fala muito de identitarismo e a crítica vai muito no sentido de “vocês ligam para isso, mas não ligam para aquilo”. Tem aqui um elemento elitista, uma perspectiva academicista que desconsidera a capacidade dos próprios militantes de perceberem esses problemas. (Bolsonaro em toda sua “simplicidade”, não deixa de ser elitista, para ele todo mundo é burro e ele seria o espertalhão, note que em Olavo de Carvalho há esse mesmo movimento)

Se tem esse problema internamente, como eu já pensei nessa hipótese no texto, vamos ver reações a isso. E a crítica dela também vai num sentido de descaracterizar a militância, jogando essas questões de identidade meramente como “identitárias”. Faz sentido a gente criticar os chineses por serem chineses demais ? Não né, é óbvio que as pessoas vão se organizar conforme com quem se identificam, mesmo pessoas de minoria que são conservadoras como ela. Não deveria nem ser um debate, é um fato comprovado e fácil de se verificar, condenar as pessoas por se organizarem politicamente por conta disso, é só burrice. É como querer condenar as pessoas por terem sentimentos. (Ignorar a diversidade da classe trabalhadora é uma tarefa que a ideologia liberal faz dia e noite com seu debate frágil sobre igualdade).

A diferença de um movimento para outro, se ele é de esquerda ou não, o que vai caracterizar é a sua posição na luta de classes. O movimento feminista liberal (que sim, merece uma crítica pública mais forte) não se preocupa com todas as mulheres, muito menos as pretas, pobres, muito menos ainda as trans. Ele é conservador porque não desafia a organização do capital, é conservador porque ainda luta por um espaço dentro desta sociedade liberal. É basicamente um esforço das mulheres liberais de conseguirem entrar no clube de cavalheiros burgueses.

Isso merece atenção, não o PCB tentando recolher seus pedaços depois de ter sido destruído nos anos 90, perseguido durante toda a ditadura militar e também na era Vargas. Não é ali o foco do poder dos poderosos, é lá em cima e Bira parece acreditar fazer parte dessa elite, para lá do alto, pisar em um bando de comunista tentando reconstruir um movimento massacrado no Brasil.

Nesse ponto sua crítica é reacionária. E muito do nosso debate hoje é só isso : reacionário. Se critica a esquerda por supostamente não abrigar o movimento negro - isso é feito de dois movimentos : apagamento da nossa militância negra junto aos comunistas e novamente, negar as contradições internas dos partidos comunistas.

Se há certa dificuldade do partido em aderir teses anti racistas e de compreender a noção de raça, dependendo do lugar, também uma reprodução do racismo, há também linhas que internamente disputam para que isso seja o contrário. Note que nós não estamos negando que o racismo se reproduz no seio do partido, como explicamos lá atrás, simplificando até, porque esse partido faz parte de uma sociedade racista.

Não significa que isso seja aceitável, mas que é necessário, também dentro do partido, disputar espaço e hegemonia, por exemplo, que sejam adotadas as teorias anti racistas.

A nossa posição não é de se aceitar um determinado dado da realidade. É o de compreender esse determinado dado e a nossa capacidade de alteração dessa realidade. Bira olha para essa contradição interna e se imobiliza, acredita que a realidade não consegue ser transformada.

Isso é, par excellence, o cúmulo do reacionarismo, observar o mundo, como se ele fosse imóvel, sagrado e imutável. Basta um estudo mínimo historiográfico para compreender, não só a capacidade humana de transformação do mundo, como também como o próprio mundo, numa compreensão mínima, também muda.

Voltamos para o início. Nosso problema essencial é a incompreensão científica que possui o marxismo e a função que a crítica tem em cada situação. O nosso trabalho é o de continuar o trabalho científico de Marx e Engels, que se comprovam sólidos e são importantíssimos para compreensão da nossa realidade. Conhecimento é tecnologia, essas ferramentas mudam a nossa percepção da realidade.

A crítica precisa sempre beber dessa fonte, só assim ela vai ser efetivamente certeira e nós conseguimos testar diferentes hipóteses, de forma científica, trabalhar com o que comprovadamente funciona.

Internamente ela funciona para melhorar o nosso trabalho e progredir ao socialismo. É preciso ter em mente que o espaço de debate público é liberal. Não há interesse dele em promover o socialismo.

A nossa posição pública deve ser a de denunciar o reacionarismo e seus limites, dentro das possibilidades de promover nosso projeto político. Não raro essas críticas públicas com retórica de esquerda, com esse viés acadêmico meio afrancesado, servem como eco para o discurso reacionário.

Liberal pouco se importa com inconsistência, hipocrisia, em ter discurso contraditório. Pode ser que todo dia o liberal bata na mulher dele e depois reclame do "masculinismo" da esquerda. Todo dia um partido de direita fazendo projeto genocida contra povos originários e a nossa população negra, mas é fácil denunciar que a esquerda tem dificuldade com pauta racial.

A função disso é desqualificar a nossa luta. E não tem nada errado com isso !! É para isso que o braço da mídia, com o estabelecimento do debate público, precisa fazer. Todo dia um professor universitário, um policial e um jornalista, acordam suando com medo do comunismo.

O comunismo debaixo da cama deles, no armário, na casa do vizinho, por toda parte. Bira só é mais uma parte disso. É um medo quase que cósmico, pode ser que ninguém acredite mais em Deus, todavia, não há uma crença mais firme que a revolução um dia vai acontecer e vai eliminar, junto da burguesia vampiresca, todos esses parasitas que apesar de menos ricos, se beneficiam desse sistema.

 

 


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